quinta-feira, 5 de abril de 2012

Entrevista ao Jornal "Arauto"

Mergulhador fotografa rainhas.

Entrevista dada ao jornal escolar "Arauto"

1- Qual a situação ambiental do Mar dos Açores neste momento?
A situação ambiental é genericamente boa já que não há grandes fontes de poluição, a qualidade da água varia entre o bom e o excelente e há recursos em abundância, incluindo os fabulosos cetáceos e tubarões dos Açores. Obviamente, como almejamos a perfeição, temos que reconhecer os problemas existentes, como seja a presença da alga invasora Caulerpa webbiana no Porto da Horta e a diminuição de alguns dos mananciais piscícolas.

2- Quais a medidas impostas para a diminuição das ameaças identificadas?
Temos implementado um plano para combate à alga invasora e atribuímos limites máximos de captura para as espécies mais sensíveis. Apesar de ainda não existirem grandes problemas na área turística, temos legislado e promovido códigos de conduta para essas atividades. Para além disso, em paralelo, mantemos um rigoroso sistema de monitorização ambiental e dos efluentes das indústrias potencialmente mais perigosas.

3- Quais as maiores dificuldades na prevenção dessas ameaças?
A maior dificuldade é a falta de recursos financeiros, o que se materializa sob diversas formas. Por exemplo, no caso da alga invasora, não podemos aumentar o esforço na sua remoção porque é economicamente incomportável.

4- Qual a ilha dos Açores mais “saudável” do ponto de vista ambiental?
Em termos marinhos, todas as ilhas estão entre o muito bom e o razoável, sendo a ilha de São Miguel a que está mais explorada. Se associarmos o ponto de vista terrestre, a análise é muito mais complexa porque as fragilidades de umas são as qualidades das outras. Exemplificando, São Miguel tem os maiores problemas de poluição, que afetam, por exemplo, a qualidade da água nas Lagoas, mas, ao mesmo tempo, tem das mais bonitas paisagens do arquipélago. A ilha Graciosa é excelente em quase tudo, mas “peca” pela intrusão salina existente na água de consumo. As Flores são quase perfeitas, mas a gestão de resíduos ainda é muito limitada. Enfim, estão todas bem, mas todas têm alguns pontos a merecer atenção.

5- O que é que cada um de nós (estudantes) pode fazer para melhorar o estado do ambiente?
Primeiro que tudo há que respeitar o ambiente, ou seja, por exemplo, usar os recipientes para o lixo, economizar água e eletricidade e estimar o extraordinário património ambiental que nos rodeia. Depois, é essencial estarem atentos e intervir se considerarem que alguma coisa está errada ou que, simplesmente, não pareça fazer sentido. Perguntar não é um direito apenas, é um dever de cidadania. Para além disso, podem participar nas atividades das organizações não governamentais para o ambiente. No caso da ilha do Faial há duas organizações deste tipo: a Azórica e o Observatório do Mar dos Açores. Tenho a certeza que ambas gostariam muito de poder contar com a vossa colaboração voluntária!

Esta entrevista tem sabor especial porque foi realizada pela minha filhota.

sexta-feira, 30 de março de 2012

Sobre o afundamento de barcos

Aspecto do Navio "Lidador" no Parque Arqueológico de Angra do Heroísmo.


