segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Porquê proteger os meros nos Açores?


Mero fotografado na Reserva Voluntária do Caneiro dos Meros,
na Ilha do Corvo, Açores.
Foto: F Cardigos ImagDOP

Obviamente, todos temos direito à opinião, acrescendo que o nosso respeito por essa mesma opinião é maior quando é emitida por pessoas conhecedoras e inteligentes. Mesmo que não concordasse, como “manda” uma das maiores organizações não-governamentais do mundo, deveria esforçar-me para que essa opinião fosse disseminada livremente.
O que se passa no caso dos meros, curiosamente, é que há pessoas igualmente informadas, inteligentes e empenhadas que defendem posições antagónicas. Ou seja, há pessoas que consideram que estes animais podem ser caçados, que isso não afetará as suas populações e será uma mais-valia para a economia. Por outro lado, há um outro conjunto de pessoas que considera que caçar meros é um ato lesa-turismo subaquático e que terá influência nas populações existentes. Curiosamente, ambos os lados têm trabalhos científicos a sustentar as suas opiniões.
E que penso eu sobre o assunto? Eu assisti às chacinas de meros nas Flores dos finais dos anos 70. Animais majestosos eram arrastados por cima do Porto das Poças, alguns ainda vivos, e esquartejados para gaudio dos caçadores submarinos franceses que usavam as ilhas como um local de treino para os campeonatos europeus. Eu vi e não gostei. Alguns daqueles animais eram muito mais velhos do que eu e, alguns deles, eram mais velhos do que eu sou hoje. Não são animais para serem mortos apenas para treino para uma competição distante. Era um enorme desrespeito e ainda bem que terminou. Sou apologista que se usem os recursos naturais de forma letal para o que é necessário, não para atividades recreativas.
Hoje, depois de os conhecer debaixo de água, penso ainda que os meros são criaturas fantásticas, pachorrentas, grandes, que não hesitam em chegar-se aos mergulhadores e roçar-se neles. Os meros dão excelentes fotografias subaquáticas. Ora, tendo obtido tanto prazer com os meros vivos, porque iria eu contribuir para os matar. Ou seja, “és tão engraçado, deixa-me cá dar-te um tiro e matar-te”… Não faria sentido. Por essa razão, para além de não os caçar, também não como mero. A mesma opção têm uns quantos fanáticos do mundo azul. Dado ser uma opção pessoal, não tem de influenciar, nem influencia, a minha postura enquanto decisor.
Portanto, neste caso em concreto, o que pensa o decisor? O decisor pensa desta forma: um mero vivo, com que se possa mergulhar, vale o mesmo todos os dias de mergulho do que se for morto e vendido em lota uma única vez. Ou seja, se os meros estiverem vivos valem muitíssimo mais do que se estiverem mortos. O decisor pensa também que o mergulho com escafandro autónomo é uma atividade com interesse crescente no arquipélago pelo que não faria qualquer sentido estimular a morte do mais importante símbolo da escafandria, o mero.
Ao mesmo tempo, o decisor pensa também que a pesca profissional à linha, ao contrário da caça, não é seletiva, pelo que não faz sentido impor uma restrição que não se pode cumprir. Portanto, tem de se conviver com a possibilidade dos meros serem capturados por esta via. Também por não ser uma arte seletiva, a pesca profissional à linha, com os métodos legalmente utilizados nos Açores, nunca poderá colocar estas populações em risco, o que não aconteceria com a caça. Com a caça, seria possível capturar todos os animais de grande porte, o que, dada a sua sexualidade (todos nascem fêmeas e depois transformam-se em machos), poderia colocar em risco as populações.
Finalmente, depois de dezenas de anos de restrição à caça ao mero nos Açores, já quase ninguém pensa que seria adequado regredir nesta proibição. Ao contrário, os caçadores dos tempos modernos (tirando o Rei de Espanha…) estão mais interessados em obter boas imagens de animais vivos e livres do que fomentar cadáveres apenas pelo prazer de matar.
Muito mais do que a opinião deste decisor, condicionam as opções do Governo as decisões da Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores. Ao contrário do que é por vezes afirmado, a decisão de proteger os meros no nosso arquipélago em 1984 foi tomada no órgão mais importante da autonomia insular. Não resulta, portanto, da sensibilidade de “um amigo que fazia parte do governo regional”, como irresponsavelmente se afirma por vezes. Em 2007, através do diploma da pesca lúdica dos Açores, os meros voltaram a ser protegidos pelo Parlamento Regional em relação à caça-submarina. Seria difícil ter uma decisão mais clara.
Com todo o respeito por quem pensa de forma diversa, esta é também a opção de um dos decisores do nosso arquipélago. Haja argumentos válidos e em sentido contrário e o decisor, obviamente, saber-se-á adaptar. O Frederico, esse adora os meros que vai encontrando e fotografando debaixo de água, pelo que nunca mudará de ideias

