terça-feira, 20 de novembro de 2012

Cagarros já saíram da nossa gastronomia


Cagarro, Calonectris diomedea borealis.
Foto: PH SilvaSIARAM

Respostas a entrevista ao Diário Insular. O título é da responsabilidade do jornal.


Cagarros já saíram da nossa gastronomia

Frederico cardigos, diretor regional dos assuntos do Mar

1 – A campanha SOS Cagarro recolheu este ano menos cagarros do que é hábito. Os cidadãos, que costumam acompanhar com interesse essas aves, questionam-se sobre as causas. Já há algumas ideias?
Há menos cagarros. O problema não é novo e ninguém sabe qual a sua motivação ou como o debelar. No entanto, este decréscimo é lento e, a curto ou médio prazo, não coloca em perigo a espécie desde que, curiosamente, se mantenha a “Campanha SOS Cagarro”. O número de aves salvas todos os anos pelos açorianos, seja maior ou menor, é crucial para a sobrevivência da espécie.
O que se passou este ano foi um decréscimo muito acentuado no número de aves nidificantes. Para este decréscimo, aponta-se a possibilidade de ter havido menos alimento. Sendo esta uma espécie muitíssimo bem adaptada, a melhor forma de garantir que o casal reprodutor não se esgota com uma tentativa de nidificação inconsequente, dada a escassez de alimento, é passar para o ano seguinte.
No entanto, segundo os cientistas, as poucas aves que se reproduziram fizeram-no com sucesso. Isso faz com que a pergunta se mantenha. Onde estão as aves que deveriam ter sido salvas? A resposta parece estar nas boas condições atmosféricas que se fizeram sentir nos dias de mais saídas dos ninhos e na enorme redução de luminosidade consequente à própria Campanha e às medidas de contenção energética. Os cagarros, na sua maioria, puderam sair dos ninhos e partir imediatamente em segurança para a sua viagem transatlântica.

2 – Com a persistente falta de alimentos, como é aparente, haverá alguma possibilidade de alteração das rotas de migração dos cagarros, excluindo os Açores?
Não temos dados que apontem para um decréscimo de alimento a longo prazo a influenciar negativamente e em particular os Açores. Este, até prova em contrário, foi um fenómeno pontual. Para além disso, os cagarros nidificam no mesmo local ano após ano. Isso significa que estes animais são açorianos, aconteça o que acontecer.

3 – Os cagarros têm tido muito protagonismo nos Açores, pelo menos nos últimos anos. Isso pode ser bom e mau. Qual o balanço que faz e porquê?
É excelente. É evidente que pode haver excessos e esses terão de ser rapidamente debelados. No entanto, recordo-me das mortandades que havia de cagarros há uns anos atrás, tanto para alimentação, como por puro vandalismo ou por acidente. Hoje é bem diferente e para muito melhor. Há milhares de pessoas empenhadas na salvaguarda das aves, houve uma redução radical na iluminação pública, os cagarros já saíram da gastronomia tradicional e há outro cuidado na condução.

4 – Ver aves e “mexericar” os seus habitats é um ramo do turismo que ganha mercado à escala global. Vê nos cagarros potencial para esse negócio?
Sim. Curiosamente, este será um tema que teremos de tratar neste Inverno. Os cagarros, como todas as aves selvagens, estão protegidos, mas há interesse já demonstrado por empresas privadas e associações na exploração económica dos salvamentos. Obviamente, não podemos recusar a ajuda e, também, devemos dinamizar a economia. No entanto, terão de ser desenvolvidas regras, talvez incluindo o acompanhamento por Vigilantes da Natureza, garantindo que não se irão “salvar” cagarros ao ninho…

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Derrocada!


Ilhéus que resultaram da derrocada na costa noroeste da ilha do Corvo.
Foto: F Cardigos - SIARAM.

