segunda-feira, 26 de maio de 2003

O Primeiro Mergulho

Todos os anos paro de mergulhar durante 2 a 6 meses. Não é propositado, mas de facto olhando para os registos, verifico que, de forma consistente, faço uma paragem de Inverno. Deixo de mergulhar entre Novembro e Dezembro e volto a mergulhar de Fevereiro a Maio. As excepções a este padrão são mínimas. Os motivos estão relacionados com as condições meteorológicas, adversas nesse período, na zona onde vivo.

Se bem que já disso me tivesse apercebido, só este ano, quando ao recorrer à caderneta de registo para planear o meu primeiro mergulho de 2003, verifiquei o referido padrão ou, melhor, a periódica pausa.
Lá estava escrito que o primeiro mergulho dos últimos anos tem servido para testar o equipamento e pouco mais. Enquanto o último mergulho do ano não é minimamente equacionado - não vamos para dentro de água a pensar que aquela irá ser a última oportunidade de submergir durante alguns meses - o primeiro mergulho tem algumas características constantes: mergulho fácil, com equipamento rodado, companhia experimentada, muito frio, etc. e um toque de surpresa ou de improviso causado pelo ambiente ou por falência do equipamento a ser testado (quando é caso disso).
Este ano, por exemplo, vi alguns rocazes e lagostas (não há perigo de partilhar esta informação, porque quando o artigo for impresso as lagostas já estarão no seu habitat de Verão, lá bem mais fundo). As lagostas são presenças habituais nesta época do ano, mas os rocazes não. Pode parecer pouco, mas lá estava o factor surpresa.
Apesar de me arrepender amargamente, apenas comecei a registar os mergulhos de uma forma sistemática em 1996. Até aí, há um hiato polvilhado por informação dispersa. Não me recordo de quando, onde e como mergulhei. Aqui fica um conselho aos novos mergulhadores: registem sempre as vossas imersões. Se o não fizerem, perderão algumas estórias nos recantos perdidos da memória. É triste, mas de 1987 a 1996 tenho nove anos de mergulhos meio esquecidos. Um ou outro fui recuperando pelos registos dos meus colegas, mas, na realidade, estão tantas memórias por recordar...
O meu primeiro mergulho a sério, com escafandro autónomo, foi em Sesimbra, num qualquer dia de 1987, com o CPAS, na primeira aula prática de mar do meu curso. Não me esquecerei jamais; e essa imersão não está registada na caderneta. Comparativamente com a maioria dos outros mergulhos, foi péssimo. Má visibilidade, fundos muito pobres, sem algas e sem peixes. Lembro-me perfeitamente que não vi um único peixe! Seria, provavelmente o resultado da sobre-exploração ou consequência do terror que a aproximação daquele grupo de inaptos causou na população piscícola local... Sim, ninguém começa por mergulhar bem e nós não seríamos a excepção. Mas a liberdade de nadar livremente e sem limitações no meu meio favorito, é algo que nunca irei esquecer. A calma do meu monitor de mar, o Paulo Cardoso, foi contagiante e senti uma paz e uma serenidade que nunca tinha sentido. "O mergulho isola-nos, pois a comunicação é difícil, e dá-nos espaço para sermos apenas nós, a presença dos outros serve apenas para nos tranquilizar, nada mais." pensei eu. Por razões de trabalho, tive que mudar um pouco a atitude. Foi necessário começar a "consertar" os problemas de comunicação.

