sexta-feira, 7 de maio de 2010

Fortes Maravilhas!


Foi recentemente anunciado que os Açores têm 5 sítios na “lista curta” das candidatas a 7 maravilhas do mundo natural de Portugal. Entre 21 possíveis, 5 são dos Açores. Obviamente, fico muito contente porque este é um reconhecimento do valor ambiental da Região e porque nos dá uma elevada visibilidade no que diz respeito ao turismo natureza. No entanto, por outro lado, das 18 maravilhas que faziam parte da listagem anterior, houve treze excluídas e isso, se, por um lado, reflecte uma necessidade estatística de representatividade do país, também, acaba por relegar para segundo plano alguns belíssimos sítios do nosso arquipélago.
Portanto, resolvi, com este artigo, também prestar memória aos excluídos e, antecipadamente, quero reiterar que o foram porque, provavelmente, não são tão conhecidos do emérito júri que fez a selecção ou o mediatismo dos locais seleccionados foi mais elevado. Costa Noroeste do Corvo, Caldeira e Capelinhos no Faial, Zona Central, Complexo Hídrico das Fajãs e Costa Leste das Flores, Costa Sul do Pico, Complexo Ilhéus das Formigas e Recife Dollabarat em Santa Maria, Fajã da Caldeira de Santo Cristo e dos Cubres e Algar do Montoso em São Jorge, Paisagem Protegida das Furnas em São Miguel, Caldeira de Santa Bárbara na Terceira e Fontes Hidrotermais de Grande Profundidade são, quanto a mim, dos mais belos locais do mundo e todos mereciam ter estado na final.
Os votantes terão agora que escolher entre 21 belíssimos locais do nosso país seleccionados. Não há dúvida que, tal como os 77 sítios da listagem anterior, todos estes 21 sítios merecem estar na lista final. A escolha do júri deve ter sido realmente difícil…
Entre os açorianos também não será fácil seleccionar. Mais vale votar em todos!
Na categoria “Grandes Relevos” temos a montanha mais alta de Portugal, associada à Paisagem da Vinha, Património da Humanidade, à Gruta das Torres e às 25 espécies de baleias, cachalotes e golfinhos no mar circundante. Na categoria “Grutas e Cavernas” temos dois sítios (será mesmo necessário escolher…). Na Ilha Graciosa, em plena Reserva da Biosfera dos Açores, temos a Furna do Enxofre, a maior abóbada vulcânica da Europa, e, um pouco mais longe, na Ilha Terceira, temos o Algar do Carvão, um pequeno local vulcânico tão especial que possui espécies de artrópodes endémicas do mesmo. Na categoria “Zonas Aquáticas Não Marinhas” está a esplendorosa e majestática Lagoa das Sete Cidades, paisagem deslumbrante com o maior reservatório de água doce superficial dos Açores e, também, um ícone das Ilhas. Na categoria “Zonas Protegidas”, no meio de São Miguel, está a Lagoa do Fogo, local prístino (intocado), defendido a todo o custo pelos micalenses e açorianos.
Já sabemos que, no máximo, apenas duas áreas dos Açores farão parte das 7 maravilhas finais. Que fazer? Não é fácil… Para o ajudar a votar, há mais informações e boas orientações no sítio internet da organização (http://www.7maravilhas.sapo.pt). Bons votos!
Melhor ainda do que votar, é usufruir destes locais e nós, que vivemos nos Açores, temos uma vantagem adicional. Repare-se que, estatisticamente, caso houvesse uma Distribuição uniforme, deveríamos ter 1/7 dos locais seleccionados, dado existirem 7 Regiões em Portugal para efeitos deste concurso. Isso, caso tivesse acontecido, deixaria os Açores com 14% dos sítios. Mas, curiosamente, tivemos 24% dos 21 finalistas, ou seja, mais 10% do que seria espectável. Posto de outra forma, em pleno Ano Internacional da Biodiversidade, à porta de nossas casas, estão grande parte das fortes maravilhas do mundo natural de Portugal!

