sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Faial, ilha Mar

Faial, Ilha Mar!
Foto: F. Cardigos - SIARAM

Cada ilha dos Açores tem de encontrar o seu desígnio e, construtivamente, concertadamente e empenhadamente, lutar por ele. Algumas já o fizeram e têm dado passos altamente reprodutivos nesse sentido. No caso do Faial, tal como o vejo, esse desígnio é o mar. Quer seja no ramo privado, vejam-se os casos do Peter e da construção e reparação naval, quer no ramo científico, vejam-se os casos do Departamento de Oceanografia e Pescas da Universidade dos Açores e o seu Instituto do Mar, ou seja no ramo administrativo, veja-se o caso da Marina da Horta, o Faial toma outro sabor quando se mistura com a água salgada. Nesta última semana, curiosamente, dois eventos reiteraram o óbvio. Primeiro, o “Conhecer o Mar dos Açores: Fórum de Apoio à Decisão” e, depois, as promissoras palavras do Secretário Regional da Economia, Dr. Vasco Cordeiro, ao comprometer-se com a centralização da estrutura gestora dos portos dos Açores na ilha do Faial.
Quanto ao Fórum, e aviso, para quem não souber, que estou a escrever em causa própria, tratou-se de um marco de enorme importância para: 1. definir o conhecimento como a base de trabalho para a utilização sustentável do mar; 2. verificar que o conhecimento endógeno, para além de ter enorme qualidade, é suficiente para respondermos aos mais exigentes requisitos internacionais, 3. constatar que é imperativo o trabalho conjunto dos investigadores marinhos dos Açores, e 4. reiterar a centralidade do conhecimento do mar na ilha do Faial. Repare-se que normativos tão importantes e complexos como a Directiva-Quadro “Estratégia Marinha” exigem, com base em conhecimento científico, uma resposta a 11 temas (biodiversidade, topografia, economia do mar, etc…) e, para cada um deles, há um caderno técnico com mais de cem páginas. Será extenuante e exaustivo, mas ficou claro que temos matéria-prima para lá chegar. Pode parecer imodéstia, e se calhar é um pouco, mas, este momento de reflexão, dinamizado por duas direcções regionais (Ciência, Tecnologia e Comunicações e Assuntos do Mar), em termos mais gerais, apontou o futuro do relacionamento entre o conhecimento e a administração.
O Fórum, apesar de ter sido marcado por uma acção de dois dias, terá resultados a médio prazo, já que a quantidade de informação exposta demorará o seu tempo a ser consolidada e transformada nas respostas necessárias. Mas, com consequências a curto prazo, também na última semana houve outra autêntica revolução. Dando sequência à já anunciada unificação das administrações portuárias, a Secretaria Regional da Economia decidiu que essa decisão criará a sua centralidade na Horta. Em relação aos que afirmam que é impossível haver apenas uma administração para os Portos, relembro que a SATA tem aeroportos ou serviços em todas as ilhas e uma única administração e a EDA tem unidades geradoras de electricidade em todas as ilhas e também uma única administração. Porque não resultaria com os portos?! É evidente que resultará se houver empenho e vontade para que dê certo. No entanto, a decisão de colocar a sede desta empresa na Horta já não seria assim tão óbvia. Apesar de ser a administração com maior número de portos, a Administração dos Portos do Triângulo e Grupo Ocidental está longe de ser a estrutura que mais carga ou volume financeiro gera. Então porquê a Horta? Por uma questão de equitatividade em relação a outras actividades? Talvez. No entanto, parece-me que o factor fulcral foi a boa administração, a clareza das decisões, o bom ambiente de trabalho e a estabilidade que as últimas administrações conseguiram imprimir neste lado do arquipélago.
Com isto concluo que o Faial dará passos de gigante se conseguir orientar-se para o mar e para os serviços relacionados com o mar. O passado, com a indústria baleeira e os cabos submarinos, provou que este é um caminho que vale a pena trilhar e o futuro, alicerçado em investimentos regionais consequentes em estruturas portuárias, unidades de investigação científica, educação especializada e novos serviços executivos orientados para o mar, tem a solidariedade que os empreendedores do Faial necessitam. O Mar é a história e é o futuro da Ilha do Faial!

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Com entusiasmo, à espera do futuro próximo

Fotografando rainhas.

