sexta-feira, 9 de julho de 2010

A lista de compras


Há uns dias atrás, no decurso de um longo e saboroso pequeno-almoço, dei por mim a dissertar sobre as possibilidades de desenvolvimento para o Faial. O meu interlocutor, o meu amigo Sr. Mário Frayão, trazia alguns desabafos sobre o desinvestimento na ilha do Faial. A minha argumentação começou por tentar ser, como sempre, positiva e encorajadora. Disse-lhe que, mais importante do que listar as derrotas, era tentar descobrir as mais-valias e lutar por elas. Penso que tive algum sucesso porque, pouco tempo depois, entusiasticamente, eu e o meu interlocutor elencávamos os pólos de desenvolvimento do Faial. Não sendo especialistas na matéria, vale o que vale, mas é o meu resumo sobre o que expressámos: 1) Marina; 2) Cultura; 3) Parque Natural de Ilha; 4) Investigação científica marinha; 5) Tecnologia e Pedagogia marinha; e 6) Distribuição de turistas.
A Marina é um óbvio pólo de desenvolvimento. Na minha perspectiva, poderiam fortalecer-se os serviços em volta da mesma, criando um prestígio que ainda não tem. Por exemplo, dar apoio legal, vender produtos marítimos, dar serviços na área da electrónica e electricidade. Para que funcionasse, e porque tenho tido ouvido algumas insatisfações, estes serviços poderiam ser divulgados, como são, mas também certificados pela Administração Portuária. O desporto ligado ao mar, com o Peter e o Clube Naval em fundo, tem uma enorme oportunidade no Faial.
A Ilha do Faial, até por os faialenses terem disponibilidade de tempo, foi e é um pólo cultural. Dificilmente se poderia esperar que, num território com apenas 15 mil habitantes houvesse tantos grupos de teatro, bandas filarmónicas, ranchos folclóricos, jornais, um conservatório de música… Penso que os Bandarra, o Teatro de Giz, o jornal Fazendo e a Universidade Sénior são algumas das recentes emanações muitíssimo curiosas e valiosas. A cultura faialense, obviamente, lucra do cruzamento de linguagens que os nossos visitantes mais ou menos permanentes nos vão deixando. Penso que é essencial estimular a partilha de experiências. Antigamente, havia a mania, benigna, de convidar os novos visitantes a partilhar algumas das suas aventuras de vida. Por vezes, há alguns rasgos nesse sentido, mas devia ser institucionalizado. Por exemplo, a Câmara Municipal ou a Sociedade Amor da Pátria poderiam convidar os novos, mesmo que temporários, faialenses a efectuar uma palestra pública. Alguns, até por timidez ou modéstia, não aceitariam, mas tão enriquecidos ficaríamos com os saberes daqueles que aceitassem. Que sonhos nos dariam?
O Parque Natural de Ilha do Faial representa uma enérgica forma de apresentar a nossa natureza. Haja interacções com os agentes privados e temos aqui um manancial que nem arrisco prever o potencial. Os turistas associados ao turismo natureza são os únicos que, tipicamente, usam recursos financeiros interessantes e não colocam em risco ambiental o sítio que visitam. Penso que a incorporação no Faial de novas valências ambientais, para além da Secretaria Regional do Ambiente e do Mar e do Gabinete do Subsecretário Regional das Pescas, como a Entidade Reguladora para as Águas e Resíduos, a Empresa Pública Azorina e a Associação GeoParque são importantes. No entanto, sempre que isso estiver em causa, tal como outras ilhas têm os seus protagonismos, será essencial reforçarmos sempre o sector do Ambiente com a sua centralidade na Ilha do Faial.
Graças ao bom trabalho dos profissionais de Departamento de Oceanografia e Pescas da Universidade dos Açores (DOP) liderados pelo Doutor Ricardo Serrão Santos, a investigação marinha do Faial é uma realidade. Ano após ano, num trabalho sem vacilar e sem ostentação, o Faial obtém os dividendos que a visibilidade do DOP lhe tem dado. Apenas precisamos de ir acompanhando os trabalhos, até para aprendermos com aqueles profissionais, e ajudar quando for necessário. Isso aconteceu quando foi necessário construir o novo edifício e, possivelmente, será necessário quando se pensar em substituir o Navio de Investigação “Arquipélago”.
