sexta-feira, 8 de março de 2013

Açores Oceânicos num Portugal de Mar


Polvo espreitando nas Caldeirinhas da Ilha do Faial.

Teve início no dia 1 de Março a consulta pública sobre a nova Estratégia Nacional para o Mar. Este documento pretende substituir a anterior estratégia, atualizando-a à luz dos novos desenvolvimentos e, essencialmente, desbravar os caminhos necessários para que Portugal regresse de facto ao Mar. Os redatores da proposta de Estratégia apostaram num caminho de utilidade económica, mas tendo em atenção as limitações ambientais e oportunidades sociais. Assim, conhecimento, emprego e retorno financeiro, talvez não por esta ordem, são os motes que dão corpo aos vários volumes que se propõem consubstanciar o documento que servirá para justificar as opções que Portugal tomará.
O primeiro volume é a Estratégia em si. Nele é feito um apanhado histórico recente da relação de Portugal com o Mar e, servindo-se dele, esboçam-se os valores e os objetivos que devem nortear e inspirar o retorno do nosso país à conquista do Mar que é seu.
O segundo volume, ou primeiro anexo, desta Estratégia, com inspiração no documento “Hypercluster da Economia do Mar”, preparado pelo grupo SAER do saudoso Professor Ernâni Lopes, tenta contextualizar a Estratégia Nacional para o Mar na economia global e nacional. A utilização de imagens simples, como “ventos” e “correntes”, “favoráveis” ou “desfavoráveis”, ajudam a simplificar conceitos mais complexos.
O Plano Mar-Portugal aparece no terceiro volume, ou segundo anexo. Sinceramente, desaconselho a leitura detalhada deste volume. Trata-se de um esotérico exercício metodológico que tenta expor como se encaixam as fichas do anexo seguinte. Essas sim, são importantes e, na realidade, dispensam bem esta introdução. Entendo a necessidade do redator, de explicar claramente a metodologia, mas, penso que, para o comum dos interessados, este capítulo é dispensável.
As fichas de ação aparecem então como um extenso documento associado. São mais de quatrocentas páginas em que estabelecem as ações que deverão ser executadas nos próximos anos e que se relacionam com o mar. Estas fichas pretendem-se dinâmicas, mas aglutinadoras e responsabilizadoras das entidades envolvidas. Com um certo sarcasmo, poder-se-ia dizer que sabem a plano quinquenal do Partido Comunista Soviético, dado o nível de detalhe e falta de maleabilidade. Ao contrário, se quisermos ser positivos e otimistas, como prefiro, este é um subdocumento que poderá servir para medir exatamente o nível de execução do Plano, atribuir responsabilidades e incentivar a ação coordenada dos parceiros identificados. Também, claramente, até pela crítica tecida atrás, é impossível que alguma vez seja um capítulo fechado. Especialmente nestas fichas, espera-se dinâmica e ela terá de começar já na Consulta Pública.
Este documento está bem escrito e é um bom ponto de partida para uma discussão pública alargada. É pena que o Plano Mar-Portugal e as fichas de projeto tenham também sido  submetidas a consulta. A discussão pública de um documento com mais de 600 páginas fica de imediato sob a pressão de poder não ser muito eficiente, apesar do longo período para o fazer (3 meses).
Na minha perspetiva pessoal, gostaria de ver incluído um capítulo sobre os aspectos de organização interna no seio do Estado, em que ficassem claras as competências das regiões autónomas de Portugal. Este não é um tema despiciente e identificaria as responsabilidades e compromissos com a utilização do mar para cada uma das ilhas dos Açores e da Madeira.
Há detalhes, como a referência ao código genético dos portugueses, que me parecem deslocados. Agora, eu e quem quiser teremos a oportunidade de, enquanto cidadãos interessados, nos expressarmos por escrito sobre estes e outros detalhes da nova Estratégia.
O formulário que pretende simplificar as intervenções e a sua posterior análise está disponível na internet, ao alcance de todos, e é acessível, por exemplo, no Portal do Governo dos Açores, através da página da Direção Regional dos Assuntos do Mar (mar.srrn.azores.gov.pt).
Resta saber se o oceano que nos rodeira é realmente importante para os açorianos. Estou em crer que sim, mas este é mais um momento em que as palavras, as intenções e os sonhos não são suficientes. É necessário opinar e por escrito, nem que seja em simples concordância, mas temos que demonstrar que a Estratégia Nacional para o Mar é importante para Portugal e determinante para os Açores.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

