sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Sobre os Jogos Olímpicos


Esta Veronica dabneyi, planta endémica dos Açores,
é mais rara do que um vencedor de uma medalha de ouro nos Jogos Olímpicos!

Decorreram até ao último final de semana os Jogos Olímpicos de Verão na cidade de Londres, capital do Reino Unido. Neste evento, concorrem mais de uma dezena de milhar de atletas pelas poucas centenas de medalhas disponíveis.
Não deveria ser este o propósito essencial das olimpíadas, mas sim contribuir para obtenção de níveis de excelência humana (mais rápido, mais alto e mais forte) num convívio saudável e leal entre as nações. O Barão Pierre de Coubertin, o grande responsável pelo ressurgir das Olimpíadas no final do século XIX, entendia que a educação apenas estava completa com a componente física individual e elevou esse conceito até ao que é hoje considerado o mais prestigiado acontecimento cívico global.
No entanto, de facto, o empenho de muitos centra-se apenas na contabilização das medalhas. É uma forma simples de aferir até que ponto uma nação tem empenho na excelência dos seus atletas e é universalmente compreensível. Nestes jogos olímpicos, o destaque foi para Estados Unidos da América e para a China, tal como em Pequim 2008, embora por ordem inversa. 
Alguns amigos declaram-me a sua desilusão pela única medalha dos portugueses. No entanto, vendo bem, havendo “apenas” cerca de mil medalhas em disputa, é natural que não ganhemos muitas.
Vejamos, em cerca de 200 países, no mundo há sete mil milhões de pessoas. Cada uma destas pessoas pode ter a ambição de conquistar uma destas medalhas e, portanto, fazendo uma divisão simples, temos uma medalha por cada 7 milhões de habitantes do planeta Terra. Tendo em consideração esta aproximação simplista, Portugal, com 10 milhões de habitantes, tem “direito” a uma medalha. Já a China, com 1,3 mil milhões de pessoas, deveria obter 186 medalhas. Como, na realidade, nos jogos, ganhou “apenas” 87, isso significa que está abaixo do que seria expectável. Por outro lado, os Estados Unidos da América, com 300 milhões de pessoas, deveriam obter 43 medalhas. Na realidade, em Londres ganharam 104 medalhas, o que os colocam claramente acima das espectativas e que, de alguma forma, espelha a importância que a competição, a todos os níveis, representa para este país e, também, a competência que detém na formação de atletas.
Se os Açores fossem um país participante, usando também uma aproximação estatística simplista, deveríamos ter uma medalha em cada 30 Olimpíadas, ou seja, uma medalha a cada 120 anos, já que os Jogos Olímpicos apenas se realizam de quatro em quatro anos. Isto é, mais vale determo-nos nas coisas realmente importantes dos Jogos Olímpicos e nos valores que lhe estão subjacentes e deixarmos a medalha para Portugal e as medalhas para a Europa, com quem também nos podemos identificar.
Aliás, a União Europeia, com 500 milhões de habitantes, nesta aproximação simplista, tem “direito” a 71 medalhas. Agora repare-se… em Londres, a União Europeia, pelas minhas contas, ganhou 300 medalhas! Ou seja, uma proporção entre o obtido e expectável muito maior que os Estados Unidos da América, 4,3 contra 2,4. Ou seja, somos os maiores ! Na realidade, não é bem assim porque há um limite de atletas por país, o que beneficia a União Europeia com mais de duas dezenas de países a contribuir, ficando assim com um número superior e desproporcionado de atletas. De qualquer forma, a Europa é realmente competitiva e possui boas escolas desportivas, ao nível dos melhores.
A massa crítica, neste caso estabelecida em número de seres humanos em cada território, condiciona indelevelmente o número de medalhas que se pode obter. Colocando de uma forma mais construtiva e consequente, em qualquer momento das nossas vidas: “a união faz a força!”.
Há, no entanto, países que têm totais assimetrias nesta espectável proporção. Não me compete, nem seria hábil para o explicar, mas… de facto, a Austrália tem uma proporção entre medalhas obtidas e expectáveis de 11. Melhor ainda, a Jamaica do grande Usain Bolt tem uma proporção de 32! Números a reter e indicativos de que tudo é possível.
Apanágio máximo de que tudo é possível é a incrível marca de 22 medalhas para um único ser humano. As contas são mais difíceis de fazer, até porque as medalhas foram obtidas em três eventos, mas, sem adiantar a matemática por trás (até porque é duvidosa), diria que a probabilidade de uma coisa destas acontecer é de 0,0000022%. Portanto, estatisticamente, não aconteceu e o Michael Phelps não existe… mas existe! Posto de outra forma, tudo é possível; Basta ter vontade, ser competente e ser trabalhador  (e ter alguma sorte…). Para os jovens, a mensagem é descubram o que gostam de fazer e para o que têm jeito e empenhem-se, mesmo que a probabilidade seja baixa, é realmente possível conquistar os nossos sonhos!