Mais do que chorar a partida da Rádio Naval da Horta, que admito ser uma perda muito relevante, tenho-me detido no tentar encontrar alternativas. Primeiro pensei na ideia do Doutor Gui Menezes para o pólo tecnológico associado ao mar. No entanto, ao participar na entrega das Cartas de Alto-Mar aos alunos do Curso de Especialização Tecnológica do DOP, a ideia tornou-se óbvia. Porque não juntar na Rádio Naval as valências de Parque Tecnológico e Unidade Pedagógica Profissionalizante de actividades associadas ao mar? Que tal um Parque Tecnológico e Pedagógico de Assuntos do Mar na cidade da Horta? Pelo que ouvi na entrega das cartas, por parte de entidades tão insuspeitas como a Escola Naval e o Instituto Portuário e de Transportes Marítimos, esta ideia apenas faz sentido na cidade da Horta e com a sua coordenação entregue à Universidade dos Açores. Vamos por aí?
A ilha do Faial, se funcionar em conjunto com o Pico, é um excelente distribuidor de turistas. É curioso verificar que cada ilha isoladamente não funciona. Mesmo com o Instruments Landing System, a reorientação da pista, etc. o Faial sozinho não consegue. Haverá sempre uma bruma ou um vento que, em conjunto com o Morro de Castelo Branco, impedirão uma aterragem 100% segura em todas as situações. O mesmo, por outras razões, acontece no Pico. Agora, as duas ilhas em conjunto, como distribuidoras do seu próprio turismo e, adicionalmente, o de São Jorge, Flores e Corvo são imbatíveis. Finalmente, acabar-se-ia com grande parte da imprevisibilidade das viagens para o grupo central e ocidental dos Açores. Parece fácil, mas será?
Claro que, para que tudo isto funcione, temos que eliminar alguns riscos. Penso que o maior deles todos é a intolerância ou a falta hospitalidade. Da mesma forma que somos capazes de cativar, até pela nossa curiosidade inata (lá estou eu a considerar-me faialense…), também somos capazes de nos distanciarmos numa falta de paciência extraordinariamente arriscada.
Evidentemente, ao Governo cabe alavancar alguns dos investimentos estruturais mais importantes e que servirão de base ao nosso futuro comum. Mas muito mal estará um povo que se esqueça de si próprio e enjeite o seu potencial. Mais do que dissertarmos sobre uma lista de obras que podem ou não ser uma realidade, agarremo-nos aos nossos enormes pontos positivos e partamos para o futuro brilhante que temos à nossa frente, se quisermos ter a coragem de olhar!

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Realmente…

Há colunistas, também neste jornal, que utilizam uma técnica abrasiva e vil que denominaria de “atiro para ser conhecido”. Com a aplicação desta técnica, não há informação, justificação, um rasgo de justiça, uma ideia original ou, sequer, um laivo de honestidade. Cegamente, atira-se em todas as direcções, até porque algum há-de acertar. Esta técnica tem a única vantagem de empurrar os visados para uma resposta e, assim, ganhar visibilidade e protagonismo. Há diversas figuras nacionais que utilizam esta técnica, mas, tipicamente, são líderes de pequenos partidos de oposição, sem crédito e sem qualquer mérito. Falam apenas para introduzir ruído e obter dividendos fáceis, estéreis, inconsequentes e perecíveis. A sua argumentação, invariavelmente, passa pela utilização de chavões populistas e apelam, de forma velada, à xenofobia. Talvez por desde tenra idade ter vivido em terra que não era a minha de nascença, noto a xenofobia à légua.
Apenas em termos de brincadeira assumida, por vezes, escrevo sobre assuntos que não domino. De resto, escrevo e publico artigos sobre ambiente, paisagem, conservação da natureza, mar e mergulho. Acontece também dissertar sobre temas culturais e sociais, mas apenas com a superficialidade de um interessado que contempla, sem me aventurar no conselho ou crítica, excepto quando informado. Pergunto, oiço, contraponho e, apenas depois, tento estabelecer as minhas conclusões e, se justificável, partilho-as.
