sexta-feira, 6 de setembro de 2013

O que é mergulhar com escafandro autónomo?

Detalhe de Estrela-do-mar, Ophidiaster ophidianus,
fotografada no Monte da Guia, Faial, Açores.

Admito que é difícil para alguém que não conheça, imaginar a paz e a tranquilidade que se sente debaixo de água a uns simples 15 metros de profundidade. O que proponho nestes 4 mil caracteres que se seguem é tentar partilhar essa sensação.
Imagine um prédio, como o novo bloco do hospital da Horta, e imagine que está no seu topo à superfície da água. Lá em baixo, junto à entrada do bloco, está o mergulhador, perscrutando os fundos marinhos. É essa a altura da coluna de água que separa o mergulhador da superfície.
Graças à impulsão que empurra o mergulhador para cima, o mergulhador pode “flutuar” na coluna de água, “voar” até ao terceiro andar e depois voltar ao rés-do-chão. É muito conveniente que, perto do final do período do mergulho, esvoace até ao último piso…
O sentimento de imponderabilidade que se usufrui neste “voo” subaquático é extraordinário. Pode dar cambalhotas, "fazer paraquedismo" ou ascender sem qualquer esforço. Aquela coisa dos pulinhos de quem anda na lua, tendo aquela ligeira sensação de ficar no “ar” durante algum tempo, é o quotidiano no mergulho com escafandro autónomo. Como extra, nesta má comparação com os astronautas, refira-se ainda que lá em baixo, na entrada do bloco, os peixes vêm observar o mergulhador com uma curiosidade tal que até parece que ele veio de outro planeta…
Tenho de salientar, no entanto, que no mergulho nem tudo são rosas. Por exemplo, as ascensões não podem ser rápidas e qualquer erro pode resultar em acidentes muito graves. São acidentes raros, mas acontecem e podem ser letais.
Para quem queira iniciar esta atividade, aconselho vivamente os chamados “batismos de mergulho” que as empresas de turismo subaquático ou a Marinha promovem. São simples e servem para ter uma primeira aproximação. Depois, se gostar, é continuar!
Quanto a mim, lembro-me perfeitamente que no meu primeiro mergulho, quando pela primeira vez coloquei um regulador na boca, tive que me concentrar para obrigar o meu corpo a inspirar. Esteve longe de ser automático…
Depois, outra sensação memorável que tive no mergulho foi quando a minha sinusite se extinguiu. Ao ascender dos 25 metros, durante o exame de mergulho, senti, de repente, um enorme alívio na face. Não liguei, até porque, a sensação de alívio, sendo boa, não era nada junto da novidade dos peixes, água, algas, fundos marinhos e da emoção. Quando saí da água reparei como todos me olhavam com espanto e preocupação. A minha máscara estava suja de um líquido cujas cores me escuso a descrever dada a sua repugnância. Desde então, desde os meus dezasseis anos, nunca mais tive problemas com inflamações dos seios perinasais.
Graças ao mergulho, em apenas uma semana, esta última, pude nadar com jamantas, ver fontes hidrotermais bem ativas a 40 metros de profundidade junto ao Faial e descansar o corpo na solidão subaquática que encontramos no sopé do Monte da Guia. Vi e fotografei animais que se encontram no limite da imaginação da maioria dos seres humanos e pude ter o privilégio de os partilhar de imediato (a fotografia digital dá uma boa ajuda). Hoje, o mergulho com escafandro autónomo dá-me uma paz e tranquilidade únicas e proporciona-me histórias e aventuras que tenho o prazer de contar aos meus filhos e, se tiver essa felicidade, aos meus netos. Aconselho vivamente!
Em resumo, os barulhos são diferentes; os movimentos são diferentes; o “voar” nesta “atmosfera” aquosa é diferente, até há quem lhe chame nadar; os organismos que nos rodeiam são diferentes; o calor é diferente, até há quem lhe chame frio; daí aventurar-me a dizer que o extremo do “sair cá dentro” é mergulhar no nosso magnífico oceano!
Da mesma forma que os astronautas devem ter sensações absolutamente únicas, o descobrir o meio aquático também é fantástico e radical. Uma grande diferença entre os dois é que o segundo está ao alcance de todos. Outra diferença é que o segundo permitir-lhe-á descobrir outros modos de vida enquanto o espaço exterior tem, basicamente, isso, espaço...

