domingo, 14 de janeiro de 2018

Crónicas de Bruxelas: 11 - Banda Desenhada

Aspecto exterior do Museu Hergé.
Foto: F Cardigos

Uma das virtudes da Bélgica é o seu apreço pela banda desenhada. Na cidade de Bruxelas existem diversas livrarias e dois museus especializados nesta arte. Alguns dos maiores vultos dos livros aos quadradinhos são belgas e, apenas para nomear o mais conhecido, relembro que Hergé, o criador do Tintim, era belga. Mas há muito mais: os estrumpfes, o Gaston Lagaffe e o Marsupilami são também belgas. Mesmo o Michel Vaillant, que é tão francês quanto uma personagem de banda desenhada pode ter nacionalidade, nasceu na revista do Tintim. Para além de Vaillant, também Blake e Mortimer, Ric Hochet e Alix nasceram na revista “para jovens dos 7 aos 77 anos”. Aliás, as ligações entre a Bélgica e a França, no que diz respeito à banda desenhada, são muito intensas. Por exemplo, as personagens Spirou e Fantasio foram criadas em França, mas foi o belga Franquin que produziu as suas histórias durante dezenas de anos.
Porque sou apreciador de banda desenhada, visitei com algum cuidado os dois museus completamente dedicados a esta arte aqui em Bruxelas. Um deles tem o nome de Centro Belga de Banda Desenhada e está instalado num edifício Arte-Nova com alas que versam temas como os autores belgas ou a arte de desenhar. No entanto, a ala que me impressionou mais foi a dedicada à cidade de Bruxelas. Os curadores do museu ampliaram vinhetas que ilustram a cidade de Bruxelas. O resultado é impressionante. Sentimo-nos a fazer uma visita virtual guiada pelos mais importantes heróis da banda desenhada, belgas ou não, passando de telhados para ruas e de ruas para os edifícios mais emblemáticos. Valoriza a cidade e a banda desenhada. Muito bem!
O segundo museu é dedicado às personagens de banda desenhada. Aqui estão em exibição muitas centenas de bonecos de banda desenhada com tamanhos que variam desde o polegar até ao tamanho real, se é que uma personagem de banda desenhada pode ter um tamanho “real”... Nalguns locais, incluindo no próprio museu, é possível adquirir este tipo de bonecos ou os seus acessórios. Por exemplo, numa livraria de Bruxelas, vi um modelo da nave que “levou” o Tintin à Lua à venda por mais de oitocentos euros e, neste momento, num sítio da internet pedem 1250 euros por um exemplar em resina do Gaston Lagaffe a dormir no ninho dos marsupilamis!
Já fora de Bruxelas, há um outro museu muito interessante. Este é totalmente dedicado a Hergé, o criador do Tintin. Está instalado num edifício moderno, concebido de raiz para albergar algumas das preciosidades criadas por este autor e, evidentemente, com particular destaque para as Aventuras de Tintim e Milu.

Para os belgas a banda desenhada é tão importante que um dos aviões da Brussels Airlines, está totalmente decorado com imagens das Aventuras de Tintin. Já tive a sorte de viajar para Lisboa neste avião. Para além das imagens omnipresentes, à partida de Bruxelas distribuíram álbuns do Tintin para lermos durante a viagem. Não há dúvida que é uma excelente forma de promover um dos produtos de maior sucesso da Bélgica e divulgar a sua cultura. Talvez fosse de fazer o mesmo na SATA, eventualmente usando queijadas da Graciosa, amostras de queijo de São Jorge, poemas de Antero, fotografias subaquáticas ou, sei lá, tanta coisa... Não sei se seria financeiramente viável, mas poria o mundo a falar ainda mais sobre os Açores, tal como eu estou agora a escrever sobre a Bélgica!

