domingo, 26 de novembro de 2017

Crónicas de Bruxelas: 7 - Roménia


Delta do Danúbio, entre a Roménia e a Ucrânia.
Foto: F Cardigos

É evidente que a saudade da família e dos amigos, a distância ao mar e às confortantes referências pessoais são factores que pesam, mas há algumas vantagens em viver grande parte do tempo deslocado longe de casa e no centro da Europa. Uma delas é a facilidade de aceder a muitos países e, desta forma, conviver com culturas diferentes e outras formas de ver o mundo. Seja por razões de trabalho ou aproveitando um final de semana mais comprido, é frequente os habitantes de Bruxelas cruzarem fronteiras e experimentarem a diversidade europeia.
Na última semana estive na Roménia, mais precisamente em Constanta, tendo brevemente passado por Bucareste. Constanta é uma cidade costeira do Mar Negro, em que uma parte significativa dos seus 350 mil habitantes presta serviços a um dos grandes portos europeus. Há diversas universidades generalistas com campus em Constanta e duas escolas superiores, uma pública e outra privada, totalmente dedicadas à marinharia.
Estive em Constanta para participar num congresso internacional sobre o Mar Negro. O meu objectivo principal era compreender um pouco mais quais as soluções para um espaço marítimo que está sob uma enorme pressão em termos de exploração e poluição e mesmo militar. Não se vivem tempos fáceis no Mar Negro. Essencialmente por haver um evidente distanciamento político entre a Rússia, por um lado, e a Ucrânia, a União Europeia e a Turquia, por outro, não há nenhuma opção milagrosamente fácil. O caminho será espinhoso e tortuoso. Outra coisa não seria de esperar depois da anexação da Crimeia... No entanto, como quase sempre acontece quando os desafios são elevados, há um conjunto de pessoas dedicadas que tentam encontrar saídas para situações que são, sem dúvida, muito complicadas. Assim, notei que as pessoas com quem falei querem encontrar caminhos equilibrados, tendo em conta os aspectos geopolíticos, os relacionados com as pescas, com os transportes marítimos e com a poluição oriunda das indústrias costeiras.
Fora do congresso, em Constanta, vi pessoas acolhedoras, empenhadas nas suas profissões e curiosas em relação ao seu futuro e à vida integrada na União Europeia. Fazendo em alguns aspectos lembrar Portugal a meio dos anos 80, as duas cidades que visitei, Bucareste e Constanta, estão a entrar rapidamente num modo de vida assente na propriedade privada e na competição, mas ainda assente numa estrutura e organização com nítidas reminiscências do período comunista. Vemos instalações eléctricas desajustadas do mundo desenvolvido e novas empresas a ocupar espaços em prédios envelhecidos e pavilhões decadentes, alguns, aparentemente, à beira de ruir a qualquer momento. No entanto, aquilo que mais me fascinou foi a vida. As pessoas estão optimistas e dinâmicas, com uma energia que faz inveja à indiferença e ao cinzentismo que vemos em outros pontos da Europa.
A certo ponto, decorreu, como normalmente, o jantar formal do congresso. Depois de terminadas as entradas, fiquei surpreendido por a música ambiente estar tão alta. Olhei para a pessoa que estava sentada ao meu lado, o responsável pelo organismo científico que ajuda a determinar as possibilidades de pesca no Mar Negro e Mediterrâneo, e disse-lhe que, infelizmente, dado o barulho, não conseguíamos falar. Ele olhou-me, riu-se educadamente e perguntou-me “mas quem é que quer conversar?!”. Ia ficar ofendido, mas percebi de imediato o que ele queria dizer. Todos os participantes locais já estavam no espaço central da sala a dançar e a pular, contagiando os restantes a integrar as danças romenas, gregas e búlgaras. Foram pacientemente explicando aos estrangeiros cada um dos passos, mas sem qualquer preocupação com o sucesso dos seus esforços. Eles queriam dançar e queriam que todos participassem, sem qualquer preocupação com os aspectos estéticos do resultado final. O ideal para desastrados da dança como eu. No entanto, tudo aquilo foi evoluindo ao longo do jantar e, depois da sobremesa, enquanto se esperava pelo café já se ouvia e dançava, imagine-se, heavy metal… Eu vi septuagenários a dançar música do grupo Paulista “Sepultura”. Inacreditável…
Para os que conhecem, imaginem um filme do Sérvio Emir Kustirica em que um conjunto de pessoas corre alegremente pela cidade, contagiando tudo e todos, e uma incansável banda de música os segue atrás. É isto. Na Roménia, durante o dia, todos são sérios e empenhados, mas, quando o sol se põe (e talvez isso explique parte das histórias da Transilvânia), há uma saudável transfiguração para pessoas cheias de vida e transbordantes de energia!

