sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Derrocada!


Ilhéus que resultaram da derrocada na costa noroeste da ilha do Corvo.
Foto: F Cardigos - SIARAM.

Na última quinta-feira recebi um telefonema da ilha do Corvo que era, no mínimo, preocupante. Depois de informado que havia algo por trás da ilha que não se movia, “parecia um navio encalhado”, o meu interlocutor disse-me que estava tão escondido “atrás da terra” que os próprios corvinos não conseguiram perceber inicialmente do que se tratava. “Foram os florentinos que, com melhor ângulo, nos avisaram”. Ele, que tinha acabado de ir às terras altas verificar, disse-me “temos ilhéus novos no Corvo!”
Por sorte, fui designado para ir ao Corvo verificar no local qual o evoluir inicial pós derrocada. Também por sorte, o comandante e copiloto do avião que me transportou ao Corvo fizeram uma boa aproximação ao local do evento permitindo, desde logo, obter bons registos fotográficos. Um simples olhar para as fotografias de 2010, data da última derrocada digna de registo, e os registos agora obtidos ficou evidente o que tinha acontecido. Mais pesada por causa das intensas chuvas e ventos fortes do início da semana, uma massa com cerca de 150 mil toneladas havia deslizado pela encosta noroeste da ilha do Corvo, projetando-se mar dentro e formando um conjunto de ilhéus dispostos em semicírculo.
Restava uma pergunta. Como é que esta enorme massa geológica se pode deslocar sem que ninguém notasse? A resposta parece jazer nas condições meteorológicas que se verificavam no próprio dia do evento. Durante um período bem definido, para além da precipitação e dos ventos fortes, associou-se uma enorme trovoada. Quem sabe se um daqueles trovões, na realidade, não foi este deslocamento? Não podemos ter a certeza da resposta, mas isso constituiria uma boa explicação.
Estava agora no Corvo. Aproveitando a deslocação da lancha da Marinha colocada na ilha das Flores aos novos ilhéus, embarquei e, nas imediações dos ilhéus, verifiquei pela sonda como se distribuía a mancha de sedimentos em profundidade. Nitidamente, cerca da batimétrica dos vinte metros havia um abrupto salto para a dúzia de metros. Era ali que começava a plataforma dos novos ilhéus. O estado do mar não estava propício e, por isso, não foi possível desembarcar. De qualquer forma, no dia anterior, já um residente no Corvo lá havia ido “reclamar” as novas terras. Ali está o mais recente território açoriano. Ali, à minha frente, começa Portugal!
No domingo, aproveitando o bom tempo, e não podendo fazer o que realmente me apetecia, que era desembarcar na Ilha Nova, resolvi atravessar o Caldeirão e ir até ao ponto sobrejacente à derrocada. Não sei o que era mais intenso: o cansaço do trajeto até ao local, a instabilidade do topo da arriba (sentia o reverberar dos meus próprios passos…), o ouvir de permanentes pequenos deslizamentos de terras sobre a encosta externa ao Caldeirão ou a deslumbrante paisagem que me rodeava por todos os lados. No final, a quem me perguntou, respondi “Vale a pena, recomendo e desaconselho…” Com esta forma contraditória tentei transmitir o que sentia, ou seja, apesar de perigosíssimo, não trocava aquele passeio por nada.
Há, na vida, muitas coisas assim, que associam o perigo extremo ao enorme prazer. Ao estar ali, numa arriba com quinhentos metros de altura, penso ter entendido o que sentem os “conquistadores do inútil”. Porquê subir ao topo de uma montanha ou mergulhar às profundezas do oceano? A resposta apenas a entende quem já lá foi. No domingo eu estive novamente num desses sítios! 

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Rescaldo


Momento da campanha eleitoral para as Eleições Regionais de 2012.
Foto: F Cardigos.

