sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Claridade

É evidente a transparência das águas dos Açores, especialmente durante o verão.
No caso, cardume de jamantas no banco Princesa Alice.
Foto: F Cardigos ImagDOP

Ao falar com turistas que decidiram passar férias nos Açores a fazer mergulho com escafandro autónomo, notei que a escolha das nossas ilhas partia de premissas como o mergulho com tubarões, o mergulho com jamantas ou o mergulho em águas profundas, mas raramente o primeiro motivo era a evidente claridade da nossa porção do Oceano. Achei isso de uma enorme injustiça. Passo a explicar porquê.
Se vivêssemos num arquipélago de águas imensamente produtivas, em que as pescarias atingissem valores consonantes com os milhões de quilómetros quadrados de plataforma continental que nos rodeiam, teríamos rendimentos financeiros absolutamente principescos. Não acontece assim.
Nos Açores, a maioria do substrato ou do leito marinho, conforme preferirmos chamar, está a profundidades demasiado elevadas. Estas profundidades estão para lá da zona fótica (zona iluminada) e, por essa razão, as algas bentónicas, que transformam a matéria inorgânica em matéria orgânica, são escassas.
Ao mesmo tempo, as águas que circulam por entre as ilhas não são suficientemente dinâmicas para “arrancar” a matéria inorgânica do fundo e coloca-la à disposição das algas flutuantes (o fitoplâncton) para que estas colmatem o deficit de produção. Aqui, na maioria do ano, não se formam as chamadas zonas de afloramento ou ressurgência (upwelling), quando as correntes dos fundos marinhos trazem para a superfície matéria inorgânica, provocando um acréscimo significativo na produção biológica.
Resumindo, as águas dos Açores, sob o ponto de vista da oceanografia biológica, não são muito produtivas. O que não é completamente mau. Tem mesmo aspectos positivos. Um deles é que as espécies que aqui existem são diferentes, especialmente, as que se adaptaram a esta escassez de alimento, às águas profundas ou aos restantes ecossistemas extremos, em que o expoente máximo, na minha opinião, são as fontes hidrotermais.
Outro dos aspetos positivos desta quase generalizada falta de produtividade é a claridade da água. O nosso azul marinho dos Açores (o Azzurre que poderá ter dado o nome ao arquipélago), que os mais experientes marinheiros conseguem identificar imediatamente, é o resultado de águas oligotróficas (pouco produtivas). Consequência disso, a transparência da nossa porção do oceano é enorme e permite ver, fotografar e filmar, nas melhores condições, tubarões, tubarões-baleia e jamantas ou mergulhar com segurança e conforto até dezenas de metros de profundidade.
Noutros locais, sem esta claridade, os grandes organismos marinhos subaquáticos aparecem como manchas destoadas e fogem como vultos assustados. Mergulhar com escafandro em águas escuras é como submergir num elevador em que desligaram as luzes e onde temos de procurar o botão do próximo andar usando a luz do visor do telemóvel… Arrepiante… Claustrofóbico! Nos Açores é diferente e é muito melhor!
No início da primavera, quando passam nos Açores as grandes baleias, oiço as pessoas a dizer que as águas estão verdes. É verdade, estão verdes porque nos escassos períodos em que há uma sincronização entre o aumento no fotoperíodo (os dias são maiores) e a permanência na coluna de água de matéria inorgânica oriunda das águas revoltas de inverno observa-se uma explosão na quantidade de fitoplâncton e, em consequência, do zooplâncton (ou krill) de que se alimentam estes grandes cetáceos. É um pequeno período de enorme produtividade. Estou a simplificar fenómenos mais complexos, que envolvem outros fatores como um importante ramo da corrente do Golfo, mas que, basicamente, resultam nesta sincronização.
Infelizmente, é um fenómeno que nos Açores dura pouco tempo e que nem todos os anos tem a mesma intensidade e isso faz com que até as aves marinhas que aqui nidificam se desloquem milhares de quilómetros para se poderem alimentar convenientemente.

Como tudo, a claridade das águas açorianas tem aspetos positivos e negativos. Agarremo-nos aos positivos e saibamos viver com a oligotrofia das nossas águas. Temos muito a lucrar se compreendermos bem o local onde vivemos e o usarmos em consonância.

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

A Horta no Tempo dos Cabos Submarinos

Os cabos submarinos no Atlântico Norte no início do século XX.
Imagem disponível aqui

Ao contrário do que muitos eventualmente pensarão, em tempos de avançadas tecnologias espaciais uma componente muito significativa das comunicações a longa distância não é feita via satélite. Na realidade, grande parte da transmissão de informação a média e a longa distância realiza-se por cabo. Entre continentes e para os territórios isolados pelo mar, como as regiões arquipelágicas, a comunicação flui através de cabos submarinos. Nos Açores, as grandes limitações à transmissão de informação célere e de qualidade verificam-se precisamente nas ilhas que ainda não têm ligações em fibra óptica por cabo submarino, ou seja, nas Flores e no Corvo.