O Ambiente dos Açores está em óptimas condições. Mas para se poder falar de Ambiente há que definir Ambiente. Para além de uma data comemorativa, o Ambiente inclui as condições atmosféricas, oceanográficas, geológicas, biológicas e ecológicas. Se o bom estado ambiental existir poder-se-á, eventualmente, usufruir do mesmo. Ou seja, há dois passos sucessivos e não transponíveis. Primeiro, bom estado ambiental e, posteriormente, o usufruto do mesmo. Centros de Interpretação, trilhos, bares, restaurantes, e outros, são muito importantes até porque permitem o usufruto e a recolha de mais-valias económicas e sociais, mas, para existirem, a primeira componente tem que ser salvaguardada. Portanto, quem quiser escrever sobre ambiente, por favor, comece de início, pelo Ambiente.
Através de diversas classificações nacionais e internacionais, o Ambiente dos Açores está certificado como possuindo uma enorme qualidade. Não sendo exaustivo, deixo apenas as classificações que dependeram da actuação do departamento de Ambiente que dirijo: Reservas da Biosfera, Áreas Ramsar, Áreas Marinhas Protegidas da OSPAR, Quality Coast e, admirem-se os menos informados, Praia de Ouro para a Praia de Porto Pim, na Ilha do Faial.
Para obter estas classificações há um trabalho de bastidores, aparentemente invisível (principalmente para quem não quer ver…), que analisa cada indústria potencialmente poluidora, monitoriza diversas variáveis ambientais e, sempre que necessário, actua. É por esta razão que, no Porto da Horta, todos os dias (não é uma crónica a cada quinzena…) mergulhadores saem para o mar e recolhem uma alga involuntariamente introduzida no nosso porto. Se esta alga se expandir, estaremos perante o maior desastre ambiental jamais ocorrido nas nossas águas.
Porque estamos conscientes que os verdadeiros problemas ambientais das nossas ilhas não são edifícios, temos lutado permanentemente contra a proliferação dos organismos invasores, pela boa gestão dos resíduos e pela salubridade da água de consumo. Entre as diferentes técnicas utilizadas, e é apenas uma delas, utilizamos a educação ambiental. E entre as diferentes técnicas utilizadas para a educação ambiental, lá está, a interpretação com os desejados edifícios e o betão associado que alguns arquitectos anseiam. Mas esse não é o Ambiente. O Ambiente é o que lhe está subjacente, é muito mais vasto e, diga-se, muito mais importante e permanente.
Entre as diferentes técnicas de educação ambiental contam-se a promoção das actividades escolares e, sem admiração, os Açores têm o maior nível de implementação de eco-escolas a nível nacional. Para além disso, dinamizamos acções em grande parte dos eventos dos Açores. Veja-se agora o caso da Feira do Mundo Rural do Faial, com o nosso Eco-Pavilhão.
Na Ilha do Faial há um subdepartamento chamado Parque Natural de Ilha do Faial. Este núcleo é constituído por trinta jovens e menos jovens que, dedicadamente, melhoram as condições ambientais do Faial. Através de acções no terreno estão a fazer (não são palavras escritas, estão mesmo a fazer!) a limpeza de flora invasora e a replantação de flora natural no Monte da Guia, Morro de Castelo Branco, Vulcão dos Capelinhos e Caldeira. Dinamizaram, em conjunto com as Freguesias, a limpeza das orlas costeiras e foram muito mais além. Estão a preparar o modelo do Parque Natural de Ilha dos Açores e não se admite que um cronista, sem qualquer pergunta fazer, ponha o trabalho deste grupo em causa. Não é fácil manter-se o Centro de Interpretação do Vulcão dos Capelinhos em funcionamento, com toda a sua complexidade tecnológica, e, ao mesmo tempo, criar as valências que irão ser apresentadas nos próximos dias. Pergunte-se antes de escrever. Se não retirar o veneno dos dedos, pelo menos permite que não façamos figuras tristes ao errar completamente.
Alguns cronistas não querem saber, mas o Faial tem dos mais elevados índices de exportação de resíduos do país. Isso não significa que tudo esteja pronto, mas, como alguns cronistas deveriam saber se perguntassem antes de atirarem maldosas calúnias para a imprensa faialense, há um projecto em elaboração para requalificação do aterro controlado da Praia do Norte. E, alegre-se cronista do betão, haverá um investimento associado de seis milhões de euros!
