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sexta-feira, 28 de junho de 2013

Planeando o uso do mar em Malahide

Malahide, na Irlanda, é conhecida pelo seu histórico relacionamento com o mar.
Foto: F Cardigos


Estava um turista a passear na Jamaica quando percebeu que, provavelmente, já teria andado demais. Sentindo-se perdido, abeirou-se da primeira pessoa que encontrou e perguntou-lhe como poderia voltar ao povoado mais próximo. Tratava-se de um idoso de “boa onda”, com aquele olhar calmo que apenas as pessoas nas Caraíbas podem ter. Olhou para o turista, olhou para a estrada, lentamente, pensou, voltou a olhar para o turista e, depois, para a estrada. Pensou mais um pouco e, finalmente, respondeu pachorrentamente com um olhar um pouco vago e nada interessado: “Sabe, provavelmente, este não é o melhor sítio para começar…”.
Foi desta forma humorística que o chairman do workshop da Comissão Europeia sobre planeamento espacial marítimo dedicado à energia, que decorreu recentemente em Malahide, na Irlanda, começou a explicar como se podem adiar as decisões por falta de informação. No entanto, entre entidades responsáveis, esta não é a forma de proceder. Com a pouca informação disponível têm de ser tomadas decisões, incluindo a decisão de não fazer, que “é uma opção legítima e que muitas vezes os planeadores esquecem”.
Num mundo pejado de decisões que, mais do que motivadas pelas necessidades e desejos das populações, estão muitas vezes alicerçadas na vontade de obter visibilidades fáceis ou protagonismos excessivos, cada vez mais o cidadão comum exige calma, contenção e moderação. Se até há pouco tempo a fatura das “obras de regime” parecia plausível, até por haver um deficit estrutural, hoje, a generalidade das pessoas já começa a exigir saber quem é que vai pagar o investimento e quem é que vai pagar a manutenção dos novos equipamentos. É bom que assim seja e os planeadores da nova geração terão que ter isso em consideração. Não basta imaginar que um determinado equipamento ficaria bem, é necessário saber quem vai pagar, quem vai usar e quem vai manter o funcionamento. Sem estas três questões claramente respondidas e de forma justa, penso que o refrear do investimento se impõe.
Há uns dias atrás, ouvi um pensador português a afirmar que tínhamos urgentemente de passar da lógica do “consumo” para a lógica da “suficiência”. Cada um, defendia ele, tem que se perguntar a si próprio o que lhe é suficiente e lutar por isso, mas refrear a ambição de ter o carro último modelo ou o gadget da moda. “O mundo não aguenta mais consumo!”.
Em Malahide, tentaram encontrar-se soluções para localizar no mar as novas unidades de produção energética que terão de substituir as centrais nucleares alemãs e francesas. Os planeadores estão atentos, têm soluções, mas estas têm que estar associadas a uma redução efetiva no consumo de eletricidade na Europa. Estaremos prontos para o fazer?
Para terminar realço dois outros papéis que poderão, no futuro, caber particularmente aos Açores no domínio da energia, são eles o sequestro de Carbono (por captura em algas ou afundamento no mar profundo) e a produção de hidrogénio em unidades off-shore. É uma realidade distante, quem sabe uma visão ou mesmo um delírio, mas é de pensamentos arrojados e libertos, associados a planeamento e trabalho, que se constroem sociedades mais justas e avançadas.

Cada um de nós terá o seu papel neste esforço conjunto. Temos de verificar onde estão os nossos excessos e conter. Temos de verificar em que podemos contribuir e esforçar-nos. Não está ao virar da esquina, mas vem aí um admirável mundo novo e, tal como aconteceu em relação à gestão de resíduos em 2006, sinto-me honrado por estar a participar em mais esta mudança de paradigma.

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Sobre a Morte de um Tubarão

Tenho uma enorme dificuldade em entender quem, perante um extraordinário animal, tem a tentação de lhe tirar a vida em vez de o contemplar.

A 5 de Junho, em pleno Dia Mundial do Ambiente, apareceu um tubarão já de tamanho considerável no portinho da Povoação. As primeiras notícias variavam entre o divertido e o inquietante. Se uns diziam que tinha motivado grande movimentação e excitação, falando-se já no “Oceanário da Povoação”, outros referiam o interesse em tentar capturar esse animal. Inicialmente, as tentativas pareciam goradas e o animal seguia o seu caminho.
Infelizmente, passadas umas horas, os pescadores da Povoação conseguiram os seus intentos e o tubarão foi capturado, torturado (ainda vivo tiraram-lhe as barbatanas) e morto. A indignação tomou conta das redes sociais, onde este evento foi quase consensualmente censurado.
O animal em causa era um tubarão-trigre-da-areia, animal inofensivo que se alimenta de pequenos peixes e invertebrados (polvos e crustáceos). É também um animal considerado em condição Vulnerável pela União Internacional para a Conservação da Natureza.
Não havendo necessidade de licença para a pesca de costa e não estando o portinho da Povoação sobre qualquer limitação, a captura é legal. No entanto, sendo um animal selvagem, não havendo qualquer intuito alimentar e sendo uma espécie vulnerável que moralidade há neste ato?
Até hoje, que me recorde, houve quatro observações deste tubarão nos Açores. Dois animais arrojaram mortos nas praias de São Miguel, um foi morto no porto de Rabo de Peixe, faz agora um ano, e o quarto foi morto no portinho da Povoação. Quatro observações, quatro mortes. Não é um registo que nos dignifique.
A aferição sobre a evolução de uma sociedade faz-se aplicando diversas metodologias. Há quem use o número de organizações não-governamentais geradas, outros verificam qual o nível de proteção dada aos mais jovens e aos idosos e, ainda outros, usam a forma como os animais são tratados. Por uma questão de consenso, os melhores métodos integram estas três abordagens. Pelos dois primeiros pontos de vista, não há dúvida, os Açores já deram passos de gigante tendentes a tornarem-se um melhor local para todos. Em relação à terceira metodologia, como se pôde verificar, ainda há um percurso a fazer.
Na minha opinião, no entanto, há sinais de esperança e de otimismo. Ao contrário do que aconteceu há um ano atrás, em que a sociedade foi complacente com a morte do tubarão em Rabo de Peixe, este ano houve um repúdio alargado e intenso.

Temos de continuar a trabalhar no sentido de demonstrar os serviços ecológicos prestados pelos tubarões e divulgar as características que os tornam animais extraordinários. Quem conheça verdadeiramente os tubarões, dificilmente os poderá matar. É por essa razão que uma parte significativa dos restaurantes da ilha de São Miguel já retiraram da ementa os pratos que usam estes animais. Esperemos que o Dia Mundial do Ambiente de 2014 possa ficar na nossa memória por razões diferentes do que aconteceu este ano.

sexta-feira, 31 de maio de 2013

Os Grandes Cercos

Monumento em Valeta, Malta.

Sovrano Militare Ordine Ospedaliero di San Giovanni di Gerusalemme di Rodi e di Malta é o nome completo da Ordem de Malta ou dos Cavaleiros de São João, como eu prefiro. Estes cavaleiros tinham como missão essencial a proteção dos peregrinos que se deslocavam à Terra Santa e as suas tarefas incluíam até a gestão de hospitais, daí serem também designados por Ordem Hospitaleira. Depois da perda do controlo da Terra Santa por parte das forças cristãs, os Cavaleiros de São João radicaram-se primeiro na ilha de Rodes e, depois, em Malta. Hoje em dia, esta Ordem continua a existir e tem uma ação considerada pacífica, útil e abnegada. Nem sempre foi assim...

Visto com os olhos da época, aquilo que hoje seria absolutamente inaceitável, a pirataria de Estado, a escravização de prisioneiros ou a condenação à morte sem julgamento prévio eram práticas comuns e também perpetradas por esta Ordem. Durante o tempo em que lhes foi dada a liderança do arquipélago de Malta, a Ordem aproveitou para saquear e pilhar todas as embarcações do poderosíssimo Sultão Suleimão I, “O Magnífico”, que passavam por perto. De tal forma a Ordem se tornou insuportável que acabou por obrigar o Sultão, contra vontade, a reagir.

Desta forma, o Sultão dirigiu para Malta uma força supostamente invencível que, aplicando uma estratégia mal desenhada e pior aplicada, acabou por não conseguir derrotar as forças cristãs. Ao contrário do que tinha acontecido em Rodes algumas dezenas de anos antes, quando os Cavaleiros de São João foram derrotados pelo Sultão, em Malta resistiram a uma força desigual que, ainda hoje, é apelidado de “o grande cerco”.

As aventuras e as atrocidades infligidas de parte a parte foram tais que ainda hoje servem de referência para demonstrar os extremos de intolerância e de maldade que os seres humanos conseguem infligir uns aos outros. Apenas para ilustrar, e peço desculpa aos mais sensíveis, uso um dos mais terríveis eventos.

Não conseguindo vencer os cavaleiros de São João pela força das armas, as forças do Sultão resolveram usar métodos de desmoralização do adversário. Assim, mataram parte dos prisioneiros e penduraram os seus corpos no exterior das muralhas de uma fortaleza que, entretanto, tinham tomado, expondo assim os corpos aos seus adversários. Como resposta, os cavaleiros de São João mataram também uma parte dos seus prisioneiros, decapitaram-nos e usaram as suas cabeças como balas de canhão que arremessaram por cima da fortaleza tomada... Tenho dificuldade em pensar em alguma coisa pior.

