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terça-feira, 1 de agosto de 2006

A nova frota branca

Estava de férias na Ilha do Corvo (Açores) quando me deparei com os factos que relato a seguir. Estranhamente, os dois polícias marítimos saíram simultaneamente da Ilha, após um prolongado período de serviço. Não se entende muito bem porque é que ambos foram desmobilizados ao mesmo tempo, mas não é sobre isso que quero escrever. No dia seguinte, alguém me disse: “a polícia marítima saiu, agora a frota branca até se aproxima durante o dia!” Não entendi a frase à primeira, mas, depois de olhar para o horizonte compreendi. Uma embarcação de recreio branca seguia das Flores para o Norte do Corvo por Oeste e outra por Este. Aproveitam normalmente o anoitecer para fazer a aproximação e assim garantir que poderão apanhar todo o pescado que quiserem sem serem incomodados. Por um lado, as autoridades não sabem que eles lá estão e, por outro, também não podem patrulhar aquelas águas porque não há equipamentos para tal… A corveta é grande demais e os inadequados semi-rígidos da Marinha de Guerra Portuguesa não têm equipamento para navegar na noite escura do Grupo Ocidental dos Açores. Qual é o resultado? Nas diversas imersões que realizei nestas duas ilhas contei zero cavacos e zero pelágicos e meros de grandes dimensões (excepção feita para a reserva voluntária da Ilha do Corvo). Mergulho nesta ilha desde os anos 80 e nunca vi um cenário tão triste. E é pena porque, na Ilha do Corvo, as comunidades normalmente tidas por “complicadas”, como os pescadores e caçadores submarinos, são cooperantes, interessadas e voluntariosas, mas, ao verem estes tristes espectáculos, apenas dizem “proteger para nós começa a ser igual a perder. Nós não pescamos e a única consequência é virem pescar por nós”. Gostava de os contrariar, mas a verdade é que eu vi. Ou melhor, não vi um único cavaco no mar. Perguntei na Lotaçor do Corvo e a resposta foi clara: “não há registos de cavacos vendidos nos últimos anos”. Sabem onde é que eles estão? Nos restaurantes das outras Ilhas. A nova frota branca, à qual se juntam também alguns profissionais, vende directamente aos restaurantes colocando-se numa posição de competição ilegal com os profissionais cumpridores, delapidando os recursos que são de todos e, ainda por cima, não pagando os impostos devidos. Magnífico negócio…

Fico sinceramente irritado quando me deparo com a irresponsabilidade ecológica à qual, neste caso, acresce ainda a irresponsabilidade económica. Toda a gente sabe que há escolas neste nosso país que, nas “barbas” da burocracia do IPTM, vendem os cursos de marinharia desportiva por preços módicos e com sucesso garantido. Toda a gente sabe que há uma proliferação de embarcações de recreio sem outro propósito que não seja a captura de pescado para venda. Toda a gente sabe que os restaurantes são abastecidos por pescado ilegal. Restam as perguntas: Onde anda a Inspecção Económica? A Inspecção das Pescas? A Polícia Marítima? São urgentes acções consequentes! Há trabalho feito (ver: http://www.igp.pt/), mas é preciso mais.

À irresponsabilidade da pesca ilegal acresce, por vezes, a falta de segurança desta frota mal controlada. Ao risco da sua própria segurança acresce a daqueles quem têm de os ir salvar.

Ao contrário da antiga Frota Branca, composta por belas, alvas e imponentes embarcações, cheias de gente corajosa que pescava o bacalhau na Terra Nova, esta nova frota branca não merece os nossos mares. Algo de muito estranho se passa na Marinha de Recreio em Portugal!

Felizmente, nem tudo é mau. Também há boas notícias. Ao contrário do que se chegou a suspeitar, a remoção do navio "CP Valour" foi levada a sério e já se encontra em fase adiantada de desmantelamento. Este navio de 177 metros, encalhou misteriosamente (continua a não existir um relatório público) a norte da Ilha do Faial em Dezembro de 2005. O impacto ambiental, apesar de existente, foi reduzido e, aparentemente, os prognósticos mais optimistas irão ser cumpridos, sendo o navio removido até ao final do Verão de 2006.

quarta-feira, 26 de julho de 2006

Estrelas-do-Mar

Ainda antes da partida para o Gorringe (Ver Missão ao Gorringe nesta revista), ao analisar as listagens, estranhei a ausência de algumas das espécies dadas para a área. Por exemplo, não fazia muito sentido não estarem registados cetáceos, tubarões, tunicados, briozários e… estrelas-do-mar. Seria mesmo verdade? Estariam estes animais realmente ausentes deste monte submarino? Algumas das espécies foram agora registadas, mas para outras o mistério permanece.

Um dos grupos ausentes do Gorringe era o das estrelas-do-mar. Talvez porque seja um dos alvos dos fotógrafos subaquáticos, estes animais são autênticas estrelas do cosmos do mundo submerso. Assim sendo, pensei eu, provavelmente não há razão para que as expedições anteriores não tenham detectado a presença destes animais. Agora, qual será a razão ecológica que explica este facto? Será que as larvas, resultantes da reprodução, podem não ter chegado tão longe como ao Gorringe?

A priori o problema com as estrelas-do-mar é um pouco ao contrário. Aproveitando o transporte facilitado através das águas-de-lastro e dos cascos dos navios, a Asterias amurensis, espécie originária da Ásia, é agora uma praga fora de controlo na Austrália. Estes animais são capazes de se reproduzir sexuada e assexuadamente, produzir milhões de ovos por ano e são predadores vorazes. As larvas podem sobreviver mais de cem dias na coluna de água, o que é tempo suficiente para passarem de Portugal Continental ou Madeira para o Gorringe, de acordo com as correntes prevalecentes. Portanto, o mistério adensava-se. Onde andam as estrelas do Gorringe?

Na tentativa de resolver este mistério, resolvi fazer uma revisão do grupo e das principais espécies dadas para a Macaronésia. As estrelas-do-mar são animais pertencentes ao filo dos equinodermes. Este filo agrupa, para além das estrelas, os ouriços-do-mar, as holotúrias e as comátulas (crinóides para os mais esotéricos). Segundo o excelente manual do Professor Luiz Saldanha, os equinodermes não têm o corpo segmentado e são geralmente pentarradiados, em torno de um eixo definido pelos centros das faces oral e aboral. Isto é nitidamente visível nas cinco divisões dos ouriços-do-mar ou nos cinco braços das estrelas, embora haja algumas excepções. Esta divisão pentarradiada não é visível nalguns equinodermes, como as holotúrias. As cabeças dos equinodermes não são diferenciadas e a parede do corpo apresenta um placas calcárias que formam geralmente um esqueleto rígido ou flexível.

As espécies mais frequentes de estrelas-do-mar são Ophidiaster ophidianus, Hacelia attenuata, Marthasterias glacialis, Coscinasterias tenuispina e Chaetaster longipes . A primeira é a mais comum nos Açores e possui um púrpura avermelhado e penetrante, que fica espectacular nas fotografias. A sua distribuição estende-se desde os Açores a Santa Helena, no Atlântico Sul. Esta é uma daquelas espécies que pode ter mais de cinco braços. Com um olhar menos atento é possível confundir esta espécie com a Hacelia attenuata , embora o ponteado que o seu corpo apresenta seja característico. AMarthasterias glacialis é também muito comum e tem um aspecto esbranquiçado com espinhos ligeiramente sobre-elevados, embora com alguma capacidade de mimetismo. A Coscinasterias tenuispina é ligeiramente parecida com a Marthasterias glacialis , mas com mais braços (pode ter até nove). A Chaetaster longipes não é tão frequente, mas ocorre dos 40 até aos 1100 metros de profundidade. Para um leigo, esta estrela tem um aspecto de um juvenil porque os braços são finos e extensos e parece desprovida de coloração ou espinhos evidentes.

Era esta informação que levei para o Gorringe. Estava preparado para procurar estrelas-do-mar. E o mito começou a desmoronar-se ao terceiro mergulho! Numa frincha muito aguda encontrei umaMarthasterias glacialis . Utilizei a minha faca de mergulho para a tentar retirar. Comecei a tentar removê-la, mas senti que poderia ferir o animal e não o conseguir apanhar. Desisti quando o meu computador de mergulho assinalou o início do período de descompressão. Tinha que voltar à superfície sem “a prova”. Comecei a resmungar mal entrei no barco. “Eu juro que vi uma Marthasterias ”, mas estava ciente que sem uma segunda testemunha ou uma amostra recolhida iria ser apenas alvo de riso… Como os biólogos-marinhos costumam dizer: “sem fotos, sem amostras, sem testemunhas, não existe!”. Na mitologia dos cientistas do mar, há enormes e fantásticas histórias que continuam simplesmente a não existir. Uma delas inclui uma jamanta a saltar em cima das rochas, fora de água… Apesar das juras dos dois observadores, continuam apenas merecer um sorriso simpático. Deixemos as jamantas e voltemos às verdadeiras estrelas-do-mar. Estava então eu aborrecidíssimo por não ter apanhado a estrela, lamentando a minha vida... Eis senão quando, um dos meus colegas de mergulho nos confirma “sim, eu também vi, e fotografei!” Uff, estava a salvo da chacota colectiva.

Nos dias seguintes encontrámos mais uma espécie, a Chaetaster longipes. Estava confirmado, havia estrelas-do-mar no Gorringe e assim caiu mais um mito. Como acontece com frequência em ciência, logo nasceram mais duas perguntas óbvias: Porque é que as estrelas-do-mar não tinham sido detectadas antes? Porque continuam a não ser detectadas algumas das espécies mais comuns?

Para a Ophidiaster ophidianus se calhar a resposta até pode ser simples. Sendo uma espécie rara após os vinte metros do profundidade, eventualmente, não terá sido capaz de colonizar este monte submarino, cujas profundidades mínimas rondam os trinta metros. Por outro lado, o nosso esforço de mergulho pode não ter sido suficiente para detectar outras espécies. Apenas no terceiro mergulho conseguimos verificar a sua presença, portanto, quantos e quais outros mistérios estão escondidos a seguir ao décimo mergulho ou ao trigésimo?! Só há uma solução: continuar a estudar até compreendermos a dinâmica ecológica deste sítio fantástico!

Para saber mais:

Nos livros:

Saldanha, L. (1997) Fauna submarina atlântica. Publicações Europa-América, 364p.

Wirtz, P. & H. Debelius (2003) Mediterranean and Atlantic invertebrate guide. ConchBooks, 305p.