Da minha casa olho para o Canal e vejo um porto em construção, barcos à vela e canoas encimadas pelo ponto mais alto de Portugal. Eu sou um privilegiado por viver nesta terra e, como tal, trabalho muito para a preservação e para a melhoria das condições ambientais, em primeira linha na componente da existência do bem ambiental e da sua qualidade, mas também, assumidamente em segundo plano, na sua vertente de contemplação e usufruto. Oxalá, outros, de forma crítica e participativa, percebam o mesmo já que, para alguns, a sua existência implica não morderem a própria língua...

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Amnistia Internacional

O título deste artigo deveria ser “organizações não-governamentais”, já que irei dissertar sobre este tema, mas decidi realçar uma das maiores instituições do mundo e, para mim, também uma das mais importantes. De facto, a Amnistia Internacional (AI) tem 2,2 milhões de apoiantes que consideram relevante a forma como promove os direitos humanos. Um dos slogans da Amnistia é “posso não concordar com o que dizes, mas luto para que o possas dizer”.
Esta organização é um dos exemplos de dezenas de organizações internacionais que lutam para que o nosso planeta azul seja, entre outras causas também meritórias, um pouco mais justo e equitativo e onde haja maior qualidade ambiental. Para além da AI, irei abaixo destacar um conjunto de organizações que estão a mudar o mundo para muito melhor.
Cada vez que há uma catástrofe, em qualquer parte do globo, de imediato uma expressão nos assalta a memória: “Cruz Vermelha Internacional”. Digam lá que não tenho razão?! A Cruz Vermelha, também conhecida por Crescente Vermelho ou Cristal Vermelho, para não ferir susceptibilidades religiosas, é uma das mais unânimes organizações de intervenção em teatros de guerra ou de catástrofe natural. Não será inerte o facto de agregar 97 milhões de voluntários. Destaco também, os Médicos Sem Fronteiras que, ao contrário de outras com o mesmo objectivo, não permitem a auto-promoção dos profissionais que, no campo, contribuem voluntariamente para as diferentes causas humanitárias.
A UNICEF não pode ser classificada como não-governamental, mas, de qualquer forma, destaco-a para que seja dado eco da sua acção que, em muitos sentidos, acaba por ser similar às Organizações Não-Governamentais. A UNICEF é um organismo das Nações Unidas que também recebe fundos privados e, portanto, todos podemos contribuir para as diferentes acções de salvaguarda das crianças que promove.
Em termos ambientais, a nível internacional destaco a Fundo Mundial para a Vida Selvagem (WWF) e a Greenpeace. A primeira tem uma acção mais discreta, mas muitíssimo eficiente, recolhendo fundos no mundo inteiro, junto dos seus 5 milhões de apoiantes, e dedicando-se a fortalecer as causas ambientais também nos países mais carenciados. É frequente encontrar membros da WWF nas reuniões ministeriais ou nos grupos de trabalho especializados em diversas temáticas ambientais. A acção da Greenpeace é sobejamente conhecida e reconhecida e não apenas junto dos seus 2,7 milhões de apoiantes. Esta organização voltou a surpreender quando, em 2006, veio aos Açores enaltecer as acções positivas do Governo Regional na salvaguarda do seu mar.
Em Portugal, associações como a Liga para a Protecção da Natureza (LPN), a Quercus ou a SPEA merecem o nosso respeito. A SPEA (acrónimo de Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves) é um dos membros da BirdLife International, uma organização que reúne organizações de diversos países com o intuito comum de proteger as aves. Por curiosidade, um dos membros da BirdLife International é a britânica Royal Society for the Protection of Birds, uma respeitável associação com um milhão de associados pagantes.
Tanto a SPEA como a Quercus têm delegações com actividade nos Açores, mas também há organizações endógenas nos Açores como, entre outras, os Montanheiros, os Amigos dos Açores, a Gê-Questa, a Azorica ou o Observatório do Mar dos Açores.
Existem, obviamente, muitas mais organizações não governamentais idóneas e com diversos âmbitos de actividade e áreas de influência geográficas. Para além das organizações visando acções sociais e ambientais, que refiro atrás, há organizações com aproximações religiosas, outras culturais e outras apontando as suas baterias para causas laborais específicas, como as Ordens ou os Sindicatos.
Na minha opinião, ser cidadão, implica aderir a causas e lutar por elas. Portanto, seja onde for e com quem for, parece-me que o importante é mesmo participar.