O que é certo é que os cavaleiros de São João, contra todas as expectativas, resistiram e repeliram as forças do Sultão. Malta resistiu e Malta ganhou. Com o tempo, mais de uma centena de anos, a Ordem desleixou-se, perverteu-se e acabou por se dissolver em termos militares com uma tomada pacífica da ilha por partes das forças de Napoleão. Apesar disso, a Ordem de Malta, com um figurino completamente diferente, ainda hoje existe.

Muitos anos mais tarde, durante a II Guerra Mundial, o arquipélago de Malta, já sem a Ordem, foi posto novamente à prova. Desta vez, as forças do Eixo cercaram e bombardearam intensamente Malta durante vários anos. Raide aéreo após raide aéreo, as bombas e a destruição foram desmoralizando e efetivamente destruindo as três ilhas habitadas do arquipélago. Nalguns dias, chegou a haver mais de duas dezenas de bombardeamentos, mas os malteses resistiram e não cederam.

Nas celebrações do Dia Europeu do Mar deste ano, tive a oportunidade de visitar a capital de Malta, La Valetta. Não pude visitar absolutamente mais nada porque todo o tempo foi consumido nos trabalhos. Em La Valetta, no trajeto que me levava do Hotel até à sala de conferências (o antigo hospital dos Cavaleiros de São João), encontrei umas estranhas portas na base do lado de fora das muralhas. Uma das portas estava aberta. Entrei. Lá dentro, um pescador arranjava as suas artes de pesca. Pedi-lhe para explicar o que pescava, como pescava e, obviamente, porque haviam portas no lado de fora de uma muralha?

A resposta foi pronta. Durante os raides alemães da segunda grande guerra, as famílias tinham de se esconder. Não podiam ficar em suas casas. Tiveram que escavar autênticos bunkers em todas as estruturas consolidadas de Malta onde, durante os três longos anos de cerco, os malteses se refugiram e, heroicamente, resistiram. Hoje, estes bunkers são casas de aprestos labirínticas, testemunhas de algumas das mais orgulhosas páginas da história deste povo que, por duas vezes, soube dizer “não” e resistir pelo que considerava correto.

No centro de La Valetta, na praça principal, há duas modestas placas que, por qualquer razão, me chamaram a atenção. Aproximei-me e li. Numa, o Rei Jorge de Inglaterra agradece aos malteses o heroísmo e devoção da sua resistência. Meia dúzia de metros mais à frente, na mesma parede, e com a mesma modéstia da anterior, Franklin Delano Rosevelt, enquanto Presidente dos Estados Unidos da América, reconhece ao povo de Malta o valoroso serviço à causa da liberdade e justiça muito para além do que seria espectável.

Malta, dizem, tem paisagens, tranquilidade, arte, cultura, tradições, desportos marinhos, vida noturna, e uma série de outras virtudes turísticas. Eu não tive oportunidade para experimentar estas virtudes e, mesmo assim, adorei. Em resumo: Malta, vale a pena!

sexta-feira, 17 de maio de 2013

Ideias conjuntas

Foto: F Cardigos.

Tenho estado envolvido num dos processos mais enriquecedores da minha vida profissional. Como consequência da resolução da Comissão Interministerial para os Assuntos do Mar ao propor uma nova Estratégia Nacional para o Mar, tenho estado envolvido ativamente na sua discussão pública. Nessa sequência, já estive nas ilhas do Pico, São Jorge, Graciosa e Santa Maria e, quando este artigo for publicado, já terá decorrido a sessão do Faial. Seguir-se-ão as restantes ilhas.
Para o processo de discussão têm sido convidados todos os interessados que podem transmitir as suas ideias em sessões que começam por uma pequena apresentação sobre a proposta de Estratégia e apresentações dadas por oradores especialmente convidados. O processo tem trazido à superfície imensas ideias sobre oportunidades de melhoria (incluindo novos investimentos) e algumas debilidades na proposta de Estratégia.
Dentro das oportunidades, a classe piscatória já identificou a possibilidade de inserção de novos projetos relacionados com as suas ambições enquanto estrutura profissional bem organizada. Também os cientistas têm feito observações pertinentes e outras plataformas de interesse têm demonstrado interesse e ideias bem estruturadas no que diz respeito ao uso que devemos dar ao mar.
Muitas vezes, durante os longos debates, a conversa descai um pouco para as componentes mais particulares. Isso não é negativo e tem-nos permitido passar do interesse pessoal para o seu reflexo ao mais alto nível do pensamento nacional. Raras vezes podemos ter essa oportunidade. Exemplificando, muitas pessoas e instituições têm-se queixado da falta de acessibilidade ao mar provocada pela burocracia, pelos longos e sinuosos processos de licenciamento (incluindo cartas de navegação) e pelos impostos a que estão sujeitas as embarcações de recreio. Tudo isto pode ser refletido na Estratégia Nacional para o Mar como barreiras a derrubar.
De entre as debilidades, eu tenho exteriorizado a importância de constar um capítulo que refira a organização interna do Estado e a clarificação da definição que é utilizada para o Princípio da Precaução. Mais especificamente, parece-me essencial que se detalhem as competências e obrigações de cada um dos atores do Estado no que diz respeito ao mar, dando uma maior evidência às competências regionais. Também me parece que a definição de Princípio da Precaução que refere que “a falta de conhecimento não pode justificar a falta de uso” é um erro básico e tem de ser corrigido. O Princípio da Precaução diz exatamente o contrário, ou seja, em caso de dúvida sobre os efeitos de uma medida, deve-se atuar no sentido conservativo. Podemos adotar ou não o Princípio da Precaução, mas não o podemos desvirtuar. Na minha opinião, devemos adotar este enorme valor da ecologia mundial e defini-lo corretamente.
Tudo isto pode acontecer se participarmos na consulta pública sobre a Estratégia Nacional para o Mar. É essencial que haja motivação suficiente para que se transformem as ideias de cada um em observações escritas e submetidas através da página internet dedicada ao processo. Não é difícil e, se o mar é importante para os açorianos, é essencial participar.

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Contrastes n'América


Foto: F Cardigos.

Por razões profissionais, passei alguns dias da semana passada em Washington, DC. Foi uma visita curta, apenas de 22 a 24 de Abril. Três dias concentrados no Sustainable Oceans Summit. Nesta cimeira, assistiu-se essencialmente às indústrias marinhas a partilharem algumas das suas preocupações e a explorarem oportunidades neste mundo que, cada vez mais, lhes exige uma utilização responsável do planeta. Entre os participantes, encontravam-se governos, autarquias, unidades de investigação científica ligadas aos Estados, para além, claro está, dos próprios industriais. Aqui estiveram presentes representantes de geografias tão distantes como contrastadas eram as suas abordagens ao meio marinho, incluindo China, Austrália, Noruega e, claro está, com particular ênfase, os Estados Unidos da América. Mas o que me levou ao novo Continente e a participar neste evento?
Em primeiro lugar, queria verificar quais os últimos desenvolvimentos tecnológicos e que utilizações permitem estes fazer do meio marinho. No caso dos Açores, novos instrumentos que permitam o acesso e o uso do mar do largo e profundo são particularmente importantes. A este nível, nesta conferência estiveram presentes grandes utilizadores, instituições científicas ou grupos industriais como a BP, TOTAL, GILLS, World Aquaculture Society, entre dezenas de outros.
Uma das soluções apresentada, por exemplo, permite, ainda em microescala e em fase de teste, fazer a caracterização geológica de uma área sem recurso a emissores acústicos. Imagine-se o que seria se pudéssemos analisar as características geológicas do mar sem o recurso a barulho? Os cetáceos, em particular, ficariam particularmente gratos.
No entanto, as principais soluções apresentadas, já com aplicação prática, baseiam-se na integração coordenada e inteligente de informação para a tomada de decisão no meio marinho. Estas ferramentas recorrem a informação dispersa na chamada “nuvem” (“cloud”) e adaptam-na às necessidades dos diferentes utilizadores. As ferramentas são múltiplas e, cada uma delas, parece fazer mais qualquer coisa absolutamente imprescindível para o decisor responsável…
Ao mesmo tempo, nos Açores, na ilha do Faial, decorria uma reunião científica internacional do ICES (Comissão Internacional para a Exploração dos Mares) apoiada pelo Governo dos Açores. Nesta reunião fomos informados dos esforços que se estão a fazer na Nova Zelândia para começar a explorar o mar profundo, tendo em vista a extração de fosfatos a meio milhar de metros de profundidade. Já passaram, portanto, a fase de prospeção e estão prestes a iniciar a recolha de minérios no mar profundo. Atendendo aos interesses que se têm movimentado em volta dos recursos potencialmente existentes nos Açores, é um projeto a seguir com atenção. É mais um conjunto de desenvolvimentos tecnológicos importantes. Mas voltemos à América…
Nesta Cimeira foi possível estabelecer contactos com dezenas dos principais atores na área do planeamento e utilização do domínio marinho. Obviamente, a esse nível, foi particularmente importante verificar quais os possíveis parceiros para o uso do Mar dos Açores. Reuniões temáticas, como a denominada “Oceano Inteligente”, foram excelentes oportunidades para estabelecer essas pontes.
Também foi possível partilhar os desenvolvimentos efetuados nos Açores no domínio da conservação marinha e planeamento espacial  (como o Parque Marinho dos Açores) e do conhecimento científico (como o protagonizado pela Universidade dos Açores).
Esta cimeira foi, portanto, uma boa oportunidade para recolher informação, estabelecer bons contactos e mostrar e demonstrar o trabalho efetuado. Desta forma, reforçou-se a visibilidade dos Açores e catalisaram-se as relações com potenciais empreendedores.
Fora da conferência, apesar do tempo ter sido muito curto, ainda deu para verificar que Washington é uma cidade muito interessante. Aqui há mais de uma dezena de grandes museus e todos gratuitos. Apenas pude beneficiar de uma entrada relâmpago e saída meteórica em dois museus (história natural e exploração do ar e do espaço) e fiquei com a certeza que terei de voltar.
Para além disso, as breves conversas que fui mantendo na rua deram-me a conhecer um povo empenhado, otimista e competente. Pena apenas que ainda não tenham conseguido resolver o problema dos mendigos que se acumulam pelas ruas, pelas estações de metro e, em suma, por qualquer espaço onde haja abrigo.
Como é que é possível haver este enorme contraste entre uma nação de gente brilhante, em convívio quase resignado com um índice de pessoas muito pobres que diria ser superior ao de Lisboa ou de qualquer cidade portuguesa? Como me dizia um dos meus novos amigos americanos: “Ainda não conseguimos lidar com este problema.” Oxalá consigam. Para mim, nenhum país será grande se não conseguir proteger os seus próprios cidadãos da miséria e da exclusão social.

