terça-feira, 3 de janeiro de 2012

2012, o Ano Mar!


As mantas são um dos tesouros do Mar dos Açores.


Graças aos seus territórios ultraperiféricos e ultramarinos, a França é considerada uma enorme potência marítima a nível mundial, talvez, hoje em dia, apenas ultrapassada pelos Estados Unidos da América e, eventualmente, pelo Reino Unido. Analisando o rácio entre o território marinho e terrestre, de facto, a França apresenta uma relação de 17 para 1. Ou seja, por cada quilómetro quadrado em terra, aquele país tem 17 de mar. Assim, entende-se o porquê desta propensão para o estudo e a ocupação estratégica militar do mar sob a sua jurisdição. Os investimentos feitos em navios científicos como o fabuloso “Pourquois pas?” ficam explicados.
No caso de Portugal, esta relação, curiosamente, é um pouco superior, é de 18 para 1. Ou seja, por cada quilómetro quadrado de terra há 18 de mar. Penso que esta relação justifica plenamente o desejo de retorno do nosso país ao gigante azul e confirma o interesse do investimento nas plataformas de investigação marinha como sejam o “D. Carlos”, o “Gago Coutinho” e o “Luso”. Também, nesta mesma perspectiva, faz todo o sentido pensar em delimitar oficialmente a nossa plataforma continental, o que faria esta relação crescer para 39:1!
Mas, no nosso arquipélago, estes valores atingem uma dimensão completamente diferente, quase estonteante! A relação entre o mar e a terra no arquipélago é de 387 para 1. É um rácio que aponta, claramente, o caminho a seguir ou, parafraseando o Presidente do Governo dos Açores, “o mar é o futuro!” No entanto, esta aventura numérica está longe de terminar por aqui. Se, como é expectável, a intenção de extensão da plataforma for aceite, nos Açores passaremos a ter uma relação de mil para um. Ou seja, cada açoriano, muito mais do que se preocupar com o seu hectare de terra ou com os seus três metros de linha de costa, deveria olhar claramente para os 10 quilómetros quadrados de mar que o esperam. Para os açorianos em particular, “o mar é o futuro!”
Apenas com o que escrevi até aqui, já faria todo o sentido pensar no mar como o grande motivador do progresso nos Açores. Na realidade, no entanto, temos de ser muito mais exigentes que isso. É necessário perceber o que fazer com estes milhões de quilómetros cúbicos de água. O que fazer com tanto e tão profundo fundo marinho?
Obviamente, há uma estratégia montada que assenta no conhecimento, na planificação, na aposta na sensibilização ambiental, também como ferramenta de adopção patrimonial, e no empreendedorismo privado. Os primeiros resultados, já com diversas certificações internacionais, confirmam o rigor e a pertinência do percurso escolhido pela Região.
Os cientistas dos Açores, particularmente desde a fundação da Universidade, em conjunto com diversos parceiros nacionais e internacionais, estudam detalhadamente os nossos mares. Desde a componente aérea, onde se incluem as aves marinhas, passando pela circulação oceânica das grandes massas de água, os mananciais de pescado e a geologia e dinâmica dos fundos, todos os detalhes têm sido escalpelizados. Como quaisquer cientistas, mais do que respostas, têm encontrado novas perguntas, novos desafios para debelar. Graças a estes conhecimentos, aprendeu-se nos Açores a encarar o mar não como uma fronteira ou um caminho tormentoso, mas sim como um bem patrimonial a respeitar e a preservar e uma fascinante oportunidade de alicerçar o progresso.
Testemunhas do efeito positivo da sensibilização ambiental, a campanha “SOS Cagarro” envolve milhares de açorianos todos os anos. Graças a ela, esta ave está mais protegida. Também, o “Açores Entre Mares”, actividade de adesão participativa que decorre entre o Dia Europeu do Mar e o Dia Mundial dos Oceanos, gera dezenas de actividades de acção e promoção do Ambiente Marinho.
Em paralelo, alguns empreendedores, assentes na informação científica recolhida, começam a transformar dados em projectos de investimento. Alguns deles estão no mar e apresentam já resultados economicamente muito favoráveis. Para além das actividades tradicionais, como o transporte marítimo, as pescas e a extração de inertes, há novas actividades turísticas implementadas e começam a aproximar-se interessados na exploração dos grandes fundos oceânicos.