No avião de regresso a Bruxelas, conheci um camionista Romeno que voltava ao seu trabalho no norte da Europa, mais precisamente à Noruega. Depois de conversarmos um pouco, diz-me ele que “a Noruega é muito organizada, mas se eu tivesse uma proposta de trabalho na Roménia a ganhar um quarto do que ganho em Bergen, mudava já e sem hesitação”. Depois de três dias na Roménia, sinto que consigo entende-lo perfeitamente. 

domingo, 12 de novembro de 2017

Crónicas de Bruxelas: 6 - A boa música

Música de rua em Bruxelas.
Foto: F Cardigos

Era um jovem quando pela primeira vez estive numa cidade em que, no mesmo final de semana, havia mais de uma centena de concertos musicais gratuitos. A cidade era Bruxelas e o evento chamava-se então "Rally du Jazz". Ao caminhar pelas ruas de Bruxelas nesses dias, íamos ouvindo diferentes sons que escolhíamos ouvir durante mais tempo ou passar à frente. As melodias que a cada esquina se adivinhavam transmitiam emoções diversas. Entre o que se gostava e o que não se gostava, entre o que já se conhecia e o que se descobria, as vibrações eram muito positivas. Para mim, que, como a maioria dos jovens dos países do Sul, não tinha grandes recursos económicos, era uma forma de, adicionalmente, entrar em muitos dos espaços habitualmente pagos de Bruxelas. É que todos os concertos eram estritamente gratuitos.
Os músicos vinham dos quatro cantos do mundo, embora muitos fossem belgas e, diga-se, bons. A esse título conto uma pequena história. Um destes dias estive num concerto de uma banda musical da qual não sabia absolutamente nada, tirando o nome. Uns amigos desafiaram-me e lá fui eu para o que poderia apelidar de "blind concert". Gosto do conceito. Os "El Juntacadaveres", assim se chamava a banda, tocavam música de inspiração sul-americana e eram muito razoáveis. Gostei. Chegado o momento de apresentar os músicos, o vocalista começa a dissertar: "dos Estados Unidos da América, o nosso baixo", já não me lembro do nome, e continuou as apresentações até ao baterista, "de São Paulo, Brasil, Paulinho Curucutu, uma salva de palmas para ele!". Aplaudi, como aliás tinha aplaudido os restantes artistas. No final, não resisti e fui à saída de artistas onde várias pessoas se digladiavam para comprar CDs e obter os autógrafos dos músicos. Fiz o mesmo e dirigi-me ao Paulinho Curucutu. Estendendo o CD disse "Oi cara, vocês tocam muito bem. Fiquei surpreendido.", disse eu tentando dar uma entoação de terras de Vera Cruz às minhas palavras. Ele respondeu-me no melhor francês "Pardon. Que dites vous?!". Mas... "Vous êtes brasilien!?", disse eu entre o tom acusatório e confuso... "Moi?! Tu rigoles?! Je n'ai jamais été au Brésil.". Depois, continuou ele em francês, "Ah... as apresentações dos músicos... Isso é uma brincadeira que o vocalista faz para dar um aspecto mais convincente à nossa actuação! Desta vez fui brasileiro? Já fui argentino, colombiano e costa-riquenho... Desculpa..." Fiquei desarmado. Sabia que os poetas são uns autoassumidos mentirosos e aceites como tal pela sociedade, mas os músicos...? Não sei se está certo... No entanto, o fundamental para este artigo é que eles eram belgas e tão bons artistas que, sem hesitação, eu pensaria que eles eram naturais, crescidos e vividos nos quatro cantos do mundo que o vocalista apregoou.
Adolf Sax, o inventor do saxofone, era belga. Um dos meus guitarristas favoritos, Django Reinhardt, era belga. E dezenas de músicos que fui descobrindo em Bruxelas e em Portugal são belgas. Apesar de ser um país pequeno, a bélgica tem bons artistas em penso eu, isso resulta de uma política de educação musical que funciona. Para as crianças é relativamente fácil obter boas aulas de música por quase nada. Há, de facto, uma estratégia que privilegia as artes e, entre elas, a música. Por exemplo, as finais e meias-finais do concurso de musica clássica Rainha Elisabeth são transmitidas em directo pela televisão nacional e as finais em horário nobre. É uma estratégia que não deixa a boa cultura em segundo plano em relação às telenovelas e big-brothers, como vemos na nossa televisão portuguesa.
Uma das pérolas de Bruxelas é precisamente o Museu dos Instrumentos Musicais, um local imprescindível a quem visita a cidade. Começando pelo magnífico edifício Arte-nova e terminando na fabulosa coleção de instrumentos que podemos mesmo ouvir individualmente, tudo é extraordinário. O "Sounds", o "Jazz Station" e o "L'Archiduc" são alguns dos espaços que quase diariamente apresentam bons concertos. Desde o artista de rua, convidado a tocar nessa noite, aos melhores intérpretes internacionais, tudo é possível encontrar nestas e noutras salas.