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Porquê proteger os meros nos Açores?


Mero fotografado na Reserva Voluntária do Caneiro dos Meros,
na Ilha do Corvo, Açores.
Foto: F Cardigos ImagDOP

Obviamente, todos temos direito à opinião, acrescendo que o nosso respeito por essa mesma opinião é maior quando é emitida por pessoas conhecedoras e inteligentes. Mesmo que não concordasse, como “manda” uma das maiores organizações não-governamentais do mundo, deveria esforçar-me para que essa opinião fosse disseminada livremente.
O que se passa no caso dos meros, curiosamente, é que há pessoas igualmente informadas, inteligentes e empenhadas que defendem posições antagónicas. Ou seja, há pessoas que consideram que estes animais podem ser caçados, que isso não afetará as suas populações e será uma mais-valia para a economia. Por outro lado, há um outro conjunto de pessoas que considera que caçar meros é um ato lesa-turismo subaquático e que terá influência nas populações existentes. Curiosamente, ambos os lados têm trabalhos científicos a sustentar as suas opiniões.
E que penso eu sobre o assunto? Eu assisti às chacinas de meros nas Flores dos finais dos anos 70. Animais majestosos eram arrastados por cima do Porto das Poças, alguns ainda vivos, e esquartejados para gaudio dos caçadores submarinos franceses que usavam as ilhas como um local de treino para os campeonatos europeus. Eu vi e não gostei. Alguns daqueles animais eram muito mais velhos do que eu e, alguns deles, eram mais velhos do que eu sou hoje. Não são animais para serem mortos apenas para treino para uma competição distante. Era um enorme desrespeito e ainda bem que terminou. Sou apologista que se usem os recursos naturais de forma letal para o que é necessário, não para atividades recreativas.
Hoje, depois de os conhecer debaixo de água, penso ainda que os meros são criaturas fantásticas, pachorrentas, grandes, que não hesitam em chegar-se aos mergulhadores e roçar-se neles. Os meros dão excelentes fotografias subaquáticas. Ora, tendo obtido tanto prazer com os meros vivos, porque iria eu contribuir para os matar. Ou seja, “és tão engraçado, deixa-me cá dar-te um tiro e matar-te”… Não faria sentido. Por essa razão, para além de não os caçar, também não como mero. A mesma opção têm uns quantos fanáticos do mundo azul. Dado ser uma opção pessoal, não tem de influenciar, nem influencia, a minha postura enquanto decisor.
Portanto, neste caso em concreto, o que pensa o decisor? O decisor pensa desta forma: um mero vivo, com que se possa mergulhar, vale o mesmo todos os dias de mergulho do que se for morto e vendido em lota uma única vez. Ou seja, se os meros estiverem vivos valem muitíssimo mais do que se estiverem mortos. O decisor pensa também que o mergulho com escafandro autónomo é uma atividade com interesse crescente no arquipélago pelo que não faria qualquer sentido estimular a morte do mais importante símbolo da escafandria, o mero.
Ao mesmo tempo, o decisor pensa também que a pesca profissional à linha, ao contrário da caça, não é seletiva, pelo que não faz sentido impor uma restrição que não se pode cumprir. Portanto, tem de se conviver com a possibilidade dos meros serem capturados por esta via. Também por não ser uma arte seletiva, a pesca profissional à linha, com os métodos legalmente utilizados nos Açores, nunca poderá colocar estas populações em risco, o que não aconteceria com a caça. Com a caça, seria possível capturar todos os animais de grande porte, o que, dada a sua sexualidade (todos nascem fêmeas e depois transformam-se em machos), poderia colocar em risco as populações.
Finalmente, depois de dezenas de anos de restrição à caça ao mero nos Açores, já quase ninguém pensa que seria adequado regredir nesta proibição. Ao contrário, os caçadores dos tempos modernos (tirando o Rei de Espanha…) estão mais interessados em obter boas imagens de animais vivos e livres do que fomentar cadáveres apenas pelo prazer de matar.
Muito mais do que a opinião deste decisor, condicionam as opções do Governo as decisões da Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores. Ao contrário do que é por vezes afirmado, a decisão de proteger os meros no nosso arquipélago em 1984 foi tomada no órgão mais importante da autonomia insular. Não resulta, portanto, da sensibilidade de “um amigo que fazia parte do governo regional”, como irresponsavelmente se afirma por vezes. Em 2007, através do diploma da pesca lúdica dos Açores, os meros voltaram a ser protegidos pelo Parlamento Regional em relação à caça-submarina. Seria difícil ter uma decisão mais clara.
Com todo o respeito por quem pensa de forma diversa, esta é também a opção de um dos decisores do nosso arquipélago. Haja argumentos válidos e em sentido contrário e o decisor, obviamente, saber-se-á adaptar. O Frederico, esse adora os meros que vai encontrando e fotografando debaixo de água, pelo que nunca mudará de ideias

