sexta-feira, 11 de maio de 2012

Sobre a extração de minerais nos fundos marinhos dos Açores

O Banco D. João de Castro possui fontes hidrotermais
onde se pode observar a precipitação de minerais.

Se há tema tentador e complexo é a extração de minerais nos fundos do Mar dos Açores. Entre o que se pensa que existe e o que pode existir, entre quem deve explorar e quem pode explorar e entre quem deve coordenar e quem irá coordenar os trabalhos, existem tantas diferenças que custa ter as ideias claras.
Certeza há apenas uma: há necessidade de explorar os fundos marinhos do nosso arquipélago. Exemplificando, numa recente palestra, dada durante os XIX Encontros Filosóficos da Horta, o Professor Fernando Barriga referiu que, com as atuais taxas de exploração, serão necessários 300 anos de extração para suprir as necessidades de cobalto para a conversão dos carros a combustível nos futuros automóveis movidos a energia elétrica. Segundo ele, no fundo do mar há resposta para essa necessidade e, muito possivelmente, havê-la-á também no mar dos Açores.
Claro que o Professor mediu bem as palavras, como fazem os melhores professores, e não disse que havia muito cobalto. Ele disse “muito possivelmente”. Mas porquê esta incerteza?
O cobalto agrega no fundo do mar, nas chamadas Crostas de Ferro-Manganês e também nos Nódulos de Manganês. As primeiras existem a norte dos Açores, no Moytirra, uma zona hidrotermal recentemente descoberta por uma expedição irlandesa. Portanto, sabe-se que este recurso existe nos Açores, mas não sabemos a quantidade. Ou seja, não sabemos como se estende para além da superfície do fundo do mar ou, posto de outra forma ainda, qual é a tridimensionalidade das eventuais jazidas e, consequentemente, a sua dimensão.
Os segundos, os nódulos, existem a sul da subárea dos Açores da Zona Económica Exclusiva de Portugal (ZEE dos Açores). Neste caso, não há distribuição em subprofundidade de nódulos pelo que “apenas” teremos de verificar a extensão da distribuição horizontal. Tal como o Moytirra, esta zona está dentro da proposta de delimitação da Plataforma Continental de Portugal, recentemente submetida às Nações Unidas.
Dentro da ZEE dos Açores, nos campos hidrotermais de grande profundidade como o Menez Gwen, o Lucky Strike e o Rainbow temos os chamados sulfidos polimetálicos. Estes compostos são ricos em cobre, zinco, prata e ouro… Imaginem a fortuna que podemos ter “entre mãos”…? No entanto, neste caso, há um enorme conflito de interesses. É que, ao mesmo tempo que se adivinha esta riqueza, sabe-se que há espécies biológicas únicas no mundo que ficarão em risco com uma exploração descuidada. Antecipando isso, o Governo Regional incluiu estas áreas no Parque Marinho dos Açores. Desta forma, tenta-se desmotivar a prospeção e exploração de áreas hidrotermais ativas e estimula-se a procura de recursos minerais noutras zonas. Sabe-se que a dinâmica das fontes hidrotermais é muito intensa, representando a sua formação, amadurecimento e extinção um ciclo de poucas centenas de anos. Portanto, tem de haver outras áreas nos Açores, não ativas e que podem estar repletas de metais preciosos e semipreciosos.
Em qualquer caso, é essencial entender como se estendem os mananciais sobre o fundo e no subfundo do Mar dos Açores. E isso apenas será possível se houver ciência, muito boa ciência. Até para compreendermos totalmente o que devemos explorar e o que devemos deixar em paz, é essencial estudar a complexidade dos nossos fundos marinhos.
Tentando também garantir isso mesmo e, ao mesmo tempo, impor o respeito pelas limitações ambientais e a distribuição equitativa dos rendimentos esperados, o Governo dos Açores chamou a si a responsabilidade de dirigir todo o processo. Fê-lo através de um diploma regional (DLR 21/2012/A) que, de tão arrojado, suscitou dúvidas interpretativas por parte do Sr. Representante da República. Não querendo inviabilizar eventuais investimentos (a interpretação é minha), o Sr. Representante autorizou a publicação e consequente entrada em vigor do diploma, mas, em simultâneo, pediu ao Tribunal Constitucional que o verificasse.
Concluindo, neste momento, apenas falta clarificar quem tem capacidade de explorar estes recursos. Globalmente, por ora, a exploração dos minerais existentes no mar profundo ainda não começou. Apenas uma empresa a nível mundial afirma ter condições técnicas para o fazer e é sua intenção iniciar os trabalhos na Papua Nova Guiné ainda este ano. Penso que os Açores terão muito a aprender com esta iniciativa, mas, também, necessitarão de ter uma visão estratégica para esta área tentando angariar as competências próprias para, tão endogenamente quanto possível, se associarem à prospeção e posterior exploração. Estamos em tempo, mas teremos de agir depressa e com determinação.

