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terça-feira, 3 de janeiro de 2012

2012, o Ano Mar!


As mantas são um dos tesouros do Mar dos Açores.


Graças aos seus territórios ultraperiféricos e ultramarinos, a França é considerada uma enorme potência marítima a nível mundial, talvez, hoje em dia, apenas ultrapassada pelos Estados Unidos da América e, eventualmente, pelo Reino Unido. Analisando o rácio entre o território marinho e terrestre, de facto, a França apresenta uma relação de 17 para 1. Ou seja, por cada quilómetro quadrado em terra, aquele país tem 17 de mar. Assim, entende-se o porquê desta propensão para o estudo e a ocupação estratégica militar do mar sob a sua jurisdição. Os investimentos feitos em navios científicos como o fabuloso “Pourquois pas?” ficam explicados.
No caso de Portugal, esta relação, curiosamente, é um pouco superior, é de 18 para 1. Ou seja, por cada quilómetro quadrado de terra há 18 de mar. Penso que esta relação justifica plenamente o desejo de retorno do nosso país ao gigante azul e confirma o interesse do investimento nas plataformas de investigação marinha como sejam o “D. Carlos”, o “Gago Coutinho” e o “Luso”. Também, nesta mesma perspectiva, faz todo o sentido pensar em delimitar oficialmente a nossa plataforma continental, o que faria esta relação crescer para 39:1!
Mas, no nosso arquipélago, estes valores atingem uma dimensão completamente diferente, quase estonteante! A relação entre o mar e a terra no arquipélago é de 387 para 1. É um rácio que aponta, claramente, o caminho a seguir ou, parafraseando o Presidente do Governo dos Açores, “o mar é o futuro!” No entanto, esta aventura numérica está longe de terminar por aqui. Se, como é expectável, a intenção de extensão da plataforma for aceite, nos Açores passaremos a ter uma relação de mil para um. Ou seja, cada açoriano, muito mais do que se preocupar com o seu hectare de terra ou com os seus três metros de linha de costa, deveria olhar claramente para os 10 quilómetros quadrados de mar que o esperam. Para os açorianos em particular, “o mar é o futuro!”
Apenas com o que escrevi até aqui, já faria todo o sentido pensar no mar como o grande motivador do progresso nos Açores. Na realidade, no entanto, temos de ser muito mais exigentes que isso. É necessário perceber o que fazer com estes milhões de quilómetros cúbicos de água. O que fazer com tanto e tão profundo fundo marinho?
Obviamente, há uma estratégia montada que assenta no conhecimento, na planificação, na aposta na sensibilização ambiental, também como ferramenta de adopção patrimonial, e no empreendedorismo privado. Os primeiros resultados, já com diversas certificações internacionais, confirmam o rigor e a pertinência do percurso escolhido pela Região.
Os cientistas dos Açores, particularmente desde a fundação da Universidade, em conjunto com diversos parceiros nacionais e internacionais, estudam detalhadamente os nossos mares. Desde a componente aérea, onde se incluem as aves marinhas, passando pela circulação oceânica das grandes massas de água, os mananciais de pescado e a geologia e dinâmica dos fundos, todos os detalhes têm sido escalpelizados. Como quaisquer cientistas, mais do que respostas, têm encontrado novas perguntas, novos desafios para debelar. Graças a estes conhecimentos, aprendeu-se nos Açores a encarar o mar não como uma fronteira ou um caminho tormentoso, mas sim como um bem patrimonial a respeitar e a preservar e uma fascinante oportunidade de alicerçar o progresso.
Testemunhas do efeito positivo da sensibilização ambiental, a campanha “SOS Cagarro” envolve milhares de açorianos todos os anos. Graças a ela, esta ave está mais protegida. Também, o “Açores Entre Mares”, actividade de adesão participativa que decorre entre o Dia Europeu do Mar e o Dia Mundial dos Oceanos, gera dezenas de actividades de acção e promoção do Ambiente Marinho.
Em paralelo, alguns empreendedores, assentes na informação científica recolhida, começam a transformar dados em projectos de investimento. Alguns deles estão no mar e apresentam já resultados economicamente muito favoráveis. Para além das actividades tradicionais, como o transporte marítimo, as pescas e a extração de inertes, há novas actividades turísticas implementadas e começam a aproximar-se interessados na exploração dos grandes fundos oceânicos.
Entre as actividades turísticas, destacam-se a navegação de recreio, que tem tido valores sempre crescentes nos Açores nos últimos anos. Espera-se que, com os investimentos realizados na rede regional de marinas, venham ainda a ampliar-se os actuais registos.
A observação de cetáceos, que começou como uma actividade quase familiar na ilha do Pico, hoje movimenta dezenas de milhares de turistas e gera rendimentos brutos superiores a duas dezenas de milhões de euros anuais. Com a extensão da observação a todas as ilhas, o que ainda não aconteceu, prevê-se também neste caso um aumento sustentável.