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Revisitando o Dollabarat



Simpaticamente, a Autoridade Marítima, através do Comandante João Gonçalves, convidou-me para integrar a missão anual de manutenção do farol dos ilhéus das Formigas. Depois de conversado, chegou-se à rápida conclusão que nessa missão se poderia também efetuar a monitorização superficial dos ambientes subaquáticos. Melhor dito, melhor feito!
Foi desta forma que me vi novamente emerso pelas águas do Recife Dollabarat. Este recife está localizado a três milhas a sudeste das Formigas e constitui uma enorme ameaça à navegação. Até que o navegador basco Pierre Dollabarat o assinalou, não se sabe quantas embarcações terão tido o infortúnio de um encontro letal. Os três metros de profundidade do recife apontam para nomes como os dos irmãos Miguel e Gaspar Corte-Real, navegadores portugueses quinhentistas misteriosamente desaparecidos…
Hoje, o Recife Dollabarat está bem assinalado no mapa e apenas manifesta inconsciência levará um navegador até estas paragens. Em contraste, no caso dos mergulhadores, apenas manifesta inconsciência os poderá afastar deste local fantástico! Desde os anos 80 que o Recife Dollabarat faz parte de uma enorme Reserva Natural que inclui também os ilhéus das Formigas. Depois de anos de incumprimento, esta Reserva Natural é hoje em dia razoavelmente respeitada. Contribuem para isso a intensificação da fiscalização, com natural relevância para o papel da Marinha, e as novas utilidades. De facto, diariamente, ou melhor, sempre que as condições meteorológicas o permitem, empresas marítimo-turísticas de Santa Maria e de São Miguel ocupam aquele espaço dando-lhe um interessante valor acrescentado.
Há uns anos atrás, não se tem ainda a certeza da razão, a cobertura algal do Dollabarat mudou. Passou de um tapete esplendoroso e esvoaçante de enormes Cystoseira para umas algas filamentosas verdes e desinteressantes. Há quem avance explicações relacionadas com o intensificar das alterações climáticas globais e há quem defenda que resulta de uma captura excessiva dos predadores de ouriços (como é o caso do peixe-cão). Seja qual for a razão, o ambiente do Dollabarat mudou. Curiosamente, isso parece não ter afetado a produtividade, mas alterou o esplendor. Até quando?
Foi neste contexto que submergi. Algumas questões assolavam a minha mente e era importante encontrar respostas. Primeiro, será que iria encontrar aparelhos de pesca que comprovassem a continuação da prevaricação? Será que as espécies que observaria seriam indicativas de um ambiente não explorado? Será que veria indícios da recuperação da anomalia algal? E, finalmente, mas também muito importante… será que iria ver jamantas e tubarões?
Tantas perguntas… Ainda pairando a meio da coluna de água, verifiquei que não havia qualquer alga Cystoseira digna desse nome. Quando cheguei ao fundo, debrucei-me sobre um dos vales, típicos da fisiografia do Dollabarat e lá estava uma chumbada utilizada na pesca artesanal de garoupas. Começava mal. Depois, olhei em redor e comecei a contar um, dois meros, uma abrótea, várias garoupas, diversas espécies de moreias e um peixe-cão macho e outro fêmea. Um dos companheiros de mergulho, pertencente à equipa de mergulhoforense da Marinha, apontou-me um cavaco! Estas eram boas notícias! As espécies mais exploradas nos Açores estavam de volta e em força ao Dollabarat. Excelente.
Até ao final do mergulho não vi outro aparelho de pesca. Ao contrário dos últimos mergulhos que tinha feito naquele local, já lá vão diversos anos, não vi restos de redes de pesca, cofres, canas de armadilhas, sedas… Nada. Apenas aquele resto de aparelho de pesca para as garoupas. Apesar de ainda não ter sido um mergulho com indícios de prevaricação zero, estamos agora mais perto.
Não vi tubarões ou jamantas. Em compensação, vi um cardume de pequenos atuns, duas raias enormes e, no final do mergulho, quando já estávamos a bordo, um grupo de curiosos golfinhos. Mais uma vez, foi um excelente mergulho e num dos mais fascinantes e selvagens locais do mundo. Um local a preservar com tenacidade!

Golfinhos entre o recife Dollabarat e os ilhéus das Formigas.
Foto: F Cardigos, usando uma máquina de JR Gonçalves.