Agradecimentos:

Ao David Abecasis do CFRG/UAlg é o Coastal Fisheries Research Group (Grupo de Investigação Pesqueira) da Universidade do Algarve pela utilização da foto de Marthasterias glacialis obtida no Gorringe, aos João Gonçalves, Marco Aurélio Santos e Peter Wirtz pela utilização das restantes fotografias e ao Rui Prieto da SubZero pela revisão do texto. À LusoExpedição 2006 por me terem convidado para participar nesta fabulosa missão científica e pedagógica.

Artigo completo, incluindo fotografias em:

http://www.horta.uac.pt/Projectos/MSubmerso/200607/equinodermes.htm



Nuclear, não obrigado!

Parte 1 - Esta semana terminou a Luso-Expedição 2006. Esta missão científica e pedagógica levou cientistas e estudantes, a bordo do Navio de Treino de Mar “Creoula” do Ministério da Defesa Nacional, até ao monte submarino Gorringe. Felizmente, tive a oportunidade de participar nesta inesquecível viagem. Num momento em que tanto e bem se fala da extensão da plataforma continental de Portugal é essencial conhecermos bem os nossos mares e os seus fundos. Apenas com a análise das macro-espécies observadas ou recolhidas, esta iniciativa da Universidade Lusófona aumentou em 40% o número de registos para este monte submarino. Espectacular!

Parte 2 - Depois da publicação do meu artigo sobre a caça-submarina recebi algumas mensagens congratulando-me pela opinião expressa e partilhando-a outras nem tanto… Aqueles que contestam a minha opinião alicerçam-se em dois vectores essenciais: 1) o baixo impacto ambiental da caça quando comparada com outras actividades humanas e 2) a falta de dados científicos sobre o impacto deste desporto. Houve outros argumentos esgrimidos, mas não são suficientemente robustos para merecerem referência.

Em relação aos dois pontos de vista expostos tenho que admitir que são basicamente verdadeiros. De facto, há actividades com consequências ambientais muito piores que a caça-submarina e não há muitos trabalhos que determinem o impacto ambiental da caça-submarina. Vou começar pelo segundo argumento. Não há muitos trabalhos científicos sobre caça-submarina e o seu impacto ambiental, mas há alguns. Destaco em especial o trabalho de licenciatura do meu colega Hugo Diogo e que foi parcialmente exposto nesta revista (verMundo Submerso número 87). Na sua tese, o Hugo através de uma abordagem desapaixonada, analisou durante diversas semanas todas as caçadas e mesmo grande parte dos tiros efectuados numa determinada área da Ilha de São Miguel. É um trabalho exemplar que deveria ser repetido noutras áreas de Portugal. Em termos gerais, o Hugo chega à conclusão que a caça tem impacto ambiental, mas que este é baixo. Outros dados apontam para o baixo impacto da caça, mas para a importância do somatório das diferentes actividades recreativas extractivas (nas quais está incluída a caça).

Agora o segundo argumento. Como demonstrado no trabalho do Hugo, de facto, a caça-submarina, especialmente se existirem limites e forem respeitados, como o são nos Açores, tem muito menos impacto que outras actividades. No entanto, isso não significa “impacto zero”. Esse impacto poderá ser colmatado com algumas iniciativas simples, mas de largo alcance: criação e respeito de áreas marinhas protegidas, avaliação dos candidatos a caçadores (talvez na sequência de cursos de apneia) e fiscalização efectiva.

Como referi acima, troquei algumas mensagens com diversos interessados na caça-submarina desportiva. Numa dessas mensagens escrevi, e foi-me sugerido que o publicasse, o seguinte: “A caça é um passeio pelo mistério, pelo desconhecido, há um certo frisson pelo perigo, é uma tentativa de atingir as melhores marcas e é também uma forma de convívio. Para alguns dos caçadores é ainda, e mais que tudo o resto, um complemento ao mar que amam. Caso os caçadores dêem passos no sentido da utilização sustentada dos Oceanos, os restantes utilizadores terão de lhe seguir os passos. E aqui é que está a pedra de toque! Enquanto os desportistas desprezarem, pelo menos na atitude pública, o meio de que tanto gostam, como se poderá esperar que os outros o façam?”

Consensualmente, as maiores ameaças ao mundo marinho são: a poluição, a sobre-pesca e a alteração da orla costeira. Porque há algumas iniciativas para que Portugal avance nesse sentido, destaco a inutilidade da energia nuclear. Portugal é um país pobre que, pelo que infelizmente conhecemos, não tem capacidade para fiscalizar as suas actividades industriais. Agora imaginem uma central nuclear desregrada…? Lembram-se de Chernobyl? Por outro lado, o lixo nuclear, que resta após a produção, tem uma degradação muito lenta (centenas de milhares de anos) e é altamente poluente. Por causa disso, alguns países resolveram “livrar-se” destes restos colocando-os em bidões e afundando-os nos fundos oceânicos. A degradação rápida desses recipientes (uma centena de anos) irá libertar o poluente que lá está dentro. Espero que alguém esteja a pensar seriamente nisto… Depois de se ter decidido que não haveria mais lançamentos de poluentes no mar alto, o lixo nuclear passou a ser “tratado” de diversas formas incluindo o transporte em embarcações eternas, que passeiam pelos mares sem porto de chegada. Há iniciativas tipo “varrer o lixo para baixo do tapete” que estarão operacionais em 2010, segundo consta. Algo me diz que esta é uma não-solução e que a deveríamos evitar enfaticamente. É curioso que os dois países que neste momento “debatem” a entrada no clube da energia nuclear são Portugal e… o Irão. Fará sentido?

Apesar de este ser um problema muito sério, não significa que nos esqueçamos do resto. Na minha opinião, temos de encarar o meio ambiente como um todo, em que todos temos a responsabilidade de minimizar o nosso impacto pessoal e trabalhar colectivamente para a recuperação dos ambientes degradados que, infelizmente, nos deixaram.

Para saber mais:

http://en.wikipedia.org/wiki/Nuclear_waste

http://www.sortirdunucleaire.org/


Publicado na coluna "Casa-Alugada"

quinta-feira, 1 de junho de 2006

Cartas e respostas a um artigo sobre Caça Submarina escrito por mim

CARTA 1

Em resposta ao artigo "A Caça Submarina" de Frederico Cardigos

Embora humanamente permitido, não é suposto entramos no campo das emoções, especialmente quando estamos a falar de medidas que, ao entrar em vigor, afastam outro animal também muito conhecido, o Homem e no caso específico da Pesca Submarina, de homens que ludicamente comungam com a Natureza e os seus elementos.

Como homem de ciência que é, apoia com certeza as decisões baseadas em algo palpável. Neste caso específico falo de contagens de pescado, de levantamentos nos próprios locais de pesca, de estudos suportados no tempo e no espaço.

Aqui há dias, num canal de cabo, fiquei surpreendido ao ver um programa acerca de como um país, do qual não me recordo o nome, geria o seu peixe. Os Biólogos tinham eles próprios navios de pesca nos quais faziam capturas nas diversas zonas e com as quais conseguiam ter um seguimento real do que era ou não desejável apanhar e em que quantidades. Depois esta acção ficava mais completa com uma estreita colaboração a bordo das embarcações de pesca comercial.

Volto então a pensar nos sentimentos que partilhou com os leitores e dou comigo a pensar que de facto um azar nunca vem só e que cá em Portugal até os Biólogos Marinhos têm sentimentos.

Claro que assim, ao olhar Portugal pela lupa poética e sentimental, talvez possa perceber porque razão os Meros estão em extinção para os Pescadores Submarinos insulares mas sejam pescados às toneladas na pesca comercial, que as Berlengas tenham de ser protegidas dada sua riqueza cinegética, da Pesca Sub, mas que as restantes Pescas lá possam tirar quantidades sem limite, que Sesimbra seja a mãe de todos os peixes mas que todos, excepto os do costume, lá possam pescar sem limites e que num futuro próximo Portugal possa ser o mais exemplar país na protecção dos mares sem que nada de mensurável lhe sirva de base.

Sr. Frederico, se já não era correcto responsabilizar a Pesca Submarina pelos males do mar sem qualquer base científica não é também, com certeza, nem sequer moralmente correcto, responsabilizar o Pescador Submarino por tudo aquilo que se faz abaixo da linha de água. Para isso existem leis e autoridades para as fazer cumprir e aplicar, individualmente as penas previstas em caso de incumprimento.

Se é aos Pescadores Submarinos que cabe mudar tudo? Também é uma questão muito discutível porque nos países a sério são os senhores cientistas que pautam a mudança e afinal de contas, onde estão os estudos que comprovam qual o peso da Pesca Submarina em Portugal Continental?

Talvez já fosse tempo informar, quem financia com milhões estas reservas naturais, de que as decisões são baseadas em puros laivos de poesia e sentimento e que dificilmente se reflectiram num mar sustentável.

Maldito fado!

Com os meus melhores cumprimentos,

Nuno Rosado

CARTA 2

CAÇA SUBMARINA...

pensando nela… continuando o tema do Dr. Frederico Cardigos, no Mundo Submerso nº 107 Maio de 2006…

Na minha actividade de caçador e naturalista, significativa parte de 50 anos vividos, conheci e estabeleci amizade ou colaboração com cientistas e investigadores, de que são exemplo, Francisco Rainer, João Pedro Barreiros , Carlos Fonseca, Pedro Vaz Pinto, cujos títulos académicos e obras omito, dada a nossa proximidade e termos partilhado paixão e saber, o que acima de tudo considero um privilégio e uma distinção.

Do mesmo modo entendo como privilégio a atenção dos leitores, desta e outras revistas, a quem tentei de algum modo transmitir algo. Poderei ser prosaico, mas tento “fazer cultura”; cultura da Caça… o que leva alguns a apoiarem-me e outros nem por isso…mas é assim como em tudo o mais e o balanço é positivo, o que me anima a continuar e me levará em breve mais longe…

O Dr. Frederico Cardigos, constitui um marco nesta revista multidisciplinar, por em minha opinião, fazer cultura: - A da Ciência!

Li atentamente, a sua reflexão sobre a caça submarina! Assumo que sofri algumas pressões e sugestões para lhe responder, algumas menos próprias, por desentendimento ou excesso de paixão, o que evitei, pois o que pretendo é continuar a reflectir no tema e não abrir polémica, não por a recear, mas porque entendi claramente a preocupação que ele transmite.

Começarei pelo fim e para, contrariamente ao que muitos esperam, lhe dar razão !

Como ele também eu questiono:

- Quem está preparado para seguir um código de conduta?

Basta dar uma vista de olhos pelos sites nacionais de pesca submarina, que a despeito das intenções louváveis dos seus criadores, espelham uma situação ambígua nas atitudes e ideias, de interesses muitas vezes mal dirigidos.

Percebe-se a falta de mobilização e a ineficácia para mudar o estado das coisas, a começar pela formação ética dos pescadores submarinos. Recentemente, aí pude ler alguém – anónimo – que dizia ter cada vez mais vontade de caçar à noite. Lapidar! Depois temos o resultado em Sesimbra…bem o merecem!