Até há pouco tempo, o mergulho com escafandro autónomo praticamente não tinha expressão no nosso arquipélago. Mesmo com uma temperatura de água muitíssimo razoável, visibilidades fantásticas e peixes de grande porte, parecia faltar qualquer coisa. Com os investimentos feitos pelos empreendedores e autoridades nas ilhas de menor dimensão, como a Graciosa, o Corvo, Santa Maria e as Flores, esse problema ficou ultrapassado. Agora, com a descoberta das agregações de tintureira, aparentemente, esta actividade irá crescer abruptamente. Penso que deverá haver cuidado no tentar aumentar os rendimentos e não na massificação do mergulho, embora, claramente, ainda haja espaço para crescimento. No entanto, mais do que trazer mais pessoas para o arquipélago, terá de haver uma clara orientação no sentido da manutenção da excelência.
E os Açores, com todos os prémios e reconhecimentos que receberam nos últimos anos (Reservas da Biosfera, QualityCoast, OSPAR, Rede Natura 2000, EDEN…) são mesmo considerados um local de excelência, onde o homem vive em harmonia com a natureza. Mais do que não podermos estragar essa imagem, temos de manter e melhorar os factos que a sustentam.
Tudo o que referi até aqui é o que os economistas chamariam de business as usual ou, como os artistas diriam, “não há aqui uma ideia rasgada”! Pois não. As ideias inovadoras estão para lá do horizonte e, as melhores ainda, estão a milhares de metros de profundidade.
Quem conseguir implementar uma ideia de aproveitamento energético do largo açoriano, talvez associado à captura de Carbono, como seja o cultivo de algas, aí sim, haverá inovação revolucionária que poderá catapultar o progresso dos Açores.
Junto das fontes hidrotermais há organismos que não necessitam de luz para gerar alimento, que resistem a temperaturas altíssimas, conseguindo mesmo recuperar o próprio DNA nos casos mais extremos, e que vivem “felizes” em ambientes diversas vezes mais poluídos que a mais industrializada das cidades emergentes do nosso planeta. Como conseguem? Que soluções biológicas poderíamos daqui retirar? Que fármacos poderiam daqui advir? Na Universidade dos Açores já há muitas ideias sobre estas questões, faltando apenas que o empresário empreendedor e inteligente se aproxime.
Nos fundos oceânicos em volta e nas fontes hidrotermais os cientistas descobriram jazidas de minerais como Cobre, Zinco e Ferro, encerrados nos chamados sulfuretos polimetálicos. São conhecidas as localizações de algumas destas jazidas à superfície, mas ninguém sabe até que profundidade se estendem. Se for até pouca profundidade não se justifica a exploração, mas se este aspecto tridimensional se prolongar além fundo estaremos perante autênticas fortunas. É cedo para lançar foguetes, mas é essencial pensar estrategicamente sobre este potencial. Nem nos Açores, nem sequer em Portugal, há tecnologia que nos permita sondar e, muito menos, explorar estes locais, mas isso não significa que nos devemos abster e deixar que explorem os nossos fundos sem contrapartidas justas. Não! Teremos de ser parceiros activos e garantir que, de forma perene, grande parte dos dividendos ficam na nossa Região, enriquecendo o nosso País.
Dando os primeiros passos nesta “batalha”, o Governo, como lhe competia, estruturou o Parque Marinho dos Açores. Nele, incluindo já vastas áreas para lá da Zona Económica Exclusiva, estão delimitadas as zonas ambientalmente mais sensíveis. Resultado de um trabalho científico e político de anos, o Governo conseguiu garantir a reserva de certos espaços para a salvaguarda da biodiversidade e para os estudos não intrusivos.
Nesta sequência, está agora a ser elaborado o Plano de Ordenamento do Espaço Marítimo que, incidindo sobre todo o alto mar a ser delimitado por Portugal em volta dos Açores, incluirá referências às novas dinâmicas dando-lhes território, abrindo o caminho e ajudando a que se estabeleçam. Este percurso, a que a Comissária Europeia Damanaki chamou de “Crescimento Azul”, começa, escrevo-o com orgulho, a ter a primeira consumação no Arquipélago dos Açores. Para que o percurso seja realizado até ao final, teremos também de estar particularmente atentos ao desenvolvimento do Plano de Acção da Estratégia para o Atlântico, recentemente lançado pela Comissão em Lisboa.
Para tornar tudo isto numa realidade efectiva, para passarmos da oportunidade ou do potencial aos euros e aos empregos, temos de dar um passo muito importante em 2012. É necessário que os açorianos se entreguem ao mar, que partam da boa ciência e descubram onde estão os métodos para que se consubstancie esta metamorfose de forma elegante. Realisticamente, sabemos que não será em 2012 que os investimentos surgirão, até porque o investimento responsável, mesmo que inclua um elevado grau de risco, demora tempo a concretizar-se, mas será em 2012 que ficará claro se conseguiremos agarrar este mar que é nosso e contribuir com firmeza para que se faça Portugal! Estou certo que os Açores, pelo exemplo do que já são, irão conseguir vencer este entusiástico desafio.
Feliz 2012, o ano Mar!