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Revisitando o Dollabarat



Simpaticamente, a Autoridade Marítima, através do Comandante João Gonçalves, convidou-me para integrar a missão anual de manutenção do farol dos ilhéus das Formigas. Depois de conversado, chegou-se à rápida conclusão que nessa missão se poderia também efetuar a monitorização superficial dos ambientes subaquáticos. Melhor dito, melhor feito!
Foi desta forma que me vi novamente emerso pelas águas do Recife Dollabarat. Este recife está localizado a três milhas a sudeste das Formigas e constitui uma enorme ameaça à navegação. Até que o navegador basco Pierre Dollabarat o assinalou, não se sabe quantas embarcações terão tido o infortúnio de um encontro letal. Os três metros de profundidade do recife apontam para nomes como os dos irmãos Miguel e Gaspar Corte-Real, navegadores portugueses quinhentistas misteriosamente desaparecidos…
Hoje, o Recife Dollabarat está bem assinalado no mapa e apenas manifesta inconsciência levará um navegador até estas paragens. Em contraste, no caso dos mergulhadores, apenas manifesta inconsciência os poderá afastar deste local fantástico! Desde os anos 80 que o Recife Dollabarat faz parte de uma enorme Reserva Natural que inclui também os ilhéus das Formigas. Depois de anos de incumprimento, esta Reserva Natural é hoje em dia razoavelmente respeitada. Contribuem para isso a intensificação da fiscalização, com natural relevância para o papel da Marinha, e as novas utilidades. De facto, diariamente, ou melhor, sempre que as condições meteorológicas o permitem, empresas marítimo-turísticas de Santa Maria e de São Miguel ocupam aquele espaço dando-lhe um interessante valor acrescentado.
Há uns anos atrás, não se tem ainda a certeza da razão, a cobertura algal do Dollabarat mudou. Passou de um tapete esplendoroso e esvoaçante de enormes Cystoseira para umas algas filamentosas verdes e desinteressantes. Há quem avance explicações relacionadas com o intensificar das alterações climáticas globais e há quem defenda que resulta de uma captura excessiva dos predadores de ouriços (como é o caso do peixe-cão). Seja qual for a razão, o ambiente do Dollabarat mudou. Curiosamente, isso parece não ter afetado a produtividade, mas alterou o esplendor. Até quando?
Foi neste contexto que submergi. Algumas questões assolavam a minha mente e era importante encontrar respostas. Primeiro, será que iria encontrar aparelhos de pesca que comprovassem a continuação da prevaricação? Será que as espécies que observaria seriam indicativas de um ambiente não explorado? Será que veria indícios da recuperação da anomalia algal? E, finalmente, mas também muito importante… será que iria ver jamantas e tubarões?
Tantas perguntas… Ainda pairando a meio da coluna de água, verifiquei que não havia qualquer alga Cystoseira digna desse nome. Quando cheguei ao fundo, debrucei-me sobre um dos vales, típicos da fisiografia do Dollabarat e lá estava uma chumbada utilizada na pesca artesanal de garoupas. Começava mal. Depois, olhei em redor e comecei a contar um, dois meros, uma abrótea, várias garoupas, diversas espécies de moreias e um peixe-cão macho e outro fêmea. Um dos companheiros de mergulho, pertencente à equipa de mergulhoforense da Marinha, apontou-me um cavaco! Estas eram boas notícias! As espécies mais exploradas nos Açores estavam de volta e em força ao Dollabarat. Excelente.
Até ao final do mergulho não vi outro aparelho de pesca. Ao contrário dos últimos mergulhos que tinha feito naquele local, já lá vão diversos anos, não vi restos de redes de pesca, cofres, canas de armadilhas, sedas… Nada. Apenas aquele resto de aparelho de pesca para as garoupas. Apesar de ainda não ter sido um mergulho com indícios de prevaricação zero, estamos agora mais perto.
Não vi tubarões ou jamantas. Em compensação, vi um cardume de pequenos atuns, duas raias enormes e, no final do mergulho, quando já estávamos a bordo, um grupo de curiosos golfinhos. Mais uma vez, foi um excelente mergulho e num dos mais fascinantes e selvagens locais do mundo. Um local a preservar com tenacidade!