Dado o seu posicionamento, aproximadamente no centro do Atlântico, as ilhas dos Açores são uma peça importantíssima na transmissão de informação. São-no hoje e ainda mais o eram no final do século XIX e durante a primeira metade do século XX. Nessa época, surgiram nos Açores importantes estações das principais companhias de comunicações, algumas com empresas especificamente criadas para as operarem, caso da britânica Europe & Azores Telegraph Company. Não tendo a tecnologia avançado o suficiente para que a transmissão se fizesse de uma vez só através de todo o oceano, foi necessário criar estações que fizessem de alpondra entre o novo e o velho mundo. Com estas estações regeneradoras reforçava-se o sinal telegráfico que, de outra forma, perder-se-ia na resistência dos cabos.

A seleção dos Açores como local apropriado para a instalação das companhias terá tido várias razões que nos escapam, mas parece ter sido importante a possibilidade de evitar as avarias mecânicas que os arrastões de pesca do Atlântico mais a norte provocavam nos cabos. Os Açores constituíam assim o elo mais próximo e seguro entre a Europa e os Estados Unidos.

Ao mesmo tempo, o Governo Português facilitou o uso de uma ilha do grupo Central impondo como condição que as companhias que se aí instalassem servissem também as restantes ilhas. Desta forma, via Faial, as ilhas do Pico, São Jorge, Graciosa e Terceira passaram a usufruir de comunicações internacionais.
Já a escolha recaiu sobre a ilha do Faial por outro tipo de razões. A Horta e a sua baía, hoje classificada como uma das mais belas do mundo, eram já então reconhecidas pelo abrigo seguro para os navios que cruzavam o Atlântico Norte e pela sua posição razoavelmente equidistante dos dois lados do oceano.

Também a presença da família Dabney no Faial, que lhe reforçou a importância económica e a visibilidade internacional, parece ter sido um fator de relevo. Ironicamente, a família Dabney acabou por sair do Faial um ano antes da instalação da primeira companhia telegráfica.

Nos anos 30, a Horta chegou a ser um dos maiores centros cabográficos do mundo, dispondo de 15 amarrações de cabos aos dois continentes ribeirinhos e a Cabo Verde.

Apesar de hoje se continuar a comunicar por cabos submarinos, a automatização das comunicações e os desenvolvimentos tecnológicos tornaram obsoleta a necessidade de manter técnicos e estruturas avultadas a meio do Atlântico. Assim, o chamado Tempo dos Cabos Submarinos da Horta, que teve início em 1893 com a chegada da britânica Europe and Azores Telegraph Company, terminou em Dezembro de 1969, quando a norte-americana Cable & Wireless fechou as suas instalações. Durante este período, para além das empresas britânicas e norte-americanas, também uma companhia alemã (DAT - Deutsch-Atlantische Telegraphengesellschaft) firmou e encerrou uma robusta representação neste exíguo território. Foram deslocados para a Horta dirigentes e técnicos de Inglaterra, da Alemanha, do Canadá, da Irlanda, da Escócia, de Cabo-Verde e dos Estados Unidos da América. Deixo este último país para último porque, dados os elevados salários exigidos pelos técnicos deslocados, as companhias evitavam a contratação de cidadãos norte-americanos.

Hoje, na ilha do Faial, ainda restam memórias desses tempos. As instalações da companhia alemã DAT (hoje albergando departamentos do Governo dos Açores), o bairro residencial da Western Union Telegraph Company (hoje o Hotel Fayal) e a Trinity House (hoje a Escola Básica António José de Ávila) são, talvez, as construções mais evidentes, embora integradas num espólio de mais de uma dezena de estruturas identificadas e que fazem parte de um interessante roteiro de que se pode disfrutar na cidade da Horta.

É também de realçar a memória deixada nos clubes desportivos e nas associações culturais. O pessoal das companhias, oriundo de horizontes completamente diferentes da Horta daquele período, era escolhido pela sua competência técnica, como é evidente, mas também pela capacidade de integração num meio estranho e pelas competências ao nível desportivo e artístico. Foram estas competências que levaram à formação e ao fortalecimento dos clubes desportivos do Faial (basta ver a simbologia do Fayal Sport para compreender claramente isto). Estão também elas na origem da maior expressão musical do Faial neste período. Para além das quatro orquestras e bandas filarmónicas existentes no final do século XIX, durante o Tempo dos Cabos Submarinos, a Horta teve, pelo menos, mais cinco bandas de diferentes tipos e com constituições mistas entre empregados das companhias e pessoas oriundas da ilha.