Entre as actividades turísticas, destacam-se a navegação de recreio, que tem tido valores sempre crescentes nos Açores nos últimos anos. Espera-se que, com os investimentos realizados na rede regional de marinas, venham ainda a ampliar-se os actuais registos.
A observação de cetáceos, que começou como uma actividade quase familiar na ilha do Pico, hoje movimenta dezenas de milhares de turistas e gera rendimentos brutos superiores a duas dezenas de milhões de euros anuais. Com a extensão da observação a todas as ilhas, o que ainda não aconteceu, prevê-se também neste caso um aumento sustentável.
Até há pouco tempo, o mergulho com escafandro autónomo praticamente não tinha expressão no nosso arquipélago. Mesmo com uma temperatura de água muitíssimo razoável, visibilidades fantásticas e peixes de grande porte, parecia faltar qualquer coisa. Com os investimentos feitos pelos empreendedores e autoridades nas ilhas de menor dimensão, como a Graciosa, o Corvo, Santa Maria e as Flores, esse problema ficou ultrapassado. Agora, com a descoberta das agregações de tintureira, aparentemente, esta actividade irá crescer abruptamente. Penso que deverá haver cuidado no tentar aumentar os rendimentos e não na massificação do mergulho, embora, claramente, ainda haja espaço para crescimento. No entanto, mais do que trazer mais pessoas para o arquipélago, terá de haver uma clara orientação no sentido da manutenção da excelência.
E os Açores, com todos os prémios e reconhecimentos que receberam nos últimos anos (Reservas da Biosfera, QualityCoast, OSPAR, Rede Natura 2000, EDEN…) são mesmo considerados um local de excelência, onde o homem vive em harmonia com a natureza. Mais do que não podermos estragar essa imagem, temos de manter e melhorar os factos que a sustentam.
Tudo o que referi até aqui é o que os economistas chamariam de business as usual ou, como os artistas diriam, “não há aqui uma ideia rasgada”! Pois não. As ideias inovadoras estão para lá do horizonte e, as melhores ainda, estão a milhares de metros de profundidade.
Quem conseguir implementar uma ideia de aproveitamento energético do largo açoriano, talvez associado à captura de Carbono, como seja o cultivo de algas, aí sim, haverá inovação revolucionária que poderá catapultar o progresso dos Açores.
Junto das fontes hidrotermais há organismos que não necessitam de luz para gerar alimento, que resistem a temperaturas altíssimas, conseguindo mesmo recuperar o próprio DNA nos casos mais extremos, e que vivem “felizes” em ambientes diversas vezes mais poluídos que a mais industrializada das cidades emergentes do nosso planeta. Como conseguem? Que soluções biológicas poderíamos daqui retirar? Que fármacos poderiam daqui advir? Na Universidade dos Açores já há muitas ideias sobre estas questões, faltando apenas que o empresário empreendedor e inteligente se aproxime.
Nos fundos oceânicos em volta e nas fontes hidrotermais os cientistas descobriram jazidas de minerais como Cobre, Zinco e Ferro, encerrados nos chamados sulfuretos polimetálicos. São conhecidas as localizações de algumas destas jazidas à superfície, mas ninguém sabe até que profundidade se estendem. Se for até pouca profundidade não se justifica a exploração, mas se este aspecto tridimensional se prolongar além fundo estaremos perante autênticas fortunas. É cedo para lançar foguetes, mas é essencial pensar estrategicamente sobre este potencial. Nem nos Açores, nem sequer em Portugal, há tecnologia que nos permita sondar e, muito menos, explorar estes locais, mas isso não significa que nos devemos abster e deixar que explorem os nossos fundos sem contrapartidas justas. Não! Teremos de ser parceiros activos e garantir que, de forma perene, grande parte dos dividendos ficam na nossa Região, enriquecendo o nosso País.
Dando os primeiros passos nesta “batalha”, o Governo, como lhe competia, estruturou o Parque Marinho dos Açores. Nele, incluindo já vastas áreas para lá da Zona Económica Exclusiva, estão delimitadas as zonas ambientalmente mais sensíveis. Resultado de um trabalho científico e político de anos, o Governo conseguiu garantir a reserva de certos espaços para a salvaguarda da biodiversidade e para os estudos não intrusivos.