sexta-feira, 23 de abril de 2010

O Painho de Monteiro

Há pessoas que recordaremos para sempre com saudade e estima. O sorriso, a bondade e o génio científico do Luís Monteiro ir-me-á acompanhar enquanto a memória não me falhar. Todos deveríamos ter como um dos objectivos de vida ser recordados com o mesmo apreço com que o Doutor Luís Monteiro é. Eu tenho esse desejo.
Ele não me contou, possivelmente não terá contado a ninguém, mas, partindo dos poucos dados relatados em artigos científicos, eu imagino esta história como a irei relatar. Estava o Luís a efectuar trabalho de campo no Ilhéu da Praia, na Ilha Graciosa, Reserva da Biosfera dos Açores, quando reparou que o assobio de uma ave não correspondia com o que deveria esperar daquela espécie. O Luís era um ornitólogo de elevada craveira e, pelo cantar, tinha a capacidade de identificar as aves, o seu género e, quem sabe, até o humor daquele animal em particular. Neste caso, a menos que a ave estivesse constipada, a imagem do painho não batia certo com o piar. O que estaria a acontecer…? Daí para a frente, imagino ainda, o Luís deve ter passado a registar os cantos e as ocorrências dos painhos para tentar desvendar o mistério.
O que se tem a certeza é que, a certo passo e tendo como base o canto destas aves, o Luís postulou que havia duas populações de painhos das tempestades no Ilhéu da Graciosa: a população de painhos de Verão e a de Inverno. Mais ainda, ele especulou que, apesar de não existirem diferenças morfológicas evidentes, provavelmente, estaríamos na presença de duas espécies. Uma delas seria o Oceanodroma castro, que habita os Açores, a Madeira e as Galápagos, e, a segunda, a da população quente, uma nova espécie para a ciência. Mas como prová-lo? O canto não seria suficiente e os indivíduos das duas populações são mesmo muito parecidas… Só havia uma solução: a análise genética. Havia que analisar o DNA e verificar se eram basicamente iguais ou se as diferenças eram suficientes para justificar uma nova espécie. De imediato começaram as recolhas, mas, para ter uma amostra robusta, foi necessário algum tempo. Tempo demais para o Luís.
Apesar de não ter sobrevivido para constatar que as suas observações e indícios estavam completamente correctos, por uma questão de justiça, o painho que nidifica apenas no Ilhéu da Praia, na Ilha Graciosa, chama-se hoje Painho-de-Monteiro ou, para os cientistas, Oceandroma monteiroi.
Em pleno Ano Internacional da Biodiversidade, apraz-me registar que a publicação científica que estabelece a nova espécie não foi alvo de qualquer contestação e, portanto, contrariando Charles Darwin, os Açores têm uma biodiversidade extremamente interessante e que inclui, agora, cerca de 450 espécies endémicas. Mas, complementarmente, sendo uma espécie que, no mundo inteiro, “de Bissau a Palau”, apenas nidifica no pequeno ilhéu graciosense, esta ave está, obviamente, em perigo crítico. Ganhamos uma espécie, mas colocou-se-nos a enorme responsabilidade de a gerir correctamente.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Micro contributo para a Justiça de Portugal

Fui ao tribunal! Por indicação de um Senhor Juiz, prestei declarações no âmbito de um determinado processo. Obviamente, e até porque é um processo em curso, não o irei comentar. Posso, no entanto, comentar o procedimento em si, visto não ser esse que está em julgamento. Vale a pena pensar nisso porque, estando a Justiça numa enorme encruzilhada, alguma reflexão, quiçá contributo, poderá ser útil.
Recebi uma carta indicando que daí a alguns meses deveria ir ao edifício do Tribunal da Horta prestar declarações. Como não havia indicação sobre o tema, aguardei e, no dia mencionado, cinco minutos antes da hora marcada, lá estava eu no local previsto. A senhora funcionária do Tribunal mandou-me entrar, identificou-me, advertiu-me sobre as minhas obrigações e deu-me as perguntas. Estavam escritas e eram apenas duas. Eu respondi, a senhora transcreveu as minhas declarações e, dez minutos depois, estava pronto.
Quando ia a sair, pus-me a pensar… Porque é que eu tinha ido até ao Tribunal…? As perguntas eram simples, lacónicas e de resposta absolutamente inconsequente. Tinha bastado um telefonema para me fazer estas perguntas, sem qualquer gasto para os Tribunais. Este processo pode ter estado meses parado à espera de respostas a duas perguntas! Realmente… Foi necessário um juiz para fazer um despacho com as questões, um funcionário para transcrever o despacho, uma carta a circular pela Região Autónoma dos Açores, um funcionário para me receber e transcrever as minhas respostas e uma impressora para que as respostas ficassem num papel onde eu as pudesse assinar. As declarações terão agora que ser devolvidas ao tribunal de origem, recebidas pelo correspondente funcionário administrativo, analisadas pelo juiz que, se tiver dúvidas, terá de percorrer todo o caminho inverso. Até fico tonto ao tentar perceber este percurso…
Com todo o respeito, porque é que o senhor juiz não me telefonou?! Na época das escutas telefónicas, que servem para fazer todo o tipo de investigações (o que até fica mal ao Estado), porque é que o juiz não me telefonou e me fez aquelas perguntas? Disseram-me que “não pode ser…” e “isto são coisas sérias, não podem ser resolvidas pelo telefone…” Apeteceu-me rir… Um primeiro-ministro pode ser posto em causa por causa de escutas telefónicas promovidas pelo sistema judicial, mas a mim não me podem interrogar pelo telefone. Devo ser muito importante… Não me ri porque respeito as instituições do Estado Português e pela senhora funcionária do Tribunal que foi correctíssima, mas, de facto, isto está feito para não funcionar.
Eu vou muito poucas vezes a Tribunal e, se calhar, o meu caso foi uma excepção. Oxalá seja. Se não for, alguém que reveja os procedimentos judiciais. Eu posso dar outros contributos que não escrevo aqui para não me tornar maçador, mas as pessoas que trabalham nos tribunais que façam um simplex. Como eu vi, não faz sentido. Simplesmente.