quinta-feira, 26 de setembro de 2002

O Salmonete

Aquele peixe que não se farta de vasculhar a areia e que levanta uma névoa à sua volta é habitualmente o salmonete. Este escavador incansável acaba assim involuntariamente poralimentar diversos outros peixes oportunistas. Há duas espécies de salmonetes em Portugal, o Mullus surmuletus e M. barbatus. Neste artigo incidiremos especialmente sobre o primeiro.


Introdução


Este peixe da família Mullidae é facilmente identificado pelo seu par de barbilhos. Estes longos barbilhos (maiores que as barbatanas peitorais) têm funções tácteis e de determinação do sabor. O corpo é longitudinal, a cabeça é aplanada e tem grandes escamas.

Tem habitualmente 20 a 25cm, mas pode atingir 40 cm aos 10 anos de idade (1 kg) e habita os fundos rochosos, arenosos e lodosos desde os 2 até aos 80 metros de profundidade. Estão presentes preferencialmente na interface entre a rocha e areia.

Curiosamente, a coloração deste inofensivo peixe varia conforme a actividade. Durante o dia quando está inactivo ou durante a noite, a sua coloração passa dos tons laranja, amarelo e castanho para uma camuflagem pouco conspícua.

O salmonete, com nome científico Mullus surmuletus, pode ser facilmente confundido com o seu primo chegado M. barbatus. A forma mais simples de os distinguir é através das faixas que os M. surmuletus possuem na barbatana dorsal.

Outros peixes da família Triglidae, como o Trigloporus lastoviza e Trigla lucerna, também podem ser confundidos com o salmonete, dada a sua semelhança corporal. No entanto, a presença de extensas barbatanas peitorais e a ausência de barbilhos são características que facilmente ajudam a distinção.

O salmonete distribui-se em volta do continente europeu desde o Canal da Mancha (embora ocasionalmente apareça no Mar do Norte) até ao Senegal. Está também presente no Mediterrâneo e Mar Negro e nos arquipélagos da Macaronésia (Açores, Madeira e Canárias). Em termos gerais distribui-se no Atlântico Este desde os 55ºN aos 14ºN.

Reproduz-se entre Maio e Julho no Atlântico, incluindo Canal da Mancha e os Açores, e entre Março e Julho no Mediterrâneo. Estas diferenças parecem estar relacionadas com a diferença na temperatura das águas destas regiões. Os ovos são pelágicos (ou seja, encontram-se livres na coluna de água) e têm de 0.8 a 0.9mm. Os ovos eclodem 3 a 4 dias depois de ser libertados na coluna de água.

Enquanto escavam o fundo à procura de alimento, os salmonetes acabam por levantar plumas de areia que atraem outros peixes que assim se aproveitam para predar pequenos invertebrados que são projectados na coluna de água. Entre estes oportunistas contam-se as rainhas (Thalassoma pavo), os peixes-rei (Coris julis), os peixes-balão (Sphoeroidesmarmoratus), os sargos (Diplodus spp.) e as solhas (Bothus podas).

Voltando à alimentação: os salmonetes inserem a cabeça na areia, fazendo grandes buracos, e sugam alguma areia para a boca, depois filtram os animais que interessam para a sua alimentação e, finalmente, libertam a restante areia. O par de barbilhos também é utilizado para identificar as presas enterradas na areia. A alimentação consiste em organismos bênticoso que inclui pequenos crustáceos (como camarões e anfipodes), poliquetas, moluscos e peixes.

Muitas vezes, estes animais são observados em paralelo filtrando áreas com alguma dimensão.

Em todo o continente Europeu este peixe é muito apreciado pelo seu sabor. Tal como o sargo, o salmonete açoreano tem um sabor menos interessante. É um dos poucos peixes que podemos comer sem preocupações ambientais exacerbadas, visto que esta é uma das poucas espécies que não está em perigo. Apesar disso dada a facilidade de captura, a caça do salmonete não é muito interessante pelo que a sua captura não é considerado um troféu. Em alguns locais do globo este peixe é alvo de pesca desportiva à linha.

A lei nacional indica como tamanho mínimo de captura os indivíduos com mais de 11 centímetros. Este valor é manifestamente insuficiente para proteger a primeira reprodução que acontece aos dois anos de idade (entre os 15,5 e 17 cm). O pescador consciente não deve capturar os animais com comprimentos inferiores a 18 cm. Neste caso, o regulamento de caça da Federação Portuguesa de Actividades Subaquáticas é adequado e precaucionário contabilizando apenas as presas com pesos superiores a 400g.