sexta-feira, 19 de abril de 2013

Sobre o regresso dos cagarros e garajaus


A caravela-portuguesa é uma das visitantes anuais do Arquipélago dos Açores
Não será propriamente a visita mais desejada...

A Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves celebrou a chegada dos cagarros e garajaus aos Açores. Reuniram os interessados na Lagoa, São Miguel, e observaram os voos costeiros rasantes dos cagarros. Como não estive lá, não posso garantir o que viram, mas posso imaginar…
Os cagarros são aves com centenas de milhares de anos de adaptação ao meio marinho. Ao voarem sobre as ondas, aproveitam a impulsão das vagas para poupar energia. Isso obriga-os a manterem-se a uma distância centimétrica da água, fazendo um autêntico bailado sincronizado com o andamento das ondas. Como conseguem não tocar com as asas no mar é uma ciência que me ultrapassa. Neste caso, não me detenho a procurar explicações. Limito-me a apreciar.
Tenho alguma dificuldade em contabilizar as horas que já passei na proa de um barco a seguir o floreado dançante dos cagarros. Ao final da tarde, junto das colónias mais populosas dos Açores, como a Ponta dos Rosais ou a Vila do Corvo, os cagarros reúnem-se aos milhares, esperando pela noite que os levará em maior segurança até terra.
Os cagarros possuem uma resistência admirável. São capazes de fazer voos de milhares de quilómetros, não estou a exagerar, para encontrar os mananciais de pescado adequados à sua dieta e à dos seus descendentes.
No entanto, neste rigorosíssimo inverno de 2012/13, algumasdas aves que chegaram aos Açores no final do período de invernia, acabaram pornão resistir. Seja por falta de alimento, pelas baixas temperaturas, pelo vento fortíssimo ou pelo mar tempestuoso, dezenas de cagarros acabaram por cair no mar, muitos deles morrendo e arrojando na orla costeira. Infelizmente, o número de mortos registados na Praia de Porto Pim, no Faial, é apreciável. Na ilha de São Miguel, os registos apontam apenas para aves caídas em terra e, de imediato, postas a salvo pela colaboração entre os populares que as encontraram e os Vigilantes da Natureza que as recuperaram e libertaram no final de mais uma tempestade.
À noite, ao andar pelas ruas do Faial, oiço os cagarros e sinto uma sensação muito agradável. A primavera, embora não pareça, está a chegar. Agarro-me aos grasnares destas aves e penso em noites de verão.
Ainda não ouvi os garajaus. Não sei onde andam, embora a SPEA já os tenha registado na Lagoa. No Faial também já devem ter chegado, mas, num transecto feito há duas semanas, não os registei no Monte da Guia.
Os Açores esperam as duas espécies mais habituais de garajaus, os comuns e os rosados, para que também o ciclo destas frágeis aves marinhas se complete no regaço das rochas pretas do basalto açoriano. Especialmente, os ilhéus da Alagoinha (Flores), o ilhéu da Mina (Terceira) e o ilhéu da Vila (Santa Maria) não atingem a harmonia sem as respetivas colónias de garajaus.
O ciclo repete-se com a chegada destas aves marinhas migradoras. Todos os anos, a ecologia dos Açores completa-se com a chegada e partida de baleias, cachalotes, golfinhos, tartarugas, aves marinhas, peixes, águas-vivas e tantos outros animais deste magnífico oceano. Observar esta cadência é como ler uma poesia escrita pela mão de Deus.

sexta-feira, 5 de abril de 2013

Carta a um amigo que já partiu


Grande Concerto Sinfónico de Páscoa de 2013.
Foto: F Cardigos.

Caro Yuri Pavtchinsky,
não sei se me consegues ler, mas mesmo assim, tenho que te contar o que aconteceu no último final de semana.
Como deves saber, o teu filho Vítor Daniel tocou no grande concerto de Páscoa! Para além do teu filho, estiveram em palco o solista Alexander Kuklin (ao piano) e elementos dos Conservatórios de Lisboa, do Porto, de Leiria, professores e antigos alunos do Conservatório Regional da Horta e das filarmónicas do Faial, muito bem dirigidos por Kurt Spanier. A orquestra Horta Camerata tocou obras de Mozart, Handel, Strauss, Verdi e Haydn, com encores (sim, plural) de Strauss, Verdi e da peça de Handel. É sobre essa peça de Handel que te quero falar em especial.
Lembras-te quando um outro teu filho, o Vladimir, tocou, também no Teatro Faialense, o Concerto para clarinete em Lá de Mozart? Lembras-te do início do segundo andamento? Foi um momento perfeito, não foi?! Aliás, houve outro momento perfeito que me vem agora à memória. Foi em 2007 na Igreja Matriz, naquela “Sinfonia al Santo Sepulcro” de Vivaldi. Não tenho a certeza que tenhas assistido a esse concerto.
Mas estava a falar desses momentos perfeitos porque ontem o teu filho Vítor Daniel foi um dos protagonistas de mais um momento perfeito. Foi de tal forma bonito e harmonioso que o maestro desatou a aplaudir a sua própria orquestra! E fez muito bem porque, de facto… não há muitas palavras que possam descrever aquele minueto da ópera “Berenice” de Handel. Sim, eu sei que esta peça suave e delicada, com aquele envolvimento quase hipnótico do período Barroco, puxa por nós, mas… não explica tudo. Houve ali algo mais.
É certo, também que na ilha do Faial temos saudades de música erudita, o que nos coloca num estado de espírito particular. De certa forma, é como se já quiséssemos gostar, mesmo antes de ouvir. Seja como for, aquele foi um momento acima disso.
Como eu estava a dizer e em resumo, o teu filho tocou tão bem! Continua “tapado” pelas suas duas professoras, mas esteve à altura delas! Aliás, em termos musicais, é bom que ele esteja lá atrás. Repara que, como ele é tímido, o facto de estar atrás permite-lhe libertar-se mais, sem a pressão correspondente à primeira fila. Quando estiver mais calejado, certamente, atuará no centro do Teatro Faialense. Quem sabe não o ouviremos numa qualquer sala de concertos europeia a tocar as suites para violoncelo de J.S Bach. Eu não me admirava um segundo que assim fosse!
Penso que nunca te disse, meu caro amigo Yuri, mas temos saudades tuas. Temos saudades do teu sorriso, do teu jeito impetuoso, da tua habilidade para tocar trompete, do teu entusiasmo contagiante e da tua vontade de fazer. Vendo bem, de certa maneira, dada a frescura da tua memória, é quase como se não tivesses partido. Estás connosco. O teu legado está certamente connosco e isso sabe muito bem!
Com respeito e admiração,
Frederico

sexta-feira, 22 de março de 2013

4%


É apenas necessária imaginação para detetar e usar os valores do fabuloso Mar dos Açores.

