
Curiosamente, quem visitasse esta área antes da sua classificação teria uma visão completamente diferente. Veria, nesse caso, cinco vilas decadentes e presas a uma perspectiva de vida pouco acima da miséria. Graças à energia, capacidade de gerar consensos e visão de um antigo Presidente de Câmara de uma destas vilas, em 1999 a área foi classificada como Parque Nacional e uma parte dela, correspondente à zona com vinha, posteriormente certificada como Património da Humanidade.
O contraste, segundo os próprios habitantes, é extraordinário. Agora, com mais de dois milhões de visitantes pagantes por ano, a área é rentável e inverteu o declínio demográfico até junto da população mais jovem. Não se pense que o processo tem sido consensual, sem esforços ou sem limitações. Tudo está regulado e o Parque é omnipresente no espaço. Não há esquina que não tenha uma placa que relembre a existência do Parque e, sempre que justificável, explicando e determinando as regras de utilização ou publicitando o investimento efectuado. O nível de intervenção é tão incisivo que, mesmo para entrar dentro das vilas, se tem de provar que se é morador ou pagar o respectivo preço. São inúmeras as cancelas controladas pelos funcionários do Parque. Ou melhor, na realidade, o Parque, oficialmente, tem apenas dois funcionários. O emprego é dado por três cooperativas dinamizadas pelo Parque ou através de protocolos de cooperação que o Parque mantém com diversas entidades, incluindo a polícia. Desta forma indirecta, os transportes públicos pertencem ao Parque, o Parque tem vários restaurantes, o acesso ao mar é controlado pelo Parque, o comércio está baseado em produtos do Parque e grande parte do emprego é dado pelas cooperativas que o Parque montou. Todas as famílias estão, de uma forma ou de outra, presas ao Parque.

Este é um autentico regime Orweliano, montado em volta de um visionário que teve a capacidade de mudar a vida desta população para muito melhor. É histórica a relação razoavelmente tolerante que os italianos mantêm com os seus ditadores, desde o tempo dos romanos… Aqui, mais uma vez, comprova-se.
No reverso da medalha destas imposições, encontramos os investimentos com origem no Parque e que se distribuem por todo o lado. Estas obras, num local com evidentes limitações ambientais, tornam a vida possível, até mesmo tentadora... As verbas vêm do Ministério do Ambiente e das enormes receitas que o Parque gera. Embora o método me levante dúvidas, porque tenho muito amor à liberdade, o que é facto é que, neste local, as limitações ambientais viraram ao contrário as decadentes perspectivas de cinco vilas.
As comparações entre o Parque Nazionale delle Cinque Terre e a Paisagem da Vinha da Ilha do Pico impõem-se. Será este o caminho que a Paisagem da Vinha deve seguir? Será este o modelo que se ajusta? Tenho dúvidas. Preciso de mais dados. Tentei conhecer o mentor da área italiana. Tenho tantas perguntas na minha cabeça. Infelizmente, uma doença grave impediu-o de se encontrar connosco e os seus colaboradores mais próximos, até eles, não sabem parte das respostas que procuro. Ponho na minha lista de trabalhos de casa tentar convencê-lo a ir à reunião que organizaremos na Ilha do Pico no final de Abril. Dizem-me que não será nada fácil, “a doença é muito grave”…
Olho novamente para o meu bilhete. Em letras enormes é referido que os cinco euros que paguei dão para, durante um dia, entrar nos centros de interpretação do Parque, efectuar os percursos pedestres e andar em todos os transportes públicos, incluindo o comboio. Multiplico cinco euros pelos 2 milhões de visitantes anuais e a luz faz-se: aqui o Ambiente não é uma limitação, é uma oportunidade dourada.