Taxonomia


Filo – Chordata;

Sub-FiloPisces;

Classe – Actinopterygii;

Ordem – Perciformes;

Família – Mullidae;

Género – Mullus;

Espécie – Mullus surmuletus (Linnaeus, 1758).


Nomenclatura


Nome científico

Mullus surmuletus (Linnaeus, 1758)


Português, Castelhano (Canárias) e Creolo

Salmonete, salmonete-legítimo ou salmonete-vermelho (estes dois últimos apenas em Português)


Castelhano

Salmonete de roca, salmonete (Canárias)


Catalão

Moll de roca ou roger


Inglês

Striped red mullet, surmullet


Francês

Rouget, rouget de roche ou rouget-barbet de roche


Alemão

Gestreifte meerbarbe


Para saber mais:

Páginas internet:

Espécies Marinhas dos Açores – http://www.horta.uac.pt/species/

Fishbasehttp://www.fishbase.org/

Fórum Oceanoshttp://www.pg.raa.pt/oceanos/

Guias:

Debelius, H. 2000. Mediterranean and Atlantic Fish Guide. IKAN Unterwasserarchiv. 305p. - Guia de identificação dos peixes do Mediterrâneo e Atlântico. Está editado em Alemão, Inglês e Espanhol.

Patzner, R. & H. Moosleitner 1995. Underwater Guide Mediterranean Sea: Fish. Stuttgart, Naglschmid. 158p.

Wirtz, P. 1994. Underwater Guide Madeira-Canary Islands-Azores: Fish. Naglschmid, Stuttgard. 156p.


Agradecimentos

Ao Dr. Telmo Morato pela revisão do texto.


Biografia

Frederico Cardigos - é licenciado em Biologia Marinha e Pescas pela Universidade do Algarve. Estagiou no Departamento de Oceanografia e Pescas da Universidade dos Açores (DOP/UAç) e é mestre em Gestão e Conservação da Natureza. É bolseiro do Centro do IMAR da Universidade dos Açores através do Projecto MAROV (MCT-FCT-PDCTM/P/MAR/15249/1999). Colabora activamente no Projecto MARÉ (EU-LIFE-B4-3200/98/509).



sexta-feira, 26 de abril de 2002

O Sargo

Introdução

Não há apenas uma espécie de sargo. Na realidade o género Diplodus agrupa 22 espécies e sub-espécies, tendo a última subespécie sido descrita em 1984 por Bauchot e Bianchi. Nenhuma das espécies está em perigo a nível mundial, embora o limite de distribuição de algumas delas seja muito limitado. Como resultado de uma versatilidade adaptativa elevada, o sargo especiou de forma surpreendente havendo sub-espécies cuja distribuição está limitada a um pequeno grupo de ilhas. Estes são os casos, por exemplo, do Diplodus sargus helenae que está limitado à Ilha de Santa Helena ou do D. sargus ascensionislimitado à Ilha de Ascensão (esta última sub-espécie é considerada uma espécie por alguns autores, Diplodus ascensiones)

Em Portugal continental a espécie mais comum é o Diplodus vulgaris e nos Açores é o D. sargus cadenati. Nos Açores, no meio de grandes cardumes da espécie mais comum, por vezes, aparecem elementos de D. vulgaris. Não é preciso estar muito atento para perceber que há algo de “errado” com aquele sargo. O contraste do prateado do D. vulgaris é desconcertante quando está no meio de um cardume de D. sargus cadenati.

Qualquer das espécies de sargos é inofensiva para os seres humanos.

Descrição

Neste artigo iremos focar principalmente o Diplodus sargus cadenati visto ser a espécie mais estudada nos Açores. Mas como distinguir esta espécies das restantes existentes em Portugal? Não é fácil. Comecemos por descrever o D. sargus cadenati: tem o corpo oval, elevado e é comprimido dorso-ventralmente, boca ligeiramente protáctil (distenção anterior dos maxilares no momento de ingestão da presa), a cor dominante é o prateado e, para além de uma mancha no pedúnculo caudal, apresenta faixas verticais, mesmo nos maiores indivíduos.


Diplodus cervinus – apresenta um corpo mais amarelado, sem mancha no pedúnculo caudal e as faixas verticais são largas.

Diplodus puntazzo – a melhor característica diagnosticante é possuir maxilares especialmente projectados anteriormente.