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Tubarões

Tubarão-azul ou tintureira observado ao largo do Faial.
Foto: Justin Hart – CW Azores

Uma das temáticas que mais tem fascinado os apaixonados do mar nos últimos tempos são os tubarões. Mas porquê? Na realidade é um grupo de espécies de peixes em que se cruzam grande parte dos nossos medos, culpas e fascínios.
O medo de tubarões legitima-se pelo aspeto agressivo destes animais, pelas mandíbulas polvilhadas de dentes afiados, pela real capacidade de magoar um ser humano e por causa de um célebre filme de muito má memória, principalmente para os tubarões...
E, portanto, somos culpados de uma perseguição injustificada e injustificável. Injustificada porque, todos os anos morre muito mais gente por causa das alforrecas ou cocos que caem das árvores, imagine-se, do que por ataques de tubarões. Nunca vi ninguém perseguir alforrecas e, muito menos, cocos… Mas tubarões… Já todos nós vimos descargas de toneladas deles e caçadas absurdas. Em resultado das capturas desmesuradas, há hoje muito menos tubarões que noutros tempos. Pior do que isso, nós somos culpados por ter permitido que, inclusivamente, estes animais fossem capturados em números inimagináveis apenas para lhes tirar as barbatanas. Nós, a humanidade, foi complacente com este facto durante tempo demais e daí o sentimento de culpa.
Desde que se compreendeu que este grupo estava em perigo que se intensificaram os estudos para o compreender. Com estes estudos cresceu o nosso fascínio comum pelos tubarões, tendo estes passado de predadores insaciáveis a vítimas extraordinárias. Estes animais, por exemplo, ocupam habitats completamente diferentes, têm alimentações que vão desde os plantófagos aos predadores de topo, têm métodos de reprodução que incluem, nalgumas espécies, predação intrauterina ou a capacidade de atravessar oceanos. Ecologicamente, os tubarões são essenciais para retirarem dos mares os animais menos aptos ou doentes. Sem tubarões, a seleção natural e a saúde das restantes populações seriam seriamente afetadas. Nós seríamos seriamente afetados.
No caso dos Açores, não há embarcações dedicadas a pescar tubarões. Infelizmente, na pesca de espadarte por palangre derivante há, assessoriamente, muitos tubarões capturados. Durante o Inverno, há mesmo mais tintureiras (uma espécie de tubarão) capturadas do que espadartes. Na zona exterior da subárea dos Açores da Zona Económica Exclusiva de Portugal, por uma decisão errada da Comissão Europeia, não há agora restrições ao número de embarcações que capturam tuba… oppsss… espadartes. Tudo isto me leva a crer que as populações de tintureira podem estar a sofrer um impacto elevado. Da mesma forma que eu, afirma-o a União Internacional para a Conservação da Natureza, uma das mais respeitadas organizações ambientais do mundo.
As capturas de tintureiras obtidas este ano parecem, no entanto, contrariar esta opinião. De facto, as capturas anormalmente elevadas podem indicar uma recuperação da população ou, como muito receio, “o canto do cisne”.
Basta olhar para um tubarão dentro de água, a nadar majestosamente no seu meio, para perceber que são animais dignos de veneração. E há muitas pessoas a pensar desta forma. São pessoas que são capazes de viajar desde o centro da Europa até aos Açores, pagando viagens, estadias e refeições e, ainda, cerca de 150 euros para ver tintureiras a nadar no azul transparente das águas açorianas. Estima-se que a atividade de observação de tubarões no nosso arquipélago irá crescer muito este ano. Por isso, grande parte das empresas que se dedicam à observação está a reforçar as suas flotilhas.
Ora, temos uma atividade que prejudica os tubarões, estes animais fascinantes e essenciais. Por outro lado, temos um conjunto muito interessante de europeus que querem pagar somas avultadas para vir até aos Açores observá-los enquanto nadam. Sendo o caso tão simples, qual é a opção correta?

