sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Porto Santo no arquipélago da Madeira

Vestígios da cultura em socalcos, assente em muros de pedra seca,
outrora omnipresente em Porto Santo.
Foto: F Cardigos SIARAM.

Como nos últimos tempos toda a gente fala na Madeira, vou ser original, vou escrever sobre Porto Santo!
Por sorte, quis o destino que tivesse de ir a um interessantíssimo seminário sobre energias alternativas produzidas no mar que se realizou no Funchal com organização do Centro de Energia das Ondas. Ora, estando na Madeira continental e tendo um dia livre, como ocupá-lo? Nada melhor do que explorar novo território insular, fomos para Porto Santo.
A ilha de Porto Santo foi descoberta em 1418 por João Gonçalves Zarco e Tristão Vaz Teixeira. Desde então, esta ilha teve diversos momentos altos que incluíram a elevada produção cerealífera, por possuir uma produção de cal com elevada importância, pela construção de um aeroporto militar com enorme importância estratégica e, ainda mais recentemente, por uma indústria turística que, no Verão, multiplica por cinco a população local. O desenvolvimento futuro aposta na constituição de um Geoparque e na valorização do património ambiental classificado pela Rede Natura 2000.
Reza a história que o desaparecimento da produção de cereais foi consequente às alterações das condições climáticas da ilha. É deste aspecto que quero falar com mais detalhe. Segundo os Guias que nos acompanharam, muito simpáticos por sinal, o declínio da pluviosidade fez com que os campos fossem abandonados, restando hoje apenas vestígios dos muros de pedra seca de contenção que estruturavam os patamares em que as culturas eram feitas. De acordo com estes vestígios, as culturas estendiam-se até às partes mais elevadas da ilha. Por falta de vegetação que agregue os sedimentos superficiais, a ilha está agora gretada vendo-se restos de profundas linhas de água por todo o lado.
Hoje, numa nova aproximação, estão a ser introduzidas centenas de milhares de árvores que começam a ocupar uma modesta parte da ilha. Parece-me que, com esta decisão, se está a tornar novamente a ilha verde. Evidentemente, a escolha de espécies exóticas (i.e. que não pertencem à flora natural da ilha) oriundas do norte de África é a priori discutível, mas confio que tenha sido uma decisão bem ponderada.
Ao ver o sucesso destas novas plantas, questionei-me se teria sido o clima a alterar o sucesso das culturas cerealíferas ou se, ao contrário, teria sido uma sobre-exploração dos solos que teria condenado as plantações… Confrontei os nossos Guias com esta ideia e procurei informação na internet, mas sem sucesso.
Há diversos exemplos clássicos de mau uso do solo que provocaram uma dramática alteração da paisagem e, nos casos mais agudos, um cataclismo social. A civilização Suméria, berço da humanidade, desapareceu por sobre-salinizar o solo, consequente a regas excessivas, e foi o uso abusivo de árvores na Ilha de Páscoa que condenou a extraordinária civilização que construiu aquelas espantosas e misteriosas estátuas. Alegadamente, a civilização Maia já estaria condenada quando os espanhóis lá chegaram e lhe deram a estocada final. Segundo esta teoria, a utilização excessiva dos solos da América Central já teria traçado o destino que os aztecas vinham precipitando e que os espanhóis concluíram. Curiosamente, um dos habitantes mais ilustres de Porto Santo seria, uns anos mais tarde, responsável pela descoberta da América e por toda a sequência triste de acontecimentos que por aí se passou: Cristóvão Colombo.
Terá Porto Santo sido um caso semelhante? Ou antigas alterações climáticas terão tido esse efeito? Mistérios que nos fazem querer saber sempre mais. Se alguém me puder ajudar, agradecerei. Entretanto, aconselho a extraordinária praia da ilha dourada

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Opções

Prof. Dr. Avelino Menezes.


Estive há uns meses atrás a assistir a uma interessante palestra proferida pelo então reitor da Universidade dos Açores sobre a primeira República e a sua relação com a autonomia. Enquanto me deleitava com as suas sábias palavras, “apesar de não ser um período em que seja especialista”, como fez questão de referir, dei por mim a imaginar-me naqueles conturbados períodos e a tentar tomar as melhores opções. Seria republicano, como Manuel de Arriaga e Teófilo Braga? Ou seria monárquico, dando sequência às opções autonomistas então recentemente tomadas? Olhando para o meu próprio passado familiar, naquele período, verifico que apenas tenho membros do lado republicano, o que me deixa sem muitas opções…
Voltando às palavras do Professor Doutor Avelino Menezes, reparei a certo ponto que ele acabou de dizer “em termos académicos havia duas constrições naquele período: por um lado, a maioria dos candidatos que frequentava o ensino superior apenas o fazia para obter o título e os restantes também ficavam com cursos sem aplicabilidade, dado o distanciamento que os mesmos tinham em relação às necessidades ou ao mercado de trabalho.” Fiquei atordoado… Ele estava a falar da primeira República ou de hoje?! E continuou dando exemplos do que se passava naquele período: dívida pública, falta de reconhecimento ou autoridade internacional, falta de credibilidade da classe dirigente…
Com grande distância temporal, de facto, o que vivemos hoje plasma com algum rigor a situação na primeira República. Mais uma vez, estamos perante um cenário que nos pode levar por caminhos extremistas que, então, não soubemos evitar. Agora, para além das opções, temos o conhecimento. Com competência, dinamismo, tolerância e solidariedade teremos de saber gerir o tempo e as opções tendo especial cuidado porque é particularmente simples cair em aparentes soluções fáceis e populistas. Como dizia um poeta que muito aprecio sobre um seu personagem “ [Ele] Ficava de olho aberto / via as coisas de perto / que é uma maneira de melhor pensar / via o que estava mal / e como é natural / tentava sempre não se deixar enganar” (Sérgio Godinho in “Cuidado com as imitações”). Façamos o mesmo.
O novo Reitor da Universidade dos Açores, o Professor Doutor Jorge Medeiros tem enormes virtudes, mas, pelo que conheço dele, não terá a habilidade de nos fazer sonhar com tempos, História e estórias passadas. É uma enorme virtude, que muito admiro, esta capacidade de enrolar os ouvintes em palavras ricas, coloridas expressões e frases propositadamente cheias de sentido e sequência. São pessoas assim que nos educam verdadeiramente. É certo que para ser Reitor não será condição essencial, mas, nestes dois mandatos de Avelino Menezes, soube muito bem.
Por me ter ensinado e por ter sido um bom Reitor da mais difícil universidade de Portugal, agradeço-lhe Professor Doutor Avelino Menezes. Que a vida lhe traga simpáticas venturas e que saibam reconhecer o seu valor, aproveitando-o para outras dignas e proveitosas empreitadas. Que as suas opções e as opções que lhe apresentarem sejam entusiasmantes para si e benéficas para todos.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Solidariedade Ocidental


