quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Exploração de algas pode ser mais-valia para os Açores


Declarações ao jornal Diário Insular


- Que particularidades distinguem as nossas algas das restantes?
A alga açoriana teve muita procura no mercado Oriental devido à qualidade e pureza do agar que era possível  delas extrair. Tanto a alga Pterocladiella capillacea  como o Gelidium microdon ocorrem naturalmente nos Açores e têm boas características para este fim, mas o Gelidium era apanhado em menores quantidades.
Há outras algas que são utilizadas tradicionalmente nos Açores como a Porphyra sp. (chamada vulgarmente de “erva patinha”), o Fucus spiralis, a Laurencia viridis e a Osmundea pinnafitida.
Para os interessados, há um pequeno Guia da autoria da Professora Ana Neto sobre as algas dos Açores e que é uma boa introdução ao tema.

- Que razões levaram ao fim da exploração deste negócio nos Açores?
Houve uma conjunção de fatores. Por um lado, a apanha era muito sazonal e a qualidade de vida que os apanhadores procuravam a partir de certo momento não se coadunava com esta intermitência, o que levou ao abandono por parte desta mão-obra especializada. Por outro lado, os rendimentos da atividade não eram equivalentes com o nível de exigência do trabalho debaixo de água horas a fio. O “mergulho às algas” era considerado um trabalho muito pesado e a recompensa salarial, que no início era enorme, foi ficando proporcionalmente mais pequena quando confrontada com outras oportunidades que foram surgindo mais tarde.
No entanto, houve também uma efetiva redução do manancial de algas tradicional. Ou seja, a própria atividade, conjugada com a pressão costeira, conjugada com a proliferação de espécies invasoras, como é o caso da alga vermelha Asparagopsis armata, conjugada com a exploração intensiva de espécies como as lapas e, eventualmente, até com o incremente das alterações climáticas globais, modificaram aquilo que hoje vemos debaixo de água. As espécies são as mesmas, mas a proporção entre elas modificou-se acentuadamente o que afetou os rendimentos.

- A exploração das algas poderia voltar a ser uma mais valia para a Região?
Tenho a certeza que sim. No entanto, os novos projetos, que podem assumir contornos tão inovadores como inesperados, terão, logo à partida, de conter um estudo de viabilidade económica conjugado com uma verdadeira contextualização ambiental. Não quero com estas palavras afastar eventuais empreendedores, antes pelo contrário, mas é preciso ter consciência que o mundo de hoje já não é compatível com o simples submergir e apanhar as algas das espécies certas. Tenho a certeza que os empreendedores que aliarem à coragem que lhes é natural a competência e a clareza de objetivos encontrarão no Governo um parceiro interessado e dinâmico.
Entre os negócios que começam a aparecer na área das algas e que ninguém imaginaria há uns anos atrás incluem-se o sequestro de Carbono e a produção energética. Penso que também há espaço para a apanha de algas tendo em vista a produção de agar, mas é necessário fazer contas, estudar o ambiente subaquático açoriano e tomar boas decisões.


Pode ser lido aqui:
http://www.diarioinsular.com/version/1.1/r14/?cmd=noticia&id=37677

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Rumo à Excelência?

Peixe-cão fotografado nos Açores.

