sexta-feira, 26 de abril de 2002

O Sargo

Introdução

Não há apenas uma espécie de sargo. Na realidade o género Diplodus agrupa 22 espécies e sub-espécies, tendo a última subespécie sido descrita em 1984 por Bauchot e Bianchi. Nenhuma das espécies está em perigo a nível mundial, embora o limite de distribuição de algumas delas seja muito limitado. Como resultado de uma versatilidade adaptativa elevada, o sargo especiou de forma surpreendente havendo sub-espécies cuja distribuição está limitada a um pequeno grupo de ilhas. Estes são os casos, por exemplo, do Diplodus sargus helenae que está limitado à Ilha de Santa Helena ou do D. sargus ascensionislimitado à Ilha de Ascensão (esta última sub-espécie é considerada uma espécie por alguns autores, Diplodus ascensiones)

Em Portugal continental a espécie mais comum é o Diplodus vulgaris e nos Açores é o D. sargus cadenati. Nos Açores, no meio de grandes cardumes da espécie mais comum, por vezes, aparecem elementos de D. vulgaris. Não é preciso estar muito atento para perceber que há algo de “errado” com aquele sargo. O contraste do prateado do D. vulgaris é desconcertante quando está no meio de um cardume de D. sargus cadenati.

Qualquer das espécies de sargos é inofensiva para os seres humanos.

Descrição

Neste artigo iremos focar principalmente o Diplodus sargus cadenati visto ser a espécie mais estudada nos Açores. Mas como distinguir esta espécies das restantes existentes em Portugal? Não é fácil. Comecemos por descrever o D. sargus cadenati: tem o corpo oval, elevado e é comprimido dorso-ventralmente, boca ligeiramente protáctil (distenção anterior dos maxilares no momento de ingestão da presa), a cor dominante é o prateado e, para além de uma mancha no pedúnculo caudal, apresenta faixas verticais, mesmo nos maiores indivíduos.


Diplodus cervinus – apresenta um corpo mais amarelado, sem mancha no pedúnculo caudal e as faixas verticais são largas.

Diplodus puntazzo – a melhor característica diagnosticante é possuir maxilares especialmente projectados anteriormente.

Diplodus sargus lineatus – apresenta faixas muito pronunciadas e mancha no pedúnculo caudal.

Diplodus sargus sargus – os adultos não apresentam faixas.

Diplodus vulgaris – tem a mancha no pedúnculo caudal e, por vezes, uma faixa (apenas) junto à cabeça, mas não apresenta faixas verticais ao longo do corpo.


Não desespere se não conseguir distinguir as espécies facilmente. De facto, nem mesmo os olhos mais treinados deixam de ter dúvidas na distinção entre algumas das espécies. Com o aumento do número de mergulhos irá verificar que existem ténues diferenças, até no comportamento, que o ajudarão a melhor sistematizar as espécies.

Biologia e Ecologia

Em termos de especiação, uma das razões para a versatilidade de adaptações advém da complexidade das maxilas. De facto, possuem caninos, molares e um outro tipo de dentes que se aproxima dos incisivos, o que lhes permite adaptarem-se a diversos tipos de alimentação. Pode-se dizer que as maxilas dos sargos são muito parecidas com as dos mamíferos. Estas características, aproximadas pela especiação nalgumas espécies, apesar de não estarem relacionadas geneticamente têm o nome de “análogas”. Nos casos contrários, quando ocorrem soluções diferentes com base na mesma raíz genética (por exemplo, os braços dos primatas e as barbatanas dos mamíferos marinhos), adopta-se o nome de “homólogas”.

O tamanho em que o sargo é mais habitualmente observado pelos mergulhadores situa-se entre os 20 e 30 cm. Na maioria das espécies, chega à maturidade quando atinge 17 cm, ou seja, com dois anos de vida os sargos estão aptos a reproduzir-se. Nos Açores o período de reprodução, no caso de D. sargus cadenati, ocorre entre entre Março e Junho. No Continente este processo é registado cerca de três meses mais cedo.