Na sequência de um debate sobre a proposta de nova Estratégia Nacional para o Mar, em que voltei a referir a necessidade de se prever um capítulo sobre a organização interna do Estado, que clarifique competências e obrigações, também mencionei com um paradoxal misto de orgulho e frustração o valor do mar no Produto Interno Bruto (PIB) regional. Orgulho porque é quase o dobro dos 2.4% nacionais e frustração porque ainda não são mais do que isso. Há, claramente, um enorme potencial de crescimento, mas é um crescimento que tarda e isso perturba-me.
No tipo de debate em que estava, por questões de protocolo, não era o último a falar. A seguir a mim, falariam os representantes nacionais. Isto é um risco habitual, mas, manda a cortesia, não se afirma nada na ronda final que exija posterior resposta, até porque ela não poderá acontecer. Mas nem sempre é assim…
Neste debate em concreto, um dos últimos palestrantes resolveu reforçar que os 4% do PIB dos Açores eram um valor muito baixo para um arquipélago oceânico. Até aqui tudo bem. É a sua opinião e eu até concordo. Podemos fazer muito melhor. Mas acrescentou que era uma afirmação “indizível publicamente!”. Ora, isto é que já não é muito cordial, principalmente não havendo possibilidade de resposta...
É claro que é “dizível”! e é mesmo obrigatório dizê-lo, por diversas razões. A primeira é que saber a verdade é um direito dos cidadãos e compete aos seus dirigentes transmiti-la. Já passou o tempo da política da mentira e da omissão. Como dizia o poeta, “Eu não vou por aí!”.
A segunda é que o peso do mar no PIB regional resulta de anos de falta de autonomia regional no que diz respeito ao gigante azul. Para além dos transportes marítimos internos e, parcialmente, das pescas, a política de mar esteve centralizada até 2009, aquando da última revisão do Estatuto Político-Administrativo. A partir daí, apesar das inúmeras resistências, os Açores puderam legislar em termos de áreas balneares, espécies e habitats marinhos, extração de inertes, investigação científica e exploração mineral, se bem que para alguns desses temas, no formato de “gestão partilhada”. Portanto, temos que dar tempo ao tempo e o tempo virá.
Por outro lado, estes 4% do PIB significam duas outras coisas: um, estamos à frente! Em segundo lugar, temos uma enorme margem de crescimento. Basta fazermos!
Por último, relembro que a proposta de nova Estratégia Nacional para o Mar está em consulta pública. Caberá a todos nós, principalmente aos que se preocupam com a boa utilização do mar, ler, pelo menos o primeiro capítulo da Estratégia e opinar. Os documentos podem ser consultados através do Portal do Governo, dentro da página da Direção Regional dos Assuntos do Mar (mar.srrn.azores.gov.pt).

sexta-feira, 8 de março de 2013

Açores Oceânicos num Portugal de Mar


Polvo espreitando nas Caldeirinhas da Ilha do Faial.

Teve início no dia 1 de Março a consulta pública sobre a nova Estratégia Nacional para o Mar. Este documento pretende substituir a anterior estratégia, atualizando-a à luz dos novos desenvolvimentos e, essencialmente, desbravar os caminhos necessários para que Portugal regresse de facto ao Mar. Os redatores da proposta de Estratégia apostaram num caminho de utilidade económica, mas tendo em atenção as limitações ambientais e oportunidades sociais. Assim, conhecimento, emprego e retorno financeiro, talvez não por esta ordem, são os motes que dão corpo aos vários volumes que se propõem consubstanciar o documento que servirá para justificar as opções que Portugal tomará.
O primeiro volume é a Estratégia em si. Nele é feito um apanhado histórico recente da relação de Portugal com o Mar e, servindo-se dele, esboçam-se os valores e os objetivos que devem nortear e inspirar o retorno do nosso país à conquista do Mar que é seu.
O segundo volume, ou primeiro anexo, desta Estratégia, com inspiração no documento “Hypercluster da Economia do Mar”, preparado pelo grupo SAER do saudoso Professor Ernâni Lopes, tenta contextualizar a Estratégia Nacional para o Mar na economia global e nacional. A utilização de imagens simples, como “ventos” e “correntes”, “favoráveis” ou “desfavoráveis”, ajudam a simplificar conceitos mais complexos.
O Plano Mar-Portugal aparece no terceiro volume, ou segundo anexo. Sinceramente, desaconselho a leitura detalhada deste volume. Trata-se de um esotérico exercício metodológico que tenta expor como se encaixam as fichas do anexo seguinte. Essas sim, são importantes e, na realidade, dispensam bem esta introdução. Entendo a necessidade do redator, de explicar claramente a metodologia, mas, penso que, para o comum dos interessados, este capítulo é dispensável.
As fichas de ação aparecem então como um extenso documento associado. São mais de quatrocentas páginas em que estabelecem as ações que deverão ser executadas nos próximos anos e que se relacionam com o mar. Estas fichas pretendem-se dinâmicas, mas aglutinadoras e responsabilizadoras das entidades envolvidas. Com um certo sarcasmo, poder-se-ia dizer que sabem a plano quinquenal do Partido Comunista Soviético, dado o nível de detalhe e falta de maleabilidade. Ao contrário, se quisermos ser positivos e otimistas, como prefiro, este é um subdocumento que poderá servir para medir exatamente o nível de execução do Plano, atribuir responsabilidades e incentivar a ação coordenada dos parceiros identificados. Também, claramente, até pela crítica tecida atrás, é impossível que alguma vez seja um capítulo fechado. Especialmente nestas fichas, espera-se dinâmica e ela terá de começar já na Consulta Pública.
Este documento está bem escrito e é um bom ponto de partida para uma discussão pública alargada. É pena que o Plano Mar-Portugal e as fichas de projeto tenham também sido  submetidas a consulta. A discussão pública de um documento com mais de 600 páginas fica de imediato sob a pressão de poder não ser muito eficiente, apesar do longo período para o fazer (3 meses).
Na minha perspetiva pessoal, gostaria de ver incluído um capítulo sobre os aspectos de organização interna no seio do Estado, em que ficassem claras as competências das regiões autónomas de Portugal. Este não é um tema despiciente e identificaria as responsabilidades e compromissos com a utilização do mar para cada uma das ilhas dos Açores e da Madeira.
Há detalhes, como a referência ao código genético dos portugueses, que me parecem deslocados. Agora, eu e quem quiser teremos a oportunidade de, enquanto cidadãos interessados, nos expressarmos por escrito sobre estes e outros detalhes da nova Estratégia.
O formulário que pretende simplificar as intervenções e a sua posterior análise está disponível na internet, ao alcance de todos, e é acessível, por exemplo, no Portal do Governo dos Açores, através da página da Direção Regional dos Assuntos do Mar (mar.srrn.azores.gov.pt).
Resta saber se o oceano que nos rodeira é realmente importante para os açorianos. Estou em crer que sim, mas este é mais um momento em que as palavras, as intenções e os sonhos não são suficientes. É necessário opinar e por escrito, nem que seja em simples concordância, mas temos que demonstrar que a Estratégia Nacional para o Mar é importante para Portugal e determinante para os Açores.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

As pontes de Mostar



A ponte mais conhecida de Mostar, na Bósnia- Herzegovina, e uma das mais conhecidas do mundo dá pelo nome de Stari Most. É lindíssima! Foi construída há muito tempo a mando de um Sultão do Islão e, para além de ligar duas partes daquela cidade, tradicionalmente ligava as duas culturas dos dois lados do rio.
No início dos anos 90, antecipando a divisão da Jugoslávia, ocorreu uma horrível guerra entre os principais grupos étnicos que ali viviam. Entre as então regiões, houve as que entraram na guerra porque tinham medo de ser invadidas, as que entraram porque estavam a ser invadidas por esses mesmos vizinhos e as que, fruto da sua ambição, instigaram tudo isso. O que aconteceu é tão triste que, embora a sua descrição não caiba neste artigo, tem que aqui ser referido como um dos momentos mais baixos da história da humanidade.
Caminhando hoje por cidades como Dubrovnik, na Croácia, custa a crer que aquelas simpáticas pessoas odiassem tanto os conterrâneos que encetassem uma guerra civil sem tréguas e, quanto a mim, sem nexo. Perseguir uma pessoa porque ela não crê no mesmo Deus ou porque não fala a mesma língua é, para mim, absolutamente impensável. Antes pelo contrário, tenho uma curiosa atração por quem não concorda comigo. É fascinante ouvir a argumentação daqueles que pensam de forma diferente. Eu dou entusiásticas vivas à diferença!
Em Mostar, mesmo com a guerra no seu auge, as pessoas insistiam em encontrar-se na Stari Most. Por forma a instigar ódios, os beligerantes resolveram colocar soldados escondidos e equipados para atirar sobre aqueles que insistiam em ser livres e comunicar. Assim, estes snipers mataram dezenas de pessoas que tentavam passar de um lado para o outro da cidade dividida.
Contaram-me que um jovem casal dos lados opostos se enamorou nesse período. Apesar de conhecerem o perigo, como o amor falava mais alto, insistiram em se encontrar na ponte e acabaram por ser cobardemente alvejados. Uma autêntica história de Romeu e Julieta dos tempos modernos, mas com protagonistas demasiado reais para podermos apreciar a história. Também o pai de um deles, que apenas tentava recuperar os corpos, foi alvejado e morto. Durante um longo período, as pessoas tentaram passar. Muitas morreram e outras ficaram feridas, até que uma das artilharias resolveu destruir um dos símbolos da união entre os povos dos Balcãs.
Tendo este altíssimo valor simbólico, não admira que a primeira obra que as Nações Unidas financiaram no final da guerra tenha sido a reconstrução da Stari Most, quando possível com as pedras originais e utilizando os métodos de construção do século XVI. Em Julho de 2006 a ponte reabriu ao público e está lindíssima.
Eu gosto das pontes de Mostar e em especial da Stari Most. Para mim, ela simboliza o prevalecer do bem sobre o mal. Significa que, para a maioria dos seres humanos, mais do que os períodos de incompreensível devaneio, o importante é a civilização, o entendimento e o progresso assente em valores positivos e fraternos. 

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Caça Submarina


É-me difícil contemplar um animal vivo e, depois, tirar-lhe a vida.
Dasyatis pastinaca, ratão, fotografado no Recife Dollabarat.
Foto: F Cardigos SIARAM.