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Os primeiros tempos das ilhas Ocidentais

Vila do Corvo, ilha do Corvo

Ao contemplar a paisagem da ilha do Corvo, de que me orgulho de já conhecer razoavelmente, não consigo deixar de me perguntar como seria nos primeiros tempos. É óbvio que casas não haviam. Também parece claro que a paisagem era dominada por plantas que hoje estão ausentes ou são vestigiais. Provavelmente, a orografia, tirando a construída, seria basicamente esta. Não há história de grandes tremores de terra ou vulcões em tempos históricos e os humanos ainda não alteraram as conhecenças fundamentais, portanto, esta seria razoavelmente a orografia que os primeiros povoadores encontraram. No caso do Corvo, em particular, há um morro que abrigava a vila dos ventos oeste e que desapareceu para que a pista de aviação pudesse ser construída. Tirando isso, é razoavelmente o que Diogo de Teive encontrou.
Há uns dias atrás, uma boa amiga enviou-me um texto que faz uma comparação crítica dos textos que mais comummente são utilizados para descrever os primeiros dias das ilhas Ocidentais e do arquipélago dos Açores na generalidade. Trata-se de um artigo publicado na revista Arquipélago (série História) no ano 2000 e escrito pelo Dr. Geraldo Lages, então mestrando da Universidade Nova.
Trata-se de um texto muito interessante e que não consigo, por falta de conhecimento, criticá-lo. Limitei-me a aprender e a tomar como boas as informações que o Dr. Lages de forma cativante, vai retirando de cada uma das descrições históricas. Umas informações aceita, outras recusa fundamentando e assim vai construindo o que poderão ter sido os primeiros dias destas duas ilhas. Li com interesse.
É um texto extenso e que não pretendo sumariar neste pequeno artigo. Aconselho apenas a leitura. De qualquer forma, há alguns ensinamentos que gostaria de partilhar. O primeiro está relacionado com a fragilidade ambiental das ilhas oceânicas. Ao desbravarem o terreno na ilha do Corvo, os primeiros povoadores encontraram um solo fértil e generoso que originou produções agrícolas extraordinárias. De tal forma imprevisíveis que, passados poucos anos, alguns florentinos emigravam para o Corvo para obter melhores rendimentos. Sol de pouca dura. Ao exporem os terrenos aos elementos, o solo foi sendo erodido pelo vento e rapidamente as produções caíram para um terço das originais.
Ao nível aquático, os rendimentos também foram caindo rapidamente, neste caso por sobre-exploração dos recursos. Apesar disso, desde os primeiros tempos, havia embarcações que se deslocavam da ilha Terceira até às ilhas ocidentais para aqui pescar. Curiosamente – esta parte não vem no artigo –, apenas muito recentemente este processo de delapidação insustentável foi terminado. Hoje as embarcações dos outros grupos de ilhas açorianas estão praticamente impedidas de pescar para águas das Flores e do Corvo abrindo assim espaço para a sua ampla recuperação. Agora é dar tempo.
No entanto, o que mais me impressionou foi a miséria tal como ela é descrita pelos autores analisados pelo Dr. Lages. A certo passo Almeida Garret, deslocado às ilhas ocidentais acompanhando Mouzinho da Silveira, refere os florentinos como as pessoas mais miseráveis que jamais tinha visto, apenas melhor que os corvinos. Entre impostos, taxas, sobretaxas, dízimos e outras contribuições, a redução de produtividade por sobre-exploração ou por erosão dos solos, pouco lhes restava para viver, havendo pessoas que nem recursos tinham para se vestirem. As casas, chamadas de “palhaças”, imagine-se porquê, eram partilhadas por várias famílias tal a escassez de tudo. Eram tempos muitíssimo duros para estas duas ilhas e que, felizmente, Mouzinho da Silveira terminou.
Volto a olhar a paisagem e sinto a falta dos cedros, faias, pau-branco, urzes e outras plantas que deveriam coroar a paisagem original. Sinto a falta dos angelitos, essas pequenas aves marinhas que davam um “azeite tão fino como o de oliveira”, que fizeram a fortuna da ilha do Corvo dos primeiros tempos. No entanto, parte do meu cérebro está ainda mais impressionada com um fragmento de informação…
No Corvo não havia barcos. Estranho, não é? Uma ilha com isolamento acentuado e um mar riquíssimo não tinha qualquer embarcação. A explicação vem umas linhas abaixo. Segundo o autor, o Corvo não tinha embarcações para que as pessoas não pudessem da ilha fugir!