O habitat preferencial dos sargos coincide com as zonas de rochas ou semi-arenosas. Por vezes agrupam em zonas portuárias, independentemente do tipo de fundo, onde se alimentam de restos de peixe rejeitados pelos pescadores. Isto significa que para além de se alimentarem de pequenos crustáceos, moluscos (preferencialmente), salpas, algas, poliquetas e equinodermes também são necrófagos, o que é um reflexo da versatilidade alimentar referida anteriormente. Outro comportamento, que comprova a versatilidade dos sargos são as associações alimentares que estes mantêm com outros peixes, como os salmonetes (Mullus surmuletus). Os sargos aproveitam o trabalho dos salmonentes para se alimentarem de pequenos organismos que são levantados durante as escavações.

Encontram-se muitas vezes aglomerados em cardumes com cerca de uma dezena de indivíduos. Nestes cardumes, é comum encontrarem-se indivíduos de outras espécies. São observados em números elevados especialmente em buracos de média dimensão e nas zonas de rebentação junto à costa.


Captura

Com um pouco de exagero, pode-se dizer que o sargo é “a vítima”. De facto os caçadores submarinos e os pescadores de costa não lhes dão tréguas. A este comportamento por parte dos humanos alia-se na miséria dos sargos o seu próprio comportamento. Quando escondidos em buracos são presas fáceis dos caçadores, que podem regressar diversas vezes sem que estes entrem em fuga. O seu comportamento de fuga e ocultação quando estão em perigo pode-lhes ser adverso se estiverem na presença de um caçador experiente. Em mar aberto o comportamento não é habitualmente o mesmo, dificultando a captura por parte dos caçadores.

Os pescadores lúdicos, que da costa lançam os anzóis acabam por exercer o seu esforço de pesca, de uma forma concentrada, na área favorita dos sargos mais pequenos, a zona de rebentação. Como o esforço é elevado e eficiente, é importante respeitar os tamanhos mínimos de captura. Para estas espécies, um indivíduo com menos de 20 cm é um indivíduo demasiado jovem para ser capturado.

Inexplicavelmente, 15 cm é o tamanho mínimo de captura de sargos autorizado por lei. Num momento em que tanto se fala da ruptura de mananciais é pouco razoável manter um tamanho de primeira captura que potencialmente pode colocar em perigo a própria espécie.

Já num artigo anterior (ver Revista Mundo Submerso nº52) se chamou a atenção para a importância de modificar o peso mínimo de captura admitido pela Federação Portuguesa de Actividades Subaquáticas nas provas de caça submarina. Os actuais 400g não protegem todas as espécies de sargo em relação à primeira maturação. Era por isso importante subir o peso mínimo de captura para 550g.


O Sargo no mundo

Taxonomia

CLASSE: Actinopterygii

ORDEM: Perciforme
FAMÍLIA: Sparidae
ESPÉCIE: Diplodus spp.


Para saber mais

Internet

  • Espécies Marinhas dos Açores – http://www.horta.uac.pt/species/
  • Fishbase – http://www.fishbase.org/
  • Fórum Oceanos – http://www.pg.raa.pt/oceanos/
  • Páginas sobre sargo
    • http://www.ideal.es/waste/especies1.html
    • http://www.pedramol.com/pescados/sargo.htm
  • Página da FAO sobre sargo - http://www.fao.org/docrep/x0170f/x0170fa2.htm
  • Página sobre a Ilha de Santa Helena -http://geowww.gcn.ou.edu/~bweaver/Ascension/sh.htm
  • Página sobre espécies marinhas típicas de Lanzarote – http://www.intercom.es/agendagc/lanzarote/pescados.htm