As pontes de Mostar



A ponte mais conhecida de Mostar, na Bósnia- Herzegovina, e uma das mais conhecidas do mundo dá pelo nome de Stari Most. É lindíssima! Foi construída há muito tempo a mando de um Sultão do Islão e, para além de ligar duas partes daquela cidade, tradicionalmente ligava as duas culturas dos dois lados do rio.
No início dos anos 90, antecipando a divisão da Jugoslávia, ocorreu uma horrível guerra entre os principais grupos étnicos que ali viviam. Entre as então regiões, houve as que entraram na guerra porque tinham medo de ser invadidas, as que entraram porque estavam a ser invadidas por esses mesmos vizinhos e as que, fruto da sua ambição, instigaram tudo isso. O que aconteceu é tão triste que, embora a sua descrição não caiba neste artigo, tem que aqui ser referido como um dos momentos mais baixos da história da humanidade.
Caminhando hoje por cidades como Dubrovnik, na Croácia, custa a crer que aquelas simpáticas pessoas odiassem tanto os conterrâneos que encetassem uma guerra civil sem tréguas e, quanto a mim, sem nexo. Perseguir uma pessoa porque ela não crê no mesmo Deus ou porque não fala a mesma língua é, para mim, absolutamente impensável. Antes pelo contrário, tenho uma curiosa atração por quem não concorda comigo. É fascinante ouvir a argumentação daqueles que pensam de forma diferente. Eu dou entusiásticas vivas à diferença!
Em Mostar, mesmo com a guerra no seu auge, as pessoas insistiam em encontrar-se na Stari Most. Por forma a instigar ódios, os beligerantes resolveram colocar soldados escondidos e equipados para atirar sobre aqueles que insistiam em ser livres e comunicar. Assim, estes snipers mataram dezenas de pessoas que tentavam passar de um lado para o outro da cidade dividida.
Contaram-me que um jovem casal dos lados opostos se enamorou nesse período. Apesar de conhecerem o perigo, como o amor falava mais alto, insistiram em se encontrar na ponte e acabaram por ser cobardemente alvejados. Uma autêntica história de Romeu e Julieta dos tempos modernos, mas com protagonistas demasiado reais para podermos apreciar a história. Também o pai de um deles, que apenas tentava recuperar os corpos, foi alvejado e morto. Durante um longo período, as pessoas tentaram passar. Muitas morreram e outras ficaram feridas, até que uma das artilharias resolveu destruir um dos símbolos da união entre os povos dos Balcãs.
Tendo este altíssimo valor simbólico, não admira que a primeira obra que as Nações Unidas financiaram no final da guerra tenha sido a reconstrução da Stari Most, quando possível com as pedras originais e utilizando os métodos de construção do século XVI. Em Julho de 2006 a ponte reabriu ao público e está lindíssima.
Eu gosto das pontes de Mostar e em especial da Stari Most. Para mim, ela simboliza o prevalecer do bem sobre o mal. Significa que, para a maioria dos seres humanos, mais do que os períodos de incompreensível devaneio, o importante é a civilização, o entendimento e o progresso assente em valores positivos e fraternos. 

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Caça Submarina


É-me difícil contemplar um animal vivo e, depois, tirar-lhe a vida.
Dasyatis pastinaca, ratão, fotografado no Recife Dollabarat.
Foto: F Cardigos SIARAM.

Era ainda um jovem quando me vi nesta situação. Na ilha do Corvo, eu e uns amigos tínhamos decidido ir fazer caça-submarina. Entrámos na Praia da Areia e nadámos para norte. Quando estávamos precisamente numa zona chamada Cabeço do Xavier, hoje classificada como Rede Natura 2000, um lírio com 4 ou cinco quilos aproximou-se de mim. Para mim, jovem citadino, aquele era o maior peixe! Hoje sei que os lírios podem ter até cerca de 50 quilos. Aquele estava, portanto, longe de ser um grande exemplar, mas, naquele momento era mesmo “o peixe!” pai e avô de todos os outros peixes.
Olhei para os meus colegas de caça e eles, a pouca distância, esbracejavam indicando claramente que eu devia disparar. A arma tinha os elásticos esticados e eu podia disparar a qualquer momento. Nem tive que mergulhar. Bastou apontar a arma e carregar no gatilho. O peixe arpoado partiu o cabo e caiu para o fundo nadando naquela que para si seria a derradeira espiral.
Antes de o ir recolher, detive-me a olhar para o peixe cuja curiosidade tinha sido por mim compensada com a sua morte. Senti-me mal. Continuei a fazer companhia aos meus colegas de mergulho, mas aquela seria para mim a última vez que caçaria por prazer.
Depois disso, por razões profissionais, tive que “fixar” (termo chique que os cientistas usam para dizer “matar”) muitos animais e plantas. Também, para alimentação, fiz mais uma vez ou outra caça-submarina. Não me dá qualquer prazer e, cada vez que o faço, interrogo-me se é realmente necessário retirar a vida daquele organismo em particular.
De um modo mais geral, hoje, pragmaticamente, entendo que a caça-submarina é um desporto exigente e compensador. Dado o tempo que se passa dentro de água, a caça permite uma boa adaptação ao meio e o estudo detalhado do comportamento animal. Ao mesmo tempo, não entendo como há pessoas que são capazes de desrespeitar a lei, nomeadamente, apanhando mais animais do que a lei permite, desrespeitando as espécies protegidas ou caçando em zonas classificadas por razões de conservação da natureza. Nutro, portanto, uma relação de amor-ódio por esta atividade.
Para se poder caçar é necessário ter mais de 16 anos, uma licença em dia e válida para o local em causa e equipamento de sinalização (para não ser atropelado por uma qualquer embarcação). Reforçando a necessidade de segurança do caçador, é necessário ter em atenção que, em caso de acidente, haverá, eventualmente, outras pessoas envolvidas no salvamento e, algumas delas, poderão também arriscar a sua própria vida. O meu conselho é que os interessados na atividade leiam alguma literatura sobre a temática e frequentem os clubes navais. Mesmo que não haja cursos formais de caça ou apneia, os clubes são excelentes polos para aprender as regras e as manhas desta interessantíssima atividade.
Ao crepúsculo, num qualquer recanto costeiro dos Açores, é possível sentir o cheiro de uma veja grelhada ao ar livre. O adivinhar do sabor e a antecipação da companhia é das boas memórias que um dia levaremos desta vida… e tudo pode ter começado numa bela tarde de caça-submarina.