Declarações transformadas em reportagem e publicadas no Jornal Correio dos Açores a 3 de Janeiro de 2011.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Os Cagarros!


Jovem cagarro no ninho
Foto: PH Silva SIARAM

Tenho acompanhado na internet, via Facebook, algumas dúvidas sobre a adequação da “Campanha SOS Cagarro”. São dúvidas legítimas e oriundas de pessoas que não se limitam a absorver a informação disponível. Querem saber mais e querem saber porquê. Pessoalmente, considero a dúvida uma das mais importantes características humanas e, por essa razão, tenho-me empenhado em esclarecê-las de imediato. No entanto, para um público mais alargado, aqui ficam algumas considerações.
Os cagarros, ou cagarras como lhes chamam nalgumas ilhas, são aves marinhas extraordinariamente bem adaptadas ao seu meio. Por essa razão, é quase totalmente correcto quando se afirma, e bem, que não precisam da nossa ajuda e que até agradeceriam se não os perturbássemos. O problema é que nós os perturbamos. Ou seja, a nossa qualidade de vida tem interferência directa no ciclo biológico dos cagarros desde que chegámos às ilhas, há cinco séculos atrás. Nos primeiros tempos, interferíamos capturando-os (para alimentação, uso do óleo e uso de penas), depois com a ocupação do espaço que utilizam para nidificação e, mais recentemente, com o uso massivo de luzes. Na realidade, os cagarros, espécie que se salva nesta época, não foi a espécie de ave marinha dos Açores que maior declínio sofreu com a presença do homem. Há indicações que os estapagados seriam os mais abundantes, mas que os primeiros colonizadores os terão dizimado até níveis hoje bastante reduzidos. Nunca recuperaram o seu efectivo inicial.
Voltando aos cagarros. Estes animais põem apenas um ovo por ano. Se esse ovo não tiver sucesso, não haverá nova postura, como acontece, por exemplo, com as gaivotas. Isso significa que o casal fará um enorme esforço para que aquele ovo tenha sucesso. Assim, o macho e a fêmea, durante o período de incubação, ir-se-ão substituindo no ninho garantindo que o ovo está quase sempre acompanhado. Como o esforço de 55 dias de incubação é grande, se os progenitores tiverem a garantia que o ovo não irá ter sucesso por, por exemplo, ter-se partido, abandonam-no de imediato. Uma das razões que pode levar ao abandono é a demora do parceiro nas saídas para a alimentação. Ou seja, entre a cria ou a própria vida, os cagarros optam pela segunda.
Apesar disso, e como é muito importante o sucesso da nidificação, os cagarros, em caso de dúvida, continuarão a incubar o ovo. Investigadores da Universidade dos Açores já viram cagarros a incubar ovos visivelmente (e olfactivamente) putrefactos.
Também pode acontecer que um dos progenitores tenha um acidente durante a época reprodutiva ou que tenha de viajar para uma longa distância, por exemplo por falta de alimento nas zonas circundantes do ninho. Em qualquer destes casos, será fatal para o ovo.
Até aqui, tudo é natural. Ou seja, está no que pode ser referido como mortalidade sem influência do homem. Os problemas começam com o nascimento do pinto.
Durante os primeiros dias, o pinto terá sempre a companhia de um dos progenitores, para o manter quente e alimentar e isso contribuirá para a sua provável sobrevivência. Depois desta fase inicial, os pais terão dois tipos de voos. Um voo curto, para ir buscar alimento para o pinto, e um outro longo, para ir buscar alimento para si próprios. Este voo longo implica deslocações de milhares de quilómetros.
Os cientistas ainda não têm a certeza da razão porque os cagarros fazem dois tipos de voos, mas adiantam duas hipóteses: ou não há alimento suficiente para os pintos e adultos em volta das ilhas dos Açores, ou os cagarros precisam de outro tipo de alimento, por exemplo mais nutritivo que ocorre nas águas mais ricas e frias do Atlântico norte. A tendência é para aceitar a primeira, mas ainda não está completamente claro.