A coincidência de se estar a proceder a um conjunto de afundamentos de barcos ao largo de Portimão e de haver uma velha draga disponível para tal na Ilha de São Miguel tem movido alguns desejos de mergulhadores no sentido de fazer um depósito ao largo de Ponta Delgada. Em maior detalhe, a ideia, tal como tem sido partilhada nas redes sociais, é proceder ao afundamento da draga perto do “Dori” [*], aproveitando assim o espaço do Parque Arqueológico que o Governo Regional acabou de criar em frente à Praia do Pópulo.
Tenho que confessar que não sou grande adepto destes afundamentos. Apesar de apaixonado pelos naufrágios e mergulho em embarcações naufragadas, não sinto grande estímulo para mergulhar em barcos que tenham sido propositadamente afundados. No Faial temos dois casos de navios propositadamente afundados e que pouco tentam os muito mergulhadores que visitam esta ilha.
O pesqueiro “Viana”, que se incendiou e revirou no Porto da Horta, foi afundado ao largo da Feteira. Por um lamentável erro de procedimento, ficou virado ao contrário e está demasiado fundo para os mergulhos habituais (assenta aos 46 metros e a quilha está aos 30). Já o “Pontão 16” está num fundo de areia, mas, dizem os críticos, é demasiado pequeno. A minha teoria para o insucesso destes casos é um pouco diferente; Na minha opinião, os mergulhadores procuram naufrágios legítimos, como é o caso do alegado “Hidroavião” ao largo do Porto da Horta ou o navio sem nome que está na Baía dos Radares (Monte da Guia). Um naufrágio tem de ter uma história, como é o caso do “Lidador”, ou ser um importante local histórico, como acontece com o Cemitério das Âncoras, ambos na Baía de Angra e onde integram o Parque Arqueológico local.
Um dos argumentos mais fortes a favor do afundamento de antigos navios é o seu papel como suporte de vida. Entendo isso e já verifiquei como podem realmente proporcionar locais de agregação de animais. Mas… as lixeiras também têm inúmeros ratos e gaivotas… Talvez a minha linguagem esteja a ser demasiado forte, mas é um facto que um navio afundado está a promover o aparecimento de fauna e flora que não pertence naturalmente àquela paisagem. Que são animais bonitos, são! Mas é desconexo.
Um bom amigo disse-me que o mar costeiro de São Miguel está tão explorado que não será um navio afundado a fazer grande diferença. Talvez, mas, respondo eu, não devemos nivelar por baixo, mas exigir essa recuperação, se justificável. Aliás, contrariando esta visão, muito portuguesa “que está tudo uma desgraça…”, relembro que ainda esta semana um prestigiado sítio internet de viagens anunciava os Açores como um dos melhores sítios do mundo para a prática de mergulho com escafandro autónomo. Não há volta a dar, os Açores são um excelente local e com um mar sublime. Pode ser melhor? Podemos sempre melhorar.
Outro dos argumentos utilizados para o afundamento de navios, e que me agrada, é o potencial para cativar mergulhadores. De facto, por agregarem muitos animais, os barcos afundados servem de local privilegiado para mergulho com escafandro autónomo.
Ainda, um dos argumentos a favor, são os trabalhos científicos que se podem fazer em associação com os barcos afundados. Por serem novos substratos, apesar de artificiais, podem servir para estudar a sucessão ecológica em cada local. Principalmente se tiver boa ciência por trás, estes locais podem ser reais mais-valias.
Nos Açores há inúmeros naufrágios legítimos e magníficos locais de mergulho. Entre os que ainda não têm carácter de proteção legal, destacam-se o “Slavonia”, nas Flores, e o “Caroline”, no Pico. Estes locais muito lucrariam com a implementação de efetivas áreas marinhas protegidas e dos respetivos parques arqueológicos.
Graças a diversas iniciativas, todas elas imediatamente apoiadas pelo Governo Regional dos Açores, há agora áreas marinhas protegidas no Corvo, Faial, São Miguel e Santa Maria. Para além das reservas tradicionais, cujo respeito ainda deixa a desejar, há agora nestas ilhas um conjunto de áreas propostas pelas forças vivas [*, **, *] e que têm sido imensamente consequentes, comprovando que a iniciativa local é a mais eficiente.
Penso que o esforço prioritário deverá ser no sentido de fortalecer as áreas marinhas protegidas existentes e criar os referidos parques arqueológicos. Obviamente, isso não impede que, se houver uma movimentação de interessados no sentido de abrir outras frentes, se desbravem novos e inesperados caminhos, desde que estejam devidamente planeados. Mãos à obra?!