Olhando para o final de 2009 e comparando com o final de 2010 reconheço, com satisfação, que o Ambiente melhorou nos Açores, mas, admito também, com algum desconforto, que não melhorou tanto como poderia. Este foi um ano em que se consolidaram algumas importantes actividades ambientais como a exportação de resíduos, a continuada remoção de organismos invasores, a permanente plantação e promoção de organismos naturais da região, a manutenção dos sistemas de certificação industrial e a certificação do nosso arquipélago como QualityCoast.
Com a entrada em funcionamento do Sistema de Registo Informático de Resíduos dos Açores, temos a quantificação quase exacta de quantos metros cúbicos de resíduos são produzidos e qual o seu destino. Tal como foi recentemente apresentado pelo Director Regional do Ambiente, Dr. João Bettencourt, está em preparação um dispositivo informático que permitirá, utilizando a rede Internet, pôr estes dados e, principalmente, as soluções de encaminhamento, ao alcance de todos os açorianos. Também para breve está prevista a conclusão dos Centros de Processamento de Resíduos das Flores e Graciosa. O Centro do Corvo também já está em construção, pelo que é expectável que, ainda este ano, as ilhas da Biosfera dos Açores tenham o problema da gestão dos resíduos alicerçado.
Ainda dentro da temática dos resíduos, tenho de chamar a atenção para o concurso ecofreguesias lançado em 2010, por ideia do Secretário Regional do Ambiente e do Mar. Mais de sete dezenas de freguesias conseguiram alcançar este galardão. No entanto, metade das freguesias não chegaram lá. Isto significa que não é um galardão fácil e que quem o ganhar é porque se esforçou. Fica a dica para quem ganhou este ano (todas as freguesias do Faial ganharam!) e o recado para não baixarem a guarda.
Por último, um facto que passou quase desapercebido, mas que me parece relevante. Na Praia da Vitória, diversas forças da ordem resolveram formar brigadas ambientais para perseguir o abandono de resíduos. Esta acção, com génese exterior ao Governo, é um passo determinante para a não tolerância em relação ao verdadeiro terrorismo ambiental que alguns, poucos, insistem em praticar nestas ilhas de ambiente quase perfeito.
Mudemos de temática. Para além do continuado combate à flora invasora, o Ano Internacional da Biodiversidade – 2010 – foi marcado nos Açores por diversos acontecimentos importantes. Alguns deles foram planeados, outros desejados e, ainda outros, frutos do acaso. Dou alguns exemplos.
Evidentemente, há muito tempo que estamos a conduzir tarefas para a recuperação da população do priolo. Portanto, é sem surpresa que agora foi reconhecido pela IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza) que a pequena população já está livre de perigo de extinção. É um excelente exemplo de trabalho coordenado entre diversas entidades, com ênfase para a Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves que o coordenou. Não estávamos à espera, apesar de secretamente o desejarmos, era que o projecto com que culminou a recuperação desta ave fosse considerado um Best of the Best pela Comissão Europeia, ou seja, um dos cinco melhores projectos financiados pelo sector do Ambiente da Comissão Europeia!
Por coincidência, calhou no Ano Internacional da Biodiversidade o reconhecimento pela comunidade científica internacional do painho-de-Monteiro como uma nova espécie! Os ornitológos para, ao longe e de binóculos, verem esta pequena, resistente e tenaz ave marinha, endémica de apenas dois ilhéus da Graciosa, terão que se deslocar até à Vila da Praia. E não pensem que há poucos ornitólogos no mundo…
E foi também em pleno Ano Internacional da Biodiversidade que a Universidade dos Açores terminou a compilação da primeira lista de todos os organismos existentes nos Açores. Com o patrocínio do Governo dos Açores, o Professor Paulo Borges e colegas agregaram numa única publicação a referência das mais de oito mil espécies e as ilhas em que foram registadas. Foi um passo fundamental para o nosso conhecimento dos Açores.
Em 2010, como reconhecimento internacional do trabalho do Departamento de Oceanografia e Pescas da Universidade dos Açores e do Governo Regional, foram declaradas Áreas Marinhas Protegidas sob a gestão de Portugal os sítios Altair, Anti-Altair e Crista Médio Atlântica a Norte dos Açores. Deixem-me enfatizar que, apenas esta última zona, tem uma dimensão maior que a área total do Continente Português! Temos aqui uma enorme oportunidade, mas temos também de ser sagazes o suficiente para a saber aproveitar. O ano de 2011 irá ser crucial para a boa gestão do mar alto, e esta uma enorme responsabilidade para a nova Direcção Regional dos Assuntos do Mar.
Merece também um destaque especial o papel inovador e visionário que o Parque Natural do Faial tem tido. Conseguiram organizar o acesso do público ao património ambiental (p. ex. “Trilho dos Dez Vulcões”), melhorar diversos equipamentos (p. ex. a nova estufa do Jardim Botânico) e, mantendo todas as estruturas em funcionamento, em quatro meses criar um extraordinário Guia do Parque. Está a ser um excelente trabalho!
Tudo o que referi atrás não são teorias, ideias ou projectos. São factos. 

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Extracção de areias nos Açores

Santa Cruz das Flores, Açores.