Houve cinco factores que desde 1987 melhoraram as condições de mergulho, mas que, de certo modo, estragaram a sua poesia: o colete, o computador de mergulho, as scooters subaquáticas, o fato seco e o sistema de comunicação áudio. O primeiro foi excelente! Passou a ser possível equilibrar o corpo dentro de água sem grandes preocupações de levar o peso certo para a profundidade de trabalho. Se já antes o mergulho era fácil, daqui por diante qualquer pessoa passou a poder mergulhar. Hoje em dia, raros são aqueles que dispensam esta peça de equipamento. E mesmo os que o dispensam, acabam por utilizá-lo nos mergulhos mais profundos ou complicados.
O segundo melhoramento também é totalmente positivo. Imagino que o número de acidentes em mergulho tenha descido muitíssimo após a generalização do computador de mergulho. E se não desceu também em termos totais, na minha opinião, foi porque abriu a "porta do mar" a um enorme grupo de pessoas que até aí considerava o mergulho demasiado radical. Ao democratizar o mergulho, tornou-o banal, ao alcance de qualquer um. Nós, os mergulhadores, deixámos de ser um grupo selecto de aventureiros, cujo o apogeu se deu ao mesmo tempo que o "Grand Bleu" era editado, ou mesmo antes disso, com "As Aventuras do Comandante Costeau" para passarmos a ser apenas mais uns...
As scooters estragaram o silêncio. Sim, é evidente que nos possibilitam cobrir uma área muito maior e em pouco tempo. Para o trabalho é formidável, aumenta a segurança e diminui a fadiga. Mas é terrível estar dentro de água, habituado a "ouvir" o silêncio e passar um "fórmula um"...
Depois veio o fato seco. Esta peça é horrível! Sai-se dentro de água como se entrou. Saímos pouco cansados, sequinhos, prontos para vestir o smoking e ir para a cerimónia dos óscares, como se não estivéssemos estado na água, no meio da grande aventura. É o divórcio do mergulhador com a água. Felizmente, só é utilizado excepcionalmente, nos dias de muito frio.
Finalmente, apareceram os sistemas de comunicação áudio. É a última estocada na poesia e isolamento do mergulho. Um dos meus últimos mergulhos de 2002 já foi feito com música de fundo. Nem queria acreditar que estava a 25 metros de profundidade a filmar não-sei-o-quê e a ouvir as "Ketchup", com que o meu skipper me decidiu brindar!
Estas cinco peças facilitaram o mergulho de tal forma que este já deixou de o mergulho que conhecemos e de que sempre gostámos. Por decisão consciente, apenas utilizamos os três últimos equipamentos quando são mesmo imprescindíveis. Queremos o velhinho mergulho aventureiro de volta!

Em 2001 estive a visitar uma empresa que se dedica, entre outras coisas, a fabricar equipamentos de mergulho para a marinha inglesa. Nesse período, eu tomava apontamentos num pequeno computador portátil da Toshiba, o Libretto. Quando eles o viram, pediram-mo emprestado para tirar umas medidas. Depois, por cortesia, explicaram-me um pouco do que estavam a fazer. Não posso referir os detalhes porque obviamente não me foram ditos, mas, basicamente, neste momento já deverá ser possível ter militares ingleses, com colete, computador de mergulho, fato seco, deslocando-se de scooter, a discutir os avanços da guerra por vídeo-fone em directo para a "BBC News" on-line e a escrever, em simultâneo, uma mensagem de correio electrónico a desmentir a "Al-Jazira". Tudo isto a partir dos fundos das águas ao largo de Umm Qasr (Sul do Iraque). Independentemente da tristeza que é uma guerra, espero que não seja este o futuro do mergulho, porque a diferença entre isso e ficar em casa a ver na televisão um programa sobre o mundo submerso é, se calhar, muito pouca.

Publicado na coluna "Casa Alugada"

sábado, 26 de abril de 2003

"Que bonito é o Inverno em Portugal!"

O Inverno é uma época maravilhosa para ter ideias, fazer planos, enroscar no cobertor, usufruir da lareira e desfrutar do descanso; ou seja, não fazer nada. Agora que começa a Primavera, tal e qual lagartos, começamos a esticar as pernas, movidos pelos primeiros raios de Sol que às vezes aparecem, num lento espreguiçar, e começamos a pensar na acção.

Ainda estava meio estremunhado, quando um colega me pediu ajuda para efectuar uma necropsia a uma baleia-de-bico na Ilha do Pico, Açores. Arrastando-me para fora do meu conforto faialense, lá fui meio contrariado porque, afinal de contas, o Inverno ainda não tinha acabado; ainda estava em hibernação.

Fizemos o trabalho, quer dizer: ele fez quase tudo, eu limitei-me, qual enfermeiro-instrumentista, a passar os diversos instrumentos que ele ía precisando. Seis frascos e meio litro de formol depois, a coisa estava arrumada. Não havia respostas sobre a causa de morte para a baleia-de-bico, apenas diversas suspeitas. Estas serão mais tarde clarificadas através da análise das amostras recolhidas.