Nesta sequência, está agora a ser elaborado o Plano de Ordenamento do Espaço Marítimo que, incidindo sobre todo o alto mar a ser delimitado por Portugal em volta dos Açores, incluirá referências às novas dinâmicas dando-lhes território, abrindo o caminho e ajudando a que se estabeleçam. Este percurso, a que a Comissária Europeia Damanaki chamou de “Crescimento Azul”, começa, escrevo-o com orgulho, a ter a primeira consumação no Arquipélago dos Açores. Para que o percurso seja realizado até ao final, teremos também de estar particularmente atentos ao desenvolvimento do Plano de Acção da Estratégia para o Atlântico, recentemente lançado pela Comissão em Lisboa.
Para tornar tudo isto numa realidade efectiva, para passarmos da oportunidade ou do potencial aos euros e aos empregos, temos de dar um passo muito importante em 2012. É necessário que os açorianos se entreguem ao mar, que partam da boa ciência e descubram onde estão os métodos para que se consubstancie esta metamorfose de forma elegante. Realisticamente, sabemos que não será em 2012 que os investimentos surgirão, até porque o investimento responsável, mesmo que inclua um elevado grau de risco, demora tempo a concretizar-se, mas será em 2012 que ficará claro se conseguiremos agarrar este mar que é nosso e contribuir com firmeza para que se faça Portugal! Estou certo que os Açores, pelo exemplo do que já são, irão conseguir vencer este entusiástico desafio.
Feliz 2012, o ano Mar!

Declarações transformadas em reportagem e publicadas no Jornal Correio dos Açores a 3 de Janeiro de 2011.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Crípticos…


Criptomérias na berma da estrada na Ilha do Faial.
Foto: F Cardigos SIARAM

Há uns dias atrás, ouvi umas referências às criptomérias da Ilha do Faial e de como era ambientalmente importante proteger estas árvores que, nos lados das estradas, se mantinham há cinquenta anos. Cinquenta anos?! A minha primeira observação é, se há criptomérias com cinquenta anos nos lados das estradas, abatam-nas de imediato! O perigo de caírem numa próxima tempestade é enorme e a madeira que poderiam produzir está a perder qualidade a olhos vistos. Fazendo um favor à segurança colectiva e à economia, também colectiva, alguém que leve essas árvores. Já! Todos gostamos de seres vivos, mas, estes em particular, existem e são mantidos com uma função específica: produzir madeira. Outros servem para produzir carne, outros leite… Por muito bonitos que sejam e alimentem a nossa tranquilidade paisagística, em primeiro lugar está a tarefa que nos levou a colocá-las nos Açores.
Nos Açores há espécies e conjuntos de espécies com o respectivo contexto ecológico (normalmente denominados habitats) com enorme interesse ambiental. Essas espécies ou habitats com interesse ambiental são naturais das ilhas e, nos casos mais valiosos, exclusivos (endémicos) das ilhas. Há espécies cuja origem os biólogos ainda não conseguiram determinar e, por essa razão, são chamadas de criptogénicas.
No outro extremo da escala estão as espécies introduzidas e as invasoras. A maioria das espécies introduzidas foi colocada no arquipélago por razões comerciais (essencialmente ligadas à agricultura ou à pecuária) ou por razões estéticas. Infelizmente, algumas foram introduzidas por acidente ou, num terrível caso, por carinho! Imagine-se…
Ou seja, antes de explicar esse caso de afecto exacerbado, tenho de me deter sobre as espécies simplesmente introduzidas. De entre o milhar de espécies de plantas dos Açores, apenas 360 são daqui naturais. Todas as restantes foram introduzidas. Ou seja, estas espécies introduzidas têm uma função eminentemente ligada ao benefício humano. Incluem-se nessa lista as criptomérias e os plátanos. Já as espécies naturais têm uma função no ecossistema podendo, ou não, apresentar benefícios directos para os seres humanos. Reparem que as espécies naturais estão nas ilhas há milhões de anos e as introduzidas apenas há cinco séculos. 
Quando uma das espécies introduzidas passa a apresentar malefícios para o ambiente ou para os seres humanos, toma o nome de invasora. Ou seja, uma criptoméria demasiado velha é uma ameaça e, por definição, torna-se invasora. É obrigação nossa retirá-la do meio ambiente.
