sexta-feira, 20 de julho de 2012

Revisitando o Dollabarat



Simpaticamente, a Autoridade Marítima, através do Comandante João Gonçalves, convidou-me para integrar a missão anual de manutenção do farol dos ilhéus das Formigas. Depois de conversado, chegou-se à rápida conclusão que nessa missão se poderia também efetuar a monitorização superficial dos ambientes subaquáticos. Melhor dito, melhor feito!
Foi desta forma que me vi novamente emerso pelas águas do Recife Dollabarat. Este recife está localizado a três milhas a sudeste das Formigas e constitui uma enorme ameaça à navegação. Até que o navegador basco Pierre Dollabarat o assinalou, não se sabe quantas embarcações terão tido o infortúnio de um encontro letal. Os três metros de profundidade do recife apontam para nomes como os dos irmãos Miguel e Gaspar Corte-Real, navegadores portugueses quinhentistas misteriosamente desaparecidos…
Hoje, o Recife Dollabarat está bem assinalado no mapa e apenas manifesta inconsciência levará um navegador até estas paragens. Em contraste, no caso dos mergulhadores, apenas manifesta inconsciência os poderá afastar deste local fantástico! Desde os anos 80 que o Recife Dollabarat faz parte de uma enorme Reserva Natural que inclui também os ilhéus das Formigas. Depois de anos de incumprimento, esta Reserva Natural é hoje em dia razoavelmente respeitada. Contribuem para isso a intensificação da fiscalização, com natural relevância para o papel da Marinha, e as novas utilidades. De facto, diariamente, ou melhor, sempre que as condições meteorológicas o permitem, empresas marítimo-turísticas de Santa Maria e de São Miguel ocupam aquele espaço dando-lhe um interessante valor acrescentado.
Há uns anos atrás, não se tem ainda a certeza da razão, a cobertura algal do Dollabarat mudou. Passou de um tapete esplendoroso e esvoaçante de enormes Cystoseira para umas algas filamentosas verdes e desinteressantes. Há quem avance explicações relacionadas com o intensificar das alterações climáticas globais e há quem defenda que resulta de uma captura excessiva dos predadores de ouriços (como é o caso do peixe-cão). Seja qual for a razão, o ambiente do Dollabarat mudou. Curiosamente, isso parece não ter afetado a produtividade, mas alterou o esplendor. Até quando?
Foi neste contexto que submergi. Algumas questões assolavam a minha mente e era importante encontrar respostas. Primeiro, será que iria encontrar aparelhos de pesca que comprovassem a continuação da prevaricação? Será que as espécies que observaria seriam indicativas de um ambiente não explorado? Será que veria indícios da recuperação da anomalia algal? E, finalmente, mas também muito importante… será que iria ver jamantas e tubarões?
Tantas perguntas… Ainda pairando a meio da coluna de água, verifiquei que não havia qualquer alga Cystoseira digna desse nome. Quando cheguei ao fundo, debrucei-me sobre um dos vales, típicos da fisiografia do Dollabarat e lá estava uma chumbada utilizada na pesca artesanal de garoupas. Começava mal. Depois, olhei em redor e comecei a contar um, dois meros, uma abrótea, várias garoupas, diversas espécies de moreias e um peixe-cão macho e outro fêmea. Um dos companheiros de mergulho, pertencente à equipa de mergulhoforense da Marinha, apontou-me um cavaco! Estas eram boas notícias! As espécies mais exploradas nos Açores estavam de volta e em força ao Dollabarat. Excelente.
Até ao final do mergulho não vi outro aparelho de pesca. Ao contrário dos últimos mergulhos que tinha feito naquele local, já lá vão diversos anos, não vi restos de redes de pesca, cofres, canas de armadilhas, sedas… Nada. Apenas aquele resto de aparelho de pesca para as garoupas. Apesar de ainda não ter sido um mergulho com indícios de prevaricação zero, estamos agora mais perto.
Não vi tubarões ou jamantas. Em compensação, vi um cardume de pequenos atuns, duas raias enormes e, no final do mergulho, quando já estávamos a bordo, um grupo de curiosos golfinhos. Mais uma vez, foi um excelente mergulho e num dos mais fascinantes e selvagens locais do mundo. Um local a preservar com tenacidade!