Normalmente estas viagens são alternadas de modo a que a cria seja alimentada à noite com alguma frequência por um dos progenitores. Apesar de surpreendente, o que referi neste parágrafo está cientificamente estudado pela Doutora Maria Carvalho, do Departamento de Oceanografia e Pescas da Universidade dos Açores (DOP), que colocou transmissores e seguiu os cagarros por via satélite. Se a falta de alimento implicar a saída dos dois pais, o pinto, especialmente nos primeiros dias estará totalmente vulnerável ao ataque de gatos e ratos. Repare-se que não existiam gatos nem ratos nas ilhas antes do homem cá chegar, portanto, é mesmo nossa responsabilidade o que lhes acontece neste período e, pior, ainda não encontrámos forma de contrariar este efeito.
No final deste período, os cagarros terão de "explicar" ao seu pinto que está no momento de ele seguir a sua vida. Na maioria dos casos, a forma de dar esta explicação é um pouco cruel: os pais abandonam os pintos nos ninhos. Neste período em que estão sós, os pintos são especialmente susceptíveis aos ataques por gatos. Normalmente, nesta fase, os ratos já não se conseguem impor às crias que, entretanto, ganharam uma massa corporal que impõe algum respeito.
Na ilha do Corvo, a Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves fez um trabalho científico em que estimou que a mortalidade nos ninhos é de 60%. Este número deveria, naturalmente, rondar os 35%. É um número verdadeiramente assustador e é responsabilidade do homem.
Depois, os 40% que conseguem sobreviver, saem dos ninhos, esticam as asas e fazem o primeiro voo. Como já foi referido, estes jovens cagarros viveram sempre dentro dos ninhos, portanto, nunca viram qualquer luz até iniciarem os procedimentos para o primeiro voo. Ao sair, à noite, são confrontados com a iluminação pública, os faróis de sinalização marítima e as luzes dos carros. Atrapalhados ou não, alguns caem nas estradas e nos quintais. Se nada se fizer, estes cagarros são presas fáceis para gatos e cães e, muitos deles, são também colhidos fatalmente pelos automóveis. Repare-se que eles caem por causa do homem, caem em estruturas feitas pelo homem, são vítimas de animais introduzidos pelo homem ou são atropelados por máquinas feitas pelo homem. Nós temos, de facto, responsabilidade.
Por estas razões todas, o mínimo que podemos fazer é dar uma ajuda a estas aves e colocá-los junto à costa de onde poderão partir quando considerarem adequado. Nunca se deve atirar um cagarro para dentro de água. Coloca-se perto da água e ele partirá quando considerar que está pronto.
Dos jovens cagarros que saem dos ninhos e caiem sobre as estradas, hoje em dia, 90% são salvos pela “Campanha SOS Cagarro”. É um número, de facto, enorme. No entanto, há ainda 10% que são atropelados, embatem fatalmente contra os edifícios sobre iluminados ou são atacados pelos animais domésticos.
Já agora, completando a história, o que acontece a seguir é o seguinte. Destes cagarros, nem todos terão a capacidade de se alimentar em tempo. Repare-se que eles apenas saíram dos ninhos porque estão esfomeados. Muitos, portanto, acabarão por morrer de fome. Estima-se que 50% morram de fome. Se admitirmos que os humanos não têm influência na abundância do pescado de que se alimentam os cagarros, esta é uma componente da mortalidade que é natural. Sendo mortalidade natural, não temos o dever ou sequer o direito de interferir.
Neste período, depois de chegarem à água, os jovens cagarros reúnem-se em enormes bandos em volta das ilhas. Disse-me um amigo pescador que os cagarros estão, neste preciso momento, nestes bandos em volta da ilha do Faial. Oxalá se consigam alimentar!