Livros e Revistas

  • Bauchot, M.-L. e G. Bianchi 1984. Diplodus cervinus omanensis, nouvelle sous-espèce de Diplodus cervinus (Lowe, 1841), capturée en mer d'Arabie (Pisces, Perciformes, Sparidae). Cybium 103-105.
  • Cardigos, F., T. Morato e J.P. Barreiros 2001. Como conhecer, reconhecer e preservar a caça submarina. Revista Mundo Submerso, 52: 45-50.
  • Debelius, H. 2000. Mediterranean and Atlantic Fish Guide. IKAN Unterwasserarchiv. 305p. - Guia de identificação dos peixes do Mediterrâneo e Atlântico. Está editado em Alemão, Inglês e Espanhol.
  • Figueiredo, M. 1999. Ecologia alimentar do sargo de Diplodus sargus (Piscis, Sparidade) e do bodião-vermelho, Labrus bergylta (Piscis, Labridae), na ilha do Faial-Açores. Tese apresentada no âmbito da licenciatura em Recursos Faunísticos e Ambiente da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa.
  • Morato, T., P. Afonso, P. Lourinho, J.P. Barreiros, R.S. Santos & R.D.M. Nash 2001. Length-weight relationships for 21 coastal fish species of the Azores, north-eastern Atlantic. Fisheries Research, 50: 297-302.
  • Morato, T.; P. Afonso; P. Lourinho; R.D.M. Nash; R.S. Santos. In prep. Reproductive biology and recruitment of Diplodus sargus cadenati de la Paz, Bauchot and Daget 1974 (Pisces: Sparidae) from the Azores.
  • Sanchez, J.G. 1989. Nomenclatura Portuguesa de Organismos aquáticos (proposta para normalização estatística). Publicações Aulsas do I.N.I.P.(Instituto Nacional de Investigação das Pescas), nº14, 322p.
  • Wirtz, P. 1994. Underwater Guide Madeira-Canary Islands-Azores: Fish. Naglschmid, Stuttgard. 156p.

Outros

Federação Portuguesa de Actividades Subaquáticas - Regulamento das Provas de Caça Submarina para o Ano 2001.

Legislação: Portaria nº 27/2001, de 15 de Janeiro.

Biografia

Frederico Cardigos - é licenciado em Biologia Marinha e Pescas pela Universidade do Algarve. Estagiou no Departamento de Oceanografia e Pescas da Universidade dos Açores (DOP/UAç) e encontra-se na fase terminal do mestrado em Gestão e Conservação da Natureza. Hoje, é bolseiro do Centro do IMAR da Universidade dos Açores através do Projecto MAROV (MCT-FCT-PDCTM/P/MAR/15249/1999). Colabora activamente com o Projecto MARÉ (EU-LIFE-B4-3200/98/509).


Artigo completo, incluindo fotografias, pode ser lido aqui:
http://www.horta.uac.pt/Projectos/MSubmerso/old/200204/Diplodus.htm



segunda-feira, 26 de novembro de 2001

A Veja

Este peixe inofensivo é quase sempre visto pelo prisma da utilidade gastronómica e não tanto pela sua beleza, exotismo e complexidade. Propomos agora que o conheçamos um pouco melhor. Depressa verificará que a simpática e pachorrenta veja esconde algumas características muito interessantes.

A veja é um dos peixes obrigatórios em qualquer mergulho numa zona rochosa de média profundidade nos Açores. Aquele colorido que nos confunde e nos faz imaginar estar numa zona mais a Sul, mais quente, é dado pelas vejas. O seu bico engraçado e as escamas enormes, misturado com uma aparente falta de timidez, até à distância de segurança, tornam a exploração dos mares uma experiência mais rica e divertida.