Os verdadeiros Caçadores respeitam as regras, mas quem são? Pergunta-se…

São os que lêem estas páginas? Ou os que não lêem, porque as acham repetitivas, enfadonhas, uma seca…e sobretudo porque acham que já sabem tudo, e porque elas não tratam de “matar peixe”, aquilo que apenas interessa a uns quantos que se julgam a maioria? Nós, no “Mundo Submerso”, bem sabemos que não são!

E lá virão as restrições dos Açores e Madeira e mais Berlengas…estão eles mesmos a trabalhar para isso… e que facilidades dando aos nossos detractores… perante o imobilismo generalizado de quem o máximo que faz é de vez em quando carregar no teclado e enviar um mail , normalmente mal-alinhavado, escrito sem reflectir, num impulso imediato, falho de consistência e objectividade o que a Internet promove, e como tudo que é instantâneo é efémero… Exactamente! A Internet é para mim a “cultura do instantâneo”, consequência duma modernidade que rejeito!

Discordo no entanto das limitações que Frederico Cardigos sugere, de modo geral.

Elas são-nos impostas naturalmente e por outros meios, não achando portanto que se justifiquem. Temos o exemplo do mero, que nos Açores pode ser capturado por todos os meios e sem limites, salvo em pesca submarina! O mero, ícone do pescador submarino, todavia sensível nestas paragens, deveria estar sujeito a limitação de tamanho, quotas e licença específica, que simultâneamente o protegesse e gerasse a mais-valia económica que seria investida na sua protecção e na região. Seria justo e sensato… mas, são-no os homens?

A comparação entre pesca lúdica e a profissional, em termos económicos também não merece a minha concordância. A pesca comercial intensiva e de grande volume, está em declínio – causada pelos seus próprios excessos – tendo de ser reconvertida para a aquicultura.

Falando agora da pesca artesanal, pois essa só tem a ganhar com a pesca lúdica e a ela pode e deve aliar-se como forma de subsistência quer da tradição quer da actividade em si. É uma visão de marketing estratégico e de sustentabilidade, para que as competências deveriam virar-se. Compará-las do modo, digamos sócio-político, como o fez (ponderar entre o peso da pesca desportiva e a de quem tem família para sustentar), é mais do que uma falácia, um erro, e, poderei sempre retorquir que nesse contexto corremos o risco de as poderosas associações de agricultores e da Distribuição, pegarem no tema e pressionarem no sentido serem interditadas as hortas particulares de subsistência de feijão, batatas e couves; criar galinhas ou engordar o porco familiares e até ter uma simples ameixeira no quintal… cedendo a um corporativismo exacerbado que depois cedendo aos sindicatos e lóbis nos impeça futuramente de fazer reparações e as limpezas domésticas, lavar a própria roupa e até quem sabe…cozinhar em casa ! (Aqui, o Pedro Manaças dá um salto na cadeira!)

Rematando esta primeira parte, concluo dizendo que a actividade cinegética terrestre, está de facto bem adiantada em alguns destes assuntos e dela haveria muita coisa a copiar, começando na ligação à investigação científica, mas sobretudo como actividade económica e de sustentabilidade do Mundo Rural, do Meio Ambiente e Biodiversidade, que finalmente vem a ser reconhecida. Como exemplo deste pragmatismo, o facto de ter desenvolvido dois módulos sobre os temas “Ética Empresarial” e “Marketing Aplicado à Actividade Cinegética” que foram incluídos no curso de formação profissional em Gestão Cinegética ministrados pela CAP e ANPC. Assim fosse entre as actividades subaquáticas – pesca submarina incluída – e o Mundo Litoral e da Pesca!

Guardo para o final aquilo porque Frederico Cardigos inicia a sua reflexão, e, porque me parece justamente assunto da maior importância., que classifica “de algibeira”, mas é parte integrante da caça, como de qualquer actividade humana, por definição e efeito: - A filosofia da caça!

Pensar a Caça, é o que faço desde há muito e cada vez mais, como ser pensante que sou e o que tantas vezes aqui tenho trazido, seja em artigos técnicos, histórias ou artigos de viagens. Eu sei perfeitamente porque caço!

Não caço para comer – isso faz o leão –, nem caço por instinto – isso fazem os meus cães –, eu caço em consciência! A minha “área cinzenta”, há muito que neste campo desapareceu, porque sei cada vez mais e melhor porque é que caço; ao fim de tanto tempo, tantos lugares, tantos peixes… mas continuo a filosofar sobre a caça, as minhas motivações, sobre aquilo que vejo e sinto, ainda e sempre, as sensações renovadas em cada jornada, sempre na expectativa do que vou ver, sentir, do que vai acontecer…do que está para além.

Penso também na morte, claro, eu sou caçador e como tal convivo com ela, inflijo-a e o assumo… mas também sei e cada vez com mais segurança que não gosto de matar, que a morte dos seres que caço não é o meu objectivo, mas sim a forma de atingir uma finalidade implícita ao caçador:

- A sua posse! Só assim me apodero deles fisicamente, os apreso !

Vê-los, guardar a sua imagem num papel, não me basta…porque eu sou um caçador!

Matar é uma consequência da caça, faz parte do processo como faz parte da vida. Mas não se resume a tal, o que é uma confusão comum entre os não-caçadores, que só conhecem a morte como sendo fruto do ódio e da violência. Eu pergunto então:

- Se o caçador mata por prazer, qual é a motivação dos amantes dos animais? Ter sexo com eles? É que na mesma linha do absurdo e do desconhecimento, o amor só se justifica com o acto sexual…

A que nível vamos colocar S. Francisco de Assis, Madre Teresa de Calcutá, Gandhi ou João Paulo II? Como pessoas que amaram intensamente… de tarados sexuais?

E Aquilino Ribeiro, Miguel Torga, Hemingway ou Manuel Alegre? Porque caçadores apaixonados… sádicos sanguinários?

Sucede que a morte para quem a entende, e mesmo para a ciência, não é o fim e sim uma passagem:

- Uma planta ou animal, morrendo vão incorporar outros e passar a viver neles, e por aí adiante, perpetuando-se como a própria Natureza que é infinita, e se mantém assim a vida. Em todos os estratos e em todas as formas de vida há caçadores e presas e transferência de energia, no plano físico ou noutro – caso do troféu! O Caçador faz disso

um acto de veneração, sendo a Natureza o seu altar.

“ Quando matardes um animal, dizei-lhe com todo o coração:

- Pelo mesmo poder com que te abato, também eu sou abatido; e também eu serei consumido. Porque a lei que te entregou nas minhas mãos me irá entregar a uma lei mais poderosa. O teu sangue e o meu sangue mais não são do que a seiva que alimenta a árvore do céu.”

(Kahlil Gibran)

Não é por acaso que a caça é indissolúvel da gastronomia (agora o Manaças respira fundo…), por tradição, quem sabe se por via de uma sabedoria infinitamente superior que transformou bichos-homens em seres humanos. Simples animais que eram presas de outros, mas alijando essa condição se ergueram primeiro como predadores e depois se tornaram homens. É essa passagem que o caçador celebra ainda hoje quando sai para a Natureza de arma na mão, integrando-se nela em acto de caça, em glória de predador, algo que o passeante de cajado ou máquina fotográfica, não pode experimentar:

- A suprema liberdade de não temer, porque já não é presa!

Não sei que liberdade Frederico Cardigos sentirá quando sai para o mar, para um mergulho, mas será talvez diversa da minha, em intensidade e abrangência. O que me leva a ir caçar, por prazer não obrigação, em dias de mar mau, água batida, suja e fria, mesmo sem peixe, a vencer condições muito adversas? Será porque como digo, conhecendo as razões, eu serei mais consciente e motivado? Interessante questão, não tão fácil de responder…sobretudo para o homem moderno, fruto de gerações de condicionalismos, barreiras ideológicas e desvios vários que o afastaram sempre da Natureza, a que ciclicamente pretende voltar.

Nós Caçadores mantivemos essa ligação e a sabedoria da natureza, talvez hermética…pouco divulgada é certo… mas ela existe e ganharemos todos com a sua divulgação. Não vivemos na era da comunicação? E da comunicação nascem a tolerância e o entendimento, sublimes patamares do desenvolvimento da humanidade, seu apanágio, pura utopia como é também seu exclusivo.

O grande lírio que o Frederico Cardigos matou, navegou sem dúvida pelo azul, ao encontro do seu destino – como nós…- matando e comendo muitos outros peixes!

Quando o olhou nos olhos, não houve excitação…houve sim avaliação sobre o que você era: - Uma presa ou um competidor? Refeição ou ameaça?

Apenas isto, análise fria de um peixe-predador e não de um ser provido de sentimentos, o que um cientista sabe…um prosaico, como eu, pode permitir-se a divagações… o cientista não crê na alma, porquê sugerir que os bichos a têm?

Mas a verdade é esta, faz parte da incompreensão e é onde mais falha a argumentação contra a caça: - A atribuição de sentimentos ou estados de alma aos animais, que eles não possuem nem podem possuir, ou teriam como nós deixado de ser animais para se tornarem humanos! E falamos de animais selvagens, peixes neste caso…

O resultado é que tantos homens, confundindo esses sentimentos, numa exacerbação ou fanatismo tratam os animais como gente, e outros, gente como os animais!

Um pouco de poesia é parte da nossa condição de humanos. Uma parte de racionalismo também! Ambas são o sal e a pimenta da ideia.

Saibamos doseá-las, admiremos aos peixes magníficos que andam nos mares, extasiemo-nos com as sensações grandiosas que nos transmitem, saibamos vivê-las, recolhê-las e analisá-las ao nível do consciente. Sejamos homens, não animais.

Um grande abraço de apreço pelo seu magnífico trabalho e pela sua postura, honesta de quem fez pesca submarina e não gostou, que acredita no que faz e divulga – a Ciência!

Saúdo-o Dr. Frederico Cardigos!

Como complemento a esta dissertação – que não passa disso mesmo - , porque noutros lugares e tempos, houve autores que se dedicassem muito mais e melhor aos temas que aqui abordo, para quem queira ir mais além, vos sugiro a leitura de:

Internet : no site www.santohuberto.com , no lado direito da página de abertura e correndo o rato para baixo, encontrarão a tema “OPINIÃO”, e, dentre os 5 mais visualizados : “ A CAÇA NO SEC.XXI – UMA ATITUDE COM SENTIDO”.

Penso que trata este tema de modo alargado e dá boas pistas a quem queira reflectir nos porquês daquilo que faz, ou que outros fazem.

Livros : Kahlil Gibran – “O Profeta” – aconselho vivamente ! Uma sábia visão de questões entre as quais a da morte e da incorporação via alimento.

