domingo, 3 de setembro de 2017
Crónicas de Bruxelas: 1 - Em Bruxelas, tudo bem!
Ao ler uma entrevista a uma pessoa que está a fazer um trabalho relevante em Bruxelas, deparei-me com a opinião de que as pessoas nesta cidade, ao verem os militares nas ruas, “sentem que estão em guerra”. Não podia estar mais em desacordo.
Nas memórias mais antigas que tenho, incluem-se os dias a seguir ao 25 de Abril de 1974 em Lisboa. A capital de Portugal estava, literalmente, pejada de soldados e, estes, significavam mudança, paz e liberdade. Ficou gravado na minha memória. Para mim, soldados nas ruas são, pura e simplesmente, a antítese da guerra. São esperança de mudança.
Claro, tenho que admitir, esta é apenas a minha percepção pessoal.
Passeemos um pouco por Bruxelas para ver o que aqui se passa.
Todos os dias, ao entrar e ao sair do trabalho, faço questão de cumprimentar os soldados com que me cruzo, que estão escalados para proteger as Instituições Europeias. A calma paira e o bom tempo do final de tarde conduz-nos à simpatia e placidez.
Claro que nem sempre foi assim. Nos dias a seguir aos ataques de Paris e Bruxelas, a maioria das pessoas estavam assustadas com esta nova realidade e tristes por aqueles que sofreram directa ou indirectamente com a barbárie. No entanto, apesar da dor não passar, o medo rapidamente foi substituído pela curiosidade e pela resistência. A melhor forma de lutar contra os terroristas é não sucumbir à tentação do medo. Assim foi! Apesar de algumas perdas, que com o tempo serão corrigidas, penso que o mundo civilizado ganhou amplamente este desafio. Entre as perdas contam-se os ataques aos direitos civis e à privacidade, o Brexit e a inacreditável eleição do novo Presidente norte-americano, mas o bem irá prevalecer. É apenas uma questão de tempo.
Voltemos aos soldados. Poucos dias depois do choque inicial, passou a haver uma enorme curiosidade em relação aos militares que passaram a povoar Bruxelas. A toda esta curiosidade, os soldados respondiam com uma cortesia lacónica, simpáticos, mas mantendo a distância necessária à missão.
Apenas quem não se tenha detido um minuto a ver as notícias na televisão pode confundir o que se passa em Bruxelas com qualquer guerra. É uma diferença abismal. Felizmente, nunca estive num teatro de guerra e não quero estar! No entanto, nada pode estar mais distante do que se passa por aqui. Não há dramas, não há tiros, não há gritos, não há sofrimento, nada…
Escrevo estas linhas pouco depois de mais um alerta terrorista para a zona de Bruxelas. Todos sabemos que o perigo está latente e, há poucas semanas atrás, houve um ataque felizmente frustrado precisamente pelos soldados de Bruxelas. Estes soldados-de-paz impediram mais um drama. Obrigado. A presença dos militares aconchega-nos, dá-nos segurança e serena um pouco mais o coração desta União Europeia confusa e meio perdida.
A pessoa que referi no início deste artigo é uma professora no bairro mais problemático, ou que disso tem fama, de Bruxelas, Molenbeek. Com o seu trabalho está, sem dúvida, a ajudar a fazer diferença pela positiva. No entanto, o excesso de dramatismo, numa situação que, claramente, não o tem, faz-me pensar nos oportunismos alarmistas típicos da extrema direita.
Não! Temos de ser claros. Há problemas e eles têm que ser resolvidos. Porém, sem cair num excesso de ingenuidade, considero que é pelo optimismo, pelo rigor, pela sabedoria, pela curiosidade, pela tolerância e pela alegria que conseguiremos alterar o futuro para muito melhor.