Depois, irão passar cinco anos seguidos no mar sem nunca pisar terra. Circularão entre o Oceano Atlântico Norte e Sul e, alguns, já foram detectados mesmo no Oceano Índico. São viagens enormes. É para ter a certeza de onde veem e para onde vão que tentamos anilhar os cagarros. É mais uma interferência do homem e que se justifica para tentarmos aprender mais sobre a circulação global. Ao mesmo tempo, sabendo o ano em que foram anilhados e contando os que regressam, ficaremos a saber muitas outras informações sobre o seu ciclo de vida. É por isso que é tão importante a sua anilhagem.
Apesar de chegarem a terra pela primeira vez quando têm cerca de 5 anos, eles não se reproduzem de imediato. Irão amadurecer durante mais três ou quatro anos até que estejam aptos a fazer ninho, encontrar parceiro e a reproduzirem-se. É nestas vindas anuais a terra que os cagarros, já adultos, irão aprender a conviver com as luzes e, como notamos nos cagarros mais adultos, ganharão a habilidade de não ficarem tão perturbados com as mesmas.
Segundo os estudos do Doutor Joël Bried, do DOP, os cagarros são animais razoavelmente fiéis. Isto é, depois de encontrarem um parceiro, se nada de mal lhes acontecer, manterão a relação para o resto da vida. Há casos de divórcios, mas são raros (18%). Durante o Inverno separam-se em busca de alimento, mas, no início da Primavera encontram-se junto de terra. Para evitar os predadores, os bandos de cagarros encontram-se todos os finais de tarde junto às ilhas, esperando o anoitecer, e depois sobrevoam as costas, cantando a música que apenas o parceiro conseguirá decifrar.
Esta característica, de virem para terra apenas ao anoitecer, é provavelmente uma adaptação aos predadores. Na Selvagem Grande do arquipélago da Madeira, em que não há predadores, os cagarros chegam a terra ainda durante o dia. Por curiosidade, sem razão aparente, o mesmo não acontece na Selvagem Pequena. Será que já ali houve predadores…?
Depois de se encontrarem, os casais de cagarros farão os procedimentos nupciais e o ciclo reinicia-se.
Em termos numéricos, os 188 mil casais existentes nos Açores, dada a competição por ninho e incapacidades reprodutivas naturais, põem 170 mil ovos. Destes, 68 mil saem actualmente dos ninhos. Caso não houvesse a Campanha SOS Cagarro, cinco a dez mil morreriam em terra. Portanto, chegariam ao mar 58 mil. Destes, morrem naturalmente metade, ou seja, 29 mil poderiam partir para a primeira migração para Sul. Se o homem  e seus animais introduzidos não existissem, a mortalidade nos ninhos seria mais baixa, não havia mortes na saída e, portanto, mesmo com 50% de mortalidade no mar, por fome, teríamos cerca de 55 mil cagarros.
Ou seja, números crus, o homem implica uma redução anual no sucesso reprodutivo dos cagarros de 55 mil para 29 mil animais. Uma redução de quase dois para um. Se podemos ajudar um pouco com a “Campanha SOS Cagarro”, penso que temos o dever moral de o fazer.
Com este acto, subimos os valores dos Cagarros na primeira migração de 29 para 34 mil aves. Pode parecer pouco, mas é um aumento de 17%. Nós podemos influenciar em 17% por cento por ano o sucesso desta espécie. Vamos ficar a olhar para eles na berma da estrada ou agir? Penso que a resposta é simples e este ano foi positivamente partilhada por mais de 4700 açorianos. Não apenas salvaram cagarros, como reduziram a iluminação pública e privada e tiveram cuidados adicionais com a condução.
Como referi anteriormente, embora não seja uma questão que esteja estudada cientificamente, as ilhas que mais cagarros têm são aquelas em que há historicamente mais empenho na “Campanha SOS Cagarro”. Este facto indicia a importância e consequência desta acção. Vemo-nos na “Campanha SOS Cagarro 2012”?
Todas estas questões são escalpelizadas no sítio internet http://soscagarro.azores.gov.pt.