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Molhado

Cavaco, Scyllarides latus
Foto: F Cardigos SIARAM

Por inerência ao meu trabalho, tenho seguido com muita atenção tudo a que ao mar se refere, incluindo também os seus aspetos turísticos. Neste domínio, ao longo dos últimos anos, as diferenças são abissais e para melhor. À dinâmica das empresas para a observação de cetáceos, têm-se juntado as empresas de passeios marítimos, de mergulho com escafandro autónomo, de mergulho para observação de jamantas e de observação de tubarões. Tudo isto e muito mais é permanentemente analizado em detalhe pelo departamento do Governo a que pertenço.
Não obstante, nos últimos meses comecei a notar que, no conjunto, me faltava uma componente. Depois de muito tempo atrás da secretária, esmiuçando em cartas e documentos a orla costeira das diferentes ilhas do arquipélago ou participando em reuniões de trabalho um pouco por toda a parte (muitas por videoconferência), senti, sinceramente, falta de ver o que se passava debaixo de água. Tinha de ir para o terreno, que, no meu caso, é, está bem de ver, a água do mar. Bem pensado, melhor feito.
Aliciando companheiros de longa data, decidimos qual o local de imersão. Apesar das condições meteorológicas instáveis, as experiências combinadas do Norberto Serpa e do Marco “Foca” apontavam para um determinado local da Ilha do Faial. Pelas razões que explicarei à frente, não poderei dar detalhes sobre a localização.
Após revisão do equipamento e dos procedimentos de mergulho, obscurecidos por um longo período sem imersões, lá fomos. Antes da entrada de costas, uma última verificação à pressão de ar na garrafa e um teste ao regulador. Tudo bem. Vamos à água!
Ao contrário do que esperava, não houve choque térmico. O meu fato de mergulho semi-seco é realmente impecável. Ou então, a água do mar não está tão fria como isso. Negativo; vejo o ar arrepiado dos meus colegas de mergulho e percebo que a temperatura ainda é de época baixa. No decorrer do mergulho, a falta de peixes pelágicos migradores, como lírios, encharéus e bicudas, confirma a temperatura da água.
Junto ao fundo, centenas de rainhas e dezenas de vejas dão um imediato colorido à imersão. Apesar da curta visibilidade de apenas 20 metros, a luz consegue penetrar o suficiente para, a pequena distância, vermos os vermelhos que distinguem as fêmeas vejas. Nota explicativa: 20 metros é um sonho de visibilidade para o mergulho em qualquer sítio do mundo, mas nos Açores é apenas normal!
Dita a experiência do meu companheiro de mergulho, Fernando Jorge Cardoso, que se deve espreitar para as frinchas que vamos encontrando. Aí, as algas são substituídas por anémonas e outros magníficos invertebrados sésseis. Sobre eles, muitas vezes deambulam moreias das espécies pintada ou preta, moreões e, por sorte neste mergulho em particular, uma moreia-víbora. Apesar do nome e do mau aspeto, é uma moreia ainda mais pacífica que as restantes, permitindo habitualmente boas fotografias. Apesar de ter levado uma máquina fotográfica emprestada, a falta de ensaio prévio fez com que as fotos deste peixe ficassem, com simpatia, miseráveis… É pena.
Melhor ficou o retrato de um cavaco. Este crustáceo é híper-apetecido pela pirataria subaquática o que, imediatamente, obriga a esconder o avistamento ou o local de mergulho. Penso, escondo o segundo. A fotografia do cavaco, até para acalmar as más-línguas, indicia que aqui o Mar dos Açores está em boas condições e uma nota positiva é importante.
Em época de renascimentos, esta foi uma ótima maneira de celebrar a Páscoa e revitalizar a energia que me ajudará a melhor defender o mar dos Açores. Viva o Mar dos Açores, cheio de vida e fascinante beleza!