Manuel António de Sousa Lopes (1907-2005), nascido no Mindelo em Cabo Verde, foi poeta e empregado da companhia telegráfica inglesa, tendo estado colocado no Faial de 1944 a 1959. Curiosamente, foi neste período que este fundador do movimento cultural “Claridade”, peça basilar da identidade cabo-verdiana, escreveu alguns dos seus mais importantes textos. Diz-se que as saudades de casa o estimularam a ser particularmente criativo e prolífero.

Foi através dos funcionários das companhias dos cabos que foram introduzidas, vulgarizadas ou mantidas no Faial novas tecnologias como a fotografia, o cinema, o raio X, a eletricidade e o radioamadorismo. Foram tempos fantásticos e que deram um espírito aberto aos que tiveram a felicidade de viver na cidade da Horta nesses anos.

O Tempo dos Cabos Submarinos na Horta merece ser estudado. Nesse sentido, têm sido realizados colóquios, produzida documentação e dinamizados contatos internacionais para estabelecer parcerias sobre este património comum. A motivação do mundo académico e a reabilitação do equipamento técnico depositado no Museu da cidade são também disso sinais. Sobre essa época, autores como Carlos Silveira, antigo radiotelegrafista, Yolanda Corsépius, filha de um engenheiro alemão colocado na Horta, o Professor Francis Rogers, o Doutor Ricardo Madruga da Costa, a Professora Katja Grötzner Neves, neta de um técnico alemão colocado na Horta, entre muitos outros, publicaram interessantes relatos. É importante relembrar e perpetuar esta época crucial da cidade da Horta. Para entender o “ser faialense” é essencial estudar o negócio do vinho, a presença dos Dabney na ilha do Faial, a época baleeira, as grandes guerras, o tempo dos clippers, o surgir e o fortalecer da autonomia regional e, não menos importante, o Tempo dos Cabos Submarinos.

É preciso que a memória desse tempo seja perpetuada em espaço próprio. Diversas entidades e pessoas nisso se têm empenhado. O Governo Regional, os ex-cabografistas entusiastas e simpatizantes da Horta do Tempo dos Cabos Submarinos, posteriormente organizados no Grupo dos Amigos da Horta dos Cabos Submarinos, o Arq. Martins Naia, o Professor Henrique Melo Barreiros e antigos funcionários têm feito um importante esforço para que se crie um espaço museológico que salvaguarde o espólio tecnológico dessa época no “Operating Room” da “Trinity House” e para que se reabilite o espaço urbano e os imóveis que lhe serviram de palco, ou seja, as áreas mais relevantes do traçado dos cabos desde os locais de amarração até ao seu ponto de convergência na Rua Consul Dabney. Preconiza-se a sinalização de memoriais, tendo como referência um “Roteiro do Cabo Submarino” proposto por Francis Rogers, integrando a memória das instalações da Rádio Naval. Procurar-se-á, por outro lado, estabelecer contactos com aqueles que foram os principais parceiros desta epopeia.

Ao mesmo tempo, é necessário que os atuais responsáveis pelo edifício que albergou a diretor da DAT iniciem as obras de adaptação e o ocupem. Este edifício, que faz parte do conjunto classificado como a “Colónia Alemã” e que já albergou o Conservatório Regional da Horta, está a degradar-se rapidamente. É urgente fazer-se alguma coisa.

Na cidade da Horta, no primeiro e segundo quartel do século XX, em períodos particularmente difíceis para a humanidade, transcenderam-se as fronteiras linguísticas, políticas, sociais e religiosas, num verdadeiro e harmonioso cosmopolitismo. Este passado, original em Portugal e, em certa medida, pioneiro da globalização, deve ser motivo de enorme orgulho para todos os faialenses e constitui uma luz orientadora para o caminho a seguir no futuro.

Bibliografia utilizada:
- Carlos M. Ramos da Silveira (2002) O Cabo Submarino e Outras Crónicas Faialenses. Núcleo Cultural da Horta, 184p.
- Francis M. Rogers (1983) A Horta dos Cabos Submarinos. Delegação do Turismo da Horta, 45p.
- Vários autores (2011) O Porto da Horta na História do Atlântico: O Tempo dos Cabos Submarinos. Museu da Horta e Associação dos Antigos Alunos do Liceu da Horta, 173p.
- Wikipedia (2012) Manuel Lopes. Wikipedia, a enciclopédia livre, http://pt.wikipedia.org/wiki/Manuel_Lopes
- Yolanda Corsépius (1999) Algumas Notas Sobre Aspectos Sócio-Culturais na Horta no Tempo dos Cabos Submarinos. Edição do Autor, 56p.