Pubicado no Jornal Tribuna das Ilhas de 2 de Dezembro de 2011
Publicado no Jornal Correio dos Açores nos dias 6 de Dezembro e 7 de Dezembro de 2011

domingo, 24 de julho de 2011

Missão M@rbis 2011

Apesar dos grandes peixes ainda estarem ausentes, já é possível ver no Dollabarat meros com porte apreciável. Foto: MA Santos SIARAM.

Decorreu de 15 a 18 de Julho a segunda parte da Expedição M@rbis 2011. Neste período em especial, foi explorado o complexo das Formigas e Dollabarat. Depois da Madeira (Desertas e Porto Santo), o NTM “Creoula” deslocou-se aos Açores, onde se juntou ao NI “Arquipélago” e a diversas equipas científicas regionais e elaboraram um dos mais intensivos e extensivos programas de pesquisa científica efetuados neste fascinante recanto do nosso arquipélago. Esta missão teve a organização da Estrutura de Missão para os Assuntos do Mar (EMAM) e colaboraram, na componente açoriana, o Governo dos Açores e o Departamento de Oceanografia e Pescas (DOP) da Universidade dos Açores.
A Expedição M@rbis, em termos gerais, é uma ação da EMAM e tem como principal propósito a recolha de informação georreferenciada e de alta qualidade sobre a presença de espécies e habitats nas águas portuguesas. A informação recolhida é depositada numa poderosa ferramenta informática, denominada também M@rbis, e estes dados servirão para responder a questões relacionadas com o acompanhamento da delimitação da Plataforma Continental de Portugal e a monitorização da Rede Natura 2000.
O complexo das Formigas e do Dollabarat já é estudado desde há muitos anos. O primeiro registo de que tenho conhecimento sobre a biologia destas Formigas especiais é dado pelos trabalhos do Padre Gaspar Frutuoso, em pleno século XVI, referindo a presença de lobos-marinhos nos ilhéus. Depois disso, pouco foi feito até que, com o advento da Universidade dos Açores, o Departamento de Biologia (DB) e o DOP puseram as mãos ao trabalho. Neste momento, há séries temporais de mais de uma dezena de anos com estudos detalhados sobre este extraordinário complexo. Foram estas informações que conduziram à classificação deste local como Reserva Natural no âmbito do Parque Natural de Santa Maria, Zona Especial de Conservação da Rede Natura 2000, Área Marinha Protegida dentro da Convenção OSPAR e zona Ramsar realçando o papel destas águas na preservação da vida selvagem.
Tendo em conta que estes trabalhos de rastreio, inventariação e monitorização já se realizam há diversos anos, impõe-se perguntar o que trouxe a missão deste ano de novo? A resposta é tão vasta que receio ser este espaço demasiado curto para tanta informação. Tentemos.
Primeiro que tudo, a presença do Navio de Treino de Mar “Creoula”, gerido pela Marinha Portuguesa, que, com mais de noventa pessoas a bordo, estabeleceu-se como uma plataforma privilegiada que serviu de base a duas dezenas de investigadores. A partir desta embarcação, quatro equipas de mergulhadores-cientistas inventariaram detalhadamente os organismos presentes nos Ilhéus. Os resultados não demoraram a começar a surpreender. Logo na primeira amostragem foi recolhida uma nova espécie, Phyllariopsis brevipes. Para além da espécie mais comum de lamina, há agora uma segunda espécie confirmada neste local. Para além dos trabalhos subaquáticos, alguns equipamentos utilizados a partir de bordo mediram radiância, condutividade e temperatura. Estes dados permitirão tentar identificar as razões para parte da singularidade deste local em comparação com o restante arquipélago.