Era ainda um jovem quando me vi nesta situação. Na ilha do Corvo, eu e uns amigos tínhamos decidido ir fazer caça-submarina. Entrámos na Praia da Areia e nadámos para norte. Quando estávamos precisamente numa zona chamada Cabeço do Xavier, hoje classificada como Rede Natura 2000, um lírio com 4 ou cinco quilos aproximou-se de mim. Para mim, jovem citadino, aquele era o maior peixe! Hoje sei que os lírios podem ter até cerca de 50 quilos. Aquele estava, portanto, longe de ser um grande exemplar, mas, naquele momento era mesmo “o peixe!” pai e avô de todos os outros peixes.
Olhei para os meus colegas de caça e eles, a pouca distância, esbracejavam indicando claramente que eu devia disparar. A arma tinha os elásticos esticados e eu podia disparar a qualquer momento. Nem tive que mergulhar. Bastou apontar a arma e carregar no gatilho. O peixe arpoado partiu o cabo e caiu para o fundo nadando naquela que para si seria a derradeira espiral.
Antes de o ir recolher, detive-me a olhar para o peixe cuja curiosidade tinha sido por mim compensada com a sua morte. Senti-me mal. Continuei a fazer companhia aos meus colegas de mergulho, mas aquela seria para mim a última vez que caçaria por prazer.
Depois disso, por razões profissionais, tive que “fixar” (termo chique que os cientistas usam para dizer “matar”) muitos animais e plantas. Também, para alimentação, fiz mais uma vez ou outra caça-submarina. Não me dá qualquer prazer e, cada vez que o faço, interrogo-me se é realmente necessário retirar a vida daquele organismo em particular.
De um modo mais geral, hoje, pragmaticamente, entendo que a caça-submarina é um desporto exigente e compensador. Dado o tempo que se passa dentro de água, a caça permite uma boa adaptação ao meio e o estudo detalhado do comportamento animal. Ao mesmo tempo, não entendo como há pessoas que são capazes de desrespeitar a lei, nomeadamente, apanhando mais animais do que a lei permite, desrespeitando as espécies protegidas ou caçando em zonas classificadas por razões de conservação da natureza. Nutro, portanto, uma relação de amor-ódio por esta atividade.
Para se poder caçar é necessário ter mais de 16 anos, uma licença em dia e válida para o local em causa e equipamento de sinalização (para não ser atropelado por uma qualquer embarcação). Reforçando a necessidade de segurança do caçador, é necessário ter em atenção que, em caso de acidente, haverá, eventualmente, outras pessoas envolvidas no salvamento e, algumas delas, poderão também arriscar a sua própria vida. O meu conselho é que os interessados na atividade leiam alguma literatura sobre a temática e frequentem os clubes navais. Mesmo que não haja cursos formais de caça ou apneia, os clubes são excelentes polos para aprender as regras e as manhas desta interessantíssima atividade.
Ao crepúsculo, num qualquer recanto costeiro dos Açores, é possível sentir o cheiro de uma veja grelhada ao ar livre. O adivinhar do sabor e a antecipação da companhia é das boas memórias que um dia levaremos desta vida… e tudo pode ter começado numa bela tarde de caça-submarina.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

As cores de Portugal



A bandeira portuguesa em 1143.
In: wikipedia.

A partir de 1911, a recém-formada República Portuguesa estabeleceu que seria representada por uma bandeira verde e vermelha, as cores do Partido Republicano. Graças ao Estado Novo, esta bandeira impôs-se e hoje a grande maioria dos portugueses sente-se identificado com este símbolo nacional. Que fique claro que, para mim, não o é. As cores de Portugal são o branco e o azul. Aliás, como o nome de Portugal, para mim, é “Portugal” e não “República Portuguesa”. Esta coisa de misturar regimes com nações é redutora e, no nosso caso, alienante de uma parte dos portugueses que não se identifica com a República. Que fique também claro que, entre os defeitos que têm todos os regimes, eu prefiro a democracia republicana.
Não me parece que se devam mexer nos símbolos de um país, a menos que haja uma razão tremendamente importante. É até porque penso dessa forma que não me parece que se deva agora perder muito tempo a pensar em voltar à forma anterior. O erro está feito. Aliás, o mesmo se poderia aplicar ao hino, também alterado pelos republicanos… Ressalva apenas para dizer que o “Hino daCarta” era o Hino de Portugal apenas desde 1834, portanto, um jovem quando comparado com as cores da bandeira, com a língua ou com o país.
Começo desta forma para enfatizar que os pilares simbólicos da nação, como a bandeira, a língua e o hino, não devem ser tocados. Da mesma forma, o Presidente da República não deve ser deposto, a Constituição não deve ser suspensa e a Cultura deve ser sempre apoiada.
Acontece que nos últimos anos, os governos da República já alteraram a língua, com um inexplicável acordo ortográfico, a Constituição está claramente suspensa e a Cultura está a ser menorizada, como ficou patente com a passagem de Ministério a Secretaria de Estado.
Estava-se em plena segunda grande guerra quando o primeiro-ministro inglês se negou a cortar o apoio à Cultura para favorecer o esforço bélico. Segundo Wiston Churchil, se não houver Cultura, porque é que estavam a lutar?
Em particular, o desrespeito pela Constituição é gravíssimo. Como podem os dirigentes políticos da administração pública jurar a Constituição e, depois, desrespeitá-la? Até o próprio Presidente da República já teve de referir que o orçamento de Estado não pode desrespeitar a Constituição, remetendo a “batata quente” para o tribunal constitucional. No entanto, que dirá o militar que tem de defender a Constituição com a própria vida? Na minha opinião, desrespeitar a Constituição é um passo muito grande em direção à anarquia ou à submissão a outros interesses que, menorizada a Constituição, se lhe poderão sobrepor. Ao fazer efetivos esforços para reduzir o Estado Social, menorizar a Cultura e desrespeitar a Constituição, o atual Governo da República está a contribuir para esbater a nossa relação connosco próprios, enquanto sociedade organizada e orgulhosa de si mesma.
Por tudo isto, restam algumas soluções. A primeira é que o Tribunal Constitucional diga, como já o fez antes, que esta é uma situação “de facto”, pelo que nada há a fazer. Poderemos então, à portuguesa deste Portugal contingencial, dizer que “é o que temos” e “culpar” o Tribunal. O Estado Social continuará a esbater-se até termos o apoio aos desfavorecidos transformado em esmola aos pobrezinhos e a Cultura será metamorfoseada em caricatura de um país perdido de si próprio.
A quem interessa isso? Nem a Direita portuguesa parece estar a gostar do caminho. Então, a quem interessa? Será que os países do centro da Europa precisam de mão-de-obra barata na periferia? Será que a nossa miséria (e da Grécia, da Espanha e da Itália) é essencial para travar o crescimento económico da China? Será isso? Sou muito pouco adepto das teorias da conspiração, mas o que leva a tentar reduzir o Canal 2 da RTP, as delegações da televisão nas Regiões Autónomas e a Antena 2 a elementos vestigiais? Que leva a simplificar ad nauseam os despedimentos? Que leva a que o Ministro das Finanças bloqueie a economia, literalmente, esvaziando os bolsos da generalidade dos portugueses para “alimentar” a Banca? Que leva o Governo da República a sufocar financeiramente as Regiões Autónomas, criando até o estatuto de “residente nos Açores” para o acesso ao Sistema Nacional de Saúde? Portugueses de quê? Nem me atrevo a responder, tal o embaraço.
Haverá alternativa? Penso que sim. Na minha opinião, é urgente que o Presidente da República designe um Governo de iniciativa presidencial que suspenda as medidas anticonstitucionais do Memorando da Troika. Não é o respeito de um Tratado precipitado ou as prioridades de um Governo que devem colocar os valores nacionais em causa. Esses são os mais importantes. O resto é dinheiro e tempo. Felizmente, a Europa tem o primeiro e o segundo teremos conjuntamente de o encontrar.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Fazendo Festas!


Uma Cadeira-de-Natal feita pela Bibioteca Natália Correia
e em exposição na Junta de Freguesia de Carnide, Lisboa.  
Foto: F Cardigos.

O período de Natal e Ano Novo é particularmente importante na nossa cultura. Para além da componente religiosa, que me escuso de comentar por falta de conhecimento, apesar de lhe reconhecer enorme importância, há a componente fraternal. Alguém, um dia destes, me dizia que nestes períodos, paradoxalmente, há um aumento nos conflitos familiares, dada a proximidade induzida pela ausência do trabalho e pela reunião de entes distantes. É possível.
Apesar de reconhecer que a tensão pode ser relevante, para mim, o período de festas é, na realidade, um período de íntima reflexão. A falta de pressão por parte do trabalho e a instabilidade meteorológica que inibe a realização de atividades de ar livre, abre-me espaço para um período de intensa introspeção. De facto, vendo bem, todas as grandes decisões da minha vida pessoal foram tomadas em período natalício. Escuso-me a dissertar sobre elas, até porque, por definição, as decisões pessoais são-no isso mesmo.
A um outro nível, o período de festas tem-me permitido fazer, reatar ou reforçar amizades improváveis. A vida do dia-a-dia afasta as pessoas, naturalmente. Ao contrário do que muitos consideram e eu incluído durante muito tempo, hoje penso que este afastamento não é um drama. Simplesmente acontece. Não podemos manter todas as amizades em permanente “ponto de ebulição” e, portanto, é natural que algumas “chamas”, no mínimo, se afastem. Este afastamento não tem de arrastar um sentimento de culpa consigo. As coisas são simplesmente assim.
Reatando “o fio à meada” desta conversa, no período de festas, voltamos a encontrar as amizades distanciadas. Para além da componente divertida inerente aos reencontros, às celebrações, às histórias, a mim regozija-me muito a diversidade e a imaginação que estes momentos me despoletam. As associações e encadeamentos de novos pensamentos que resultam daquelas conversas são inesperadamente catalisadoras de novas ações. É como se, de repente, ficasse com uma nova caixa de ferramentas de soluções intelectuais. No final do período de festas dou por mim a dizer “e se fizéssemos antes assim?!” com uma maior frequência. Os culpados desta alteração comportamental: os meus amigos improváveis!
O Ano Novo e especialmente o Natal, por muito que o meu cérebro pragmático o queira evitar, são especialmente importantes para o reforço do ser e do saber estar. Os sorrisos e os abraços inerentes à família próxima e aos amigos íntimos são a mais importante flama que nos motiva a ser melhores seres humanos no dia-a-dia. Neste período, o olhar dentro dos olhos do outro ou uma simples frase tornam-se num “és importante para mim”, “vai em frente” ou “gosto de ti, pá!”. Pode ter sido repetido, de diferentes formas, todos os dias do ano, mas, neste período de emoções à flor da pele, há um relembrar que se torna imediatamente significativo.
Portanto, em resumo, especialmente hoje, aqui fica a minha mensagem de agradecimento aos meus familiares, amigos e conhecidos por serem quem são e como são. Mesmo que pudesse, não vos mudava um milímetro. A todos um Feliz Natal, um Ano Novo cheio de coisas boas e que o futuro mais distante ainda seja mais sorridente. “Para as curvas”, cá estou atento e cheio de vontade!