José Ortega y Gasset – “Sobre la caza y los toros”– Imprescindível! Uma análise filosófica da caça e suas motivações.

António Luiz Pacheco

RESPOSTA:

Que bom que é vivermos num canto do mundo em que todos podemos expressar civilizadamente a nossa opinião, de uma forma entusiasta, aberta e honesta, para tentarmos encontrar as melhores soluções em relação a problemas complexos. E é tão bom podemos discordar, num franco elogio à diversidade e à complexidade humana, sem receio de incompreensão extremista. Penso que não há hipótese de discutir quando se extremam posições. Ficamos apenas com um amargo de boca e não se chega a falar de nada.

Correndo o risco de repetir o que já aqui foi dito por mim, no artigo em causa e pelas respostas ao mesmo, gostava, no entanto, de aproveitar para acrescentar uns pontos, reforçar algumas das afirmações e discordar de outras.

Sim. Não apenas eu, mas os biólogos em geral, como humanos que somos, também temos sentimentos. É um facto científico do qual não abdico.

No meu artigo não comparei a caça com qualquer outra actividade extractiva. O desafio era escrever sobre caça, o que fiz. Não esperava ser consensual e é natural que muitos estejam contra a minha forma de pensar. Isso não faz mal. Não sou um político por isso não tenho que me preocupar com a consensualidade bacoca. Sou um cientista, apenas me tenho que preocupar com a verdade e, de um ponto de vista mais filosófico, com o Bem.

Não tenham dúvidas que tudo o que afirmei se baseia em ciência ou em sentimentos, mas esses, penso eu, estão claramente identificados. Ou seja, a caça-submarina tem impacto ambiental, há regras que não são respeitadas e há regras que deviam estar implementadas e não estão. Recomendo a leitura da documentação que a unidade de investigação em que trabalho tem escrito sobre áreas marinhas protegidas e mesmo sobre a caça nos Açores. Verão que há "quilos" de artigos e relatórios (está quase tudo na internet) assentes em "toneladas" de trabalho de campo. Posso garantir, porque eu participei. O Director desta revista também sabe porque acompanhou parte do trabalho.

Em resposta ao Nuno Rosado informo que há, pelo menos, dois navios que passam grande parte do ano a pescar para fazer a avaliação dos mananciais de pescado de Portugal. Verifiquem o que fazem o N/I "Arquipélago" e o N/I "Noruega". Não têm é a sorte de ter equpas de televisão a bordo a fazer o registo dos trabalhos... Mas esta é apenas uma das técnicas. Há outras e em Portugal aplicam-se quase todas. As decisões até podem ser mal tomadas por incapacidade ou falta de coragem do decisor ou por o desenho científico ser pouco abrangente (quando não há dinheiro…), mas não o são, certamente, por falta de trabalho cientifíco subjacente ou interesse da comunidade ligada a esta área (sim, não podemos esquecer os técnicos e tripulações).

A caça submarina tem impacto ambiental. Evidentemente que tem menos que outras actividades e, dentro das actividades extractivas recreativas, é das que têm menos impacto, mas tem! E se for praticada de forma desregrada tem-no ainda mais. Como dizia no meu artigo, e penso que concordarão comigo, até que haja formação ou certificação dos caçadores, declaração de áreas marinhas protegidas e fiscalização eficiente, não faz sentido falar-se em reduzir as restrições à caça. Seja a regra dos cinco peixes ou a lei do mero nos Açores, ou a regulamentação existente no Continente. Os passos são sequenciais e os primeiros têm de estar orientados no sentido de proteger redundantemente a natureza. É a minha perspectiva. É evidente que as Áreas Marinhas Protegidas (AMP) são necessárias e é evidente que tem de haver regras nas actividades extractivas e é evidente que a implementação de ambas deve ser feita em conjunto com os utilizadores (ou seja, também com os caçadores-submarinos). Estas são afirmações indiscutíveis. Há alguns destes pontos que estão a falhar na implementação de novas regras no Continente de Portugal. Concordo, mas penso, e corrijam-me se estiver enganado, que até ao momento não há uma associação de caçadores submarinos, pois não? Então como querem ser ouvidos enquanto interlocutores se nem sequer estão organizados?

Parece-me também que se deveria tentar definir o que é um caçador submarino. Será que o fulano que utiliza garrafas, vende o pescado e não sabe o que apanha deveria ser chamado de “caçador submarino”? Onde estão as fronteiras? O António Luiz Pacheco descreve a aquilo que na sua perspectiva são os caçadores, mas será esse o perfil do caçador médio em Portugal? Tenho as maiores dúvidas e os inquéritos que temos realizado não apontam nesse sentido. Empiricamente, para mim, o caçador médio é um jovem, do sexo masculino, iletrado em termos de mar, que se ajeita em apneias mais ou menos longas e cujo o sonho é capturar o pescado suficiente para vender no restaurante mais próximo. Estarei errado?

Não acredito na simplificação que é feita em relação à pesca industrial. Evidentemente que há pescarias insustentáveis, mas há outras que convivem bem com o ambiente. Desde que assente em boa planificação científica, utilizando modelos estatísticos precaucionários e com redundância ecológica (como as áreas marinhas protegidas) é perfeitamente possível conciliar a pesca industrial com o ambiente. Infelizmente, os políticos europeus (ou quem os elege) ainda não entenderam isso. Concordo que a aquacultura deverá crescer nos próximos anos, mas não creio que seja a solução para todos os problemas. Penso que será apenas mais uma oportunidade de produzir, neste caso pescado. No entanto, mais uma vez, há que estudar o impacto ambiental da aquacultura. Estas estruturas têm o poder poluente equivalente a uma qualquer unidade fabril.

Sobre a prioritização das actividades admito que não entendo muito bem o raciocínio. Considero que, entre praticar-se uma actividade por desporto ou fazê-la profissionalmente, em caso de conflito, tem de haver uma hierarquização. O mesmo Princípio se aplica noutras áreas como seja a Observação de Cetáceos. Os Observadores profissionais têm prioridade sobre os lúdicos e isso não causa qualquer drama ou sequer controvérsia.

Agradeço ao António Luiz Pacheco (proponho que eu passe a “Frederico”, é tão mais simples) a franqueza com que abordou a sua aproximação à caça. Não sei se muita gente teria a sua frontalidade. A justificação filosófica da caça é muito complexa e, na minha opinião, fica ao critério de cada um a forma como a aborda. Para mim a caça é simplesmente e friamente um instrumento metodológico para a obtenção de informação. Por vezes, quando, após a recolha dos dados, o pescado ainda está em condições, ele é utilizado para a alimentação (por mim, pelos colegas ou é dado a uma instituição de caridade). Não sinto qualquer prazer em matar. Quanto disparo o arpão, movimento a rede, puxo o anzol ou apanho o crustáceo, sinto pena do animal cuja a vida irá terminar. Isto é o que sinto. Apesar das palavras entusiastas e apaixonadas do António Luiz Pacheco, não entendo porque será a fotografia insuficiente, mas não tenho de entender tudo e respeito totalmente quem pensa de forma diferente.

Para mim, a diferença entre o homem e os outros animais é ténue, sendo muito maiores as semelhanças e as interdependências do que os contrastes. A diferença estará alojada na “consciência do conhecimento adquirido e na “existência de ética”? Os conceitos não são meus, mas parecem-me bem. Portanto, considero que sim, os animais sentem e, portanto, não lhes devo infligir dor gratuitamente. Mas, reforço, esta é a minha perspectiva e ninguém tem de pensar como eu.

De facto, o mar é enorme, cheio de aventuras e belezas. Penso que todos nós estamos ao lado da sua defesa e, como me dizia o Luís Quinta no outro dia, “temos de encontrar as plataformas de entendimento que permitam a sua conservação e a sua utilização adequada”. Não poderia estar mais de acordo. Vamos falando, cheios de interesse e muita daquela emoção que apenas se permite aos apaixonados. Paixão de mar!


sexta-feira, 26 de maio de 2006

A Caça-Submarina

É verdade que tenho uma relação de amor-ódio com a caça-submarina. “Amor” porque gosto muito de comer peixe grelhado, porque considero um desporto de grande potencial para a manutenção física, porque constitui uma óptima ferramenta de trabalho e porque tenho imensos amigos que são inveterados caçadores submarinos. “Ódio” porque não gosto de matar animais, porque me custa constatar que há um desporto cujos objectivos incluem tirar vidas e porque vejo comportamentos excessivos em muitos caçadores submarinos. Num mundo perfeito, poderíamos desejar que todas as nossas posições e decisões fossem baseadas em factos e sentimentos perfeitamente diferenciados entre claro e escuro, sim e não ou verdade e mentira. Infelizmente, não é assim. Há uma enorme e apaixonante área cinzenta que corrói e motiva, que angustia e excita e que, no fundo, nos faz pensar, dialogar e, por vezes, chegar a novos patamares de verdade. O que estou a escrever é um pouco de filosofia de algibeira, mas, neste caso, serve para ajudar a explicar que em relação à caça-submarina estou numa enorme área cinzenta.

Quando comecei a nadar pelo mar, acompanhava os meus amigos mais velhos que me explicavam o que fazer para que usufruísse do desporto e não colocasse a minha vida em risco. Felizmente, sempre fui suficientemente temente para não cair em exageros estúpidos. Um dia, aproximou-se de mim um enorme lírio. Olhei para ele e fiquei fascinado. Fiz sinal aos meus colegas de caçada e eles, à beira da histeria mas demasiado longe para poderem disparar, esbracejavam para que atirasse sobre o animal, que continuava a olhar para mim, para os meus olhos, entre a pergunta e a curiosidade, digo eu. A boca movimentava-se pausadamente, os opérculos abriam e fechavam do alto da experiência de um ser que tinha certamente navegado durante anos a fio pelo azul que eu estarei sempre condenado a desejar conhecer. Disparei. O arpão acertou-lhe a meio do corpo, partindo-lhe uma vértebra, mas sem o penetrar. O peixe caiu para o fundo, rodopiando sobre si próprio até ficar preso entre duas pedras. Estava morto, ou praticamente, mas longe do meu alcance respiratório. Enquanto esperava que os meus colegas de grande capacidade torácica recuperassem o peixe, fiquei a olhar para ele. Senti-me mal por ter destruído aquela vida. Uma vida que eu sou capaz de jurar que, por um momento, olhou para mim com a excitação do encontro com um alienígena. A minha retribuição foi matá-lo. Depois seguiram-se as felicitações pela captura da bela presa e os insultos pelo mau tiro. Nada disso interessava. Senti que o meu caminho não seria aquele.