Descrição

A veja tem o corpo oval, alargado e ligeiramente comprimido. A sua cabeça é cónica e a sua parte anterior é romba, tendo a boca situada na zona mais anterior. As mandíbulas têm pequenas dimensões e os dentes são fortes e estão unidos numa espécie de bico formado por quatro placas. A barbatana dorsal é única e larga e o bordo posterior da caudal é convexo. As fêmeas são avermelhadas, com uma mancha parda atrás do opérculo, por cima do das peitorais e outra amarela no pedúnculo caudal, atrás da barbatana dorsal. A coloração dos machos é escura entre o cinzento, castanho e verde muito escuro com manchas brancas no dorso e flancos. Podem alcançar 50 centímetros de comprimento.

Cromância

Mas falemos um pouco mais da cor. A coloração variada dos peixes é produzida por células pigmentadas, os cromatóforos. Conforme é conveniente, as partículas de pigmento dispersam-se pela célula ou concentram-se num ponto. Este mecânismo permite o aparecimento ou a camuflagem de certas cores. Por justaposição de pequenos pontos de diferentes cores, obtém-se a gama de cores visíveis macroscopicamente aos olhos humanos. Por exemplo, o verde resulta de pontos azúis e amarelos.
Muitos peixes bentónicos, que vivem junto ao fundo, como as solhas (ver Mundo Submerso 41 - "A solha e outros peixes planos dos Açores"), camuflam-se sobre o fundo adoptando o padrão que lhes fica subjacente (mimetismo). As modificações dos pigmentos são controladas por processos nervosos e hormonais.

Quase todos os peixes que vivem nas zonas superiores da coluna de água têm os flancos de cor clara e prateada. Esta coloração resulta da reflexão da luz sobre numerosos cristais microscópicos que as suas células pigmentadas apresentam sobre a derme (uma das camadas da pele). Estes cristais são constituídos essencialmente por guanina - subproduto do metabolismo celular. Já os peixes abissais apresentam cores mais escuras, enquanto que os que habitam as zonas ricas em vegetação apresentam tons mais perto dos verdes e castanhos, para que se confundam, mais uma vez, com o meio ambiente. Outras espécies desenvolvem uma coloração nupcial especial para cativar os parceiros e intimidar os competidores.

Mas voltemos às vejas. Como é que pode ter a certeza que o que está a ver é realmente uma veja? As escamas de grandes dimensões, o bico - que a certas pessoas faz lembrar um bico de papagaio - e as cores descritas atrás fazem que este animais seja dificilmente confundível.

As vejas reproduzem-se entre Agosto e Setembro. Tipicamente, vivem em grupos de 3 a 6 indivíduos de ambos os sexos, mas durante o período nupcial é frequente encontrar os machos em perseguições violentas. Mas normalmente estes pequenos cardumes nadam pachorrentamente entre as rochas em busca de algas e invertebrados. À noite, é frequente encontrar as vejas a dormir junto ao fundo. É curioso ver o estado letárgico em que se encontram apesar dos olhos estarem bem abertos. É que os peixes nunca fecham os olhos. Essa função é desnecessária nos organismos marinhos pois os seus olhos estão constantemente humedecidos pelo meio ambiente, com a vantagem permanecerem sempre abertos permitindo ao organismo estar mais atento. Bom, na realidade há peixes que fecham os olhos... Os tubarões são sobejamente conhecidos por fechar (eu diria antes "proteger") os olhos antes de morderem as suas presas. No entanto, o habitual dentro de água é não fechar os olhos.

Onde vivem

As vejas habitam zonas rochosas entre os 2 e os 50 metros. Mais frequentemente, os indivíduos de menores dimensões preferem as zonas mais abrigadas junto à superfície e os adultos preferem as águas um pouco mais profundas. No Mediterrâneo, os prados de posidónias são um dos habitats habitualmente frequentados pelas vejas.
Em termos de distribuição global, as vejas vivem no Atlântico Este e no Mediterrâneo (principalmente na zona Oriental). No Atlântico, o limite de distribuição Norte é os Açores e o limite Sul é o Senegal, passando pelos arquipélagos da Madeira e Canárias. Em termos de latitude as vejas distribuem-se entre os 42 e os 14º Norte.

