Há uns dias atrás, recebi uma estudante de jornalismo sulafricana que desejava falar sobre natação com golfinhos para efectuar um trabalho de final de curso. Começámos por falar no elevado número de espécies presentes no arquipélago e as razões que o promovem. Depois, falámos sobre os delfinários e a surpresa começou quando lhe disse que não era totalmente contra estas estruturas. Tive que lhe explicar que o entusiasmo, emoção e mobilização com que especialmente as crianças saem dos delfinários é expressivo e consequente. Informei-a que, num mundo perfeito, seria totalmente contra estas estruturas, mas no nosso, é um dos preços a pagar para que melhore. “Mas vocês não têm?!”, exclamou ela, aludindo ao facto de não haver delfinários nos Açores. Coloquei o meu melhor sorriso e disse “não precisamos. Para nós a natureza, felizmente, vem em estado puro e, neste caso em particular, está ali no gigante azul!”
A certo passo, ficou mesmo muito intrigada porque o meu entusiasmo com a natação com golfinhos não era enfático. Eu disse-lhe que não me parecia que os golfinhos ficassem particularmente delirantes com a presença humana; de outra forma não seriam tão esquivos, não teriam atitudes agressivas para quem com eles nada e não limitariam ao mínimo o tempo de presença de humanos nos seus grupos, principalmente quando estão crias por perto.
A seguir, depois destas explicações, fui alvo de enormes elogios do tipo “vocês estão tão avançados nos Açores. Enquanto noutros locais, como na Tanzânia, a actividade está completamente desregrada; aqui têm legislação precisa e ainda consideram intensificá-la”. Como a minha honestidade não tem limites e é desbocada, tive que a desiludir um pouco… "É também racionalidade económica. Nos Açores, suspeitamos que a natação com golfinhos irrita tanto os animais que estes se tornam mais fugidios para todo o negócio de observação de cetáceos. Há cientistas a monitorizar a actividade e, quando o momento chegar, se chegar, acabar-se-á a natação. Evidentemente, estar com animais selvagens é um risco. Noutros locais, já foram registados eventos menos simpáticos com golfinhos, e, ao mesmo tempo, também temos que pensar no conforto dos próprios animais, mas a tomada de decisão, no final de tudo, provavelmente assentará em racionalidade económica. Esta racionalidade económica actua a dois níveis: primeiro, como disse, se não houver animais será mau para todo o negócio, mas há outro factor. Os turistas amantes da natureza, até pelo poder económico que têm de ter para aqui chegar, estão muito bem informados e não são complacentes com actividades que perturbem os animais. Ou seja, caso fique cientificamente provado que os animais são perturbados pela natação com golfinhos e nada fizermos, arriscamo-nos a perder o objecto da actividade e os interessados em efectuá-la. Seria uma extraordinária irresponsabilidade não actuar."
Ela estava verdadeiramente surpreendida e dizia “mas os outros destinos não irão lucrar com a abdicação dos Açores?”. Aí, pude brilhar… “Repare”, disse-lhe, “os Açores já estão habituados a liderar no que à gestão do mundo natural diz respeito. Portanto, tal como noutros tempos se ia a África para caçar animais, hoje os safaris são fotográficos. Claramente, se se mantiver o crescimento civilizacional, certamente que a simples perturbação não será tolerada, até como apontam diversas directivas comunitárias. Portanto, se os Açores liderarem, teremos ainda mais turistas de excelência a fazer questão de visitar estas ilhas paradigma!”. Tal como aconteceu em relação à observação de cetáceos, em que implementámos uma das primeiras legislações a nível mundial, estamos em condições de, também aqui, e adaptando o lema da Universidade dos Açores, “iluminar”.