Depois desse dia, infelizmente, já matei mais animais do que gosto de imaginar. Em nome da ciência, claro está… Utilizei quase todos os métodos para neutralizar e analisar organismos marinhos e, garanto-vos, nenhum me deu prazer. Claro que, se não gosto de fazê-lo profissionalmente, menos ainda por desporto.

Ao longo dos tempos, até porque tenho sentimentos contraditórios, tenho tentado pensar a caça, falar sobre caça e até escrever sobre caça. Penso que neste caminho, já cheguei a diversas conclusões. A primeira é que a caça-submarina é um desporto perigoso. Evidentemente que se for praticado seguindo as regras de segurança básicas dificilmente haverá um problema. É certo e não discordo, mas, infelizmente, há muita gente a infringir essas regras…

Por outro lado, a caça-submarina é uma actividade extractiva e como tal tem impacto ambiental evidente. Dir-me-ão, e com razão, que há acções muito piores que a caça e que não estão devidamente controladas. É verdade, mas “com o mal dos outros podem eles”. Os caçadores submarinos, amantes do mar, devem entender este facto que é na realidade bastante simples: “praticam uma actividade com impacto ambiental”. Portanto, é uma actividade que tem de ser pensada antes de ser executada para que o impacto seja mínimo.

Outro facto é que a caça, em Portugal, é um desporto. Sendo um desporto, tal e qual como a pesca lúdica, terá sempre menor prioridade que as actividades com interesse económico directo. Atenção, eu não estou a afirmar que a caça deve ser banida, nada disso! Estou simplesmente a afirmar que, em certas situações limite, a caça é menos prioritária que outras actividades extractivas. Isto é, em certas situações, podemos estar perante um recurso escasso que pode apenas ser explorado por um sector. Nesse caso extremo a quem daremos prioridade? A quem tem filhos para alimentar ou a quem pratica a actividade por desporto? Parece-me que a resposta é simples.

Tendo estes factos em conta, eu sou apologista de que haja maiores restrições nas regras instituídas para a caça-submarina. Estas restrições devem manter-se enquanto não estiverem preenchidos alguns requisitos simples. Um primeiro requisito é a instituição de cursos de caçador submarino. É inadmissível que, repetidamente e abusivamente, os caçadores utilizem manobras como a hiper-ventilação, disparar dentro de buracos, enrolarem-se nos cabos das armas, etc… Não é admissível que um caçador submarino não tenha sequer o respeito de saber o nome da sua presa antes de disparar. Na minha opinião é inaceitável que se cacem peixes que não fogem, porque estão em época de reprodução. Não pode acontecer que se cace em zonas protegidas, ou que se cacem espécies em perigo. Tirar uma vida e extrair um recurso são actividades que não carecem apenas de uma licença, precisam de conhecimento. Eu acredito vivamente na capacidade auto-educativa e, portanto, admito que até não haja curso, mas tem de haver um exame que comprove a responsabilidade e o conhecimento. Dir-me-ão os críticos deste texto que tudo isto é inútil porque os verdadeiros caçadores respeitam estas e outras regras sem necessitar de mais uma burocracia. A isto eu apenas posso responder que haverá então muito falso caçador submarino por esse mar fora.

Mas não é tudo, o primeiro passo para se poder pensar em facilitar as regras da caça submarina, é instituir um código de conduta voluntário. Esta mesma revista já tentou fazer trabalho nesse sentido, mas onde é que ele está? E quem é que o respeita?

É também absolutamente necessário instituir áreas marinhas protegidas, propostas e respeitadas também pelos caçadores submarinos, para que se possa garantir a existência de ambientes pristinos. Os benefícios destas zonas são evidentes e por todos conhecidos, mas quando é que avançam? É responsabilidade de todos os que gostam de mar certificar que os nossos governantes pensem em instituir áreas geográficas adequadas.

Claro que temos também de pensar em limitações à quantidade dos animais capturados. Para um desporto como a caça, a limitação de cinco peixes por caçador por dia como existe nos Açores e Madeira parece-me particularmente adequada. Concordo que era muito mais lógico que esta limitação fosse feita ao nível da espécie (não é a mesma coisa capturar cinco lírios ou cinco badejos), mas como implementar uma regra desse género se muitos caçadores não conseguem distinguir um mero dum badejo…? Se não conseguem fazer essa distinção, as limitações em termos de comprimento, muitíssimo importantes, também deixam de fazer sentido.

Por último, a fiscalização. Enquanto não existir um sistema de fiscalização adequado nada do que sugeri atrás será eficiente. Enquanto os próprios polícias marítimos não souberem identificar as espécies, enquanto não tiverem os meios humanos suficientes e enquanto não tiverem os meios adequados para intervir no mar, estas regras não serão respeitadas e, portanto, não faz sentido pensar em as aplicar.

Em jeito de súmula, na minha opinião, a caça submarina é um óptimo e saboroso desporto, que deve ser praticado por quem gosta, mas seguindo e respeitando um código de conduta exemplar. Quem é que está preparado para o fazer?


quarta-feira, 26 de abril de 2006

Parque Natural Regional do Corvo

Tive a honra de participar na apresentação do Parque Natural Regional do Corvo a convite da Secretaria Regional do Ambiente e do Mar dos Açores e em representação do Director do DOP. Este Parque Regional começa na porção terrestre da Ilha e estende-se, mar adentro, até formar um rectângulo que envolve o limite de três milhas à costa. Evidentemente que, por si só, a conservação ambiental de uma ilha e do seu mar é uma iniciativa de louvar. No caso da ilha do Corvo aliam-se duas variáveis que apontam para a necessidade de uma classificação urgente: ambiente ainda bem conservado, mas sensível e vulnerável. Isto não significa que não se possa continuar a explorar, mas sim que a exploração tem de decorrer a um nível adequado aos recursos existentes.

Acontece que eu cresci a mergulhar nas águas da ilha do Corvo. Desde os 9 anos que passei as férias grandes no Grupo Ocidental dos Açores e, também por isso, tenho uma ligação afectiva profunda a esta ilha. Melhor do que eu, os próprios Corvinos sabem ser necessário conservar o património natural que os rodeia. Desde 1999 que os pescadores resolveram declarar uma área como Reserva Voluntária. Passou a não haver pesca no chamado Caneiro dos Meros. Graças a isso, a empresa local de mergulho pode continuar a vender, com garantia, imersões com meros de mais de 20 quilos.

Sabendo que os Corvinos entendem a importância e o potencial da protecção das suas águas, não estranhei que a apresentação tenha contado com mais de 10% da população, apesar de ter decorrido durante o dia e a horas de trabalho. Os Corvinos querem saber quais são os planos e querem participar activamente no seu aperfeiçoamento. Durante uma hora e meia, ouviram o que o Director Regional do Ambiente e restantes técnicos tinham a dizer. Alguns optaram por colocar de imediato algumas perguntas ou observações. Outros esperaram pelo pós-reunião para, em maior intimidade, exporem as suas questões e críticas.

Mesmo depois de terminar a cerimónia, continuava a sentir um nervoso miudinho. Depois de 25 anos a mergulhar naquelas águas, ficava dado o maior passo para a sua conservação efectiva…

Para além do Corvo, há, nos Açores, outras áreas marinhas protegidas. A saber: Caldeirinhas (Faial), Fajã de Santo Cristo e Ilhéu do Topo (São Jorge), Baía de Angra (na Ilha Terceira protegida por razões arqueológicas), Ilhéu de Vila Franca do Campo (São Miguel), quatro baías em Santa Maria e o Banco das Formigas. Nestas áreas é urgente fazer alguns retoques de longo alcance. Por exemplo, há que enquadrar as Caldeirinhas e restantes sítios Natura 2000 do Canal (Baixa do Sul e Ilhéus da Madalena) numa unidade maior. Isto já está planeado e é importante avançar com a apresentação pública do Parque Marinho do Canal Faial-Pico. Para o Banco das Formigas (onde está incluído o Recife Dollabarat) é necessário especificar os regulamentos, tal como preconizado na legislação que declarou a área marinha protegida. Os habitats e espécies encontrados na coroa deste banco têm uma beleza “de cortar a respiração” e o desrespeito a que frequentemente se assiste das medidas de protecção é um verdadeiro crime de lesa património.

Mas a conservação do ambiente marinho dos Açores, nas profundidades mergulháveis, não pode ficar por aqui. É necessário e urgente classificar e, acima de tudo, proteger eficazmente, áreas em todas as ilhas. Para quando uma gestão eficiente da costa Nordeste nas Flores, da costa das Lajes no Pico ou dos ilhéus da Praia e de Baixo e da Restinga na Graciosa, da costa das Quatro Ribeiras na Ilha Terceira, da Caloura em São Miguel, ou da Pedrinha em Santa Maria? Para além das razões puramente ambientais, este conjunto de iniciativas garantiria o futuro de soluções económicas mais variadas, nomeadamente através do mergulho.

Em termos gerais, a criação do Parque Natural Regional da Ilha do Corvo representa o meio do percurso. Ainda é preciso “nadar” mais um pouco até termos um ambiente marinho protegido, mas estamos no bom caminho. Parabéns à Secretaria Regional do Ambiente e do Mar por estar a pegar com enorme delicadeza e bom senso em temas que, noutros locais, deram azo a climas de pré-ruptura social.


Publicado na coluna "Casa-Alugada"

domingo, 26 de março de 2006

O Valor dos Meros

Consultei os dados da lota de pesca dos Açores e verifiquei que o preço por quilo de mero na região é vendido a 7 euros em 2004 (http://www.lotacor.pt/). Isto significa que um mero de bom porte valia cerca de 140 euros para a pesca. Se este animal for caçado e vendido directamente aos restaurantes deverá valer, mais ou menos, o mesmo. “Mais” porque não há descontos (visto que não há facturas), mas “menos” porque o preço do restaurante tem de ser mais baixo, senão iriam comprá-lo legalmente à lota, claro está! Portanto, o balanço final deve ser razoavelmente o mesmo no que respeita ao benefício para o apanhador.

Mas, este mesmo animal, quanto vale para o turismo subaquático? Falei com os operadores de turismo dos Açores que têm mergulhos orientados, particularmente para este recurso. Eles são a NautiCorvo do Corvo, o Centro de Mergulho do Hotel Ocidental nas Flores e o Centro Náutico da Graciosa da Graciosa. O primeiro caso é particularmente paradigmático. Os pescadores do Corvo decidiram, por sugestão dos operadores turísticos, declarar uma zona como reserva voluntária, para não capturarem estes animais. Mas terá sido um bom negócio? E funciona? Irei tentar responder a todas estas perguntas.