Ao rever os artigos que já publiquei, constatei que nunca toquei num assunto que já me fez sofrer um bom bocado: a extracção de areias. No final dos anos 90, surgiu o desafio para que o DOP fizesse a avaliação das areias existentes em volta das ilhas dos Açores. À primeira vista parecia um desafio inovador, porque nunca tinha sido feito nos Açores, e era necessário organizar muito trabalho de mar. Tinha o meu nome!
Já não me recordo se me ofereci ou se fui voluntariado… O que é certo é que, em conjunto com uma belíssima equipa, lá me meti a organizar as expedições. Diga-se neste ponto, em abono da verdade, que quando comecei não entendia nada, mesmo absolutamente nada do assunto. Pior do que isso, como tinha tido uma cadeira de geologia e outra de sedimentologia na universidade, pensava que sabia… Erro…
Porque a modéstia fica bem, falei com alguns colegas mais sabedores do que eu e, em conjunto com o Fernando Tempera, lá fomos alicerçando o conhecimento e o engenho necessário para debelarmos o desafio. Nas primeiras conversas, com colegas do Departamento de Geociências, ficamos a saber que, de facto, nos Açores a areia é um bem escasso e valioso. Pelo facto de não haver areia biogénica (formada pela degradação das conchas) a areia dos Açores resulta apenas do que é emitido pelos vulcões e do que é gerado pela degradação das rochas seja no leito das ribeiras ou nos chamados “rolos” junto ao mar. Daí a sua cor escura, ao contrário da coloração mais esbranquiçada das areias continentais. Em termos estatísticos, cerca de 90% da areia dos Açores é oriunda directamente dos eventos vulcânicos, 9% das escorrências das ribeiras e 1% da abrasão costeira. Portanto, o grande fornecedor de areia do nosso arquipélago tem estado improdutivo e ainda bem. A escassez de areia, essencial para a construção civil, pode, em última análise colapsar a edificação e, consequentemente, grande parte dos investimentos estruturais e, pelo menos, os empregos directos que a actividade gera.
Por tudo isto, ficou claro que tínhamos de ir procurar onde estavam localizados os depósitos de areias no mar dos Açores, tentar contabiliza-los e definir os locais que não deveriam ser explorados por questões relacionados com a sensibilidade ambiental. Aprendemos com os colegas do então Instituto Geológico e Mineiro que o princípio para procurar areias é extraordinariamente simples. Com aparelhos sofisticados provoca-se um grande barulho à superfície do mar, um autentico pequeno sismo, analisam-se os ecos, e, a partir daí, conseguem-se identificar as lagoas de areia que existem sobre o fundo rochoso do mar.
Infelizmente, para poderem circular perto de terra, os navios utilizados têm de ter pouco calado e a possibilidade de manobrar em pouco espaço. Em súmula, têm de ser pequenos navios… honestamente, lanchas. A embarcação escolhida foi então o “Águas Vivas” ou outros equivalentes. Também infelizmente, os circuitos eléctricos emissores de som, o tal grande barulho, têm de ser independentes dos que fazem a análise do seu eco. Ou seja, para cada sistema é imprescindível ter um gerador diferente. Somando tudo, para além dos dois motores da lancha, havia a bordo três geradores, sendo um deles dedicado a provocar um “grande barulho”. Tudo isto em onze metros de barco. Tenho-vos a dizer que este não foi o pior trabalho que jamais fiz, mas andou muito perto… Para poder aguentar todo aquele barulho, colocávamos protectores auditivos e, dentro destes, auscultadores de leitores de música com o volume no máximo, ou perto disso. Foi, realmente, um trabalho muito difícil e, à conta disso, ainda hoje odeio barulho. Felizmente, não ficámos surdos, mas pouco deve ter faltado.
Depois de termos andado a transportar esta maquinaria em volta da maioria das ilhas dos Açores, desenhamos os mapas que hoje servem para definir as áreas e os volumes de areias exploráveis no arquipélago dos Açores.
Certo dia, nas Flores, depois de trabalhar durante duas semanas a fio, já meios surdos, decidimos que iríamos descansar no Domingo. Era justo e, também, se não o fizéssemos, provavelmente, fugiríamos dali. Já ninguém aguentava mais um minuto de geradores… Mal sabíamos nós que havia uma disposição nas posturas municipais de Santa Cruz das Flores que, apenas aos Domingos, permitia, que em plena Vila, se matassem porcos de forma tradicional. Ao sofrimento do animal, expresso nos guinchos agudos e penetrantes, acrescia o nosso desespero. Foi o ponto mais baixo de um dos mais difíceis trabalhos que tive na vida. Felizmente, terminou!
À parte da violência da tarefa e do contexto que envolveu alguns dos seus momentos, este foi mais um contributo que os investigadores, técnicos e marinheiros do Departamento de Oceanografia e Pescas da Universidade dos Açores deram para o desenvolvimento sustentável da nossa Região. Ter participado nisso, deixa-me verdadeiramente orgulhoso.