Golfinhos entre o recife Dollabarat e os ilhéus das Formigas.
Foto: F Cardigos, usando uma máquina de JR Gonçalves.

quarta-feira, 11 de julho de 2012

O regresso da minha Europa


Para muitos, o ilhéu de Monchique, na ilha das Flores, Açores,
simboliza o extremo ocidental da Europa.

Pode ser um pouco lamechas, e provavelmente é, mas eu sou daquelas pessoas que sente um arrepio e um aperto na garganta quando houve o quarto andamento da nona sinfonia de Beethoven, que se maravilha com o engenho de Da Vinci e que reconhece o brilhantismo comunicativo de Dali, como se estivesse imbuído de um vasto continuum cultural. Eu sou Europeu!
Apesar disso, não sou um Europeu de qualquer Europa. Quando a Europa se porta mal, e tem uma enorme tendência para se portar mal, distancio-me e fico a olhar para a minha alma lusitana, refugiando-me numa qualquer paisagem bucólica de uma ilha das Flores envolta em nevoeiro. A minha Europa tem valores, compaixão, imaginação, engenho, solidariedade e coragem. A Europa a que eu pertenço estende-se do ilhéu de Monchique aos Urais, de Svalbard a Gibraltar e recusa os totalitarismos, os egoísmos, as intolerâncias e a cobardia. A minha Europa é ainda muito mais bonita do que a Europa da mitologia grega.
Depois da guerra da Jugoslávia, pensava, como outros pensaram no final da primeira grande guerra, da segunda grande guerra e da queda do muro de Berlim, que à Europa teria chegado a um período de paz duradoura. Talvez sim, mas talvez não…
A recusa de tratar a Grécia como a sua história impõe (a nossa história), o autismo em relação às dificuldades sentidas por Portugal e Irlanda e o isolamento que se preparava para sitiar a Espanha e a Itália eram prenúncios de um futuro feio, um regresso a um mau passado. Felizmente, a França salvou-nos. Estranho que seja um país que historicamente contribuiu ativamente para a confusão, seja agora o garante da restauração dos valores. Contrariando-me para provar um ponto de vista, apenas poderia ser a França, esse gigante dos valores da liberdade, da igualdade e da fraternidade que poderia apontar o rumo. O corolário é, portanto, que desta vez foi a França a salvar a minha Europa, tal como antes foram tantos outros; possivelmente, de acordo com cada momento, todos os outros.
De facto, a Europa é um mapa em que, em permanência, jogam as forças do bem e do mal, incluindo todos os níveis de cinzentos. Mas, porquê? Porque não é possível estar tranquilamente no nosso território sem que haja quezílias as quais, demasiadas vezes, terminam em enormes banhos de sangue? Como garantir a paz na Europa?
Gostava de ter uma resposta fácil. Não tenho.
Apenas sei que a missão é contribuir. Temos que contribuir para que, em permanência, as forças do bem prevaleçam. Há referências europeias que me norteiam, mas cada um terá as suas. Por muito que nos aborreçam as histórias de cordel e os devaneios irresponsáveis de algumas coroas europeias, ainda hoje Suas Altezas Reais a Rainha Elizabete II e o Rei Juan Carlos são efetivos lutadores pela liberdade. Estadistas como Mikhail Gorbatchev, empresários como Nobel, cientistas como Marie Curie e Albert Einstein, poetas como Fernando Pessoa, músicos como Antonio Vivaldi ou Frédéric Chopin juntam-nos numa Europa de Bem. É para eles que olho, presto uma vénia e contemplo, inspiro-me e tento, mui modestamente, seguir o exemplo. É desta Europa que eu gosto. É nos dias em que esta Europa prevalece que me sinto verdadeiramente Europeu.
De um ponto de vista mais prático, há que sair do mercantilismo cego que rege o mundo e partir para uma época mais social, em que todos tenham espaço. Obviamente, a Grécia está minada por um regime repetitivo que administra os seus destinos há demasiados anos. Mas a Grécia, como muitos outros países, sofreram golpes profundos pelas guerras do centro, viveram sob regimes totalitários fratricidas e essas não foram escolhas gregas. Portanto, como qualquer ente querido que está doente, a nossa missão é cuidar, auxiliar, orientar e, no fim, passada a mazela, festejar. Essa é a missão da Europa e a nossa missão, uma vez cumprida, será inspiradora para o mundo.