Ali estava então eu e o meu colega Rui Prieto na ilha montanha. A meia-tempestade empurrava o mar contra a costa e dei comigo a pensar com os meus botões: porque raio é que fico em casa no Inverno? Como é que posso deixar escapar toda esta beleza do mau tempo em movimento, recolhido em casa, fazendo inúteis estatísticas sobre o número de manifestantes contra a guerra que se amontoam por esse mundo fora?
Comentário lateral, mas irresistível:
já repararam como os políticos fingem ignorar os apelos à paz? Curioso, não é?

Voltando à nossa Ilha do Pico. Naquele amontoado de vento e ondas pensei como é que os cetáceos enfrentarão esta confusão. Um outro colega meu, em tempos embarcado como observador num pesqueiro, relatou-me que o único vislumbre de normalidade que viu no meio de uma enorme tempestade foi “um grupo de golfinhos a surfar no meio das ondas”. De facto, os milhares de anos de adaptação ao meio marinho devem ter-lhes conferido formas de resistência a estas situações aparentemente extremas. Ou então ele estava com visões... É possível.

Noutro contexto, esse seria um enorme motivo de discussão. Mas não naquele Inverno. O tempo passou mais devagar e abriu espaço para os pensamentos soltos, sem origem nem importância. (o “tempo a abrir espaço!!” Se o meu professor de física lesse estas linhas...)

Descobri que o turismo de Inverno é impecável (sim, senti-me um autêntico turista)! Não há muita gente nos hotéis, mas as pessoas que por lá andam sabem apreciar os pequenos momentos, o silêncio, as ideias inúteis, as conversas em surdina, o vento, as tempestades... Por outro lado, os funcionários tentam cativar aqueles seres estranhos que, por uma razão ou por outra, ali foram parar. Foi assim na Aldeia da Fonte no Pico e acredito que o mesmo se passe noutros sítios.

Estava tão embrenhado a saborear os sofás da “sala de fumo”, que nem me lembrei que a violência deste Inverno deve estar relacionada com uma mudança global terrível e, potencialmente, irreversível. E que este Inverno incomodou tantas pessoas com as cheias, o frio, etc. Ali, o tempo parou. Desfolhei uma antiquíssima revista da National Geographic onde li um interessantíssimo artigo sobre arqueologia subaquática. Aprendi como se mergulhava nos navios afundados na época dos descobrimentos e guardei a importante informação de que havia um mergulhador que ainda mergulhava dessa forma. Metia-se dentro de um pesadíssimo sino e descia até aos 30 metros! Depois tinha 20 minutos de ar dentro do sino e operava em apneias sucessivas: sino-inspira-operação-sino-expira. Nem me ocorreu perguntar à revista se não haveria problemas de descompressão... Tudo me pareceu tão fácil e leve...

A saída da normalidade tem estas vantagens: pensamos nas coisas de forma diferente, arrumamos as ideias e re-organizamos as prioridades. No nosso país, apesar de tudo, temos a vantagem de ter um Inverno ameno que permite sair, abrir os braços e inspirar fundo. E, na verdade, respira-se tão bem durante o Inverno em Portugal.

Publicado na coluna "Casa Alugada"

quarta-feira, 26 de março de 2003

"Nunca Mais!"

Dia 13 de Novembro de 2002 o navio de transporte de hidrocarbonetos "Prestige" emitiu uma mensagem de socorro. Iniciou-se aí uma saga de acontecimentos, dos quais o pior terá sido a Maré Negra que insiste em fustigar as costas da Espanha e França. Portugal, miraculosamente, parece passar ao lado de grande parte desta desgraça.

Curiosamente, desde dia 13 de Novembro que todos perceberam o que se iria passar a seguir. Parecia inevitável. Todos compreenderam menos o Governo Espanhol e o Governo da Xunta de Galicia. Preferiram ignorar, não dar importância ao crude que se amontava nas costas da Galiza. Agora num acto desesperado o Partido Popular vem acusar as Associações, que se criaram nesse período para lutar contra os efeitos da maré, de estarem a fazer partidarismo. De entre estas organizações, aquela que mais parece perturbar o partido do Governo Espanhol é a Plataforma "Nunca Mais". Segundo esta organização, é necessário mobilizar a opinião pública, organizando manifestações e outros eventos por forma que este tipo de acidentes não se repita. Não consigo resistir a relembrar que foram necessários 25 dias de Maré-Negra para que o Governo Espanhol enviasse 1500 militares para ajudar a combater a poluição.