Por fim. Num qualquer parque do centro de Bruxelas olho para o lado e vejo dois soldados (andam quase sempre aos pares). Perto deles, um homem aborda uma mulher com uma conversa tão previsível e melosa quanto explícita e consequente. Olham-se com olhos grandes e bem abertos por bonitos e suaves sorrisos. Ele conserta-lhe uma madeixa do cabelo que o vento tinha empurrado para a sua face. Ela permite. Continuam a conversar com os olhos dele metidos dentro dos olhos dela e os dela perscrutando o coração dele…
Definitivamente, isto seria impossível num qualquer teatro de guerra.
Em Bruxelas, tudo bem!
sexta-feira, 15 de novembro de 2013
Badejo d'Ouro
Badejo, Mycteroperca fusca, fotografado na ilha de Santa Maria, Açores.
Foto: ImagDOP/UAz
No início do mês
de Novembro, em pleno II Congresso Internacional “O Desporto e o Mar” do Clube Naval do Funchal, o Doutor Arturo Boyra das Canárias foi perentório quando afirmou
que um mero morto tem muito valor, “600 euros, no mínimo em Espanha”. “No
entanto”, foi dizendo à medida que apresentava os cálculos que mostram quanto
ganham os operadores marítimo-turísticos das Canárias com a observação
subaquática, “este mesmo mero vale um milhão de euros por ano se estiver vivo”
e, rematou, “vamos matar a galinha dos ovos de Ouro?!”.
Na realidade,
este contraste entre o valor dos meros vivos e meros mortos já foi utilizado no
passado (*), mas nunca, que eu saiba, com valores tão enfáticos e tão
indiscutíveis. O argumento parece infalível e foi já utilizado para justificar
a proteção das tintureiras dos Açores (*), mas ainda sem grandes resultados. Para
os meros, tem servido.
Aliás, se nós os
soubermos utilizar, os animais têm, regra geral, um valor muito maior vivos do
que mortos. Que o diga a empresa de exportação de peixe vivo, a Flying Sharks.
Pegam em peixes que não têm qualquer valor comercial nos Açores, como os
cabozes ou os foliões, e exportam-nos para os maiores aquários do mundo.
Que o digam
também os pescadores de pesca grossa (*). Estes operadores, que esquadrinham os
mares com os seus poderosos barcos de fibra-de-vidro branca (*, *, *), podem pescar o
mesmo peixe por diversas vezes (*), alugando a embarcação e o saber por múltiplos do
valor do peixe morto. Isto para não falar nos teores de mercúrio dos espadins,
tão elevados que tenho dúvidas que possam ser consumidos sem perigo para a
saúde (*). Para a pesca grossa, estão no ponto!
Não se pense que
estou a defender que deixemos de comer peixe. Nada disso! Estou a defender que
pensemos antes de tirar a vida a animais que são muito mais lucrativos vivos.
É, pelo menos, uma questão de bom senso.
No mesmo congresso,
a certo ponto, convidaram-nos para mergulhar na Baixa das Moreias. É um local
mesmo em frente ao Clube Naval do Funchal e que se acede a partir do seu Centro
de Mergulho. Mais simples era impossível. Claro que aceitei entusiasticamente o
convite. Depois de vinte minutos debaixo de água, vendo alguns dos animais e
algas que caracterizam aquele pedaço do Atlântico, aproximou-se um badejo. O
líder do mergulho reconheceu o animal e acenou-me. Estávamos a dez metros de
profundidade e, apesar de já me terem contado, eu não estava preparado para o
que iria testemunhar.
O badejo, que deveria
ter uns cinco quilos, aproximou-se do mergulhador que dirigia as nossas
operações e aninhou-se calmamente nas suas mãos (*). Com serenidade, o nosso líder
colocou uma mão na sua boca e outra no seu dorso. O peixe assim ficou, imóvel…
Inacreditável… Mas havia mais! O líder do mergulho, sempre com o peixe nas suas
mãos, aproximou-se de mim e deu-mo. “Vou pegar num peixe vivo!”, exclamei
interiormente, totalmente possuído pelo entusiasmo. Agarrei-o com o mesmo
cuidado e fiz-lhe algumas festas. Impressionante… No final, larguei-o e ele deu
uma volta e voltou a insistir que o acariciasse. O processo foi-se repetindo
com todos os mergulhadores que faziam parte deste grupo, um após o outro...