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Fragilidades


Nascer do Sol por trás da ilha do Pico.
Foto: F Cardigos SIARAM.

Quando o telemóvel tocou, senti um ligeiro sobressalto. Apesar de não ser invulgar, nem todos os dias recebo uma mensagem SMS depois das 10 da noite. Apressei-me a ler. Do outro lado do planeta, alguém escrevia: “Esta tudo bem em Ushuaia”. A minha mãe fazia um telegráfico ponto de situação da sua viagem pelo sul da América do Sul.
Preocupa-me deveras a qualidade de vida das pessoas que, depois de terem contribuído ativamente para criar as suas famílias e para o bem-estar económico da sociedade, se reformam. Ao ver certas situações de abandono ou miséria, fico imensamente preocupado, até por isso ser uma enorme injustiça. As pessoas de idade avançada são das mais frágeis e das menos salvaguardadas.
Os meus pais tiveram sorte e a organização que fizeram da sua vida permite-lhes não terem grandes preocupações financeiras. Apesar disso, tendo consciência que nem todos têm essa felicidade, gostaria de contribuir de forma mais premente para que todos pudessem usufruir do mesmo bem. Mas como o fazer?
Foi com o intuito de dar algumas respostas sobre o envelhecimento com qualidade que a Câmara Municipal da Horta, com o apoio do Governo dos Açores, organizou o “Fórum Cidadãos Ativos e Solidários”. Nele, tive a oportunidade de ouvir a comunicação da Professora Maria de Lourdes Quaresma que registei por ser extraordinariamente informativa e concludente. Entre muitos outros detalhes, fiquei a matutar numa frase em particular: “a esperança de vida irá aumentar, mas, a qualidade de vida dos últimos anos pode diminuir”. Ou seja, os avanços médicos têm permitido viver mais tempo, mas os últimos anos são de extraordinária dependência e, algumas vezes, de grande sofrimento. Aquele período que medeia entre o início da degradação da saúde e o falecimento, que antes era relativamente rápido, hoje prolongou-se severamente.
Portanto, o desafio é tentar encontrar as soluções para que o aumento da esperança de vida não aniquile a qualidade de vida dos nossos dias finais. Isso apenas será conseguido com o empenho da sociedade, com os avanços tecnológicos, especialmente na área da saúde, e com um esforço por parte de cada um, contribuindo para a sua educação permanente.
Não há dúvida que um idoso que esteja familiarizado com as novas tecnologias da informação e comunicação, perante uma eventual situação de imobilidade, terá uma grande probabilidade de se manter incluído socialmente. Obviamente, isso apenas acontecerá se conseguirmos coletivamente criar condições de conforto que permitam esse enquadramento económico e social.
Tendo tudo isto em consideração, fico muito contente por estar numa ilha em que a sociedade pensa e reflete em conjunto sobre esta temática e que consegue gerar abnegadas soluções como é, por exemplo, a Universidade Sénior. Com gastos mínimos, para não dizer nulos, os menos idosos vão partilhando o que sabem com os restantes, garantido que estão a par das novas tendências tecnológicas e outras temáticas mais modernas. Estas e outras iniciativas fazem-me ter orgulho em ser faialense!

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Menos cagarros salvos, será isso mau?


Cargarros, Calonectris diomedea borealis.
Foto: PH Silva SIARAM

Este ano salvaram-se 1987 aves durante a “Campanha SOSCagarro 2012”. Esse número faz decrescer em mais de mil animais a cifra atingida no ano passado. A primeira assunção é que isso seria mau. Se foram salvos menos aves é porque houve menor empenho na Campanha ou, em alternativa, menos cagarros.
Analisemos.
Este ano participaram na Campanha quatro mil e seiscentas pessoas e, no ano passado, quatro mil e setecentas. Não é um decréscimo significativo, logo, não nos parece que isso seja propriamente mau. Reforçando a ideia de que o empenho não se reduziu, atente-se para o aumento em 47% nas instituições participantes. Fantástico!
Portanto, se não houve redução do empenho, talvez tenha havido uma diminuição do número de aves. Realmente, verificou-se uma diminuição do número de casais nidificantes em cerca de um terço. Os dados são do Departamento de Oceanografia e Pescas da Universidade dos Açores e da SociedadePortuguesa para o Estudo das Aves. Na verdade, nem precisávamos dessas indicações. A maioria dos açorianos sentiu que este ano houve menos cagarros em terra. Diversas pessoas, incluindo eu próprio, sentiram a diminuição daqueles grasnares que é impossível descrever por letras ou, muito menos, por palavras.
Paradoxalmente, apesar de ser preocupante e merecer um estudo profundo (e, eventualmente, incremento nas ações de preservação), esta redução de aves nidificantes não se deveria ter refletido na redução de salvamentos. É que, segundo os cientistas, a redução na nidificação foi contrabalançada por um aumento muito significativo no sucesso reprodutivo. Ou seja, as poucas aves que nidificaram fizeram-no com enorme eficiência. Então… Onde andam essas aves?
Pensámos no assunto… coligimos informação… e chegámos à conclusão que, provavelmente, houve dois fatores a retirar os cagarros das zonas de salvamento. Em primeiro lugar, as excelentes condições meteorológicas nos dias em que houve mais aves a sair dos ninhos. Essas condições permitiram que as aves voassem imediatamente para o mar, sem serem atraídas por terra. Para além disso, houve uma enorme redução na iluminação pública. Neste caso, a crise veio reforçar as medidas de economia de energia e isso retirou luz das ruas. Os jovens cagarros agradecem!
Portanto, se, por um lado, tivemos menos aves a nidificar nos Açores e isso necessita de reflexão profunda e ação consequente, por outro lado, a redução do número de salvamentos não é consequência de uma diminuição no empenho na salvaguarda destas aves marinhas.
Há, no entanto, um outro número que exige também atenção. Houve um aumento percentual de animais mortos nas estradas. No ano passado esse número era de 7% das aves caídas e, este ano, subiu para 9%. Certas estradas, principalmente em São Jorge e no Pico, são autênticas ratoeiras para os jovens cagarros. No próximo ano, ter-se-á de equacionar o reforço da sensibilização e mesmo a imposição de limites de velocidade. É apenas por uns dias e em troços que não têm mais de um quilómetro. No entanto, para os cagarros pode ser a diferença entre a vida e a morte. Um assunto a pensar no futuro próximo com alguma atenção.
É fantástico que tanta gente adira anualmente e de forma voluntária e organizada à “Campanha SOS Cagarro”. Estou em crer que esta é a maior ação conservação da natureza de cariz regular de Portugal. Para uma Campanha que já leva duas dezenas de anos de existência, é digno do nosso orgulho coletivo.

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Derrocada!


Ilhéus que resultaram da derrocada na costa noroeste da ilha do Corvo.
Foto: F Cardigos - SIARAM.