O comandante do Navio "Prestige", foi recentemente, após 80 dias, libertado. A fiança para a libertação deste comandante foi de 3 milhões de euros. A caução foi a mais elevada imposta em Espanha por "delitos contra os recursos naturais e o ambiente, em desobediência às autoridades administrativas" e foi paga pela seguradora London Steamship Owners Mutual Insurance Association. Oxalá alguma instituição fosse tão rápida a pagar os danos ambientais que este navio causou... Aliás, por falar nisso, a FIPOL (fundo internacional de indemnizações para os danos provocados pelos hidrocarbonetos), organismo criado pela Organização Marítima Internacional para complementar as escassas indeminizações atribuídas pelas seguradoras e donos dos navios, já decidiu que não irá pagar qualquer indemnização até Maio. Segundo este organismo, apenas possui 180 milhões de euros disponíveis e só os danos estimados das limpezas que estão a decorrer em Espanha ascendem a mil milhões de euros. Então para que serve o FIPOL se não tem recursos ou se não os consegue mobilizar? Houve apenas um caso de Maré Negra em que as indemnizações foram total e prontamente pagas. Tratou-se do caso Exxon Valdez, que danificou uma zona da costa do Alasca. Curiosamente, os Estados Unidos da América não fazem parte do FIPOL.

A boa notícia é que o "Nautille", esse pequeno-gigante submarino Francês conseguiu fechar todas as fissuras do petroleiro "Prestige". Não se crê que isso impossibilite totalmente a libertação de fuel, mas, certamente, irá reduzir em muito o caudal de saída. É, por isso, importante que o "Prestige" seja monitorizado periodicamente de forma a verificar as selagens e certificar que não há novas fissuras. Esperemos que quando se falar novamente em títulos atribuídos pelo Presidente da República não se esqueça a tripulação deste submarino e restantes colaboradores do IFREMER. É que eles, aparentemente, ajudaram, em muito, Portugal a livrar-se do grosso de uma maré negra que era previsível para quando as correntes dominantes invertessem o seu sentido. Até ao momento em que escrevo este artigo, apenas pequenas manchas atingiram a costa portuguesa.

Outra boa notícia é que já foi possível abrir parcialmente a pesca na zona das Rias Baixas, Galiza. Ainda é apenas uma pequena parte, mas é uma esperança de que, no futuro, se possa voltar à normalidade.

O Comité Científico do "Prestige", liderado por Emilio Lora-Tamayo, deu ao Governo Espanhol uma lista com 15 soluções definitivas para este navio. Espera-se que uma dessas soluções possa ser aplicada no próximo Verão. É que o "Prestige" ainda tem cerca de 50 toneladas de crude dentro dos seus depósitos. Entre as soluções que foram apresentadas contam-se: enterrar o navio debaixo de cascalho e argila, construir um sarcófago de betão ou metal, queimar o fuel-óleo ou re-emergir o petroleiro. Para algumas destas soluções não existe ainda tecnologia capaz de responder às necessidades.

Ainda de entre as soluções apresentadas, "Os Verdes" apresentaram uma proposta para afastar o tráfego de navios perigosos a menos de 20 milhas da costa.

Algumas instituições de investigação encontram-se a fazer experiências para determinar a eventual capacidade das bactérias marinhas de grande profundidade em degradarem os hidrocarbonetos libertados pelo "Prestige". Serão boas notícias se os hidrocarbonetos realmente se degradarem e se se conseguir isolar os microorganismos responsáveis por essa acção. A partir daí, levantar-se-ão novas perspectivas que possibilitem a degradação com a ajuda do Homem dos hidrocarbonetos do navio afundado.

Já foi anunciado que Jean-Yves Costeau e James Cameron, cada um por seu lado, irão fazer documentários sobre o "Prestige". É de esperar que o filho do Comandante se detenha mais sobre os pormenores ecológicos e sociais, enquanto o cineasta norte-americano irá certamente aproveitar a tecnologias que tão bem domina para transmitir a dimensão do espectáculo diabólico que o navio poderá proporcionar. James Cameron já anunciou que irá utilizar a tecnologia IMAX para dar ao documentário um maior realismo.

Publicado na coluna "Casa Alugada"