Agradecimentos:
São devidos agradecimentos a Yolanda Corsépius, ao Arq. Martins Naia e à Margarida Abecasis, pela análise crítica deste texto, e à Biblioteca Pública e Arquivo Regional João José da Graça, na Horta, pelo auxílio na seleção e disponibilização dos recursos bibliográficos.

Ao Grupo dos Amigos da Horta dos Cabos Submarinos, estrutura integrada na Associação dos Antigos Alunos do Liceu da Horta, um agradecimento muito especial por todo o trabalho que têm conduzido e a que se deve a dinâmica que o “Tempo dos Cabos Submarinos na Horta” tem tido nos últimos tempos.

Olhando para o futuro no Corvo:
montagem dos novos cabos submarinos que ligarão a fibra óptica do Corvo às Flores e ao Faial e Graciosa.
Imagem: FibroGlobal, disponível aqui

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Açores nos Açores?

A grande distância, os milhafres poderiam ter sido confundidos com açores?
Foto: F Cardigos

Desde sempre que me lembro de ouvir os nossos visitantes perguntar porque deram o nome de “Açores” a este arquipélago de nove ilhas. Uma resposta fácil é que alguém se terá enganado a identificar os milhafres e o nome pegou. Outros contrapõem que, naquela época, no século XV, seria impossível fazer uma confusão destas e, portanto, o erro na identificação não poderia ter acontecido. Para mais, os milhafres, dado o seu limitado raio de ação, teriam grandes dificuldades em chegar aos Açores. Pensando bem, é realmente estranho que não haja milhafres nas ilhas do grupo Ocidental. Ou seja, como explicar que estas aves tenham conseguido chegar do Continente Europeu até aqui e não tenham conseguido dar um salto, muito mais pequeno, até às Flores e ao Corvo. Se podemos explicar a sua inexistência no Corvo por ausência de uma superfície útil suficiente para o seu abrigo e alimentação, o mesmo não se aplica às Flores. Resumindo, os milhafres dos Açores podem ter sido introduzidos por mão humana já em tempos mais recentes.
Muitos defendem que o nome se deve à localidade de Açores, no continente, de onde alguns dos descobridores de Santa Maria teriam sido originários ou pela devoção de Gonçalo Velho Cabral a Nossa Senhora dos Açores. Uma outra corrente alternativa defende que os Açores devem o seu nome à expressão genovesa Azzurre, dado o tom azulado das ilhas. Apesar de não me agradar, até porque não vejo as ilhas em tons de azuis, esta teoria tem ganho adeptos de peso ultimamente.
Faço esta introdução para agora expor uma outra teoria que foi defendida por um amigo cientista. Segundo o Dr. Paulo Alexandre Monteiro, é possível que os Açores devam o seu nome aos… açores! É verdade! Há registos de escritos precoces assinalando exportação de açores para o Continente.
Admitindo esta hipótese como boa, então onde estão os açores dos Açores? Para onde foram? Esta, quanto a mim, é a parte mais frágil da teoria que partilho. É possível que os açores dos Açores tenham, ao longo da sua adaptação a este território, perdido a sua capacidade de fugir de predadores ou competidores, por não os terem. Assim sendo, quando os primeiros povoadores aqui chegaram, tê-los-ão apanhado em grandes quantidades e exportado para o Continente (daí os tais registos que referi atrás). Capturaram, usaram e exportaram até à extinção final. Será? Os lobos-marinhos de Santa Maria tiveram esse triste fim.
Penso que esta questão apenas ficará definitivamente resolvida quando se encontrarem registos fósseis que nos indiquem que aves de rapina existiam historicamente nos Açores, se é que alguma cá existia… É também por essa razão que vejo com enorme agrado a 9ª expedição paleontológica que decorreu na ilha de Santa Maria nos últimos dias. É pela insistência, por vezes mal compreendida, de investigadores como o Doutor Sérgio Ávila, que vamos preenchendo o fabuloso puzzle da construção biológica das nossas ilhas.
Olho para os resultados de cada expedição e fico com enorme curiosidade sobre o futuro. A extraordinária aventura do conhecimento dá-nos respostas positivamente contaminadas com mais perguntas…. Que novidades haverá este ano? A expedição já terminou e aguarda-se o estudo completo do material recolhido e dos registos efetuados para dar mais um passo em direção ao conhecimento. Quem sabe se será este ano que ficaremos a saber se alguma vez houve açores nos Açores?