sexta-feira, 12 de julho de 2013

Estação Molhada

Azáfama dos preparativos para a partida da
III Travessia do Canal Faial-Pico em embarcações de materiais reutilizados.
Foto: F Cardigos

Desde que me lembro que os anos, para mim, se dividem em duas partes. Sim, eu sei que para a maioria das pessoas têm quatro (as Estações do Ano), mas eu sou mais simples e, portanto, para mim, há apenas duas: a estação seca e a estação molhada. Na estação seca há tempestades, o mar está revolto, faz frio e não podemos ir para o mar. A estação molhada é quando podemos interagir com o gigante azul!
Porque este ano o verão chegou mais tarde, a minha estação seca (alusão à “lei seca”, porque o meu vício é o mar) foi longa. Já nem sabia se sabia nadar em água salgada… Felizmente, neste final de semana, tudo mudou.
Fui convidado pela APEDA para colaborar com a organização da III grande travessia do Canal Faial-Pico em embarcações construídas em materiais reutilizados. Apesar dos poucos concorrentes, foi mais um evento coroado de sucesso. As três equipas vencedoras estiveram em bom plano, revelando imaginação, empenho e sentido ambientalista. Para mim, pessoalmente, este evento marcou o início da estação molhada. A roupa salgada e um irresponsável escaldão na cara são as provas da mudança.
No dia seguinte, graças à solidariedade de um colega e à colaboração de uma das empresas de cima do cais da Horta, que rapidamente conseguiu disponibilizar duas garrafas de mergulho, pude consumar o ato e submergir. Agora sei, os peixes continuam ao largo de Castelo Branco do Faial, como pude verificar em detalhe. Havia alguma ondulação e a correspondente suspensão, mas foi maravilhoso.
Depois de devidamente motivado pelo Sr. Mário Frayão, com quem fiz uma visita de reconhecimento prévia, ao final da tarde, corri até ao topo do Monte Carneiro e fiquei deslumbrado com a vista. Parabéns à Junta de Freguesia da Matriz e parabéns à Câmara Municipal da Horta pela intervenção. É um espaço que nos esmaga pela beleza da vista e não é beliscado, tal a simplicidade e a oportunidade da intervenção. É dos melhores miradouros em que já estive.
Agora, ao final do terceiro dia da estação molhada, estou a escrever rapidamente este artigo, até para não irritar a editora-chefe deste jornal, e a preparar o equipamento para partir em direção ao Banco D. João de Castro. Este sítio classificado como Rede Natura 2000, como Área Marinha Protegida através da Convenção OSPAR e como Reserva Natural do Parque Marinho dos Açores, caso tudo corra conforme planeado, talvez permita a nossa visita já amanhã.
O Banco D. João de Castro é o único sítio em que já tive de cancelar operações subaquáticas porque os meus colaboradores (eu não…) não se conseguiam concentrar, tal o nível de deslumbramento. Entre jamantas, cardumes infindáveis de diversas espécies de pequenos pelágicos e o vulcanismo ativo, tudo contribuiu nesse momento para pouco ou nada fazermos. Era, de facto, bom demais. Amanhã, muito limitados pelo tempo, teremos de nos abstrair do que nos rodear e efetuar os trabalhos de monitorização e recolhas que estão definidos.

E assim passa comprovadamente mais um ano. O ciclo completa-se e repete-se. O colorido é todo o inesperado que preenche o tempo e o mar, associado ao saber que se acumula, e é mais um conjunto de magníficas experiências e estórias que contaremos a quem nos quiser ouvir.

sexta-feira, 28 de junho de 2013

Planeando o uso do mar em Malahide

Malahide, na Irlanda, é conhecida pelo seu histórico relacionamento com o mar.
Foto: F Cardigos