Na última quinta-feira recebi um telefonema da ilha do Corvo que era, no mínimo, preocupante. Depois de informado que havia algo por trás da ilha que não se movia, “parecia um navio encalhado”, o meu interlocutor disse-me que estava tão escondido “atrás da terra” que os próprios corvinos não conseguiram perceber inicialmente do que se tratava. “Foram os florentinos que, com melhor ângulo, nos avisaram”. Ele, que tinha acabado de ir às terras altas verificar, disse-me “temos ilhéus novos no Corvo!”
Por sorte, fui designado para ir ao Corvo verificar no local qual o evoluir inicial pós derrocada. Também por sorte, o comandante e copiloto do avião que me transportou ao Corvo fizeram uma boa aproximação ao local do evento permitindo, desde logo, obter bons registos fotográficos. Um simples olhar para as fotografias de 2010, data da última derrocada digna de registo, e os registos agora obtidos ficou evidente o que tinha acontecido. Mais pesada por causa das intensas chuvas e ventos fortes do início da semana, uma massa com cerca de 150 mil toneladas havia deslizado pela encosta noroeste da ilha do Corvo, projetando-se mar dentro e formando um conjunto de ilhéus dispostos em semicírculo.
Restava uma pergunta. Como é que esta enorme massa geológica se pode deslocar sem que ninguém notasse? A resposta parece jazer nas condições meteorológicas que se verificavam no próprio dia do evento. Durante um período bem definido, para além da precipitação e dos ventos fortes, associou-se uma enorme trovoada. Quem sabe se um daqueles trovões, na realidade, não foi este deslocamento? Não podemos ter a certeza da resposta, mas isso constituiria uma boa explicação.
Estava agora no Corvo. Aproveitando a deslocação da lancha da Marinha colocada na ilha das Flores aos novos ilhéus, embarquei e, nas imediações dos ilhéus, verifiquei pela sonda como se distribuía a mancha de sedimentos em profundidade. Nitidamente, cerca da batimétrica dos vinte metros havia um abrupto salto para a dúzia de metros. Era ali que começava a plataforma dos novos ilhéus. O estado do mar não estava propício e, por isso, não foi possível desembarcar. De qualquer forma, no dia anterior, já um residente no Corvo lá havia ido “reclamar” as novas terras. Ali está o mais recente território açoriano. Ali, à minha frente, começa Portugal!
No domingo, aproveitando o bom tempo, e não podendo fazer o que realmente me apetecia, que era desembarcar na Ilha Nova, resolvi atravessar o Caldeirão e ir até ao ponto sobrejacente à derrocada. Não sei o que era mais intenso: o cansaço do trajeto até ao local, a instabilidade do topo da arriba (sentia o reverberar dos meus próprios passos…), o ouvir de permanentes pequenos deslizamentos de terras sobre a encosta externa ao Caldeirão ou a deslumbrante paisagem que me rodeava por todos os lados. No final, a quem me perguntou, respondi “Vale a pena, recomendo e desaconselho…” Com esta forma contraditória tentei transmitir o que sentia, ou seja, apesar de perigosíssimo, não trocava aquele passeio por nada.
Há, na vida, muitas coisas assim, que associam o perigo extremo ao enorme prazer. Ao estar ali, numa arriba com quinhentos metros de altura, penso ter entendido o que sentem os “conquistadores do inútil”. Porquê subir ao topo de uma montanha ou mergulhar às profundezas do oceano? A resposta apenas a entende quem já lá foi. No domingo eu estive novamente num desses sítios! 

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Rescaldo


Momento da campanha eleitoral para as Eleições Regionais de 2012.
Foto: F Cardigos.

Alea jacta est”, rezam as crónicas que assim exclamou JúlioCésar depois de ter tomado a decisão de afrontar o Senado Romano e, eventualmente, sair vitorioso. As suas legiões atravessavam o rio Rubicão desafiando Pompeu. “Os dados estão lançados”, resta verificar o resultado.
Lembrei-me desta expressão a meio da noite entre sexta-feira e sábado, depois de ter terminado a campanha eleitoral. Restava então esperar até domingo e verificar o resultado das eleições. Entre a enorme derrota que era apontada pelas alegadas sondagens iniciais para a ilha do Faial e a sensação de trabalho bem feito que fomos tendo durante a campanha, tudo era possível. Esperar…
Ao ver o resultado eleitoral, tive dificuldade em digerir tanto contentamento. Primeiro a vitória nos Açores, depois a vitória no Faial e, finalmente, a maioria absoluta. Tudo nos correu bem. Penso que este foi um bom resultado para os Açores e mesmo para Portugal, mas os próximos anos o dirão.
Voltando um pouco atrás…
Quando teriam Vasco Cordeiro ou Carlos César dito para si próprios “alea jacta est”? Quando é que Vasco Cordeiro terá olhado para os colaboradores de campanha e dito “fizemos o que estava ao nosso alcance, aguardemos”? Quando se reclinou Carlos César na sua cadeira e descomprimiu dizendo para si próprio, “está feito”? Naquela sexta-feira chuvosa, terá Ana Luís conduzido para casa com um sorriso perdido entre a confiança e a angústia? Terá reunido a família e dito “agora resta esperar”? As respostas não são muito importantes.
Depois de dar a primeira tacada na bola de golf, o jogador fica a olhar para o seu movimento esperando que esta caia tão perto quanto possível do green, mas sem nada mais poder fazer. Esta sensação é comum ao estudante, depois da entrega do exame escolar até à receção da nota… O período, que medeia entre o esforço e a observação do resultado, pode ser positivo quando a expectativa é elevada e, principalmente, quando o resultado confirma as melhores expectativas. Estou em crer que foi desta forma que se sentiram Vasco Cordeiro, Carlos César e Ana Luís.
Caso não se confirmem os bons prognósticos, os portugueses aplicam a expressão “balde de água fria”. Custa muito, mas passa depressa. Nestas eleições, penso que deverá ter sido isto que aconteceu ao líder doCDS-PP.
O pior mesmo é quando as expectativas são baixas. Nesse caso, este período, entre o colocar a armadilha e ir ver a caça, pode ser acompanhado de uma angústia terrível. Talvez tenha sido assim que sentiu a líder do PSD. Se eu estivesse no lugar dela, penso que ficaria com uma úlcera apenas por olhar para o relógio e ver o tempo passar entre zero horas de Sábado e as 19 horas de domingo.
Sabendo que este período de desconhecimento e impotência custa tanto, o melhor mesmo é fazer um bom trabalho prévio. Apenas desta forma é possível garantir que, mesmo que se apanhe uma desilusão, a dor passará mais depressa. 

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

O meu manifesto


Foto de Campanha do Partido Socialista na Ilha do Faial.
Foto: F. Cardigos.

Sou de esquerda desde que me lembro. A memória mais antiga que consigo datar é a do dia primeiro de maio de 1974. A manifestação de Lisboa, a esperança misturada com o caos e as cores garridas dos cravos fixaram-se indelevelmente na minha mente. Com o tempo, fui sentindo que, para mim, mais importante do que privilegiar o sucesso individual, eram os valores como a solidariedade e a fraternidade. Em suma, para mim, a direita não é uma opção, embora respeite os meus muitos amigos que preferem esses caminhos.
Outra das paixões que me motiva é o mar. Adoro a água salgada, a geologia que a suporta e, principalmente, vida que contém. Mais do que outros mares, gosto do mar dos Açores. Gosto do esverdeado com que a água fica no meio da Primavera, e tenho dúvidas que possa haver muitas coisas melhores do que o azul transparente das águas açorianas durante o Verão. Tal como raras pessoas, um dos meus passatempos é ver fotografias de animais marinhos, tentando adivinhar os seus nomes e dissertar sobre as suas características. Ultimamente, tenho-me ocupado também na tentativa de encontrar novas formas de utilização sustentável do nosso oceano.
Portanto, um partido que queira o meu voto tem de unir valores de esquerda às preocupações com o domínio marinho. Parece-me claro que apenas um dos concorrentes às presentes eleições regionais une de forma perfeita as duas condicionantes. O candidato Vasco Cordeiro tem defendido ferreamente o nosso mar. Agrada-me!
Para além disto, como muitos saberão, trabalho no Governo Regional e sinto-me ligado a alguns dos resultados obtidos nos últimos anos. Claro que não sou responsável por nada de especial, mas vou ajudando…
Sendo coerente com a estrutura ideológica e estratégica, estando satisfeito com os resultados anteriores e sendo solidário com os objetivos futuros, envolvi-me naturalmente na presente campanha eleitoral. Nas diferentes ações fui descobrindo um Faial que não é tão sorridente como poderíamos esperar olhando ao de leve. A convite dos seus locatários, entrei em algumas casas que transparecem necessidades evidentes. A vida não é fácil para todos e isso apenas reforça a importância das opções de esquerda.
Ao mesmo tempo, fui descobrindo o lado humano desta lista candidata pelo Partido Socialista. Tenho a partilhar que foi uma muito agradável surpresa. Não vi qualquer individualismo, tirando o inerente aos momentos mais galvanizados ou o necessário para dar ênfase aos elementos que têm maior probabilidade de ser eleitos e, portanto, com maior responsabilidade.
Para além dos diretamente interessados, os candidatos, o Partido Socialista tem a sorte de ter uma equipa paralela de gente abnegada e interessada. Estes entusiastas, cada um de sua forma, aparecem e trabalham! Gostei muito do que vi.
A escolha responsável exige ler os manifestos das diversas forças políticas concorrentes. Tenho a certeza que, quem o fizer, encontrará uma clara diferença entre os diferentes partidos, o que facilitará a escolha de dia 14.
Ao contrário de outras eleições, em que muitas vezes tive uma sensação de opção pelo mal menor, este ano estou harmonicamente convencido que o Partido Socialista não tem apenas o melhor candidato a Presidente; O Partido Socialista tem também a melhor lista de ilha e os melhores manifestos. Dada a diferenciação pela positiva, até para que nas próximas eleições os partidos concorrentes tenham maior cuidado e empenho, temos agora a oportunidade de dar uma grande vitória à esquerda moderada dos Açores.
Claro que este é o meu manifesto, mas independentemente de em quem votar, vote! A democracia exige participação e essa começa em si!