Golfinhos entre o recife Dollabarat e os ilhéus das Formigas.
Foto: F Cardigos, usando uma máquina de JR Gonçalves.

quarta-feira, 11 de julho de 2012

O regresso da minha Europa


Para muitos, o ilhéu de Monchique, na ilha das Flores, Açores,
simboliza o extremo ocidental da Europa.

Pode ser um pouco lamechas, e provavelmente é, mas eu sou daquelas pessoas que sente um arrepio e um aperto na garganta quando houve o quarto andamento da nona sinfonia de Beethoven, que se maravilha com o engenho de Da Vinci e que reconhece o brilhantismo comunicativo de Dali, como se estivesse imbuído de um vasto continuum cultural. Eu sou Europeu!
Apesar disso, não sou um Europeu de qualquer Europa. Quando a Europa se porta mal, e tem uma enorme tendência para se portar mal, distancio-me e fico a olhar para a minha alma lusitana, refugiando-me numa qualquer paisagem bucólica de uma ilha das Flores envolta em nevoeiro. A minha Europa tem valores, compaixão, imaginação, engenho, solidariedade e coragem. A Europa a que eu pertenço estende-se do ilhéu de Monchique aos Urais, de Svalbard a Gibraltar e recusa os totalitarismos, os egoísmos, as intolerâncias e a cobardia. A minha Europa é ainda muito mais bonita do que a Europa da mitologia grega.
Depois da guerra da Jugoslávia, pensava, como outros pensaram no final da primeira grande guerra, da segunda grande guerra e da queda do muro de Berlim, que à Europa teria chegado a um período de paz duradoura. Talvez sim, mas talvez não…
A recusa de tratar a Grécia como a sua história impõe (a nossa história), o autismo em relação às dificuldades sentidas por Portugal e Irlanda e o isolamento que se preparava para sitiar a Espanha e a Itália eram prenúncios de um futuro feio, um regresso a um mau passado. Felizmente, a França salvou-nos. Estranho que seja um país que historicamente contribuiu ativamente para a confusão, seja agora o garante da restauração dos valores. Contrariando-me para provar um ponto de vista, apenas poderia ser a França, esse gigante dos valores da liberdade, da igualdade e da fraternidade que poderia apontar o rumo. O corolário é, portanto, que desta vez foi a França a salvar a minha Europa, tal como antes foram tantos outros; possivelmente, de acordo com cada momento, todos os outros.
De facto, a Europa é um mapa em que, em permanência, jogam as forças do bem e do mal, incluindo todos os níveis de cinzentos. Mas, porquê? Porque não é possível estar tranquilamente no nosso território sem que haja quezílias as quais, demasiadas vezes, terminam em enormes banhos de sangue? Como garantir a paz na Europa?
Gostava de ter uma resposta fácil. Não tenho.
Apenas sei que a missão é contribuir. Temos que contribuir para que, em permanência, as forças do bem prevaleçam. Há referências europeias que me norteiam, mas cada um terá as suas. Por muito que nos aborreçam as histórias de cordel e os devaneios irresponsáveis de algumas coroas europeias, ainda hoje Suas Altezas Reais a Rainha Elizabete II e o Rei Juan Carlos são efetivos lutadores pela liberdade. Estadistas como Mikhail Gorbatchev, empresários como Nobel, cientistas como Marie Curie e Albert Einstein, poetas como Fernando Pessoa, músicos como Antonio Vivaldi ou Frédéric Chopin juntam-nos numa Europa de Bem. É para eles que olho, presto uma vénia e contemplo, inspiro-me e tento, mui modestamente, seguir o exemplo. É desta Europa que eu gosto. É nos dias em que esta Europa prevalece que me sinto verdadeiramente Europeu.
De um ponto de vista mais prático, há que sair do mercantilismo cego que rege o mundo e partir para uma época mais social, em que todos tenham espaço. Obviamente, a Grécia está minada por um regime repetitivo que administra os seus destinos há demasiados anos. Mas a Grécia, como muitos outros países, sofreram golpes profundos pelas guerras do centro, viveram sob regimes totalitários fratricidas e essas não foram escolhas gregas. Portanto, como qualquer ente querido que está doente, a nossa missão é cuidar, auxiliar, orientar e, no fim, passada a mazela, festejar. Essa é a missão da Europa e a nossa missão, uma vez cumprida, será inspiradora para o mundo.