O preço por mergulho nestas áreas é de cerca de 25 euros por pessoa. Varia muito por ilha o número de mergulhos, mas, sem sair da realidade, pode-se afirmar que o número de visitantes por mero anda entre as 50 e as 250 pessoas. Ou seja, há um lucro bruto entre 1250 e 6250 euros por mero. Fazendo a média, temos que cada quilo de mero vale 187 euros nestas ilhas! Para além disto, temos que pensar que as pessoas que vêm aos Açores ver os meros gastam dinheiro em transportes, hotéis e alimentação. Resumindo, um bom negócio para estas pequenas comunidades.

Apesar de não terem um local “reservado”, as empresas das Flores e da Graciosa encontraram locais não explorados pela pesca onde têm habituado os animais à presença não extractiva do homem. São os chamados secret spot do mergulho. No Corvo, o sucesso da Reserva Voluntária é tão grande e tão apaixonado que, e passo a transcrever uma citação do pescador David Câmara à RTP-Açores, “aquilo é nosso, para que se possa dizer que no Corvo temos alguma coisa para mostrar às nossas visitas!” Claro que neste momento, não passa pela cabeça de ninguém pescar e, muito menos, caçar naquele sítio. Anualmente, o Departamento de Oceanografia e Pescas da Universidade dos Açores promove uma campanha de mergulho naquela área, por forma a monitorizar a saúde ambiental. O resultado mais importante é que, sim, os meros continuam lá. Para além disso, esta área começa a apresentar uma riqueza biológica como poucos locais nos Açores, e sem paralelo a nível nacional. É como se a riqueza existente ao nível das espécies bentónicas se tivesse propagado às restantes espécies que aqui encontram um pequeno refúgio. Esta última afirmação não é nada científica, mas é o que eu sinto e já lá mergulho desde 1988.

Nestas contas de somar, feitas em cima do joelho, podemos ainda pensar numa outra componente. Quanto é que o Estado (ou seja “nós”) ganhamos com os meros? Se o mero for pescado furtivamente nós não ganhamos nada. Não há facturas e, portanto, não se desconta. Se for pescado legalmente, e porque o pescador paga 17.5% de diversas taxas, este animal animal rende-nos cerca de 25 euros e é um óptimo pitéu. Por outro lado, o operador turístico paga 15 por cento de IVA nos Açores, portanto, se este animal for utilizado para o turismo subaquático rende-nos, por ano, 560 euros! Não pode servir para alimento do corpo, mas serve para alimento do espírito e ainda dá dinheiro!


Publicado na coluna "Casa-Alugada"

domingo, 26 de fevereiro de 2006

Ambiente de Papel

PARTE 1 - Depois de vários acidentes terríveis como os mais recentes casos do “Erika” e do “Prestige” poderíamos pensar que a navegação europeia e, em particular, as estruturas de gestão da navegação em Portugal teriam retirado os devidos ensinamentos e adoptado práticas mais adequadas para lidar com embarcações em apuros ou acidentadas. Eis senão quando, no dia 9 de Dezembro de 2005, o porta-contentores “CP Valour” “dá a costa” na Ilha do Faial, no sítio da Praia do Norte. O que aconteceu é inimaginável e implica tantos erros para poder ter ocorrido que até me custa a crer… Mas que lá está, lá está – mais ou menos como as bruxas espanholas. Primeiro, o navio terá tido uma avaria. Não se sabe ainda bem qual a avaria, mas o que é certo é que o navio solicitou autorização para se aproximar de terra porque tinha um qualquer problema e precisava de fundear para efectuar a reparação. A autoridade marítima deu a respectiva permissão, mas, pasme-se, o navio encalha a cerca de meia milha do ancoradouro assinalado na carta de navegação. Não irei dissertar sobre a pertinência da decisão de autorizar um navio em dificuldades em se aproximar de terra porque não sou especialista no assunto. No entanto, um navio de 180 metros de comprimento, 16 mil toneladas de peso (para além da carga), com radares, sonda, GPS e respectivos plotters , numa Ilha sem plataforma continental, consegue aproximar-se até 80 metros de costa e encalhar?! Isto não faz sentido nenhum… Também não me faz grande sentido que o comandante do mesmo tenha saído da Ilha do Faial sem ter sido detido por, pelo menos, negligência grosseira com consequências negativas para o meio ambiente. Terra de brandos costumes…

Depois de ter encalhado, o navio começou a largar combustível quase de imediato. Não é que apenas 4 dias depois apareceram no local os membros do Serviço de Combate à Poluição!? Como se explica uma demora desta dimensão a nível de uma estrutura especialmente dedicada a estes assuntos e a qual deve estar permanentemente alerta para dar uma resposta pronta e minimizar prejuízos ambientais que podem ser graves e duradouros?

Durante todo o mês que já passou, o navio foi largando combustível e outros hidrocarbonetos cuja contenção foi sendo gerida de forma aparentemente simplista do ponto de vista ambiental. Uma equipa com dezenas de elementos, empenhadamente e com risco da própria saúde, limpou diariamente a Praia, mas era necessária outra capacidade. É lamentável que a única barreira anti-poluição, por ser adequada para águas interiores, nunca tenha sido um instrumento útil ao transporte dos derramados até à costa. Nunca se conseguiu colocar uma real barreira oceânica em volta do navio, apesar de estar praticamente encostado a terra e ter havido dias com magníficas condições meteorológicas. Mas mais lamentável ainda o é o facto de durante esse mês nunca se terem conseguido retirar os todos os hidrocarbonetos do próprio navio ou extrair directamente aqueles que iam cobrindo as águas.

Desde o primeiro dia que a instituição de que faço parte, o Departamento de Oceanografia e Pescas da Universidade dos Açores, começou a verificar a situação no terreno e a modelar as possíveis consequências. O DOP diagnosticou, logo que lhe foi possível, as consequências ambientais que julgava indesejáveis e evitáveis, mas prováveis caso não se retirasse o fuel-óleo que o navio tinha a bordo. Um mês depois ainda ninguém sabe quanto combustível tinha inicialmente o navio, quanto se perdeu pelos rombos e, mais importante ainda, quanto resta a bordo. Como se tinha previsto, os focos de poluição acabaram por aparecer a dezenas de quilómetros de distância com consequências ambientais ainda não completamente esclarecidas. Dentro de semanas irão começar a chegar em massa as aves marinhas migratórias. Caso ainda haja hidrocarbonetos no mar é bom que nos preparemos para mais um desastre ambiental. É que os fuel-óleos dissolvem a camada de gordura que impermeabiliza e protege da água e do frio as aves marinhas, acabando estas por morrer de hipotermia ou afogadas. Esperemos que não.

Durante o primeiro mês pós-acidente houve, de facto, contentores removidos, mas foi o mar que os levou. Agora, há contentores sabe-se lá onde e sabe-se lá com que consequências para a segurança da navegação e para o ambiente… Alguns afundaram, outros foram rebocados pela Administração Portuária, mas, onde estão os restantes? Durante esse mês a única carga que saiu de bordo pela mão do homem foi a carga classificada de mais perigosa. O esforço da Força Aérea e da empresa gestora do helicóptero Khamov muito contribuíram para isso. Infelizmente o combustível, ou parte dele, continua lá.

O empenho dos envolvidos não está em causa. Os elementos da Marinha, com especial ênfase para o Serviço de Combate à Poluição, a Autoridade Marítima (incluindo a Polícia Marítima), Força Aérea, Vigilantes da Natureza, Bombeiros Voluntários, funcionários das Obras Públicas, Administração Portuária, Serviços de Socorros a Náufragos, Secretaria Regional do Ambiente e do Mar, Brigada Fiscal, DOP, Lotaçor, outras empresas locais e até os órgãos de comunicação social esforçaram-se dedicadamente por cumprir as respectivas missões. Prescindiram do Natal e das festas de passagem ano, muitos deles longe das famílias. O entendimento no terreno, à luz dos parcos meios humanos e materiais disponíveis e do fraco pré-planeamento existente, foi excelente. Infelizmente, não chega. Este país de papel, demonstrou, mais uma vez, que não está preparado para lidar na prática com o seu mar imenso. Será que irá acordar agora ou irá ser necessária mais uma desgraça? Espero que não.

PARTE 2 – Também no Faial, foi apresentada a Reserva Natural Regional do Lucky Strike e Menez Gwen. Esta arrojada iniciativa é coordenada pela Secretaria Regional do Ambiente e do Mar dos Açores e sucede-se a alguns anos de trabalhos científicos e de elaboração de propostas de gestão envolvendo os principais grupos interessados na protecção dos ambientes em causa. Com ela pretende-se classificar um património ambiental português de elevado interesse biológico, biotecnológico, geológico, geofísico e estético. Até meados de Fevereiro a proposta manter-se-á em consulta pública. Inacreditavelmente, a entidade fiscalizadora, a Marinha de Guerra Portuguesa, não esteve presente na cerimónia de abertura do processo. Até acredito que a Marinha possa estar a favor, mas a ausência de um dos principais intervenientes é como recusar dar a dignidade essencial para a protecção efectiva dos valores em questão. Ou se calhar até está contra e desiste antes de argumentar ou ouvir. Assim é muito difícil fomentar processos participativos consequentes.

Publicado na coluna "Casa-Alugada"

segunda-feira, 26 de setembro de 2005

Casa-Alugada Especial: Um País Entre Dois Tempos

Que fique claro: considero que houve uma evolução positiva no conhecimento do património marinho, na consciência ambiental e esforços de conservação marinha em Portugal nos últimos nove anos, durante os quais foram publicados 100 números da Revista Mundo Submerso. Infelizmente, aquilo que os interessados no conhecimento e conservação do mar, como eu, gostariam que acontecesse, de facto, não evolui com a velocidade por nós desejada. Esta assincronia entre o nosso desejo e a realidade deixa-nos, por vezes, à beira do desespero e a interrogar-nos se vale a pena. Por isso, é bom fazer um balanço e chegar, como penso que facilmente se chega, à conclusão que o balanço é positivo e que vale a pena continuar o esforço.

Mas comecemos um pouco atrás. Aquando da revolução dos cravos, para a generalidade dos portugueses, o mar não passava da via que tinha ajudado no engrandecimento da nossa nação há meio milénio atrás e dava o alimento à comunidade piscatória. Não tenho dados estatisticamente válidos sobre este assunto, mas é a minha percepção. Evidentemente que o Rei D. Carlos já havia dado um primeiro grande passo na exploração dos mares e que o Aquário Vasco da Gama, que desde 1898 espevitava a curiosidade dos mais e menos jovens e, indirectamente, alertava para a necessidade da sua preservação. É muito pouco, admitamos, para um país com jurisdição sobre uma área marinha dezassete vezes maior que a área terrestre. Para o grande público, o mar continuava a ser, basicamente, um infinito caixote do lixo ou uma fonte inesgotável de recursos vivos.