Diplodus sargus lineatus – apresenta faixas muito pronunciadas e mancha no pedúnculo caudal.

Diplodus sargus sargus – os adultos não apresentam faixas.

Diplodus vulgaris – tem a mancha no pedúnculo caudal e, por vezes, uma faixa (apenas) junto à cabeça, mas não apresenta faixas verticais ao longo do corpo.


Não desespere se não conseguir distinguir as espécies facilmente. De facto, nem mesmo os olhos mais treinados deixam de ter dúvidas na distinção entre algumas das espécies. Com o aumento do número de mergulhos irá verificar que existem ténues diferenças, até no comportamento, que o ajudarão a melhor sistematizar as espécies.

Biologia e Ecologia

Em termos de especiação, uma das razões para a versatilidade de adaptações advém da complexidade das maxilas. De facto, possuem caninos, molares e um outro tipo de dentes que se aproxima dos incisivos, o que lhes permite adaptarem-se a diversos tipos de alimentação. Pode-se dizer que as maxilas dos sargos são muito parecidas com as dos mamíferos. Estas características, aproximadas pela especiação nalgumas espécies, apesar de não estarem relacionadas geneticamente têm o nome de “análogas”. Nos casos contrários, quando ocorrem soluções diferentes com base na mesma raíz genética (por exemplo, os braços dos primatas e as barbatanas dos mamíferos marinhos), adopta-se o nome de “homólogas”.

O tamanho em que o sargo é mais habitualmente observado pelos mergulhadores situa-se entre os 20 e 30 cm. Na maioria das espécies, chega à maturidade quando atinge 17 cm, ou seja, com dois anos de vida os sargos estão aptos a reproduzir-se. Nos Açores o período de reprodução, no caso de D. sargus cadenati, ocorre entre entre Março e Junho. No Continente este processo é registado cerca de três meses mais cedo.

O habitat preferencial dos sargos coincide com as zonas de rochas ou semi-arenosas. Por vezes agrupam em zonas portuárias, independentemente do tipo de fundo, onde se alimentam de restos de peixe rejeitados pelos pescadores. Isto significa que para além de se alimentarem de pequenos crustáceos, moluscos (preferencialmente), salpas, algas, poliquetas e equinodermes também são necrófagos, o que é um reflexo da versatilidade alimentar referida anteriormente. Outro comportamento, que comprova a versatilidade dos sargos são as associações alimentares que estes mantêm com outros peixes, como os salmonetes (Mullus surmuletus). Os sargos aproveitam o trabalho dos salmonentes para se alimentarem de pequenos organismos que são levantados durante as escavações.

Encontram-se muitas vezes aglomerados em cardumes com cerca de uma dezena de indivíduos. Nestes cardumes, é comum encontrarem-se indivíduos de outras espécies. São observados em números elevados especialmente em buracos de média dimensão e nas zonas de rebentação junto à costa.


Captura

Com um pouco de exagero, pode-se dizer que o sargo é “a vítima”. De facto os caçadores submarinos e os pescadores de costa não lhes dão tréguas. A este comportamento por parte dos humanos alia-se na miséria dos sargos o seu próprio comportamento. Quando escondidos em buracos são presas fáceis dos caçadores, que podem regressar diversas vezes sem que estes entrem em fuga. O seu comportamento de fuga e ocultação quando estão em perigo pode-lhes ser adverso se estiverem na presença de um caçador experiente. Em mar aberto o comportamento não é habitualmente o mesmo, dificultando a captura por parte dos caçadores.

Os pescadores lúdicos, que da costa lançam os anzóis acabam por exercer o seu esforço de pesca, de uma forma concentrada, na área favorita dos sargos mais pequenos, a zona de rebentação. Como o esforço é elevado e eficiente, é importante respeitar os tamanhos mínimos de captura. Para estas espécies, um indivíduo com menos de 20 cm é um indivíduo demasiado jovem para ser capturado.

Inexplicavelmente, 15 cm é o tamanho mínimo de captura de sargos autorizado por lei. Num momento em que tanto se fala da ruptura de mananciais é pouco razoável manter um tamanho de primeira captura que potencialmente pode colocar em perigo a própria espécie.

Já num artigo anterior (ver Revista Mundo Submerso nº52) se chamou a atenção para a importância de modificar o peso mínimo de captura admitido pela Federação Portuguesa de Actividades Subaquáticas nas provas de caça submarina. Os actuais 400g não protegem todas as espécies de sargo em relação à primeira maturação. Era por isso importante subir o peso mínimo de captura para 550g.