Há um célebre caso nos Açores, em que um casal, depois de prestar serviço na Base das Lajes, resolveu regressar ao Continente. Ao verem como os seus pardais se tinham adaptado e eram felizes no arquipélago dos Açores e na incerteza do que iriam encontrar no regresso à sua terra, resolveram libertá-los. Progressivamente, ao longo de gerações, os pardais invadiram e dizimaram as plantações de cereais da Terceira e, de seguida, das restantes ilhas dos Açores. Foi uma acção carinhosa para com os animais, mas que teve enormes consequências negativas. Conclui-se que, sem o devido conhecimento, as pessoas dizem e fazem enormes disparates, o que nos trás de volta às criptomérias cinquentenárias…
Aliás, caso este assunto das criptomérias fosse relevante para a conservação da natureza, digam-me lá: acham que o Parque Natural do Faial não teria intervindo? Depois de tudo o que vimos o Parque fazer nos últimos três anos, depois de terem sido premiados ao mais alto nível Europeu, passará pela cabeça de alguém que o Parque deixasse passar qualquer atentado ambiental? Pelos vistos passa…

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Os Cagarros!


Jovem cagarro no ninho
Foto: PH Silva SIARAM

Tenho acompanhado na internet, via Facebook, algumas dúvidas sobre a adequação da “Campanha SOS Cagarro”. São dúvidas legítimas e oriundas de pessoas que não se limitam a absorver a informação disponível. Querem saber mais e querem saber porquê. Pessoalmente, considero a dúvida uma das mais importantes características humanas e, por essa razão, tenho-me empenhado em esclarecê-las de imediato. No entanto, para um público mais alargado, aqui ficam algumas considerações.
Os cagarros, ou cagarras como lhes chamam nalgumas ilhas, são aves marinhas extraordinariamente bem adaptadas ao seu meio. Por essa razão, é quase totalmente correcto quando se afirma, e bem, que não precisam da nossa ajuda e que até agradeceriam se não os perturbássemos. O problema é que nós os perturbamos. Ou seja, a nossa qualidade de vida tem interferência directa no ciclo biológico dos cagarros desde que chegámos às ilhas, há cinco séculos atrás. Nos primeiros tempos, interferíamos capturando-os (para alimentação, uso do óleo e uso de penas), depois com a ocupação do espaço que utilizam para nidificação e, mais recentemente, com o uso massivo de luzes. Na realidade, os cagarros, espécie que se salva nesta época, não foi a espécie de ave marinha dos Açores que maior declínio sofreu com a presença do homem. Há indicações que os estapagados seriam os mais abundantes, mas que os primeiros colonizadores os terão dizimado até níveis hoje bastante reduzidos. Nunca recuperaram o seu efectivo inicial.
Voltando aos cagarros. Estes animais põem apenas um ovo por ano. Se esse ovo não tiver sucesso, não haverá nova postura, como acontece, por exemplo, com as gaivotas. Isso significa que o casal fará um enorme esforço para que aquele ovo tenha sucesso. Assim, o macho e a fêmea, durante o período de incubação, ir-se-ão substituindo no ninho garantindo que o ovo está quase sempre acompanhado. Como o esforço de 55 dias de incubação é grande, se os progenitores tiverem a garantia que o ovo não irá ter sucesso por, por exemplo, ter-se partido, abandonam-no de imediato. Uma das razões que pode levar ao abandono é a demora do parceiro nas saídas para a alimentação. Ou seja, entre a cria ou a própria vida, os cagarros optam pela segunda.
Apesar disso, e como é muito importante o sucesso da nidificação, os cagarros, em caso de dúvida, continuarão a incubar o ovo. Investigadores da Universidade dos Açores já viram cagarros a incubar ovos visivelmente (e olfactivamente) putrefactos.
Também pode acontecer que um dos progenitores tenha um acidente durante a época reprodutiva ou que tenha de viajar para uma longa distância, por exemplo por falta de alimento nas zonas circundantes do ninho. Em qualquer destes casos, será fatal para o ovo.
Até aqui, tudo é natural. Ou seja, está no que pode ser referido como mortalidade sem influência do homem. Os problemas começam com o nascimento do pinto.
Durante os primeiros dias, o pinto terá sempre a companhia de um dos progenitores, para o manter quente e alimentar e isso contribuirá para a sua provável sobrevivência. Depois desta fase inicial, os pais terão dois tipos de voos. Um voo curto, para ir buscar alimento para o pinto, e um outro longo, para ir buscar alimento para si próprios. Este voo longo implica deslocações de milhares de quilómetros.