Houve, entretanto, uma série de eventos no pós 25 de Abril que deram uma outra perspectiva sobre o ambiente em geral e o mar incluído. Nesse sentido, sou forçado a admitir que a televisão deu uma grande ajuda. “O Homem e a Terra” de Félix Rodriguez de La Fuente, os programas do António Hipólito, o Comandante Jacques Cousteau a bordo do Calypso e Alcyone e, mesmo, o Ilhas Vivas de José Serra e Ricardo Serrão Santos, transformaram significativamente, entre meados dos anos 70 e 90, a percepção que Portugal tinha sobre o mar, sobre o seu mar. O livro Fauna Submarina Atlântica do Professor Luiz Saldanha deu à generalidade do público a primeira oportunidade de conhecer os organismos que habitam as nossas águas. Eu comecei a dar nomes aos peixes por conversas com os pescadores, mas aquilo que aprendi sobre taxonomia e ecologia, antes de entrar na universidade, devo-o ao excelente manual do Professor Saldanha. Regularmente, o Jornal Notícias do Mar também dava informações sobre caça-submarina e mergulho com escafandro autónomo.

A meio dos anos 90, quando surgiu a Revista Mundo Submerso, começou também a haver um outro tipo de consciência sobre os mares. À compreensão da beleza e riqueza, juntou-se, para o cidadão comum, a informação sobre o seu valor, a sua complexidade e a sua sensibilidade. O mar passou a ser algo de que nos orgulhamos, mas com o qual temos de ter cuidados muito especiais. Para esta alteração de visão contribuiu muitíssimo a Expo’98. Não há dúvida que a exposição internacional, completamente dedicada ao gigante azul, teve o enorme mérito de gerar um conjunto de iniciativas que puseram Portugal a adorar o mar. Antes, durante e após a Expo’98, e sempre catapultados por esta exposição, nasceram programas de televisão, regatas internacionais, uma miríade de pequenas iniciativas e um enorme alerta para a necessidade de preservar e, em diversos casos, recuperar, os nossos mares. À volta da Expo’98, digo eu, nasceram, cresceram ou ganharam crédito diversos cursos de biologia-marinha e oceanografia. Antes da Expo havia cursos na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, na Universidade do Algarve e no Instituto Abel Salazar. Hoje em dia quase todas as Universidades têm uma licenciatura ou mestrado nesta área. Um enorme salto.

Evidentemente que este salto, para quem gosta verdadeiramente de mar, sabe a muito pouco, muitíssimo pouco. Aqueles que sabem que ainda há poluentes a ser descarregados impunemente, que demasiadas pescarias prosseguem a níveis insustentáveis para os Mares e Oceanos, que o ordenamento costeiro continua a ser uma miragem e que as iniciativas de conservação marinha parecem sempre ser demasiado difíceis de implementar, consideram que Portugal continua a andar muito devagar. E com razão. No entanto, a verdade é que está melhor. Praticamente, já não se vêm esgotos a ser largados nas praias, as quotas pesqueiras estão na ordem do dia, as denúncias das más iniciativas na orla costeira costumam ser consequentes e já há algumas áreas marinhas protegidas. Em 9 anos, e 100 números de Mundo Submerso, Portugal tem-se reconciliado com o seu mar.

Por outro lado, ainda há sinais de uma perigosa apatia em relação aos recursos marinhos. Uma demagogia perigosa. Exemplifiquemos: Os dirigentes políticos continuam a considerar que a obtenção de quotas pesqueiras elevadas, ou tamanhos de primeira captura pequenos, é uma vitória para Portugal. Não faz sentido. É um tiro no pé a longo prazo. É necessário concretizar urgentemente as indicações científicas, incluindo essas e outras ferramentas de gestão.

Outro dos casos em que Portugal está a falhar é no Parque Natural da Arrábida. De facto, implementar um Parque Marinho é urgente, os próprios utilizadores (incluindo os pescadores) sabem disso. No entanto, tentar fazê-lo à sua revelia apenas pode ser justificado com razões científicas de extrema evidência. Os nossos dias não são compatíveis com restrições impostas “porque sim”. É necessário informar, explicar, expor, permitir a participação, e, um recado muito importante, é necessário saber ouvir, seguindo as sugestões construtivas de quem adora o salitre do mar e o vento na cara. Esses são os aliados e não os travões. No entanto, o “não, porque não”, como por vezes se ouve nas comunidades mais imobilistas, também não serve. Construir é um acto positivo no qual todos devem contribuir para um mundo melhor, esquecendo os seus mesquinhos benefícios resultantes da destruição do património ambiental.

É um país entre dois tempos. Entre o desespero de não vermos as opções a serem tomadas em função do bem, da justiça e da inteligência, mas sim, do facilitismo e populismo. Entre aquilo que é tão claro e aquilo que é possível. Entre o país que todos os anos destrói os seus recursos naturais (em terra e no mar) e o país que começa a perguntar “porquê?”. Parafraseando os Trovante estou cheio de “saudades de futuro”. No mar há apenas uma coisa infinita, a sua enorme capacidade de nos dar prazer. Às pessoas de bem resta continuar a fazer um esforço para que essa fonte se mantenha.


Publicado no âmbito da coluna Casa-Alugada

domingo, 26 de dezembro de 2004

Wangari Maathai


Propositadamente, não escrevi sobre este tema no mês passado. Como toda a gente sabe, uma notícia só fica na memória das pessoas durante, para aí, uma semana. Dada a enorme quantidade de informação que circula pelo éter é impossível ter memória suficiente para mais do que esse período. A única forma de garantir que um determinado tema se mantém na agenda durante mais tempo é relembrá-lo mais tarde. Sendo assim, aqui estou eu a dar a notícia em enésima mão: o prémio Nobel da paz foi atribuído este ano a uma ambientalista! É um prémio original por diversas razões, entre elas, por ser atribuído a uma mulher africana! É comum nos prémios Nobel, mas falha algumas vezes e por isso tem de ser referido: este prémio foi merecido.
Wangari Maathai é o nome da investigadora, ambientalista e activista social a quem foi atribuído o prémio Nobel da paz em 2004. O trabalho da laureada foi mais além do que a simples protecção do ambiente existente, ela fortaleceu o desenvolvimento ambientalmente sustentável através de organizações como o Green Belt Movement. Este movimento é responsável, por exemplo, pela plantação de 30 milhões de árvores, utilizando métodos que estão neste momento a servir de base para outras iniciativas. A ligação entre a política, o cidadão (e a família) e o ambiente, tão simples e, no entanto, tantas vezes ignorada, tem sido o alicerce do seu sucesso. Entre os métodos utilizados contam-se a educação, o planeamento familiar, a alimentação e a luta contra a corrupção. “Ela representa um exemplo e uma fonte de inspiração para toda a gente que, em África, luta pelo desenvolvimento sustentável, pela democracia e pela paz”.
Não deve ser nada fácil para uma mulher africana, mas Wangari Maathai é Licenciada e Mestre em Veterinária, conseguiu obter o grau de Doutora (a primeira no Centro e Este de África), é Directora de um Departamento Universitário (a primeira no seu país), é Deputada e é a Ministra do Ambiente, Recursos Naturais e Vida Selvagem do Quénia. A título de curiosidade refira-se que o seu marido, com quem teve três filhos, divorciou-se dela, nos anos 80, com a argumentação que de que Wangari Maathai era “demasiado educada, demasiado forte, tinha demasiado sucesso, era demasiado teimosa e demasiado difícil de controlar”, em resumo, um exemplo para todos nós.
Talvez, tão importante como o próprio prémio foi a argumentação, cuja leitura se aconselha entusiasticamente (em: http://nobelprize.org/peace/laureates/2004/press.html), que começa pela importante frase: “A paz na Terra depende da nossa habilidade para assegurar um ambiente saudável”. Fica assim reconhecido que para se alcançar a paz é necessário existir um meio ambiente saudável e que, por outro lado, caso este não exista estaremos a meio caminho para a hostilidade.
Inspirado por este prémio, resolvi dar uma olhada nos prémios e motivos das atribuições anteriores. Claro que o nosso destaque vai para D. Ximenes Bello e Ramos Horta, mas a galeria de laureados inclui enormes personalidades do nosso tempo como Martin Luther King, Jimmy Carter, Koffi Anan, Madre Teresa de Calcutá, Nelson Mandela, Fredrik de Klerk, Mikhail Gorbatchev, Tenzin Gyatso (mais conhecido por Dalai Lama), Desmond Tutu, Andrei Shakarov ou Albert Schweitzer. Este prémio já foi atribuído a diversas instituições de mérito como as Nações Unidas, a Cruz Vermelha Internacional ou os Médicos sem Fronteiras. Na minha opinião, a Comissão Nobel cometeu enormes “gaffes”. Entre esses erros, o que me parece mais escandaloso foi a atribuição do prémio a Henry Kissinger...
Espero que este prémio não iniba o avanço da ideia de atribuir o prémio Nobel da Paz de 2005 a mil mulheres. Poderá encontrar mais detalhes sobre este interessantíssimo projecto emhttp://www.1000peacewomen.org/. Nele é enfatizada a ideia que por trás de cada conflito, de cada problema e de cada solução, estão mulheres de enorme coragem, inteligência e imaginação que, por vivermos num mundo eminentemente masculino, acabam por não ter o protagonismo e reconhecimento que merecem. Tal como para todas as mulheres e homens deste planeta que lutam pelo bem e pela justiça, desejo as melhores felicidades para este projecto.