É por estes contrastes entre o terrível passado e o presente que, mesmo perante todas as agruras e injustiças que a vida nos trás, me sinto privilegiado por viver no nosso tempo. Se, nestes anos, pudemos evoluir tudo isto, que coisas absolutamente fantásticas nos trará o futuro que aí vem?

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Claridade

É evidente a transparência das águas dos Açores, especialmente durante o verão.
No caso, cardume de jamantas no banco Princesa Alice.
Foto: F Cardigos ImagDOP

Ao falar com turistas que decidiram passar férias nos Açores a fazer mergulho com escafandro autónomo, notei que a escolha das nossas ilhas partia de premissas como o mergulho com tubarões, o mergulho com jamantas ou o mergulho em águas profundas, mas raramente o primeiro motivo era a evidente claridade da nossa porção do Oceano. Achei isso de uma enorme injustiça. Passo a explicar porquê.
Se vivêssemos num arquipélago de águas imensamente produtivas, em que as pescarias atingissem valores consonantes com os milhões de quilómetros quadrados de plataforma continental que nos rodeiam, teríamos rendimentos financeiros absolutamente principescos. Não acontece assim.
Nos Açores, a maioria do substrato ou do leito marinho, conforme preferirmos chamar, está a profundidades demasiado elevadas. Estas profundidades estão para lá da zona fótica (zona iluminada) e, por essa razão, as algas bentónicas, que transformam a matéria inorgânica em matéria orgânica, são escassas.
Ao mesmo tempo, as águas que circulam por entre as ilhas não são suficientemente dinâmicas para “arrancar” a matéria inorgânica do fundo e coloca-la à disposição das algas flutuantes (o fitoplâncton) para que estas colmatem o deficit de produção. Aqui, na maioria do ano, não se formam as chamadas zonas de afloramento ou ressurgência (upwelling), quando as correntes dos fundos marinhos trazem para a superfície matéria inorgânica, provocando um acréscimo significativo na produção biológica.
Resumindo, as águas dos Açores, sob o ponto de vista da oceanografia biológica, não são muito produtivas. O que não é completamente mau. Tem mesmo aspectos positivos. Um deles é que as espécies que aqui existem são diferentes, especialmente, as que se adaptaram a esta escassez de alimento, às águas profundas ou aos restantes ecossistemas extremos, em que o expoente máximo, na minha opinião, são as fontes hidrotermais.
Outro dos aspetos positivos desta quase generalizada falta de produtividade é a claridade da água. O nosso azul marinho dos Açores (o Azzurre que poderá ter dado o nome ao arquipélago), que os mais experientes marinheiros conseguem identificar imediatamente, é o resultado de águas oligotróficas (pouco produtivas). Consequência disso, a transparência da nossa porção do oceano é enorme e permite ver, fotografar e filmar, nas melhores condições, tubarões, tubarões-baleia e jamantas ou mergulhar com segurança e conforto até dezenas de metros de profundidade.
Noutros locais, sem esta claridade, os grandes organismos marinhos subaquáticos aparecem como manchas destoadas e fogem como vultos assustados. Mergulhar com escafandro em águas escuras é como submergir num elevador em que desligaram as luzes e onde temos de procurar o botão do próximo andar usando a luz do visor do telemóvel… Arrepiante… Claustrofóbico! Nos Açores é diferente e é muito melhor!
No início da primavera, quando passam nos Açores as grandes baleias, oiço as pessoas a dizer que as águas estão verdes. É verdade, estão verdes porque nos escassos períodos em que há uma sincronização entre o aumento no fotoperíodo (os dias são maiores) e a permanência na coluna de água de matéria inorgânica oriunda das águas revoltas de inverno observa-se uma explosão na quantidade de fitoplâncton e, em consequência, do zooplâncton (ou krill) de que se alimentam estes grandes cetáceos. É um pequeno período de enorme produtividade. Estou a simplificar fenómenos mais complexos, que envolvem outros fatores como um importante ramo da corrente do Golfo, mas que, basicamente, resultam nesta sincronização.
Infelizmente, é um fenómeno que nos Açores dura pouco tempo e que nem todos os anos tem a mesma intensidade e isso faz com que até as aves marinhas que aqui nidificam se desloquem milhares de quilómetros para se poderem alimentar convenientemente.

Como tudo, a claridade das águas açorianas tem aspetos positivos e negativos. Agarremo-nos aos positivos e saibamos viver com a oligotrofia das nossas águas. Temos muito a lucrar se compreendermos bem o local onde vivemos e o usarmos em consonância.