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

O prazer de ajudar a fazer


Vista interior do Aquário de Porto Pim.
Por FredericoCardigos

Nos últimos dias tenho sido confrontado com a minha própria consciência sobre o desempenho do Governo a que pertenço. Teremos feito tudo bem? Fizemos o que estava ao nosso alcance? Poderíamos ter feito mais?
Hoje, fruto do ganhar de consciência moral coletiva, já não se cataloga o desempenho das lideranças pela obra, mas sim pela consequência. Ou seja, no caso do Governo, a maioria das pessoas não faz a avaliação pela quantidade de betão gasta, mas sim pelo aumento dos níveis da qualidade de vida e a sua sustentabilidade. Apesar disso, a estruturação dos Açores, parada durante décadas de ditadura e, depois, lenta por duas décadas de inadaptação aos novos paradigmas europeus, teve 14 anos de elevadíssima energia. Grande parte da rede de escolas e da rede de estradas foi renovada, a maioria dos hospitais e centros de saúde tem novos edifícios ou, pelo menos, novas valências e os portos, marinas e aeroportos estão hoje num patamar sem comparação com o passado recente. Penso que é incontestável reconhecer a diferença.
Nos últimos dois anos, como resultado de uma crise profunda, de uma necessidade de concentrar esforços financeiros na manutenção e funcionamento destas estruturas e porque, felizmente, as grandes necessidades estavam já colmatadas, houve, de facto, uma redução no investimento estrutural. Esta redução, que se alargou também ao setor privado, torna-se particularmente evidente quando vemos a crise que paira na construção civil e os baixos níveis de importação de cimento. O investimento, a existir, foi propositadamente concentrado em pequenas obras que fizessem diferença, mas que não implicassem dispêndios financeiros que não estivessem ao nosso alcance.
Outras unidades geográficas, incluindo alguns municípios dos Açores, nunca se conformaram com as suas capacidades financeiras e o desastre foi arrasador. Ainda hoje autarquias como Vila Franca, Calheta de São Jorge e Povoação vivem quotidianamente com a amargura do investimento zero. O fantasma dos despedimentos paira sobre esses locais, o que tem implicações claras na qualidade de vida dos cidadãos que trabalham na dependência dessas instituições. Não irá acontecer, até porque os esforços estão agora concentrados no pilar social, mas a mera possibilidade de perder o emprego é angustiante o suficiente para uma redução da qualidade de vida individual. Também por essa razão, e estando nós em véspera de eleições, é absolutamente necessário concentrar os esforços nos projetos de Governo que tenham preocupações sociais acrescidas.
Apesar desta mudança de paradigma, continuamos a investir. No departamento do Governo onde trabalho, conseguimos reorientar o investimento para soluções que fossem pouco dispendiosas, altamente consequentes e valorizadoras do património existente. Apenas analisando a ilha do Faial, com esta aproximação, recuperamos o Miradouro da Lira, a Casa das Lavadeiras no Capelo, a Casa dos Cantoneiros, auxiliámos a recuperação do porto da Ribeirinha e, com a recuperação de parte da levada e diversos trilhos, criámos o Trilho dos Dez Vulcões. Outras obras estão na sua fase final; como seja a recuperação da Casa dos Dabney na Praia de Porto Pim (incluindo a adega, o celeiro e as cisternas de água) e a antiga fábrica da baleia, que agora terá o nome de Aquário de Porto Pim. Em paralelo, melhoramos as condições no Jardim Botânico, adquirimos e recuperamos os Charcos de Pedro Miguel e criámos diversas valências para a observação de aves. Nenhuma destas obras foi especialmente dispendiosa, mas todas promovem a recuperação do património e facilitam a criação de emprego. Digamos que é uma aproximação cirúrgica ao investimento. Consequência: entre outros, o Parque Natural do Faial foi o vencedor do Prémio Eden Portugal 2011.
Penso que o caminho da sustentabilidade financeira, social e ambiental deverá continuar a ser trilhado. Para quem concordar, sugiro que veja com cuidado os programas eleitorais das diferentes candidaturas às eleições de dia 14 e opte pela que for mais coerente. Não nos iludamos com obras megalómanas que não irão existir. Foquemo-nos no que faz diferença para o nosso dia-a-dia e para os nossos filhos.
Se fizemos um bom trabalho, que era a pergunta inicial, cabe-lhe a si decidir. Qualquer que fosse a minha resposta, por mais entusiasta ou justificada que fosse, seria sempre a minha resposta e, neste caso, é a sua opinião que conta. Para mim, foi um prazer ajudar a fazer!

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Caulerpa


Caulerpa webbiana semi-recoberta por areia.

Uma das maiores dores de cabeça que me acompanha desde o dia em que comecei a trabalhar na Secretaria Regional do Ambiente e do Mar tem o nome de Caulerpa webbiana. Esta alga verde, perecida com esparguete e com um nome quase arredondado, passe o toque de poesia, chegou ao Faial em 2002.
Os mergulhadores do DOP da Universidade dos Açores têm como hábito recolher amostras de tudo o que não conseguem identificar. Neste caso, o colega em causa pegou no pedacinho de alga e colocou num tubo de ensaio que foi fechado para posterior identificação por um especialista. Tudo certo. No entanto, como a alga era estranha demais e havia outros assuntos prioritários a que acorrer (dá-se-lhes o nome de “incêndios” no jargão universitário), a amostra foi ficando…
Em 2005, num mergulho noturno, uma outra equipa encontrou uma mancha verde garrida, com cerca de um metro de diâmetro, na chamada Baía de Entre Montes. Alertados, passados poucos dias, vários operadores de mergulho da ilha do Faial reportavam outras colónias um pouco por toda a Baía da Horta.
A alga era bonita e o seu verde era realmente contrastante com tudo o que estava reportado para os Açores. Foi nesse momento que se iniciou um período de pesquisa intensa. Que alga era aquela? Como cá chegou? Que ameaça representava? Como se eliminava?
As perguntas foram obtendo respostas a partir de 2006. Mas estas respostas estavam longe de ser agradáveis. Provavelmente, a alga, visto que apareceu apenas no Porto da Horta, terá vindo fixa num casco de um barco ou na sua água de lastro. A alga pertence a um dos cem mais agressivos géneros de organismos existentes no mundo. Outras algas do mesmo género são responsáveis por autênticos desastres ambientais e económicos no Mediterrâneo. Nos Estados Unidos, há unidades de combate à Caulerpa que monitorizam e combatem qualquer novo foco ao primeiro alerta. Uma vez instalada, a Caulerpa propaga-se rapidamente, ocupando novo território e inibindo a presença das espécies locais.
A nossa Caulerpa webbiana existe também na Madeira e nas Caraíbas. No entanto, nesses locais, as manchas pouco passam dos centímetros de diâmetro. Nos Açores, as manchas chegam a ter vários metros! A alga produz uma toxina que, nos Açores, repele os organismos, peixes e invertebrados, que se pudessem dela alimentar. Aparentemente, os organismos do nosso arquipélago ainda não se conseguiram adaptar à presença desta alga, provavelmente devido à sua entrada recente. Ou seja, em termos terrestres, poderíamos comparar a um enorme prado de plantas venenosas. É nisto que se transformou grande parte da Baía da Horta nos últimos anos.
Alguma coisa teria de ser feita. Em 2008 foram estabelecidos os contratos necessários para começar a combater efetivamente a alga. Começou a luta. Equipas lideradas por diversos investigadores do DOP e constituídas por incansáveis mergulhadores profissionais, diariamente lançam-se à água, isolam com cobertores especiais uma determinada área ocupada pela Caulerpa e introduzem no seu interior produtos tóxicos. Não é um trabalho bonito, mas é uma ação cirúrgica. Apenas a alga é prejudicada.
Depois de três anos de combate, constatou-se que estávamos a conseguir conter o ímpeto da expansão inicial, mas, mesmo assim, havia sempre colónias em novos locais. A sensação era de sucesso relativo no final de cada época, mas, no início da seguinte, as novas colónias estavam um pouco mais longe. Para além disso, o núcleo central da distribuição da Caulerpa estava, de ano para ano, mais forte e mais vigoroso. Eram já dezenas de metros seguidos contínuos de alga verde.
No início deste Verão, constatando novo progresso por parte da alga, percebemos que algo mais agressivo teria de ser feito. Depois de diversas reuniões de trabalho e vários mergulhos na área de distribuição da invasora, ficou decidido que, para além das ações cirúrgicas na zona das novas colónias, teríamos de atacar o “coração” da distribuição.
Com base nas primeiras experiências feitas no ano passado e que demonstraram ser muito eficientes, aproveitamos as dragagens do porto da Horta para fazer os primeiros recobrimentos da alga com inertes (essencialmente areia).
Esta semana, tive a possibilidade de ir verificar os resultados. Estes primeiros resultados são promissores. A alga está eficientemente recoberta e basta apenas uma pequena camada de areia para que ela comece logo a regredir passados poucos dias. A Caulerpa webbiana sem luz morre de imediato. É o seu calcanhar de Aquiles.
Evidentemente, esta é uma técnica que apenas pode ser utilizada nos locais em que a densidade da alga é muito elevada. Caso contrário, estaremos também a destruir outros organismos, o que seria demasiado negativo para o ecossistema. No entanto, nos locais em que a cobertura de Caulerpa está acima dos 70%, esta parece ser a técnica a utilizar.
Quem sabe, finalmente, estaremos a ganhar uma parte da batalha. Honestamente, temos que ser claros, a Caulerpa webbiana está nos Açores, muito provavelmente, para ficar. Apesar disso, e como foi introduzida pela mão do homem, temos de a combater, dando assim tempo para que as espécies locais se adaptem e integrem a alga invasora como parte dos habitats marinhos antes delas próprias serem destruídas. Como no outro dia li num livro sábio, “esta não é uma guerra, porque as guerras têm fim”.