Captura

As vejas têm importância comercial e não se encontram ameaçadas. Apesar disso, nas Canárias, foi estabelecido um tamanho mínimo de captura, no caso 20 cm, como medida de gestão pesqueira de um manancial muito desejado. Em Portugal não há limite inferior no tamanho das vejas capturadas. De qualquer forma, as dimensões das malhas normalmente utilizados pelos pescadores não parecem colocar estes animais em perigo. Em relação à caça submarina, o peso mínimo informalmente recomendado é de 500 gramas (ver Mundo Submerso 53, "Áreas protegidas e tamanhos mínimos de captura"). Este peso equivale a cerca de 20 centímetros em comprimento. Apenas com estas dimensões as vejas atingiram a idade de primeira maturação. Esta idade é aquela em que os animais estão aptos a reproduzir-se pela primeira vez. Se deixarmos todos os animais reproduzirem-se pelo menos uma vez teremos, em princípio um ecossistema mais sólido e protegido. As vejas podem viver até aos 17 anos e têm 4 anos e meio quando atingem a idade de primeira maturação.

A veja é um peixe compreensivelmente muito apetecido do ponto de vista gastronómico. No entanto, faz parte das nossas obrigações como seres humanos, não os comer antes de tempo, ou seja, não capture indivíduos com menos dos refereridos 500 gramas. O consumo de pescado imaturo coloca-nos na posição de cúmplice directo nos efeitos que a sua captura provoca. A captura de demasiados animais imaturos pode romper o ciclo de regeneração das espécies, destrói os ecossistemas e elimina a fauna marinha.

Nos Açores, a captura das vejas a partir de terra parece ter ainda uma função social. É frequente ver pessoas de mais idade a fazerem percursos de alguma complexidade para "irem às vejas". Estes passeios, para pessoas com mais de 60 anos, são mais do que uma ocupação de tempos livres, é um desporto com a vantagem acrescida de proporcionar um jantar agradável e saudável. As vejas são capturadas utilizando como isco um pequeno crustáceo, a moura. Dado o tamanho do isco e do anzol, apenas os indivíduos de maiores tamanho são, na realidade, capturadas o que faz desta pesca uma pescaria ecologicamente sustentada.

(Caixa)
Taxonomia

CLASSE: Osteíctios
ORDEM: Perciformes
FAMÍLIA: Escárideos
ESPÉCIE: Sparisoma cretense

A veja no mundo:
Português: veja; papagaio-velho; bodião ou papagaio (Angola); Bidião (em português-criolo de Cabo Verde)
Castelhano: vieja colorada (Espanha, Costa Brava); vieja ou lobo viejo (Canárias).
Inglês: parrotfish
Francês: perroquet viellard; perroquet
Alemão: papageienfisch
Árabe: zilleyq (Líbano)

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Para saber mais na internet:

FishBase - A base de dados sobre peixes na internet (http://www.fishbase.org/)
Espécies Marinhas dos Açores - Uma pequena base de dados com algumas informações e muitas imagens sobre os organismos marinhos (e não apenas) dos Açores (http://www.horta.uac.pt/species)

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Fontes:

Projecto BARCA - Projecto do Departamento de Oceanografia e Pescas da Universidade dos Açores que estuda as pescarias tradicionais.
ARGOSUB - Página do Centro de Actividades Subaquáticas ARGOSUB na internet. Tem boas descrições de diversas espécies de peixes, embora a qualidade das imagens não seja a melhor (http://estadium.ya.com/casargosub/)
El Maestro Pescador - Página internet com diversas informações sobre biologia marinha (http://www.redhispanica.com/desportes/empescador/)
Pedramol Factory - Mais uma página internet espanhola com informações interessantes sobre peixes. Neste sítio poderá consultar desde receitas culinárias até à legislação em vigor por terras de Castela (http://www.pedramol.com)