Pela primeira vez, uma técnica da direção regional da Cultura, especializada em arqueologia náutica, também acompanhou os trabalhos nas Formigas. Pelos registos efetuados, foi possível associar alguns dos fragmentos presentes no mar dos Ilhéus ao infortunado navio “Olympia”. Era uma questão que subsistia e que permitirá clarificar outros mistérios no futuro.
A bordo do Navio de Investigação “Arquipélago”, investigadores do DOP e do DB, para além do “simples” rastreio de espécies, recuperaram e, depois de efetuada a manutenção, recolocaram equipamentos de registo oceanográfico e realizaram mergulhos com um “lander”. Este equipamento, dotado de duas câmaras de filmar, ilustrou os fundos marinhos até 1100 metros de profundidade. Ao contrário dos ROV (Veículos marinhos de Operação Remota), que têm mobilidade, o “lander” aterra num local e filma a atividade que circula em sua volta. Desde tubarões de profundidade até enormes caranguejos, há uma nova fauna na escuridão das Formigas que agora ficou registada.
A bordo das duas embarcações, representantes da administração, pessoal da Marinha, jornalistas, estudantes de diferentes níveis, mergulhadores de segurança e escuteiros marítimos completavam o leque de interessados que ajudaram a desvendar alguns dos mistérios deste local. Vários dias passados e tenho a sensação de ter estado a trabalhar com uma verdadeira equipa de luxo!
Em termos de conservação deste local, depois de somados todos os minutos de mergulho e outras atividades efetuadas, há dois factos que ressaltam. Por um lado, a atividade de pesca ilegal diminuiu nos últimos anos, provavelmente fruto de uma incisiva ação por parte da Autoridade Marítima, mas, por outro, ainda há visíveis consequências de um passado que eu classifico de criminoso. Por exemplo, um dos mergulhadores registou um congro com um anzol na boca… Lamentável. Mais grave, as Formigas e o Dollabarat ainda não têm os peixes de grande dimensão de outros tempos. Vai levar tempo, mas tenhamos paciência, contentando-nos com os peixes-cão, bicudas, tubarões, jamantas, com os organismos coloniais que parecem autênticas árvores subaquáticas, as anémonas e as lesmas-do-mar e, em breve, voltará o esplendor das enormes algas a “esvoaçar” ao sabor das ondas e marés por entre as quais voltaremos a ver os pachorrentos meros com dezenas de quilos. Apesar de ser uma Reserva, com a autorização dos serviços competentes é possível submergir neste fantástico local. Para a recuperação do anterior esplendor, é preciso tempo, respeito e paciência, mas, se seguirmos este caminho, dentro em breve, o banco de pesca Mar da Prata e as costas de Santa Maria e São Miguel poderão estar a beneficiar dos efeitos da proximidade a uma fantástica reserva e uma das mais valiosas preciosidades do arquipélago dos Açores.