O Sargo no mundo

Taxonomia

CLASSE: Actinopterygii

ORDEM: Perciforme
FAMÍLIA: Sparidae
ESPÉCIE: Diplodus spp.


Para saber mais

Internet

  • Espécies Marinhas dos Açores – http://www.horta.uac.pt/species/
  • Fishbase – http://www.fishbase.org/
  • Fórum Oceanos – http://www.pg.raa.pt/oceanos/
  • Páginas sobre sargo
    • http://www.ideal.es/waste/especies1.html
    • http://www.pedramol.com/pescados/sargo.htm
  • Página da FAO sobre sargo - http://www.fao.org/docrep/x0170f/x0170fa2.htm
  • Página sobre a Ilha de Santa Helena -http://geowww.gcn.ou.edu/~bweaver/Ascension/sh.htm
  • Página sobre espécies marinhas típicas de Lanzarote – http://www.intercom.es/agendagc/lanzarote/pescados.htm

Livros e Revistas

  • Bauchot, M.-L. e G. Bianchi 1984. Diplodus cervinus omanensis, nouvelle sous-espèce de Diplodus cervinus (Lowe, 1841), capturée en mer d'Arabie (Pisces, Perciformes, Sparidae). Cybium 103-105.
  • Cardigos, F., T. Morato e J.P. Barreiros 2001. Como conhecer, reconhecer e preservar a caça submarina. Revista Mundo Submerso, 52: 45-50.
  • Debelius, H. 2000. Mediterranean and Atlantic Fish Guide. IKAN Unterwasserarchiv. 305p. - Guia de identificação dos peixes do Mediterrâneo e Atlântico. Está editado em Alemão, Inglês e Espanhol.
  • Figueiredo, M. 1999. Ecologia alimentar do sargo de Diplodus sargus (Piscis, Sparidade) e do bodião-vermelho, Labrus bergylta (Piscis, Labridae), na ilha do Faial-Açores. Tese apresentada no âmbito da licenciatura em Recursos Faunísticos e Ambiente da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa.
  • Morato, T., P. Afonso, P. Lourinho, J.P. Barreiros, R.S. Santos & R.D.M. Nash 2001. Length-weight relationships for 21 coastal fish species of the Azores, north-eastern Atlantic. Fisheries Research, 50: 297-302.
  • Morato, T.; P. Afonso; P. Lourinho; R.D.M. Nash; R.S. Santos. In prep. Reproductive biology and recruitment of Diplodus sargus cadenati de la Paz, Bauchot and Daget 1974 (Pisces: Sparidae) from the Azores.
  • Sanchez, J.G. 1989. Nomenclatura Portuguesa de Organismos aquáticos (proposta para normalização estatística). Publicações Aulsas do I.N.I.P.(Instituto Nacional de Investigação das Pescas), nº14, 322p.
  • Wirtz, P. 1994. Underwater Guide Madeira-Canary Islands-Azores: Fish. Naglschmid, Stuttgard. 156p.

Outros

Federação Portuguesa de Actividades Subaquáticas - Regulamento das Provas de Caça Submarina para o Ano 2001.

Legislação: Portaria nº 27/2001, de 15 de Janeiro.

Biografia

Frederico Cardigos - é licenciado em Biologia Marinha e Pescas pela Universidade do Algarve. Estagiou no Departamento de Oceanografia e Pescas da Universidade dos Açores (DOP/UAç) e encontra-se na fase terminal do mestrado em Gestão e Conservação da Natureza. Hoje, é bolseiro do Centro do IMAR da Universidade dos Açores através do Projecto MAROV (MCT-FCT-PDCTM/P/MAR/15249/1999). Colabora activamente com o Projecto MARÉ (EU-LIFE-B4-3200/98/509).


Artigo completo, incluindo fotografias, pode ser lido aqui:
http://www.horta.uac.pt/Projectos/MSubmerso/old/200204/Diplodus.htm



segunda-feira, 26 de novembro de 2001

A Veja

Este peixe inofensivo é quase sempre visto pelo prisma da utilidade gastronómica e não tanto pela sua beleza, exotismo e complexidade. Propomos agora que o conheçamos um pouco melhor. Depressa verificará que a simpática e pachorrenta veja esconde algumas características muito interessantes.

