sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Fragilidades


Nascer do Sol por trás da ilha do Pico.
Foto: F Cardigos SIARAM.

Quando o telemóvel tocou, senti um ligeiro sobressalto. Apesar de não ser invulgar, nem todos os dias recebo uma mensagem SMS depois das 10 da noite. Apressei-me a ler. Do outro lado do planeta, alguém escrevia: “Esta tudo bem em Ushuaia”. A minha mãe fazia um telegráfico ponto de situação da sua viagem pelo sul da América do Sul.
Preocupa-me deveras a qualidade de vida das pessoas que, depois de terem contribuído ativamente para criar as suas famílias e para o bem-estar económico da sociedade, se reformam. Ao ver certas situações de abandono ou miséria, fico imensamente preocupado, até por isso ser uma enorme injustiça. As pessoas de idade avançada são das mais frágeis e das menos salvaguardadas.
Os meus pais tiveram sorte e a organização que fizeram da sua vida permite-lhes não terem grandes preocupações financeiras. Apesar disso, tendo consciência que nem todos têm essa felicidade, gostaria de contribuir de forma mais premente para que todos pudessem usufruir do mesmo bem. Mas como o fazer?
Foi com o intuito de dar algumas respostas sobre o envelhecimento com qualidade que a Câmara Municipal da Horta, com o apoio do Governo dos Açores, organizou o “Fórum Cidadãos Ativos e Solidários”. Nele, tive a oportunidade de ouvir a comunicação da Professora Maria de Lourdes Quaresma que registei por ser extraordinariamente informativa e concludente. Entre muitos outros detalhes, fiquei a matutar numa frase em particular: “a esperança de vida irá aumentar, mas, a qualidade de vida dos últimos anos pode diminuir”. Ou seja, os avanços médicos têm permitido viver mais tempo, mas os últimos anos são de extraordinária dependência e, algumas vezes, de grande sofrimento. Aquele período que medeia entre o início da degradação da saúde e o falecimento, que antes era relativamente rápido, hoje prolongou-se severamente.
Portanto, o desafio é tentar encontrar as soluções para que o aumento da esperança de vida não aniquile a qualidade de vida dos nossos dias finais. Isso apenas será conseguido com o empenho da sociedade, com os avanços tecnológicos, especialmente na área da saúde, e com um esforço por parte de cada um, contribuindo para a sua educação permanente.
Não há dúvida que um idoso que esteja familiarizado com as novas tecnologias da informação e comunicação, perante uma eventual situação de imobilidade, terá uma grande probabilidade de se manter incluído socialmente. Obviamente, isso apenas acontecerá se conseguirmos coletivamente criar condições de conforto que permitam esse enquadramento económico e social.
Tendo tudo isto em consideração, fico muito contente por estar numa ilha em que a sociedade pensa e reflete em conjunto sobre esta temática e que consegue gerar abnegadas soluções como é, por exemplo, a Universidade Sénior. Com gastos mínimos, para não dizer nulos, os menos idosos vão partilhando o que sabem com os restantes, garantido que estão a par das novas tendências tecnológicas e outras temáticas mais modernas. Estas e outras iniciativas fazem-me ter orgulho em ser faialense!

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Menos cagarros salvos, será isso mau?


Cargarros, Calonectris diomedea borealis.
Foto: PH Silva SIARAM

Este ano salvaram-se 1987 aves durante a “Campanha SOSCagarro 2012”. Esse número faz decrescer em mais de mil animais a cifra atingida no ano passado. A primeira assunção é que isso seria mau. Se foram salvos menos aves é porque houve menor empenho na Campanha ou, em alternativa, menos cagarros.
Analisemos.
Este ano participaram na Campanha quatro mil e seiscentas pessoas e, no ano passado, quatro mil e setecentas. Não é um decréscimo significativo, logo, não nos parece que isso seja propriamente mau. Reforçando a ideia de que o empenho não se reduziu, atente-se para o aumento em 47% nas instituições participantes. Fantástico!
Portanto, se não houve redução do empenho, talvez tenha havido uma diminuição do número de aves. Realmente, verificou-se uma diminuição do número de casais nidificantes em cerca de um terço. Os dados são do Departamento de Oceanografia e Pescas da Universidade dos Açores e da SociedadePortuguesa para o Estudo das Aves. Na verdade, nem precisávamos dessas indicações. A maioria dos açorianos sentiu que este ano houve menos cagarros em terra. Diversas pessoas, incluindo eu próprio, sentiram a diminuição daqueles grasnares que é impossível descrever por letras ou, muito menos, por palavras.
Paradoxalmente, apesar de ser preocupante e merecer um estudo profundo (e, eventualmente, incremento nas ações de preservação), esta redução de aves nidificantes não se deveria ter refletido na redução de salvamentos. É que, segundo os cientistas, a redução na nidificação foi contrabalançada por um aumento muito significativo no sucesso reprodutivo. Ou seja, as poucas aves que nidificaram fizeram-no com enorme eficiência. Então… Onde andam essas aves?
Pensámos no assunto… coligimos informação… e chegámos à conclusão que, provavelmente, houve dois fatores a retirar os cagarros das zonas de salvamento. Em primeiro lugar, as excelentes condições meteorológicas nos dias em que houve mais aves a sair dos ninhos. Essas condições permitiram que as aves voassem imediatamente para o mar, sem serem atraídas por terra. Para além disso, houve uma enorme redução na iluminação pública. Neste caso, a crise veio reforçar as medidas de economia de energia e isso retirou luz das ruas. Os jovens cagarros agradecem!
Portanto, se, por um lado, tivemos menos aves a nidificar nos Açores e isso necessita de reflexão profunda e ação consequente, por outro lado, a redução do número de salvamentos não é consequência de uma diminuição no empenho na salvaguarda destas aves marinhas.
Há, no entanto, um outro número que exige também atenção. Houve um aumento percentual de animais mortos nas estradas. No ano passado esse número era de 7% das aves caídas e, este ano, subiu para 9%. Certas estradas, principalmente em São Jorge e no Pico, são autênticas ratoeiras para os jovens cagarros. No próximo ano, ter-se-á de equacionar o reforço da sensibilização e mesmo a imposição de limites de velocidade. É apenas por uns dias e em troços que não têm mais de um quilómetro. No entanto, para os cagarros pode ser a diferença entre a vida e a morte. Um assunto a pensar no futuro próximo com alguma atenção.
É fantástico que tanta gente adira anualmente e de forma voluntária e organizada à “Campanha SOS Cagarro”. Estou em crer que esta é a maior ação conservação da natureza de cariz regular de Portugal. Para uma Campanha que já leva duas dezenas de anos de existência, é digno do nosso orgulho coletivo.