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Pergunta o jornal Correio dos Açores: "Como seriam os Açores sem vacas?"


Correio dos Açores - Como seriam os Açores sem vacas e como se poderiam tornar as vacas mais ambientalmente adequadas?

A pergunta que me fazem, curiosamente, já teve uma abordagem muito séria e interessante num extenso documento chamado Perspectivas para a Sustentabilidade na Região Autónoma dos Açores. Aí, são expostos diversos cenários para o futuro dos Açores e, entre eles, encontra-se um baseado no desenvolvimento agro-pecuário (Lactogenia). Em oposição ou complemento, são também estudadas hipóteses baseadas no património natural, no desenvolvimento social, na sociedade da informação e no turismo. É um documento imprescindível para quem pretende entender as possibilidades que se apresentam em termos de longo prazo. 
Sem gado bovino, os Açores seriam um arquipélago mais triste. Para além das questões puramente económicas e financeiras, há uma cultura de práticas e de uso relacionado com o gado e que se expressa no pastoreio, maneio e processamento industrial, mas também ao nível da organização social de uma fracção muito importante da nossa sociedade e em termos de comunicação cultural, quer seja a mais esotérica ou, tão simplesmente, a nível gastronómico. Ilustrando, que seria dos Açores sem uma belíssima alcatra? Que seria dos Açores sem os “Fala quem sabe”? Que seria dos Açores sem o queijo de São Jorge? Que seria dos Açores sem o rendilhado verde das pastagens?
Portanto, penso que sim, faz sentido e também faz muito sentido a aposta na qualidade do sector. Dificilmente poderemos competir com produtos similares aos resultantes da produção industrial massificada dos grandes centros, mas seremos imbatíveis se apostarmos na qualidade de que somos capazes ou no exotismo que resulta destas ilhas. Será necessário imaginação, empreendedorismo e competência e parece-me termos dos três. 
Evidentemente, a existência de um futuro que seja acompanhado pela criação de gado não deve cingir-se a este. A diversificação de produções é um imperativo que tem oportunidades evidentes e bem estruturadas ao nível dos apoios disponíveis pelo sector da Agricultura do Governo Regional. Esta diversificação, deverá limitar a extensão das unidades de produção intensiva aos locais adequados, dando também espaço para outros serviços ambientais imprescindíveis e com alto valor, como sejam os relacionados com o ciclo da água, com a qualidade do ar e solo ou com a biodiversidade.
A criação de gado, como todas as actividades industriais, tem efeitos colaterais negativos em termos ambientais. O mais evidente é a intensificação que vemos por algumas unidades de produção. É uma realidade que teremos de converter rapidamente. Para além do mau aspecto, não resulta em produtos animais de boa qualidade.
O malefício ambiental mais difícil de combater é a libertação de metano (composto de Carbono). Será importante que, noutras actividades, consigamos compensar este malefício e, felizmente, pelas notícias que vamos tendo, a produção de energia por vias alternativas (sem libertação de Carbono) está a ter cada vez melhores resultados no arquipélago. Portanto, sigamos, sempre com mais entusiasmo, por este caminho porque ele está bem traçado.

Nota de redacção - Frederico Cardigos acedeu a responder à questão enquanto cidadão que tem acompanhado a realidade económica e social dos Açores.