Publicado na coluna "Casa-Alugada" da Revista Mundo Submerso

sexta-feira, 26 de novembro de 2004

Trópicos Açoreanos


Quando entramos dentro de água, numa área onde já mergulhámos dezenas de vezes, e algo que não encaixa no quotidiano local, significa que qualquer coisa está mal. Se consultarmos os Manuais de mergulho eles dirão: “suba, respire fundo e decida sobre a continuação ou não do mergulho. Caso tenha dúvidas, aborte a imersão.” Absolutamente de acordo. Mas naquele dia, em que mergulhava no local conhecido pelo nome de código como “Secret Spot - Faial B”, e em que pela primeira vez utilizava ar enriquecido em oxigénio, achei que não; algo estava mal, mas resolvi não subir. Insisti em tentar perceber o que não encaixava. Rodei o corpo 360º em busca da incoerência. Passados alguns segundos, lá estava. Tinha à minha frente um peixe estritamente tropical. Sinal de alarme! Um peixe tropical nos mares dos Açores!! Agora o manual estava ao rubro: “suba”! “SUBA!” A pressão parcial do Oxigénio estava certamente a fazer das suas. Estupidamente, insisti novamente, tinha de identificar a espécie. Olhei com mais cuidado. Corpo espalmado, com forma quase quadrangular, branco, lista preta à frente, lista preta atrás. Chaetodon sedentarius! Estava na frente de um verdadeiro Chaetodon sedentarius de nome comum peixe-borboleta-dos-recifes. Esbracejei em direcção aos meus colegas de mergulho, tentando chamar-lhes a atenção para a minha descoberta (ou loucura...). Ninguém me ligou. Nadei até ao colega mais próximo, toquei-lhe no braço, apontei para o peixe... mas... o peixe já se tinha escondido. Verme! Como é possível? Nadei novamente na direcção onde o tinha visto pela última vez, esperei um pouco e lá estava ele. Olhei para os meus colegas, mas já estavam todos embevecidos com as curiosidades reconhecidas deste secret spot. Desesperei... Devia estar, definitivamente, a ter uma alucinação. Estava no momento de subir e cumprir as regras de segurança descritas no Manual. “Se algo não parece bem é porque está mal”, recordei. Entristecido, recusei olhar mais na direcção daquela ilusão óptica. Arrumei a máquina fotográfica, e dirigi-me para o cabo de mergulho. Quando estava a ir nessa direcção, notei alguma agitação. Voltei-me. Para meu espanto todos os meus colegas esbracejavam na minha direcção, “saltando” de excitação, pela “descoberta” do MEU Chaetodon sedentarius. O lado positivo é que não estava intoxicado pelo Oxigénio, nem pelo Azoto, e, estava mesmo um peixe-borboleta a passear-se pelas águas do Faial. Aproveitei o encurralar fornecido pelos meus colegas e tirei uma ou duas fotos.
Não é a primeira vez que este peixe é avistado nos Açores. No final dos anos 90, perto do Redondo da Doca da Horta, já o Jorge Fontes tinha registado esta ocorrência. Nesse período, hordas de mergulhadores revezaram-se para ver o animal até que este, provavelmente farto de não ter privacidade, desapareceu. Agora, vários anos depois, temos um novo exemplar. Será para ficar? Como cá chegou? Será o primeiro de uma nova população? A sua aparição estará relacionada com as mudanças globais ou terá sido um iatista oriundo da República Dominicana que resolveu mudar a água do aquário? É tão bom ser biólogo marinho! Temos sempre imensos enigmas para resolver, basta ir para dentro de água.
Publicado na coluna "Casa-Alugada" da Revista Mundo Submerso

terça-feira, 26 de outubro de 2004

Protegendo os Mares dos Açores

No dia 9 de Setembro esteve na Horta (Açores) o deputado europeu Sérgio Ribeiro. Durante esta visita, que se prolongou depois por Ponta Delgada, tentou obter dados para enriquecer e argumentos para fortalecer a proposta da Comissão Europeia sobre a protecção dos recifes de coral de profundidade dos Açores, ou seja em termos mais práticos, a proibição da pesca de arrasto de fundo nos mares dos Açores.

Durante esta visita o deputado europeu reuniu-se com responsáveis políticos, associações de pescadores e cientistas. A força partidária que elegeu o deputado Sérgio Ribeiro para o Parlamento Europeu, a Coligação Democrática Unitária, dinamizou um colóquio público para discutir o tema. Escusado será dizer que a ideia é boa! É bom partilhar com todos os interessados o problema em causa, apontar soluções e apelar para a obtenção de novos contributos. Pena é que os políticos se preocupem muito com o acessório e com o ego, perdendo tempo precioso a explicar ou a responder ao que não é necessário, e não ouvindo assim o essencial ou escapando ao mais importante. Numa época em que, cada vez mais, se pretende apelar à participação dos cidadãos, os políticos terão de aprender a fomentar o diálogo, pensando sempre que o seu papel é de informar, apelar construtivamente à participação, integrar os contributos e sumariá-los.

Voltemos à protecção dos mares dos Açores. A Comissão Europeia estava muito interessada em abrir os mares dos Açores às frotas da União. O argumento base é que se existe um recurso disponível no território da União ele deverá poder ser explorado por qualquer cidadão Europeu. Talvez para que não restassem dúvidas na aplicabilidade desta argumentação, a Comissão precipitou-se na abertura das águas dos mares dos Açores esquecendo-se das sensibilidades específicas desta área. Agora, diversos meses após a abertura, finalmente chega ao Parlamento Europeu o texto que defende um dos habitats dos mares dos Açores. “Mais vale tarde que nunca” é verdade, mas enfatizo que existem outras fragilidadesambientais conhecidas e que não estão acalentadas neste ou noutro documento. A maior fragilidade omissa neste documento é a escassez dos recursos. Ou seja, vão pescar o quê? Durante quanto tempo? Claro que a maioria dos países europeus não estão preocupados com isso. Têm os seus próprios problemas e pouco devem saber de Portugal, quanto mais dos mares dos Açores. Preocupa-me que a gestão dos recursos biológicos seja feita à distância e por entidades que ou não conhecem a realidade local ou estão demasiado interessados para poder dar um contributo isento.

Aliás, porque é que Franz Fischler nunca veio aos Açores? Porque não esteve em qualquer edição da Semana das Pescas? Não acredito que não tenha tido coragem, penso apenas que, de facto, estamos demasiado distantes, somos, para ele, pouco importantes. Segundo consta, o novo Comissário para as Pescas e Assuntos Marítimos será Joe Borg, de Malta. Era bom começar desde já a cativar a atenção deste Comissário para as especificidades das águas portuguesas.

Evidentemente que o ideal era que as regras que se aplicavam anteriormente, e que impediam as frotas internacionais de pescar nas nossas águas se mantivessem, mas, como não é possível, ao menos que se estipulassem atempadamente regras para evitar: 1- o esgotamento dos recursos, 2- destruição dos habitats e 3- introdução de novos problemas sociais. Que regras? Começar por fazer com que a gestão das águas dos Açores passasse também pelos próprios Açoreanos. Até poderia ter a Comissão Europeia a última palavra, por forma a precaver bairrismos injustificados, mas que a gestão começasse nos Açores com um painel de políticos (como representantes dos cidadãos), cientistas (para estabelecer a capacidade de carga do ambiente marinho), pescadores (incluindo armadores) e organizações não governamentais para o ambiente.

Na minha modesta opinião, dar a gestão às populações locais seria o primeiro passo para uma utilização cuidada do ambiente marinho. Caso desse certo, poder-se-ia aplicar este modelo a outras regiões da Europa, caso não funcionasse poder-se-ia voltar ao modelo actual. Como está, não irá funcionar. Não funcionou no Norte da Europa (onde se está a destruir a pesca de bacalhau) e não há razão para vir a funcionar nos Açores.

Passei os últimos dias a mergulhar em diversos locais dos Açores. Mais uma vez pude constatar a consequência lógica da falta de fiscalização, havendo pouca diferença entre as zonas exploradas e as áreas marinhas protegidas. Apesar disso, os Açores continuam a ser um marco no bom mergulho com escafandro autónomo de Portugal. Vi grandes animais, com boa visibilidade, fundos dinâmicos e a temperatura continua amena. Ainda vale a pena lutar pelo mar dos Açores!


Publicado na coluna "Casa-Alugada"

quinta-feira, 26 de agosto de 2004

Redes de Excelência

As Redes de Excelência nasceram fruto do estímulo financeiro dado pelo VI Programa Quadro da União Europeia. Estas estruturas virtuais têm como objectivo unir as melhores instituições de investigação científica da Europa em cada área e em torno de objectivos úteis. A instituição para que trabalho, o Departamento de Oceanografia e Pescas da Universidade dos Açores (DOP), pertence à Rede de Excelência para o Estudo da Biodiversidade e Funcionamento dos Ecossitemas Marinhos (cujo o acrónimo em inglês é MARBEF). Tal como se lê na mensagem do coordenador geral Carlo Heip na página internet do MARBEF (http://www.marbef.org) o objectivo desta rede é concertar esforços entre cientistas e instituições por forma a criar um instituto virtual de dimensão europeia que proceda a investigação a longo prazo, com ligações à indústria e ao público em geral. Para além da coordenação da investigação, este processo envolverá o treino, troca de experiências e a divulgação das actividades nos diversos temas científicos incluindo ecologia marinha e biogeoquímica, biologia pesqueira, taxonomia e ciências sócio-económicas. Tudo isto sob o patrocínio da União Europeia para que, em permanência, a Comissão, os Estados membros e os Estados associados possam ter uma melhor integração dos estudos científicos por forma a responder aos desafios que são emanados da Convenção para a Diversidade Biológica, Convenções OSPAR e Barcelona e Directivas Aves, Habitats e da Água. Para além disso é objectivo da rede MARBEF dar apoio ao desenvolvimento sustentável de empresas que se baseiem na exploração dabiodiversidade marinha, como o turismo, as pescas, a aquacultura e um sem número de indústrias que recorram à exploração biotecnológica de produtos marinhos.

A nível nacional, entre os 56 parceiros do MARBEF e para além do IMAR-DOP, também o CIMAR faz parte desta Rede de Excelência. Curiosamente, ambas estas instituições fazem também parte de dois dos 15 Laboratórios Associados reconhecidos pela Fundação para a Ciência e Tecnologia de Portugal (FCT). Com os Laboratórios Associados a FCT pretende reforçar as instituições de investigação científica e tecnológica visando vencer o atraso científico, expandir a produção científica, o desenvolvimento tecnológico e a inovação. No total, em Portugal, os Laboratórios Associados integram 800 doutorados e mais de 2200 investigadores. Segundo os dados da FCT, o investimento previsto para estes Laboratórios ascende a 238 milhões de Euros em 10 anos. O DOP, em conjunto com o ISR, CREMINER e IN+ fazem parte do Laboratório Associado do Instituto de Sistemas e Robótica e o CIMAR aglutina o CIIMAR-Porto e CCMAR-Algarve noutro Laboratório Associado.

Algumas destas instituições, como é o caso do DOP e a maioria das Universidades Portuguesas que estudam o mar, estão unidas a um outro nível através de um Instituto de Investigação muito particular, o Instituto do Mar (IMAR).

O exposto enfatiza que realmente os cientistas estão a criar as parcerias e as redes necessárias para que possam adequadamente proceder à sua investigação. Através destas estruturas partilham equipamentos, recursos financeiros (que normalmente são escassos) e experiência.

Recentemente estive envolvido, em representação do meu Director, Ricardo Serrão Santos, numa reunião da Rede MARBEF. Aí pude compreender o alcance e a importância deste tipo de estruturas. De facto, ter perto de nós os melhores da Europa em cada especialidade dá uma projecção muito particular à nossa imaginação. Tudo o que dizemos é imediatamente esquadrinhado e purgado à luz dos mais avançados estudos científicos. De facto, esta conjunção entre a diversidade cultural da Europa e o esforço para agir em rede poderá ter resultados muito interessantes. Dêem-nos apenas tempo.


Publicado na coluna "Casa-Alugada"