(Caixa)
Biografia

Frederico Cardigos é licenciado em Biologia Marinha e Pescas pela Universidade do Algarve. Estagiou no Departamento de Oceanografia e Pescas da Universidade dos Açores (DOP/UAç) e encontra-se na fase terminal do mestrado em Gestão e Conservação da Natureza. Hoje, é bolseiro do Centro do IMAR da Universidade dos Açores através do Projecto MAROV (MCT-FCT-PDCTM/P/MAR/15249/1999). Colabora activamente com o Projecto MARÉ (EU-LIFE-B4-3200/98/509).


terça-feira, 26 de dezembro de 2000

Entrevista dada à Revista Mundo Submerso

Introdução


Em muitos locais do mundo, e para que uma determinada zona seja favorecida ou conhecida pelas suas imersões, inúmeros centros de mergulho ou alguns particulares, optam por alimentar algumas espécies mais sedentárias que após algum trabalho acabam por ficar quase residentes e tolerantes à aproximação do homem.

Praticamente todos os mergulhadores conhecem métodos para fixar ou chamar atenção de um determinado peixe numa dada ocasião. Com o crescimento da actividade do mergulho, as solicitações aos operadores e centros de mergulho são cada vez maiores. Por consequência esses peixes mais sociáveis acabam, também eles, por receber mais atenção do "alimentador" levando a situações por vezes caricatas. Em determinado momento, no Mar Vermelho, alguns peixes napoleões foram intensivamente presenteados com ovos cosidos. Chegavam a comer dezenas por semana. Fora do seu padrão alimentar, mas sem dúvida deliciosos para aquela espécie, os ovos foram os causadores de um elevado nível de colesterol no organismo e, como consequência, a morte de certos exemplares. Este foi talvez um dos pontos de viragem na acção de alimentação e comportamento do homem dentro de água em contacto com a natureza.

Como a interacção com o meio ambiente é delicada é natural que se criem muitas vezes posições extremistas. O "feeding" (alimentação) passou a ser um acto reprovado e em alguns casos quase de dimensão "criminosa" em determinadas áreas do mundo.

Desde que enquadrado, e respeitando algumas regras, alimentar os peixes e tocar neles é certamente viável e aceitável. Vejamos o que alguns mergulhadores experientes e conhecedores destas situações nos dizem sobre estas situações.


Mundo Submerso - Quais os grandes inconvenientes de alimentar os peixes regularmente numa determinada zona?


Frederico Cardigos - O grande inconveniente é a alteração do comportamento natural. Isso tem consequências a dois níveis: sobre o animal e sobre os humanos. Ao nível dos animais pode acontecer que estes fiquem condicionados à alimentação externa e percam a capacidade de encontrarem comida por eles próprios. Isso pode ser grave para a sobrevivência dos indivíduos em caso da fonte cessar. Por outro lado, os desequilíbrios da cadeia trófica podem ter consequências de alguma gravidade para o funcionamento do ecossistema. Normalmente a espécie alimentada é favorecida e todas as outras ficam prejudicadas (a justificação científica para isto não cabe aqui). Também pode suceder que a dieta fornecida não seja a mais adequada e isso prejudique directamente a espécie alimentada. Aquilo que para nós é delicioso raramente coincide que com a dieta que seleccionou a espécie em causa durante milhares de anos.