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Cagarros já saíram da nossa gastronomia


Cagarro, Calonectris diomedea borealis.
Foto: PH SilvaSIARAM

Respostas a entrevista ao Diário Insular. O título é da responsabilidade do jornal.


Cagarros já saíram da nossa gastronomia

Frederico cardigos, diretor regional dos assuntos do Mar

1 – A campanha SOS Cagarro recolheu este ano menos cagarros do que é hábito. Os cidadãos, que costumam acompanhar com interesse essas aves, questionam-se sobre as causas. Já há algumas ideias?
Há menos cagarros. O problema não é novo e ninguém sabe qual a sua motivação ou como o debelar. No entanto, este decréscimo é lento e, a curto ou médio prazo, não coloca em perigo a espécie desde que, curiosamente, se mantenha a “Campanha SOS Cagarro”. O número de aves salvas todos os anos pelos açorianos, seja maior ou menor, é crucial para a sobrevivência da espécie.
O que se passou este ano foi um decréscimo muito acentuado no número de aves nidificantes. Para este decréscimo, aponta-se a possibilidade de ter havido menos alimento. Sendo esta uma espécie muitíssimo bem adaptada, a melhor forma de garantir que o casal reprodutor não se esgota com uma tentativa de nidificação inconsequente, dada a escassez de alimento, é passar para o ano seguinte.
No entanto, segundo os cientistas, as poucas aves que se reproduziram fizeram-no com sucesso. Isso faz com que a pergunta se mantenha. Onde estão as aves que deveriam ter sido salvas? A resposta parece estar nas boas condições atmosféricas que se fizeram sentir nos dias de mais saídas dos ninhos e na enorme redução de luminosidade consequente à própria Campanha e às medidas de contenção energética. Os cagarros, na sua maioria, puderam sair dos ninhos e partir imediatamente em segurança para a sua viagem transatlântica.

2 – Com a persistente falta de alimentos, como é aparente, haverá alguma possibilidade de alteração das rotas de migração dos cagarros, excluindo os Açores?
Não temos dados que apontem para um decréscimo de alimento a longo prazo a influenciar negativamente e em particular os Açores. Este, até prova em contrário, foi um fenómeno pontual. Para além disso, os cagarros nidificam no mesmo local ano após ano. Isso significa que estes animais são açorianos, aconteça o que acontecer.

3 – Os cagarros têm tido muito protagonismo nos Açores, pelo menos nos últimos anos. Isso pode ser bom e mau. Qual o balanço que faz e porquê?
É excelente. É evidente que pode haver excessos e esses terão de ser rapidamente debelados. No entanto, recordo-me das mortandades que havia de cagarros há uns anos atrás, tanto para alimentação, como por puro vandalismo ou por acidente. Hoje é bem diferente e para muito melhor. Há milhares de pessoas empenhadas na salvaguarda das aves, houve uma redução radical na iluminação pública, os cagarros já saíram da gastronomia tradicional e há outro cuidado na condução.

4 – Ver aves e “mexericar” os seus habitats é um ramo do turismo que ganha mercado à escala global. Vê nos cagarros potencial para esse negócio?
Sim. Curiosamente, este será um tema que teremos de tratar neste Inverno. Os cagarros, como todas as aves selvagens, estão protegidos, mas há interesse já demonstrado por empresas privadas e associações na exploração económica dos salvamentos. Obviamente, não podemos recusar a ajuda e, também, devemos dinamizar a economia. No entanto, terão de ser desenvolvidas regras, talvez incluindo o acompanhamento por Vigilantes da Natureza, garantindo que não se irão “salvar” cagarros ao ninho…