A veja é um dos peixes obrigatórios em qualquer mergulho numa zona rochosa de média profundidade nos Açores. Aquele colorido que nos confunde e nos faz imaginar estar numa zona mais a Sul, mais quente, é dado pelas vejas. O seu bico engraçado e as escamas enormes, misturado com uma aparente falta de timidez, até à distância de segurança, tornam a exploração dos mares uma experiência mais rica e divertida.

Descrição

A veja tem o corpo oval, alargado e ligeiramente comprimido. A sua cabeça é cónica e a sua parte anterior é romba, tendo a boca situada na zona mais anterior. As mandíbulas têm pequenas dimensões e os dentes são fortes e estão unidos numa espécie de bico formado por quatro placas. A barbatana dorsal é única e larga e o bordo posterior da caudal é convexo. As fêmeas são avermelhadas, com uma mancha parda atrás do opérculo, por cima do das peitorais e outra amarela no pedúnculo caudal, atrás da barbatana dorsal. A coloração dos machos é escura entre o cinzento, castanho e verde muito escuro com manchas brancas no dorso e flancos. Podem alcançar 50 centímetros de comprimento.

Cromância

Mas falemos um pouco mais da cor. A coloração variada dos peixes é produzida por células pigmentadas, os cromatóforos. Conforme é conveniente, as partículas de pigmento dispersam-se pela célula ou concentram-se num ponto. Este mecânismo permite o aparecimento ou a camuflagem de certas cores. Por justaposição de pequenos pontos de diferentes cores, obtém-se a gama de cores visíveis macroscopicamente aos olhos humanos. Por exemplo, o verde resulta de pontos azúis e amarelos.
Muitos peixes bentónicos, que vivem junto ao fundo, como as solhas (ver Mundo Submerso 41 - "A solha e outros peixes planos dos Açores"), camuflam-se sobre o fundo adoptando o padrão que lhes fica subjacente (mimetismo). As modificações dos pigmentos são controladas por processos nervosos e hormonais.

Quase todos os peixes que vivem nas zonas superiores da coluna de água têm os flancos de cor clara e prateada. Esta coloração resulta da reflexão da luz sobre numerosos cristais microscópicos que as suas células pigmentadas apresentam sobre a derme (uma das camadas da pele). Estes cristais são constituídos essencialmente por guanina - subproduto do metabolismo celular. Já os peixes abissais apresentam cores mais escuras, enquanto que os que habitam as zonas ricas em vegetação apresentam tons mais perto dos verdes e castanhos, para que se confundam, mais uma vez, com o meio ambiente. Outras espécies desenvolvem uma coloração nupcial especial para cativar os parceiros e intimidar os competidores.

Mas voltemos às vejas. Como é que pode ter a certeza que o que está a ver é realmente uma veja? As escamas de grandes dimensões, o bico - que a certas pessoas faz lembrar um bico de papagaio - e as cores descritas atrás fazem que este animais seja dificilmente confundível.

As vejas reproduzem-se entre Agosto e Setembro. Tipicamente, vivem em grupos de 3 a 6 indivíduos de ambos os sexos, mas durante o período nupcial é frequente encontrar os machos em perseguições violentas. Mas normalmente estes pequenos cardumes nadam pachorrentamente entre as rochas em busca de algas e invertebrados. À noite, é frequente encontrar as vejas a dormir junto ao fundo. É curioso ver o estado letárgico em que se encontram apesar dos olhos estarem bem abertos. É que os peixes nunca fecham os olhos. Essa função é desnecessária nos organismos marinhos pois os seus olhos estão constantemente humedecidos pelo meio ambiente, com a vantagem permanecerem sempre abertos permitindo ao organismo estar mais atento. Bom, na realidade há peixes que fecham os olhos... Os tubarões são sobejamente conhecidos por fechar (eu diria antes "proteger") os olhos antes de morderem as suas presas. No entanto, o habitual dentro de água é não fechar os olhos.

Onde vivem

As vejas habitam zonas rochosas entre os 2 e os 50 metros. Mais frequentemente, os indivíduos de menores dimensões preferem as zonas mais abrigadas junto à superfície e os adultos preferem as águas um pouco mais profundas. No Mediterrâneo, os prados de posidónias são um dos habitats habitualmente frequentados pelas vejas.
Em termos de distribuição global, as vejas vivem no Atlântico Este e no Mediterrâneo (principalmente na zona Oriental). No Atlântico, o limite de distribuição Norte é os Açores e o limite Sul é o Senegal, passando pelos arquipélagos da Madeira e Canárias. Em termos de latitude as vejas distribuem-se entre os 42 e os 14º Norte.