Alea jacta est”, rezam as crónicas que assim exclamou JúlioCésar depois de ter tomado a decisão de afrontar o Senado Romano e, eventualmente, sair vitorioso. As suas legiões atravessavam o rio Rubicão desafiando Pompeu. “Os dados estão lançados”, resta verificar o resultado.
Lembrei-me desta expressão a meio da noite entre sexta-feira e sábado, depois de ter terminado a campanha eleitoral. Restava então esperar até domingo e verificar o resultado das eleições. Entre a enorme derrota que era apontada pelas alegadas sondagens iniciais para a ilha do Faial e a sensação de trabalho bem feito que fomos tendo durante a campanha, tudo era possível. Esperar…
Ao ver o resultado eleitoral, tive dificuldade em digerir tanto contentamento. Primeiro a vitória nos Açores, depois a vitória no Faial e, finalmente, a maioria absoluta. Tudo nos correu bem. Penso que este foi um bom resultado para os Açores e mesmo para Portugal, mas os próximos anos o dirão.
Voltando um pouco atrás…
Quando teriam Vasco Cordeiro ou Carlos César dito para si próprios “alea jacta est”? Quando é que Vasco Cordeiro terá olhado para os colaboradores de campanha e dito “fizemos o que estava ao nosso alcance, aguardemos”? Quando se reclinou Carlos César na sua cadeira e descomprimiu dizendo para si próprio, “está feito”? Naquela sexta-feira chuvosa, terá Ana Luís conduzido para casa com um sorriso perdido entre a confiança e a angústia? Terá reunido a família e dito “agora resta esperar”? As respostas não são muito importantes.
Depois de dar a primeira tacada na bola de golf, o jogador fica a olhar para o seu movimento esperando que esta caia tão perto quanto possível do green, mas sem nada mais poder fazer. Esta sensação é comum ao estudante, depois da entrega do exame escolar até à receção da nota… O período, que medeia entre o esforço e a observação do resultado, pode ser positivo quando a expectativa é elevada e, principalmente, quando o resultado confirma as melhores expectativas. Estou em crer que foi desta forma que se sentiram Vasco Cordeiro, Carlos César e Ana Luís.
Caso não se confirmem os bons prognósticos, os portugueses aplicam a expressão “balde de água fria”. Custa muito, mas passa depressa. Nestas eleições, penso que deverá ter sido isto que aconteceu ao líder doCDS-PP.
O pior mesmo é quando as expectativas são baixas. Nesse caso, este período, entre o colocar a armadilha e ir ver a caça, pode ser acompanhado de uma angústia terrível. Talvez tenha sido assim que sentiu a líder do PSD. Se eu estivesse no lugar dela, penso que ficaria com uma úlcera apenas por olhar para o relógio e ver o tempo passar entre zero horas de Sábado e as 19 horas de domingo.
Sabendo que este período de desconhecimento e impotência custa tanto, o melhor mesmo é fazer um bom trabalho prévio. Apenas desta forma é possível garantir que, mesmo que se apanhe uma desilusão, a dor passará mais depressa. 

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

O meu manifesto


Foto de Campanha do Partido Socialista na Ilha do Faial.
Foto: F. Cardigos.

Sou de esquerda desde que me lembro. A memória mais antiga que consigo datar é a do dia primeiro de maio de 1974. A manifestação de Lisboa, a esperança misturada com o caos e as cores garridas dos cravos fixaram-se indelevelmente na minha mente. Com o tempo, fui sentindo que, para mim, mais importante do que privilegiar o sucesso individual, eram os valores como a solidariedade e a fraternidade. Em suma, para mim, a direita não é uma opção, embora respeite os meus muitos amigos que preferem esses caminhos.
Outra das paixões que me motiva é o mar. Adoro a água salgada, a geologia que a suporta e, principalmente, vida que contém. Mais do que outros mares, gosto do mar dos Açores. Gosto do esverdeado com que a água fica no meio da Primavera, e tenho dúvidas que possa haver muitas coisas melhores do que o azul transparente das águas açorianas durante o Verão. Tal como raras pessoas, um dos meus passatempos é ver fotografias de animais marinhos, tentando adivinhar os seus nomes e dissertar sobre as suas características. Ultimamente, tenho-me ocupado também na tentativa de encontrar novas formas de utilização sustentável do nosso oceano.
Portanto, um partido que queira o meu voto tem de unir valores de esquerda às preocupações com o domínio marinho. Parece-me claro que apenas um dos concorrentes às presentes eleições regionais une de forma perfeita as duas condicionantes. O candidato Vasco Cordeiro tem defendido ferreamente o nosso mar. Agrada-me!
Para além disto, como muitos saberão, trabalho no Governo Regional e sinto-me ligado a alguns dos resultados obtidos nos últimos anos. Claro que não sou responsável por nada de especial, mas vou ajudando…
Sendo coerente com a estrutura ideológica e estratégica, estando satisfeito com os resultados anteriores e sendo solidário com os objetivos futuros, envolvi-me naturalmente na presente campanha eleitoral. Nas diferentes ações fui descobrindo um Faial que não é tão sorridente como poderíamos esperar olhando ao de leve. A convite dos seus locatários, entrei em algumas casas que transparecem necessidades evidentes. A vida não é fácil para todos e isso apenas reforça a importância das opções de esquerda.
Ao mesmo tempo, fui descobrindo o lado humano desta lista candidata pelo Partido Socialista. Tenho a partilhar que foi uma muito agradável surpresa. Não vi qualquer individualismo, tirando o inerente aos momentos mais galvanizados ou o necessário para dar ênfase aos elementos que têm maior probabilidade de ser eleitos e, portanto, com maior responsabilidade.
Para além dos diretamente interessados, os candidatos, o Partido Socialista tem a sorte de ter uma equipa paralela de gente abnegada e interessada. Estes entusiastas, cada um de sua forma, aparecem e trabalham! Gostei muito do que vi.
A escolha responsável exige ler os manifestos das diversas forças políticas concorrentes. Tenho a certeza que, quem o fizer, encontrará uma clara diferença entre os diferentes partidos, o que facilitará a escolha de dia 14.
Ao contrário de outras eleições, em que muitas vezes tive uma sensação de opção pelo mal menor, este ano estou harmonicamente convencido que o Partido Socialista não tem apenas o melhor candidato a Presidente; O Partido Socialista tem também a melhor lista de ilha e os melhores manifestos. Dada a diferenciação pela positiva, até para que nas próximas eleições os partidos concorrentes tenham maior cuidado e empenho, temos agora a oportunidade de dar uma grande vitória à esquerda moderada dos Açores.
Claro que este é o meu manifesto, mas independentemente de em quem votar, vote! A democracia exige participação e essa começa em si!