E ao nível humano? De uma forma muito pragmática um animal alimentado é um animal com comportamento adulterado. Ou seja, se nós temos o trabalho de ir para dentro de água, cheios de equipamento, para ver a "natureza" estaremos a ser enganados no caso de animais alimentados. Isso não é a "natureza" é apenas um jardim zoológico em que os animais em vez de terem grades e correntes têm um outro tipo de condicionante, os "doces". Se quisermos ver a natureza como ela é teremos de dar-lhe a liberdade de decisão, sem condicionantes, como ela é. Por outro lado, um animal é sempre um animal... E quando alimentado vai passar a associar a presença do alimentador (você!) à comida gratuita. Se não lhe der comer, ou na quantidade suficiente, ele vai ficar irritado... Num caso de um animal de grande volume a irritação pode ser altamente desanconselhável... Outras vezes, você pode ser confundido com a comida ! Isso sucede com moreias condicionadas. Elas estão habituadas a ser alimentadas com salchichas... É tão giro... Até ao dia em que se esquece de levar as salchichas. Nesse dia os seus dedos podem passar a ser as salchichas. Isso pode ser MUITO desagradável. Felizmente, raramente acontece.

Mas vamos ao caso extremo. Os tubarões! Com a excepção de certas espécies mais vorazes e agressivas (tubarão branco e tigre), todos eles encaram os humanos com um misto de medo e curiosidade. Mas se os alimentarmos teremos oportunidade de os vermos com um comportamento algo diferente... Passarão ao comportamento alimentar e em vez de curiosidade terão fome e em vez medo passarão a ter agressividade. Pode ficar no meio de uma situação muito desagradável e nesse caso... cuidado com os dedos!

Então quando é que é aceitável alimentar os animais ? Raramente, na minha opinião... Mas há certos fins que podem justificar os meios... Brrr, eu não devia estar a escrever isto... Por exemplo, se quiser encher a objectiva com um peixe esquivo, como um peixe-cão, ficará com o trabalho facilitado se puser entre os dedos (fora do campo da objectiva, claro!) uma pequena recompensa. Claro que não é natural, claro que é reprovável, mas o efeito desta foto poderá enfatizar o sentimento de simpatia que certas pessoas têm sobre o mar e ajudar a tomar atitudes na sua defesa (utilização para educação ambiental). Claro que a fronteira entre um comportamento aprovável ou condenável ficará apenas dependente da consciência de cada um. Admito que quando comecei a fotografar cheguei a sacrificar ouriços para atrair alguns peixes. Essa atitude parece-me hoje digna de bárbaros... Mudam-se os tempos...


MS - É possível encontrar alternativas para fixar, ou manter um determinado peixe, ou peixes numa dada região?


FC - Claro que sim. A enorme simpatia e insistência da maioria dos humanos é hiper-cativante, não apenas para o sexo oposto, mas também para a maioria dos seres vivos. Seja você mesmo, insista nas visitas e de acordo com a espécie em causa tenha comportamentos adequados. Claro que não espere que numa zona em que haja predadores humanos (leia-se caçadores submarinos) os peixes tenham um comportamento particularmente amigável. Ou seja, para que numa zona os animais tenham naturalmente um comportamento sedentário e "amigável" tem que ser uma zona protegida. Daí passamos para as perguntas realmente importantes: "Para quando as zonas marinhas realmente protegidas neste país ?" Até os caçadores submarinos estão à espera disso por duas razões: primeiro, eles, mais do que ninguém amam o mar, e sabem que a pesca (toda a pesca) está completamente descontrolada. Segundo, sabem que as zonas de reserva fomentam zonas de fronteira (em relação às áreas protegidas) com belíssimos e deliciosos exemplares. Aqui fica o desafio! Fomente-se um debate amplo neste espaço sobre as áreas marinhas protegidas! Sendo esta uma revista de amantes do mar, porque não começarmos a falar em quais as zonas a proteger e principalmente porquê. Se as zonas protegidas forem propostas pelos próprios predadores (leia-se pescadores e caçadores), pelas pessoas que conhecem realmente o mar, será muito mais simples do que decisões arbitrárias e matemáticas provindas de obscuros gabinetes. Aliás essas decisões raramente têm depois uma verdadeira implantação no terreno. A Ilha do Corvo, Açores, lançou o mote. Pescadores profissionais, agentes turísticos e caçadores submarinos puseram-se de acordo e protegeram VOLUNTARIAMENTE uma certa zona. Não foi e não são necessárias leis. Aliás as áreas marinhas protegidas (AMP's) estavam previstas fora desta zona e são, desta forma, os locais que irão fazer com que elas sejam alteradas. É que as AMP's podem ser feitas pelo povo e para o povo! (onde já ouvi isto?)