Em qualquer final de tarde ou final de semana, nas ruas centrais de Bruxelas, temos sempre música pelo ar. Entre os cafés com música ao vivo, as salas de espectáculo ou os artistas de rua, há sempre música para nos animar ou, simplesmente, confortar. No entanto, durante o fim de semana do "Rally du Jazz", cujo nome passou a "Jazz Marathon" e agora é "Jazz Weekend", a harmonia é elevada a um nível absolutamente extraordinário. Que o digam os 300 mil visitantes que, nesse final de semana, enchem anualmente as ruas, cafés, discotecas e parques de Bruxelas.

domingo, 29 de outubro de 2017

Crónicas de Bruxelas: 5 - Parlamentar, o jogo

Jogo "Parlamentar" a ser testado.

Respeitando o conselho médico, andava eu pela cidade de Bruxelas entretido entre a obtenção do número mínimo de passos obrigatórios por dia e a esperança de ser surpreendido por qualquer coisa, algo que aqui acontece com alguma frequência. Ok, não é Paris, Londres ou Nova Iorque, mas não deixa de ter muitas pessoas, uma enorme diversidade de culturas e “boa onda”, o que é metade da receita para a surpresa. Se hoje tinha esperança, não fiquei desiludido.
Ao passar por um dos parques emblemáticos da cidade de Bruxelas, o parque que foi edificado para celebrar os cinquenta anos deste jovem país (relembro que a Bélgica tem pouco mais de 180 anos), reparei num extenso conjunto de barraquinhas. Periodicamente, há neste parque eventos que vão desde a festa medieval até à mostra de produtos portugueses, passando por quase tudo o resto. No dia de hoje, o espaço estava ocupado pelo Festival de Jogos de Bruxelas. Havia dezenas e dezenas de representações de empresas de jogos de mesa ou jogos de sociedade, conforme preferirem. Os seus nomes davam para cobrir todas as preferências, mas gostei especialmente das edições “Le Droit de Perdre”. Expressa bem o único direito que um jogador tem. O jogador pode ter o mérito de ganhar, mas tem certamente o direito de perder!
Cada uma destas empresas representava, expunha, exemplificava e vendia de um a centenas de jogos. Por todo o lado havia mesas com tabuleiros e, nas cadeiras em volta, sentavam-se amigos, famílias, conhecidos e desconhecidos e mesmo alguns autores dos jogos. O ambiente era fantástico. Desde o tradicional xadrez, passando por jogos de sensibilização ambiental, como um jogo chamado “Fotossíntese”, ou outros complicadíssimos envolvendo casas, castelos, guerreiros exemplarmente pintados em tabuleiros gigantes e que eu não percebi como se jogavam…
Na maior das barraquinhas, já com tamanho suficiente para se lhe chamar pavilhão, havia um espaço para teste de novos jogos. Os autores estavam presentes com tabuleiros, fichas e cartazes, nitidamente preliminares daquilo que um dia será um novo jogo de mesa, e desafiavam os transeuntes a experimentar o seu protótipo. Segundo me explicaram é uma situação duplamente ganhadora porque o transeunte tem uma experiência totalmente nova e os autores podem afinar as regras, os desafios ou o design dos jogos. Parei por algum tempo junto de alguns destes protótipos e testemunhei a curiosidade daqueles que se submergiam nos “novos mundos” e os apontamentos que os autores iam registando nos blocos de notas. Funcionava!

Um destes novos jogos chamava-se “Parlamenteur”. “Não é possível”, pensei para com os meus botões… “um jogo sobre o Parlamento…”, sem notar à primeira no detalhe do final do nome. Abordei um dos autores e disse-lhe que era interessante terem feito um jogo sobre parlamentares e eu trabalhar precisamente num parlamento, “não estava à espera”. O autor, embaraçado, mas, ao mesmo tempo, divertido, respondeu-me que sabia que nem todos os parlamentares eram mentirosos! Apenas aí caí em mim e reparei que o nome do jogo era um trocadilho entre as palavras francesas “parlamentar” e “mentiroso”. Ele explicou-me que o jogo se apoiava na mecânica das alianças que se formam num parlamento para formar governo e fazer passar as leis para explicar como funciona a democracia e alertar para como pode ser corrompida. “É um jogo muito pedagógico e que pretende ajudar a formar cidadãos mais informados e atentos aos detalhes do jogo político”. Os transeuntes que estavam a experimentar o jogo pareciam empenhados na vitória dos seus partidos imaginários, tentando obter as necessárias maiorias. Pelas palavras e pelos maneirismos, pareceu-me que estes jogadores já estavam a dominar a arte de cativar pela abnegação dos argumentos e pelo altruísmo dos objectivos que vou vendo no Parlamento Europeu. Espero que o jogo saia depressa e uma coisa posso garantir, vão ter um cliente!