Os cientistas ainda não têm a certeza da razão porque os cagarros fazem dois tipos de voos, mas adiantam duas hipóteses: ou não há alimento suficiente para os pintos e adultos em volta das ilhas dos Açores, ou os cagarros precisam de outro tipo de alimento, por exemplo mais nutritivo que ocorre nas águas mais ricas e frias do Atlântico norte. A tendência é para aceitar a primeira, mas ainda não está completamente claro.
Normalmente estas viagens são alternadas de modo a que a cria seja alimentada à noite com alguma frequência por um dos progenitores. Apesar de surpreendente, o que referi neste parágrafo está cientificamente estudado pela Doutora Maria Carvalho, do Departamento de Oceanografia e Pescas da Universidade dos Açores (DOP), que colocou transmissores e seguiu os cagarros por via satélite. Se a falta de alimento implicar a saída dos dois pais, o pinto, especialmente nos primeiros dias estará totalmente vulnerável ao ataque de gatos e ratos. Repare-se que não existiam gatos nem ratos nas ilhas antes do homem cá chegar, portanto, é mesmo nossa responsabilidade o que lhes acontece neste período e, pior, ainda não encontrámos forma de contrariar este efeito.
No final deste período, os cagarros terão de "explicar" ao seu pinto que está no momento de ele seguir a sua vida. Na maioria dos casos, a forma de dar esta explicação é um pouco cruel: os pais abandonam os pintos nos ninhos. Neste período em que estão sós, os pintos são especialmente susceptíveis aos ataques por gatos. Normalmente, nesta fase, os ratos já não se conseguem impor às crias que, entretanto, ganharam uma massa corporal que impõe algum respeito.
Na ilha do Corvo, a Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves fez um trabalho científico em que estimou que a mortalidade nos ninhos é de 60%. Este número deveria, naturalmente, rondar os 35%. É um número verdadeiramente assustador e é responsabilidade do homem.
Depois, os 40% que conseguem sobreviver, saem dos ninhos, esticam as asas e fazem o primeiro voo. Como já foi referido, estes jovens cagarros viveram sempre dentro dos ninhos, portanto, nunca viram qualquer luz até iniciarem os procedimentos para o primeiro voo. Ao sair, à noite, são confrontados com a iluminação pública, os faróis de sinalização marítima e as luzes dos carros. Atrapalhados ou não, alguns caem nas estradas e nos quintais. Se nada se fizer, estes cagarros são presas fáceis para gatos e cães e, muitos deles, são também colhidos fatalmente pelos automóveis. Repare-se que eles caem por causa do homem, caem em estruturas feitas pelo homem, são vítimas de animais introduzidos pelo homem ou são atropelados por máquinas feitas pelo homem. Nós temos, de facto, responsabilidade.
Por estas razões todas, o mínimo que podemos fazer é dar uma ajuda a estas aves e colocá-los junto à costa de onde poderão partir quando considerarem adequado. Nunca se deve atirar um cagarro para dentro de água. Coloca-se perto da água e ele partirá quando considerar que está pronto.
Dos jovens cagarros que saem dos ninhos e caiem sobre as estradas, hoje em dia, 90% são salvos pela “Campanha SOS Cagarro”. É um número, de facto, enorme. No entanto, há ainda 10% que são atropelados, embatem fatalmente contra os edifícios sobre iluminados ou são atacados pelos animais domésticos.
Já agora, completando a história, o que acontece a seguir é o seguinte. Destes cagarros, nem todos terão a capacidade de se alimentar em tempo. Repare-se que eles apenas saíram dos ninhos porque estão esfomeados. Muitos, portanto, acabarão por morrer de fome. Estima-se que 50% morram de fome. Se admitirmos que os humanos não têm influência na abundância do pescado de que se alimentam os cagarros, esta é uma componente da mortalidade que é natural. Sendo mortalidade natural, não temos o dever ou sequer o direito de interferir.
Neste período, depois de chegarem à água, os jovens cagarros reúnem-se em enormes bandos em volta das ilhas. Disse-me um amigo pescador que os cagarros estão, neste preciso momento, nestes bandos em volta da ilha do Faial. Oxalá se consigam alimentar!