Estava um turista a passear na Jamaica quando percebeu que, provavelmente, já teria andado demais. Sentindo-se perdido, abeirou-se da primeira pessoa que encontrou e perguntou-lhe como poderia voltar ao povoado mais próximo. Tratava-se de um idoso de “boa onda”, com aquele olhar calmo que apenas as pessoas nas Caraíbas podem ter. Olhou para o turista, olhou para a estrada, lentamente, pensou, voltou a olhar para o turista e, depois, para a estrada. Pensou mais um pouco e, finalmente, respondeu pachorrentamente com um olhar um pouco vago e nada interessado: “Sabe, provavelmente, este não é o melhor sítio para começar…”.
Foi desta forma humorística que o chairman do workshop da Comissão Europeia sobre planeamento espacial marítimo dedicado à energia, que decorreu recentemente em Malahide, na Irlanda, começou a explicar como se podem adiar as decisões por falta de informação. No entanto, entre entidades responsáveis, esta não é a forma de proceder. Com a pouca informação disponível têm de ser tomadas decisões, incluindo a decisão de não fazer, que “é uma opção legítima e que muitas vezes os planeadores esquecem”.
Num mundo pejado de decisões que, mais do que motivadas pelas necessidades e desejos das populações, estão muitas vezes alicerçadas na vontade de obter visibilidades fáceis ou protagonismos excessivos, cada vez mais o cidadão comum exige calma, contenção e moderação. Se até há pouco tempo a fatura das “obras de regime” parecia plausível, até por haver um deficit estrutural, hoje, a generalidade das pessoas já começa a exigir saber quem é que vai pagar o investimento e quem é que vai pagar a manutenção dos novos equipamentos. É bom que assim seja e os planeadores da nova geração terão que ter isso em consideração. Não basta imaginar que um determinado equipamento ficaria bem, é necessário saber quem vai pagar, quem vai usar e quem vai manter o funcionamento. Sem estas três questões claramente respondidas e de forma justa, penso que o refrear do investimento se impõe.
Há uns dias atrás, ouvi um pensador português a afirmar que tínhamos urgentemente de passar da lógica do “consumo” para a lógica da “suficiência”. Cada um, defendia ele, tem que se perguntar a si próprio o que lhe é suficiente e lutar por isso, mas refrear a ambição de ter o carro último modelo ou o gadget da moda. “O mundo não aguenta mais consumo!”.
Em Malahide, tentaram encontrar-se soluções para localizar no mar as novas unidades de produção energética que terão de substituir as centrais nucleares alemãs e francesas. Os planeadores estão atentos, têm soluções, mas estas têm que estar associadas a uma redução efetiva no consumo de eletricidade na Europa. Estaremos prontos para o fazer?
Para terminar realço dois outros papéis que poderão, no futuro, caber particularmente aos Açores no domínio da energia, são eles o sequestro de Carbono (por captura em algas ou afundamento no mar profundo) e a produção de hidrogénio em unidades off-shore. É uma realidade distante, quem sabe uma visão ou mesmo um delírio, mas é de pensamentos arrojados e libertos, associados a planeamento e trabalho, que se constroem sociedades mais justas e avançadas.

Cada um de nós terá o seu papel neste esforço conjunto. Temos de verificar onde estão os nossos excessos e conter. Temos de verificar em que podemos contribuir e esforçar-nos. Não está ao virar da esquina, mas vem aí um admirável mundo novo e, tal como aconteceu em relação à gestão de resíduos em 2006, sinto-me honrado por estar a participar em mais esta mudança de paradigma.

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Sobre a Morte de um Tubarão

Tenho uma enorme dificuldade em entender quem, perante um extraordinário animal, tem a tentação de lhe tirar a vida em vez de o contemplar.

A 5 de Junho, em pleno Dia Mundial do Ambiente, apareceu um tubarão já de tamanho considerável no portinho da Povoação. As primeiras notícias variavam entre o divertido e o inquietante. Se uns diziam que tinha motivado grande movimentação e excitação, falando-se já no “Oceanário da Povoação”, outros referiam o interesse em tentar capturar esse animal. Inicialmente, as tentativas pareciam goradas e o animal seguia o seu caminho.
Infelizmente, passadas umas horas, os pescadores da Povoação conseguiram os seus intentos e o tubarão foi capturado, torturado (ainda vivo tiraram-lhe as barbatanas) e morto. A indignação tomou conta das redes sociais, onde este evento foi quase consensualmente censurado.
O animal em causa era um tubarão-trigre-da-areia, animal inofensivo que se alimenta de pequenos peixes e invertebrados (polvos e crustáceos). É também um animal considerado em condição Vulnerável pela União Internacional para a Conservação da Natureza.
Não havendo necessidade de licença para a pesca de costa e não estando o portinho da Povoação sobre qualquer limitação, a captura é legal. No entanto, sendo um animal selvagem, não havendo qualquer intuito alimentar e sendo uma espécie vulnerável que moralidade há neste ato?
Até hoje, que me recorde, houve quatro observações deste tubarão nos Açores. Dois animais arrojaram mortos nas praias de São Miguel, um foi morto no porto de Rabo de Peixe, faz agora um ano, e o quarto foi morto no portinho da Povoação. Quatro observações, quatro mortes. Não é um registo que nos dignifique.
A aferição sobre a evolução de uma sociedade faz-se aplicando diversas metodologias. Há quem use o número de organizações não-governamentais geradas, outros verificam qual o nível de proteção dada aos mais jovens e aos idosos e, ainda outros, usam a forma como os animais são tratados. Por uma questão de consenso, os melhores métodos integram estas três abordagens. Pelos dois primeiros pontos de vista, não há dúvida, os Açores já deram passos de gigante tendentes a tornarem-se um melhor local para todos. Em relação à terceira metodologia, como se pôde verificar, ainda há um percurso a fazer.
Na minha opinião, no entanto, há sinais de esperança e de otimismo. Ao contrário do que aconteceu há um ano atrás, em que a sociedade foi complacente com a morte do tubarão em Rabo de Peixe, este ano houve um repúdio alargado e intenso.

Temos de continuar a trabalhar no sentido de demonstrar os serviços ecológicos prestados pelos tubarões e divulgar as características que os tornam animais extraordinários. Quem conheça verdadeiramente os tubarões, dificilmente os poderá matar. É por essa razão que uma parte significativa dos restaurantes da ilha de São Miguel já retiraram da ementa os pratos que usam estes animais. Esperemos que o Dia Mundial do Ambiente de 2014 possa ficar na nossa memória por razões diferentes do que aconteceu este ano.