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Pristino


Floresta natural dos Açores, um dos poucos ambientes pristinos do planeta Terra.
Foto: PH Silva SIARAM

Por sugestão de um bom amigo, estive a ver um conjunto de documentários televisivos sobre ambientes pristinos com a autoria da BBC. Paradoxalmente, os locais alegadamente pristinos, como ficou provado pela investigação conduzida, são tudo menos pristinos. Ou seja, Amazónia, Serengueti e Yellowstone são lugares razoavelmente alterados pela mão do homem moderno.  Para além das alterações globais, que afetam qualquer local à face da Terra, para além das alterações provocadas nas fronteiras destes locais, que modificam padrões de migração de animais e circulação de elementos, há um conjunto de alterações feitas pelo homem na tentativa de preservar os locais que involuntariamente se tornaram muito pouco inertes. Também os próprios seres humanos, indígenas dos locais, alteraram e geriram estes locais durante centenas de anos. Seria difícil explicar todos os detalhes neste artigo, mas, depois de ver aqueles documentos, ficamos com uma estranha sensação de permanente mácula. Não há qualquer local no nosso planeta que testemunhe um tempo sem seres humanos… Ou talvez não. Na Antártida há amplos espaços sem qualquer sintoma visível de seres humanos. E, no mar, há amplos ecossistemas e habitats livres da sombra humana. Como não podemos facilmente ir até à Antártida, resta-nos o mar. E se há coisa que os Açores têm é mar!
Claro que há zonas pescadas e amplamente exploradas, pelo que não será aqui que poderemos encontrar os ambientes pristinos. Também nas zonas costeiras, por causa das espécies invasoras transportadas pelos homens, os ambientes virgens estão ausentes. No entanto, estes organismos ainda não conseguiram chegar para lá dos mil metros e a estas profundidades não há pesca. Aqui sim, principalmente em habitats bem vincados, encontramos ambientes pristinos. Na minha opinião, os mais impressionantes são as fontes hidrotermais de grande profundidade. Aqui há espécies de peixes, moluscos e crustáceos que se aproximam dos limites da imaginação e estão totalmente distantes de qualquer sombra humana.
Portanto, quando quisermos dar um exemplo de um habitat verdadeiramente pristino, muito melhor do que os grandes paraísos naturais em terra, que não passam a este nível de embustes, no Mar dos Açores podemos encontra-los. Não há alterações climáticas globais, limitações à migração, populações indígenas ou tentativas de gestão intrusivas. Aqui e em poucos mais sítios no Planeta Terra, podemos orgulhar-nos de ter ambientes intocados pelo homem. Mesmo os despejos e os restos que a gravidade e as correntes arrastam são tão raros que não se fazem notar.
É também por esta razão que mesmo a investigação científica que se faz nas fontes hidrotermais de grande profundidade tem de ser previamente pensada e muito bem justificada. Até agora, os cientistas têm tido o cuidado de não ser demasiado intrusivos. Teremos de manter este pensamento no futuro. Estudar, sim, usar, com moderação, e conservar para as gerações futuras.
Mesmo em terra, nos Açores ainda há, pelo menos, um local intocado. Tanto quanto sei, não há memória da floresta laurissilva da zona central da ilha Terceira ter sido usada. Apesar da pressão feita pelas populações, da utilização agrícola dos seus extremos e da entrada progressiva de espécies invasoras, como o incenso, estas manchas ainda são testemunhas de um tempo sem homens. Praticamente, não há paralelo na Europa e na América.
Graças a um povoamento recente e à inacessibilidade de alguns dos nossos espaços, temos nos Açores locais que causam a cobiça e a curiosidade de outros. Até pelo valor que podem ter para a visitação não intrusiva, devemos manter estes locais, tanto quanto possível como estão. É um legado para os que nos sucederem. 
Não podemos dramatizar demais. Segundo os próprios documentários, não há ambientes pristinos na Terra por uma razão simples: os seres humanos fazem parte do ecossistema. Com este pensamento, admiremos as nossas singularidades açorianas e orgulhemo-nos de ser assim. Poucos o são!