Depois, irão passar cinco anos seguidos no mar sem nunca pisar terra. Circularão entre o Oceano Atlântico Norte e Sul e, alguns, já foram detectados mesmo no Oceano Índico. São viagens enormes. É para ter a certeza de onde veem e para onde vão que tentamos anilhar os cagarros. É mais uma interferência do homem e que se justifica para tentarmos aprender mais sobre a circulação global. Ao mesmo tempo, sabendo o ano em que foram anilhados e contando os que regressam, ficaremos a saber muitas outras informações sobre o seu ciclo de vida. É por isso que é tão importante a sua anilhagem.
Apesar de chegarem a terra pela primeira vez quando têm cerca de 5 anos, eles não se reproduzem de imediato. Irão amadurecer durante mais três ou quatro anos até que estejam aptos a fazer ninho, encontrar parceiro e a reproduzirem-se. É nestas vindas anuais a terra que os cagarros, já adultos, irão aprender a conviver com as luzes e, como notamos nos cagarros mais adultos, ganharão a habilidade de não ficarem tão perturbados com as mesmas.
Segundo os estudos do Doutor Joël Bried, do DOP, os cagarros são animais razoavelmente fiéis. Isto é, depois de encontrarem um parceiro, se nada de mal lhes acontecer, manterão a relação para o resto da vida. Há casos de divórcios, mas são raros (18%). Durante o Inverno separam-se em busca de alimento, mas, no início da Primavera encontram-se junto de terra. Para evitar os predadores, os bandos de cagarros encontram-se todos os finais de tarde junto às ilhas, esperando o anoitecer, e depois sobrevoam as costas, cantando a música que apenas o parceiro conseguirá decifrar.
Esta característica, de virem para terra apenas ao anoitecer, é provavelmente uma adaptação aos predadores. Na Selvagem Grande do arquipélago da Madeira, em que não há predadores, os cagarros chegam a terra ainda durante o dia. Por curiosidade, sem razão aparente, o mesmo não acontece na Selvagem Pequena. Será que já ali houve predadores…?
Depois de se encontrarem, os casais de cagarros farão os procedimentos nupciais e o ciclo reinicia-se.
Em termos numéricos, os 188 mil casais existentes nos Açores, dada a competição por ninho e incapacidades reprodutivas naturais, põem 170 mil ovos. Destes, 68 mil saem actualmente dos ninhos. Caso não houvesse a Campanha SOS Cagarro, cinco a dez mil morreriam em terra. Portanto, chegariam ao mar 58 mil. Destes, morrem naturalmente metade, ou seja, 29 mil poderiam partir para a primeira migração para Sul. Se o homem  e seus animais introduzidos não existissem, a mortalidade nos ninhos seria mais baixa, não havia mortes na saída e, portanto, mesmo com 50% de mortalidade no mar, por fome, teríamos cerca de 55 mil cagarros.
Ou seja, números crus, o homem implica uma redução anual no sucesso reprodutivo dos cagarros de 55 mil para 29 mil animais. Uma redução de quase dois para um. Se podemos ajudar um pouco com a “Campanha SOS Cagarro”, penso que temos o dever moral de o fazer.
Com este acto, subimos os valores dos Cagarros na primeira migração de 29 para 34 mil aves. Pode parecer pouco, mas é um aumento de 17%. Nós podemos influenciar em 17% por cento por ano o sucesso desta espécie. Vamos ficar a olhar para eles na berma da estrada ou agir? Penso que a resposta é simples e este ano foi positivamente partilhada por mais de 4700 açorianos. Não apenas salvaram cagarros, como reduziram a iluminação pública e privada e tiveram cuidados adicionais com a condução.
Como referi anteriormente, embora não seja uma questão que esteja estudada cientificamente, as ilhas que mais cagarros têm são aquelas em que há historicamente mais empenho na “Campanha SOS Cagarro”. Este facto indicia a importância e consequência desta acção. Vemo-nos na “Campanha SOS Cagarro 2012”?
Todas estas questões são escalpelizadas no sítio internet http://soscagarro.azores.gov.pt.

Pubicado no Jornal Tribuna das Ilhas de 2 de Dezembro de 2011
Publicado no Jornal Correio dos Açores nos dias 6 de Dezembro e 7 de Dezembro de 2011