Felizmente, os Açores encontram-se numa posição invejável do ponto de vista financeiro, de ambiente, em termos sociais e de prestígio. Estas características dão-lhe, indubitavelmente, uma enorme vantagem em relação ao futuro que aí vem.
Do ponto de vista financeiro, como já foi sobejamente esclarecido, não há nos Açores qualquer dívida escondida, como o próprio Tribunal de Contas enfatizou, e os níveis de endividamento são normais. “Normais”, o que neste país é uma verdadeira exceção.
Em termos ambientais, os Açores são por todos reconhecidos como dotados de um elevadíssimo nível. Temos problemas, é certo, como a falta de boa gestão de resíduos e o elevado nível a que são exploradas algumas espécies piscícolas. Em relação ao primeiro caso, está a decorrer um esforço financeiro avultado que culminará com o estabelecimento de centros de processamento de resíduos em sete das ilhas dos Açores e sistemas de solução final em duas delas. Em termos de exploração dos recursos piscícolas, o Governo dos Açores tem dado passos fundamentais para a sua proteção, sendo o último tão recente que o enfatizo: neste momento, devemos ser a única Região do mundo que não permite a descarga de pescado que tenha sido capturado com artes não sustentáveis (redes de arrasto de fundo).
Dado o pendor de esquerda e verdadeiramente socialista do Governo Regional, obviamente, houve e há uma enorme preocupação com as questões sociais. Desde os sistemas de apoio estrutural (hospitais, centros de saúde, creches e lares) até aos sistemas de apoio conjuntural (rendimento mínimo, subsídio de desemprego, entre muitos outros), tudo encaixa para que, com uma eficiência crescente, se dê suporte a quem precisa. Há ineficiências, claro que há, e todos conhecemos, infelizmente, casos de abusadores do sistema, mas são correções que serão progressivamente corrigidas, mas, e isso é determinante, não colocam o sistema em si em questão.
Como corolário do exposto atrás, os Açores usufruem hoje de um prestígio muito interessante. De facto, o resto do mundo informado olha para os Açores com um misto de curiosidade e incredulidade. Há mesmo um anúncio de uma popular agência de viagens norte-americana que apela enfaticamente à visita aos Açores! Ou seja, esse é o desafio, aproveitar o balanço de um certo conforto económico, ambiental e social, mas não cair na tentação da massificação ou do desbarato. Isso, na minha opinião, apenas se consegue com a manutenção da qualidade e com o atingir de patamares de excelência turística e produtiva.
Evidentemente, podemos optar por puxar os nossos galões de ultraperiféricos e ampliar os apoios nacionais e comunitários. No entanto, no meu ponto de vista, estamos numa posição privilegiada para sairmos da dependência económica. Basta para isso, o que não é pouco, criar polos de atratividade e de produção com alicerce na excelência. Ou seja, podemos produzir batatas como todos os outros, mas apenas as conseguiremos vender no centro da Europa se tivermos apoios para o transporte, já que de outra forma os nossos preços nunca serão concorrenciais, ou, alternativa dois, produzir as melhores batatas do mundo e vendê-las, com justiça, pelo preço mais alto do mundo. Da mesma forma, podemos ter empresas vulgares, com rendimentos vulgares, ou tentar atrair as melhores empresas do mundo para os Açores e assim obter rendimentos ultra-interessantes. Como fazê-lo, perguntar-me-ão. A resposta é que temos um ambiente excelente, uma economia fiável e um clima social equilibrado. Quantos sítios no mundo se podem gabar do mesmo?
Nos próximos tempos, aproximando-se as eleições, muitos, especialmente a oposição, darão nota da diferença entre a nossa situação atual e o patamar de excelência. O Governo e o partido que o suporta, também obviamente, irão minimizar essa diferença. Isto é natural. O verdadeiro desafio caberá aos cidadãos porque, para além de terem de identificar quem aproxima mais da realidade, terão de verificar qual a melhor estratégia proposta e a melhor equipa para debelar esse hiato.
A construção do futuro dos Açores tem-se baseado no “Rumo à Excelência”. Não é uma estratégia nova. A grande diferença é que agora, com um inevitável esforço e clarividência conjunta, temos de lá chegar!

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Equitativo

O paínho-de-Monteiro faz parte do património biológico dos Açores, quem o quiser utilizar terá de repartir os benefícios especialmente com os Graciosenses que, quais guardiões, o souberam preservar.