Captura

As vejas têm importância comercial e não se encontram ameaçadas. Apesar disso, nas Canárias, foi estabelecido um tamanho mínimo de captura, no caso 20 cm, como medida de gestão pesqueira de um manancial muito desejado. Em Portugal não há limite inferior no tamanho das vejas capturadas. De qualquer forma, as dimensões das malhas normalmente utilizados pelos pescadores não parecem colocar estes animais em perigo. Em relação à caça submarina, o peso mínimo informalmente recomendado é de 500 gramas (ver Mundo Submerso 53, "Áreas protegidas e tamanhos mínimos de captura"). Este peso equivale a cerca de 20 centímetros em comprimento. Apenas com estas dimensões as vejas atingiram a idade de primeira maturação. Esta idade é aquela em que os animais estão aptos a reproduzir-se pela primeira vez. Se deixarmos todos os animais reproduzirem-se pelo menos uma vez teremos, em princípio um ecossistema mais sólido e protegido. As vejas podem viver até aos 17 anos e têm 4 anos e meio quando atingem a idade de primeira maturação.

A veja é um peixe compreensivelmente muito apetecido do ponto de vista gastronómico. No entanto, faz parte das nossas obrigações como seres humanos, não os comer antes de tempo, ou seja, não capture indivíduos com menos dos refereridos 500 gramas. O consumo de pescado imaturo coloca-nos na posição de cúmplice directo nos efeitos que a sua captura provoca. A captura de demasiados animais imaturos pode romper o ciclo de regeneração das espécies, destrói os ecossistemas e elimina a fauna marinha.

Nos Açores, a captura das vejas a partir de terra parece ter ainda uma função social. É frequente ver pessoas de mais idade a fazerem percursos de alguma complexidade para "irem às vejas". Estes passeios, para pessoas com mais de 60 anos, são mais do que uma ocupação de tempos livres, é um desporto com a vantagem acrescida de proporcionar um jantar agradável e saudável. As vejas são capturadas utilizando como isco um pequeno crustáceo, a moura. Dado o tamanho do isco e do anzol, apenas os indivíduos de maiores tamanho são, na realidade, capturadas o que faz desta pesca uma pescaria ecologicamente sustentada.

(Caixa)
Taxonomia

CLASSE: Osteíctios
ORDEM: Perciformes
FAMÍLIA: Escárideos
ESPÉCIE: Sparisoma cretense

A veja no mundo:
Português: veja; papagaio-velho; bodião ou papagaio (Angola); Bidião (em português-criolo de Cabo Verde)
Castelhano: vieja colorada (Espanha, Costa Brava); vieja ou lobo viejo (Canárias).
Inglês: parrotfish
Francês: perroquet viellard; perroquet
Alemão: papageienfisch
Árabe: zilleyq (Líbano)

(Caixa)
Para saber mais na internet:

FishBase - A base de dados sobre peixes na internet (http://www.fishbase.org/)
Espécies Marinhas dos Açores - Uma pequena base de dados com algumas informações e muitas imagens sobre os organismos marinhos (e não apenas) dos Açores (http://www.horta.uac.pt/species)

(Caixa)
Fontes:

Projecto BARCA - Projecto do Departamento de Oceanografia e Pescas da Universidade dos Açores que estuda as pescarias tradicionais.
ARGOSUB - Página do Centro de Actividades Subaquáticas ARGOSUB na internet. Tem boas descrições de diversas espécies de peixes, embora a qualidade das imagens não seja a melhor (http://estadium.ya.com/casargosub/)
El Maestro Pescador - Página internet com diversas informações sobre biologia marinha (http://www.redhispanica.com/desportes/empescador/)
Pedramol Factory - Mais uma página internet espanhola com informações interessantes sobre peixes. Neste sítio poderá consultar desde receitas culinárias até à legislação em vigor por terras de Castela (http://www.pedramol.com)

(Caixa)
Biografia

Frederico Cardigos é licenciado em Biologia Marinha e Pescas pela Universidade do Algarve. Estagiou no Departamento de Oceanografia e Pescas da Universidade dos Açores (DOP/UAç) e encontra-se na fase terminal do mestrado em Gestão e Conservação da Natureza. Hoje, é bolseiro do Centro do IMAR da Universidade dos Açores através do Projecto MAROV (MCT-FCT-PDCTM/P/MAR/15249/1999). Colabora activamente com o Projecto MARÉ (EU-LIFE-B4-3200/98/509).