MS - Hoje em dia inúmeros mergulhadores gostam de tocar os peixes ou outros seres marinhos, é certamente uma forma de os sentir mais próximos, íntimos. Em muitos locais do nosso planeta este acto é proibido. Existem de facto serias razões para o fazer?


FC - Existem! Tocar nos animais pode ter um efeito muito perverso. Mas isso não significa que não se toque em nada. Mas siga duas regras muito inteligentes: não toque em nada que não conheça (para se salvaguardar de por a mão em cima de um peixe escorpião, por exemplo) e antes de tocar em algo que conheça aprenda quais vão ser as consequências para o indivíduo que pretende tocar. Se tocar num coral estará a condená-lo e como eles não estão em boas condições (por outras razões, diga-se) seria mais uma achega para a condenação. Na maioria dos bons Centros de Mergulho há "briefings" antes dos mergulhos sobre segurança e ecologia. Esteja atento e respeite as regras indicadas pelos guias. Isto leva-nos a outra conversa paralela: para quando a certificação dos Guias de Mergulho. Não estou a falar em leis e obrigações, mas fazerem-se acções de formação na área da Ecologia para que os Guias de Mergulho tenham conhecimentos detalhados sobre o que se deve ou não fazer debaixo de água, quais as relações entre os diversos animais e o que significam os diversos comportamentos. Muitas vezes estes indivíduos são hiper bem intencionados, mas não sabem e, por falta de orientação no mergulho nacional, continuam sem saber. Isso seria proveitoso para os formandos, mas também para os formadores, porque a informação de quem anda no terreno é muito valiosa e importante. Fica o desafio, desta vez é para a FPAS!

Mas os humanos são animais tácteis e também pertencemos à Mãe natureza. Temos o direito de tocar e a natureza tem que estar preparada para nós, visto que fazemos parte dela! Falemos então de exemplos práticos. Não toque nos corais, nem mexa nos ouriços (leia as "Delicadezas..." do MS anterior). Passe as mãos pelas algas ao de leve. Isto provoca um Efeito de Perturbação Intermédia que é muito proveitoso para a natureza (isto pode não parecer, mas é mesmo científico). Tenha, claro, cuidado não vá estar uma "surpresa" no meio das algas.

Toque, se conseguir (eh, eh...), em peixes e mamíferos marinhos! Esteja atento, seja calmo e cuidadoso. Estes animais adoram ser tocados, mas odeiam exageros. Os mais puristas defendem, e têm toda a razão, que tocar num animal é de certa forma condicioná-los, mas e daí ? Estamos a condicioná-los a nós, seres tácteis, e nada mais. O efeito mais perverso que isso terá é que os animais em causa poderão gostar. Os meros do Corvo gostam tanto que perseguem os mergulhadores em busca de festas! É tão bom ! Se tiver essa oportunidade faça, mas tenha cuidado com o sentido das festas. Sempre da cabeça para a cauda. O efeito da passagem da mão é retirar os ectoparasitas (vulgo pulgões). Se o festejar em sentido contrário poderá retirar-lhe algumas escamas e fazer com que o mero fuja!

Claro que o supra-sumo de tocar é ter a oportunidade de dar uma voltinhas no dorso de uma jamanta. Mas isso não é para os mortais...

Por falar em tocar, tenha cuidado com as SUAS próprias barbatanas! Não há nada mais demonstrativo da caloirice e/ou falta de educação de um mergulhador do que ver um rasto de poeira (e por vezes de inocentes animais) atrás de candidatos a Mergulhadores.


Entrevista dada à Revista Mundo Submerso