Foto: PH Silva SIARAM

O pó de mussiró é utilizado tradicionalmente pelas mulheres da ilha de Moçambique de etnia Macua. Graças à sua utilização, os rostos destas mulheres ficam particularmente suaves e com aparência jovem, o que é do especial agrado dos homens daquele território insular. Como o pó tem de ser utilizado durante o dia para que à noite as faces femininas estejam no seu auge, as mulheres da ilha de Moçambique têm uma quase constante máscara branca. Mais do que ser um comportamento social, esta é mais uma característica cultural vincada na pequena ilha que serviu, ao longo dos séculos, como local de encontro de civilizações.
Há uns anos, uma grande empresa multinacional europeia conseguiu isolar as características bioquímicas daquele produto e passou a produzir em massa um creme de beleza com particular sucesso global. Até aqui, parece tudo razoavelmente normal neste nosso mundo capitalista: o empreendedor descobre um potencial, estuda, reproduz em larga escala e explora-o. No entanto, será que a ilha de Moçambique deveria ter sido beneficiada com alguma partilha destes benefícios? Segundo as leis publicadas e a ordem estabelecida, não, porque não havia registo de propriedade comercial ou intelectual. Segundo a mais elementar moralidade, obviamente que sim.
Mais comum do que um roubo cultural, como eu apelidaria o que descrevi atrás, é habitual o roubo biológico. No roubo biológico, é subtraído um qualquer organismo de um determinado local, estudado e o resto segue o mesmo padrão. Alguns dos fármacos em estudo hoje em dia têm origens biológicas desconhecidas.
Para evitar esta delapidação, o Brasil fechou as portas à exportação de amostras científicas descontextualizadas, tornando essa ação equivalente a crime. Outros países e territórios estão a pensar em fazer o mesmo. É um desfecho triste, que inibirá o avanço da humanidade em diversos campos, mas entende-se bem a preocupação conservadora. Mesmo que outro mérito não tenha, a população local é a responsável pela manutenção do bem cultural, geológico ou biológico que é alvo da cobiça externa.
Tentando manter a acessibilidade e, ao mesmo tempo, dando parte do benefício à população local, há diversas iniciativas internacionais que tentam ordenar esta questão. Entre elas, a que mais ênfase tem tido é o chamado Protocolo de Nagoya. Este Protocolo, assinado por 190 países, garante o acesso e a repartição de benefícios e é considerado o maior pacto ambiental desde Kioto. Segundo este, as legislações nacionais e regionais deverão estipular a manutenção da acessibilidade, mas, ao mesmo tempo, criar os mecanismos legais de partilha equitativa dos benefícios por todos os envolvidos não apenas na descoberta, estudo e exploração do bem, mas também pelas populações geograficamente próximas do local onde foi isolado esse mesmo património.
No caso dos Açores, por iniciativa da Secretaria Regional da Ciência, Tecnologia e Equipamentos, já está em fase final de preparação legislação específica sobre a amostragem científica e, com génese na Secretaria Regional do Ambiente e do Mar, preparou-se legislação especialmente orientada para a utilização e proteção do nosso património biológico em geral. Ambas as propostas estão neste preciso momento a ser apreciadas pelos deputados regionais, esperando-se o agendamento da discussão plenária na Assembleia Legislativa Regional para breve. São dois documentos importantíssimos e que, em tempo record, põem um Protocolo Internacional no terreno.
O Sr. Rui Leonardes é um estilista de origem jorgense, com particular sucesso em Londres e Paris, que já desenhou sapatos para a artista Lady Gaga. No último ano, graças à conceção de um novo tipo de sandálias obteve um reconhecimento ainda mais elevado. O interessante neste contexto é que Rui Leonardes reconheceu aos microfones da Antena 1 que se tinha inspirado numas albarcas de um ancião da Ilha do Pico. Este é o primeiro passo para a equitatividade: o reconhecimento. Esperemos que o estilista saiba como fazer o resto do processo, entregando uma parte dos rendimentos, mesmo que vestigiais ou simbólicos, a quem o inspirou ou aos seus descendentes. Essa seria a atitude correta e a atitude responsável num mundo equitativo. Isso é particularmente importante, também para os faialenses porque, como afirmou, pensa “em basear a roupa de homem no capote, mas ainda está no papel” sendo “só uma ideia que tenho de desenvolver”.
Num mundo cada vez mais egoísta é essencial que, a todos os níveis, pensemos em criar regras de justiça que repartam os bens patrimoniais de uma forma equitativa. O mundo é de todos e todos devemos dele beneficiar.