quinta-feira, 22 de março de 2012

Água do mar


Enxaréus no Mar dos Açores

No Dia Mundial da Água, e aceitando o repto do jornal Correio dos Açores, vale a pena relembrar o quanto este bem é importante para a nossa vida quotidiana, mas também, se mal gerido, como pode ser radicalmente efetivo na nossa infelicidade. Para focar um pouco o tema, libertando-me assim da obrigação de escrever uma enciclopédia, irei dissertar apenas sobre a água do mar.
A água do mar é um líquido constituído por moléculas com dois átomos de hidrogénio e um de oxigénio e, para além de outros componentes, com um elevado teor de sal (cloreto de sódio) dissolvido. Este líquido tem a capacidade de proporcionar as condições ideias para suporte de diversos organismos e desempenhar outros determinantes serviços ecológicos ao planeta.
Se a primeira parte é óbvia, muitas vezes esquecemos quão importante é a segunda, os tais outros serviços ecológicos que vão para além do mero suporte de vida. No entanto, são estes serviços que garantem, por exemplo, a estabilidade e adequação da temperatura do ar no planeta. Ao transportar enormes quantidades de energia de latitudes menos elevadas para os polos, a água do mar constitui um enorme termostato planetário. Por exemplo, se este serviço não fosse prestado, sobre a Noruega existiria uma camada de gelo com vários quilómetros de espessura (como, aliás, já aconteceu no passado). Há serviços ainda pouco aproveitados, como sejam os que podem resultar na captação energética, e outros cuja utilização está em franco e próspero crescimento, como sejam os relacionados com o turismo e com o transporte marítimo. Sobre estes, debateremos noutro momento.
Ao contrário dos anteriores, há um serviço determinante que é prestado pelo mar e que, paradoxalmente, nos poderá colocar em perigo. Trata-se da captação de carbono. O mar tem a enorme e crucial capacidade de retirar carbono da atmosfera e utilizá-lo de diversas formas. Como nos últimos anos temos tido a infelicidade de poluir o ar até níveis históricos, o mar tem tentado fazer o seu papel e absorve-lo. Ora, acontece que a este incremento de absorção, corresponde um incremento da acidez do oceano. Esta acidificação dos mares tem consequências absolutamente nefastas para toda a vida que o Oceano alberga. Por exemplo, as conchas dos moluscos e dos artrópodes dissolvem-se neste ambiente ácido. Agora, tomem nota que a grande maioria dos pequenos crustáceos que constituem o plâncton estão realmente em perigo. Posto de outra forma, toda a vida dos seres pluricelulares dos Oceanos está agora em risco. Como inverter? Essencialmente, há que apostar nas formas energéticas que não incluam a utilização de combustíveis fósseis e moderar o consumo. De outra forma, os danos colaterais das alterações climáticas globais serão irreversíveis e decisivos.
Sobre este tema, há um documentário muito esclarecedor e que aconselho vivamente. Chama-se “Sea Change” e, nele, um avô tenta obter respostas para dar ao neto sobre as alterações com que estamos a ser confrontados. É um documentário muito preciso do ponto de vista científico e acessível a todas as idades.
O serviço mais comumente reconhecido ao mar é o relacionado com o suporte de vida. Felizmente, os mananciais dos Açores, com alguns sinais de alerta preocupantes, continuam de boa saúde. Um dos fatores-chave para esta saúde está relacionado com o abdicar da utilização das redes de pesca de emalhar de profundidade e de arrastro no nosso arquipélago. Foi uma decisão corajosa e que nos coloca razoavelmente a salvo do colapso das pescarias globais.
Curiosamente, esta mesma água salgada pode ser uma perigosa ameaça para a água de consumo humano nas ilhas. Acontece que os maiores “armazéns” de água doce se encontram na base das ilhas. Estes autênticos “armazéns” estão em contacto com a água do mar. Se a utilização da água doce for sistematicamente superior aos níveis de pluviosidade que aí se deveria acumular, a água do mar entrará nos “armazéns”, resultando na chamada intrusão salina, salinizando estes lençóis freáticos. Pode parecer ficção, mas é exatamente o que está a acontecer neste momento na Ilha Graciosa. É absolutamente necessário haver uma gestão rigorosa da água doce.
A “água salgada”, o “mar de Portugal”, de acordo com a abordagem de diferentes poetas Lusos, é parte da matéria de que somos feitos. Juntando ainda a vulcões e tempestades obtêm-se um tipo de portugueses muito especiais, os açorianos, para quem a água do mar é tratada na primeira pessoa. Cuidemos com especial cuidado do mar, porque isso será também cuidarmos bem de nós próprios.


Publicado no Jornal Correio dos Açores e pode ser lido aqui.