Na última quinta-feira recebi um telefonema da ilha do Corvo que era, no mínimo, preocupante. Depois de informado que havia algo por trás da ilha que não se movia, “parecia um navio encalhado”, o meu interlocutor disse-me que estava tão escondido “atrás da terra” que os próprios corvinos não conseguiram perceber inicialmente do que se tratava. “Foram os florentinos que, com melhor ângulo, nos avisaram”. Ele, que tinha acabado de ir às terras altas verificar, disse-me “temos ilhéus novos no Corvo!”
Por sorte, fui designado para ir ao Corvo verificar no local qual o evoluir inicial pós derrocada. Também por sorte, o comandante e copiloto do avião que me transportou ao Corvo fizeram uma boa aproximação ao local do evento permitindo, desde logo, obter bons registos fotográficos. Um simples olhar para as fotografias de 2010, data da última derrocada digna de registo, e os registos agora obtidos ficou evidente o que tinha acontecido. Mais pesada por causa das intensas chuvas e ventos fortes do início da semana, uma massa com cerca de 150 mil toneladas havia deslizado pela encosta noroeste da ilha do Corvo, projetando-se mar dentro e formando um conjunto de ilhéus dispostos em semicírculo.
Restava uma pergunta. Como é que esta enorme massa geológica se pode deslocar sem que ninguém notasse? A resposta parece jazer nas condições meteorológicas que se verificavam no próprio dia do evento. Durante um período bem definido, para além da precipitação e dos ventos fortes, associou-se uma enorme trovoada. Quem sabe se um daqueles trovões, na realidade, não foi este deslocamento? Não podemos ter a certeza da resposta, mas isso constituiria uma boa explicação.
Estava agora no Corvo. Aproveitando a deslocação da lancha da Marinha colocada na ilha das Flores aos novos ilhéus, embarquei e, nas imediações dos ilhéus, verifiquei pela sonda como se distribuía a mancha de sedimentos em profundidade. Nitidamente, cerca da batimétrica dos vinte metros havia um abrupto salto para a dúzia de metros. Era ali que começava a plataforma dos novos ilhéus. O estado do mar não estava propício e, por isso, não foi possível desembarcar. De qualquer forma, no dia anterior, já um residente no Corvo lá havia ido “reclamar” as novas terras. Ali está o mais recente território açoriano. Ali, à minha frente, começa Portugal!
No domingo, aproveitando o bom tempo, e não podendo fazer o que realmente me apetecia, que era desembarcar na Ilha Nova, resolvi atravessar o Caldeirão e ir até ao ponto sobrejacente à derrocada. Não sei o que era mais intenso: o cansaço do trajeto até ao local, a instabilidade do topo da arriba (sentia o reverberar dos meus próprios passos…), o ouvir de permanentes pequenos deslizamentos de terras sobre a encosta externa ao Caldeirão ou a deslumbrante paisagem que me rodeava por todos os lados. No final, a quem me perguntou, respondi “Vale a pena, recomendo e desaconselho…” Com esta forma contraditória tentei transmitir o que sentia, ou seja, apesar de perigosíssimo, não trocava aquele passeio por nada.
Há, na vida, muitas coisas assim, que associam o perigo extremo ao enorme prazer. Ao estar ali, numa arriba com quinhentos metros de altura, penso ter entendido o que sentem os “conquistadores do inútil”. Porquê subir ao topo de uma montanha ou mergulhar às profundezas do oceano? A resposta apenas a entende quem já lá foi. No domingo eu estive novamente num desses sítios! 

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Rescaldo


Momento da campanha eleitoral para as Eleições Regionais de 2012.
Foto: F Cardigos.

Alea jacta est”, rezam as crónicas que assim exclamou JúlioCésar depois de ter tomado a decisão de afrontar o Senado Romano e, eventualmente, sair vitorioso. As suas legiões atravessavam o rio Rubicão desafiando Pompeu. “Os dados estão lançados”, resta verificar o resultado.
Lembrei-me desta expressão a meio da noite entre sexta-feira e sábado, depois de ter terminado a campanha eleitoral. Restava então esperar até domingo e verificar o resultado das eleições. Entre a enorme derrota que era apontada pelas alegadas sondagens iniciais para a ilha do Faial e a sensação de trabalho bem feito que fomos tendo durante a campanha, tudo era possível. Esperar…
Ao ver o resultado eleitoral, tive dificuldade em digerir tanto contentamento. Primeiro a vitória nos Açores, depois a vitória no Faial e, finalmente, a maioria absoluta. Tudo nos correu bem. Penso que este foi um bom resultado para os Açores e mesmo para Portugal, mas os próximos anos o dirão.
Voltando um pouco atrás…
Quando teriam Vasco Cordeiro ou Carlos César dito para si próprios “alea jacta est”? Quando é que Vasco Cordeiro terá olhado para os colaboradores de campanha e dito “fizemos o que estava ao nosso alcance, aguardemos”? Quando se reclinou Carlos César na sua cadeira e descomprimiu dizendo para si próprio, “está feito”? Naquela sexta-feira chuvosa, terá Ana Luís conduzido para casa com um sorriso perdido entre a confiança e a angústia? Terá reunido a família e dito “agora resta esperar”? As respostas não são muito importantes.
Depois de dar a primeira tacada na bola de golf, o jogador fica a olhar para o seu movimento esperando que esta caia tão perto quanto possível do green, mas sem nada mais poder fazer. Esta sensação é comum ao estudante, depois da entrega do exame escolar até à receção da nota… O período, que medeia entre o esforço e a observação do resultado, pode ser positivo quando a expectativa é elevada e, principalmente, quando o resultado confirma as melhores expectativas. Estou em crer que foi desta forma que se sentiram Vasco Cordeiro, Carlos César e Ana Luís.
Caso não se confirmem os bons prognósticos, os portugueses aplicam a expressão “balde de água fria”. Custa muito, mas passa depressa. Nestas eleições, penso que deverá ter sido isto que aconteceu ao líder doCDS-PP.
O pior mesmo é quando as expectativas são baixas. Nesse caso, este período, entre o colocar a armadilha e ir ver a caça, pode ser acompanhado de uma angústia terrível. Talvez tenha sido assim que sentiu a líder do PSD. Se eu estivesse no lugar dela, penso que ficaria com uma úlcera apenas por olhar para o relógio e ver o tempo passar entre zero horas de Sábado e as 19 horas de domingo.
Sabendo que este período de desconhecimento e impotência custa tanto, o melhor mesmo é fazer um bom trabalho prévio. Apenas desta forma é possível garantir que, mesmo que se apanhe uma desilusão, a dor passará mais depressa.