Este não é um
comportamento natural dos animais marinhos e resulta das muitas horas que os
mergulhadores do Clube Naval do Funchal dedicam a eles. Os peixes estão perfeitamente
habituados à sua presença e aproximam-se sem qualquer relutância, até porque,
muitas vezes, os mergulhadores não se inibem de lhes levar alimentos.
Ou seja, apesar
de gostar mais das águas em estado puro dos Açores, não posso deixar de
apreciar a forma como os madeirenses estão a utilizar o seu mar. A mim
impressionou-me verdadeiramente e não tenho dúvidas que aquele badejo se irá
tornar a estrela de muitas fotografias e vídeos. Se o mero das Canárias valia
um milhão de euros, este badejo vale o seu peso em Ouro e puro! Mas tem esse
valor apenas enquanto continuar vivo (*). Na lota, valerá pouco mais do que nada.
Estamos num
período em que várias coincidências contribuíram para impulsionar o mergulho
nos Açores. À descoberta do mergulho com tubarões-azuis (*, *, *, *) e jamantas (*, *, *, *) juntou-se a instabilidade
no Norte de África e no Médio-Oriente. Destinos como o Mar Vermelho foram
preteridos (*) e isso constituiu uma enorme mais-valia para o nosso arquipélago (*). Os
trabalhos da Doutora Adriana Ressurreição do Departamento de Oceanografia e Pescas da Universidade dos Açores demonstram claramente o aumento de rendimento
das actividades aquáticas e subaquáticas nos últimos anos.
No entanto, e
obviamente que ainda bem, esta situação não irá durar para sempre. Dentro em
breve, países como o Egipto (*) e a Eritreia (*) (*) encontrarão o seu rumo de paz e de estabilidade.
Se até lá não cativarmos este mercado, perderemos esta janela de oportunidade.
É preciso, com a maior urgência, resolver pequenos problemas no turismo subaquático
dos Açores, tais como, acabar com o uso de redes de emalhar nas zonas costeiras que, como os próprios pescadores dizem, “destroem tudo”, e reforçar as
limitações impostas nas áreas marinhas protegidas, para que terminem os
conflitos de utilização (*). É necessário também, que os operadores
marítimo-turísticos dos Açores formem uma união honesta, coerente, abnegada e
abrangente para que os seus pontos de vista sejam mais respeitados. Foram estas
as principais conclusões que eu retive da IV Bienal do Turismo Subaquático que
decorreu a meio de Outubro na ilha Graciosa.
Claro que todos
queremos que os turistas subaquáticos se sintam bem nos Açores. É certo, porém,
que poucos quererão voltar a locais em que os centros de mergulho não têm casa
de banho ou em que se mergulha a dezenas de milhas da costa em solitários semirrígidos.
É muito engraçado para nós e para os nossos amigos, mas impensável para o
exigente turismo do Mar Vermelho e esse é o nosso único e verdadeiro
competidor. Mãos à obra!
sexta-feira, 1 de novembro de 2013
Carcharhinidae
Foto: F Cardigos ImagDOP/UAz
Carcharhinidae é
o nome de uma família. No caso, trata-se de uma família de eméritos tubarões
muito conhecida. Entre os elementos mais famosos desta família, temos o Prionace glauca e o Galeocerdo cuvieri ou, mais simplesmente, a tintureira e o tubarão-tigre,
respetivamente. Outros tubarões, também famosos, como o tubarão-branco ou o
rinquim, não fazem parte desta família, mas sim da Lamnidae. Claro que estamos
a falar de famílias taxonómicas (científicas) e não de famílias de sangue, como
fazemos entre humanos.