Vista do Corvo em direcção à costa Oriental das Flores.
Em primeiro plano vidália ou Azorina vidalii.
Em segundo plano, Porto Novo.
Foto: F Cardigos - SIARAM.


No início de Dezembro de 2010, a freguesia da Fajãzinha, na Ilha das Flores, foi fustigada por um violento temporal seguido de um assustador deslizamento de terras. Toda a área da povoação ficou coberta por um enorme lamaçal. Algumas casas ficaram inabitáveis, os espaços comuns deteriorados e as estradas destruídas. Apesar das perdas e do sobressalto, por sorte, este drama não atingiu proporções tão elevadas que colocasse em perigo vidas humanas.
Ainda durante a tempestade e logo que se determinou a magnitude do que estava em causa, diversas instituições fizeram o seu melhor para amenizar aquele que já se julgava ser um Natal perdido. Para além do Governo, das autarquias e das instituições ligadas à protecção civil, alguns grupos de privados puseram mãos à obra.
Na primeira linha, os vizinhos detentores da Aldeia da Cuada, a Sra. Teotónia e o Sr. Carlos Silva, abriram as portas da sua unidade hoteleira para receberem quem necessitasse. E necessitavam… Ainda na ilha das Flores, uma associação informal de donos de moto 4, conhecida como Kanadas & Kaminhos, ofereceu-se para transportar o que fosse necessário para a Fajãzinha. E era necessário. Chamo a atenção para estes dois privados porque não eram obrigados a oferecer os seus préstimos, mas, mesmo assim, avançaram e ajudaram quem necessitava de ajuda.
Na vizinha ilha do Corvo, um jovem chamado Marco Silva, ao perceber que poderia ajudar, colocou mãos à obra. Primeiro sozinho, depois com a Associação de Jovens da Ilha do Corvo, dinamizou uma página do Facebook que rapidamente angariou, entre abnegados leilões ou simples dádivas, vários milhares de euros que foram transferidos para a conta da Junta de Freguesia da Fajãzinha. Este dinheiro foi convertido em bens necessários e, pensou-se, teria ajudado.
Vem isto a propósito de há duas semanas ter decorrido na Ilha do Corvo a sua festa anual de maior importância, a Festa de Nossa Senhora dos Milagres (onde se inclui o Festival dos Moinhos). A convite da organização, juntou-se à festa a Banda Filarmónica da Fajãzinha. Quando já estavam no Corvo, em cima do palco, confessaram que tinham acabado de tocar ao final da tarde na Ilha vizinha, no Lajido, e que teriam de regressar novamente logo ao início da manhã, portanto, uma autêntica visita de médico efectuada por meia centena de pessoas. No entanto, adiantou o maestro, jamais poderiam dizer não a quem tanto os tinha “ajudado num momento de necessidade”. A resposta ali estava! Eles tinham necessitado, os corvinos e seus amigos tinham ajudado e isso estava, precisamente ali, a ser reconhecido em cima de um palco, na mais importante festividade do Corvo e para todos ouvirem.
Quase um ano depois, pude apertar a mão do meu amigo Marco e dizer-lhe nos olhos, “tu fizeste uma coisa bonita e eles não esqueceram”. Ele respondeu com a modéstia que o caracteriza, mas para a história ficará que os corvinos ajudaram quem necessitava e quem necessitava não esqueceu.
Mouzinho da Silveira foi um dos mais importantes estadistas do século XIX de Portugal. Com enorme deferência, sobre os habitantes da mais pequena ilha dos Açores, mencionou no seu testamento que gostaria “de estar cercado, quando morto, de gente que na minha vida se atreveu a ser agradecida”. Apesar da crise de valores em que vivemos e que, por vezes, nos faz perder a esperança de ultrapassar as menores dificuldades, que excepcional exemplo nos chega dos herdeiros do Grupo Ocidental!