Voltando à nossa
família, a Carcharhinidae. Em 1988 apareceram alguns tubarões pertencentes a
esta família nos ilhéus das Formigas. Foi no dia 17 de Julho, mais
precisamente, que pescadores capturaram alguns animais e suscitaram a
curiosidade da comunidade científica. Em 1995, o técnico da Universidade dosAçores, João Brum, em conjunto com o Professor José Azevedo, publicaram um
artigo científico que clarificou a identificação dos animais e assim deu uma
nova espécie aos Açores: os Carcharhinusgalapagensis ou, como são conhecidos entre os amantes do mar, os tubarões-das-Galápagos.
Claro, como é
habitual, os cientistas não se contentando com uma resposta, lançaram
imediatamente mais umas quantas perguntas: Como é que estes tubarões
conseguiram chegar das Galápagos até aqui? Porquê apenas agora? Ir-se-ão
conseguir estabelecer? Irão ameaçar as populações de presas ou competidores?
Porque aparecem nas Formigas e não em qualquer outro local dos Açores? Aparentemente,
algumas destas novas perguntas começam a ter também resposta.
É senso comum que
estes tubarões tenham conseguido chegar até aos Açores com a abertura do Canal
do Panamá. Esta resposta explicaria também a segunda questão. Apesar de não
haver provas, parece tão evidente que esta resposta não tem suscitado o devido debate.
Eventualmente, devia ser debatida porque a densidade nalguns pontos do
Atlântico é tão elevada que não faz sentido o povoamento apenas ter sido
iniciado em 1914. Esta técnica de eliminar hipóteses concorrentes pela
simplicidade e lógica da resposta obtida tem um nome. Chama-se Navalha de Occam
(ou Lei da Parcimónia) e postula simplificadamente que “a resposta menos
complexa costuma ser a correcta”.
Quanto ao
estabelecimento da população, a questão é bem mais complicada. Eu já mergulhei
muitas vezes nos ilhéus das Formigas, no Recife Dollabarat e no Banco do Entre-Meio
(as três áreas acessíveis da Reserva Natural das Formigas). No entanto, por
apenas duas vezes consegui ver estes animais debaixo de água. Isso, pensava eu,
indiciava que a população não era muito robusta. Numa dessas duas vezes
consegui ver cinco tubarões em simultâneo! Para além do entusiasmo e emoção,
tenho de admitir que também houve algum “respeito”…
Ao longo dos
anos, tenho advogado a proteção efetiva dos ilhéus das Formigas. Enquanto tive
responsabilidades pela matéria, ajudei a implementar regras mais restritivas de
utilização e incentivei o incremento da sua fiscalização. Apesar disso, mesmo
eu, sempre duvidei da sua eficiência. Portanto, imaginem a minha alegria quando,
este ano, um dos responsáveis por uma empresa de mergulho turístico comescafandro autónomo de Santa Maria, o Paulo Reis (*), me relatou que na época de
2013 viram tubarões-das-Galápagos em quase todos os mergulhos. Num deles, viram
mesmo 12 animais diferentes! Para além de espetacular, é mais um indício de que
a Reserva está a ser respeitada. É um assunto a seguir com atenção e,
aparentemente, responde à dúvida sobre a manutenção da população de tubarões.
Quanto a ameaçar
outras espécies… pode estar a acontecer, mas não se nota nada. A última vez que
mergulhei nas Formigas, vi tanta vida e tão animada que me custa a crer que
estes tubarões estejam a prejudicar a fauna local. No entanto, sou de opinião
que este tema poderia justificar uma excelente tese de mestrado ou de doutoramento.
Há candidatos?
A última questão
também ainda não tem resposta. Não entendo. Sinceramente, não entendo. Nas
costas das ilhas têm aparecido, em números crescentes, os
tubarões-tigres-da-areia (*, *, *) e, nas Formigas, aparecem os tubarões-das-Galápagos.
Interessantíssimo! E aguardando por cientistas que aceitem debruçarem-se sobre este
extraordinário desafio…
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