domingo, 31 de dezembro de 2017

Crónicas de Bruxelas: 10 - Guichês

Guichê em Bruxelas.
Foto: F Cardigos

Desde tempos remotos que houve necessidade de estabelecer o modo, os locais e o tempo em que os cidadãos comunicavam com a administração. Não sou historiador nem tenho ambições de sistematizar uma viagem neste relacionamento ao longo dos tempos, mas imagino que seja um tema interessante. Apenas me irei deter no meu tempo de vida, portanto, poucos anos mais uns poucos...
Antigamente, qualquer funcionário de repartição pública, banco, correios, estações de autocarros e comboios comunicava com o cidadão comum através de guichês. O guichê é uma estrutura que separa duas divisões em que, de um lado, se encontra o território do funcionário e, do outro, o território do atendido. Os guichês mais assustadores são compostos por um balcão alto e, na parte superior desse balcão, um vidro mais ou menos espesso que protege o funcionário da pessoa que esteja a ser atendida. Os guichês mais avançados têm sistemas de comunicação através de microfone e altifalante e os eventuais documentos são trocados através de bandejas rastejantes. As vantagens dos guichês incluem a proteção física do funcionário contra doenças ou reações menos apropriadas do atendido.
Em Portugal, desde o 25 de Abril, os guichês têm vindo a desaparecer gradualmente, em particular, no espaço da administração pública. Em seu lugar têm aparecido secretárias em que de um lado se senta o funcionário e, do outro, se senta a pessoa que está a ser atendida. Seja nas câmaras municipais ou nas repartições de finanças, no Portugal de hoje os guichês estão em extinção. Na minha opinião, é um bom avanço que contribui para melhorar as relações entre a administração e os cidadãos, tornando-as mais humanas.
Veio-me tudo isto à memória por, num curto período de tempo, ter sido confrontado com dois guichês aqui em Bruxelas. Primeiro no Parlamento Europeu, em que trocaram um simpático e conveniente balcão por um guichê dos mais assustadores e avançados. Os funcionários do Parlamento Europeu encarregues das acreditações dos visitantes estão agora escondidos atrás de um vidro tão espesso que apenas os podemos entender se o sistema de comunicação electrónico estiver em funcionamento. Como os vidros são ligeiramente escurecidos, às vezes pergunto-me se haverá seres humanos do lado de lá… Razões de segurança não parecem justificar todo este aparato, já que apenas podemos chegar a estes guichês depois de termos passado dois níveis de segurança.
Já depois de ter deixado de trabalhar no Parlamento Europeu tive de regularizar a minha situação na Commune (similar à nossa Junta de Freguesia, mas com mais competências). Fiquei espantado por, também aqui, haver guichês.
Há anos que, em Portugal, os guichês foram sendo substituídos por móveis modernos e acolhedores, que convidam quem tem um problema a sentar-se e a comunicar civilizadamente com funcionários que, sem receio, recebem com conforto e solicitude. Há sítios de contacto rápido, como os correios, em que ainda há balcões, mas na maioria dos departamentos administrativos, já se entra, senta-se e fica-se à vontade. Em muitos locais ainda se espera de pé e por tempos não admissíveis, o que é um contra-senso e uma oportunidade de melhoria para os serviços públicos em Portugal, mas, quando finalmente iniciamos a conversa com o funcionário, sentimos-nos bem.
Como um número crescente de operações burocráticas comuns já podem ser realizadas usando a internet, se uma pessoa tem de se deslocar às finanças ou à Câmara Municipal é porque o caso é grave, complicado ou a pessoa em causa tem dificuldades em lidar com as novas tecnologias. Também por estas razões, há que receber bem, com conforto e dignidade. Faz todo o sentido.
As estações de transportes públicos (comboio, metro e autocarro) e alguns serviços nocturnos de elevado risco, como as farmácias e as bombas de gasolina durante a noite, ainda têm guichês, mas pouco mais. Os guichês são “animais” em extinção em Portugal. Neste campo, a Bélgica ainda tem um caminho a percorrer para mais humanizar as relações entre a administração e os cidadãos. 

domingo, 17 de dezembro de 2017

Crónicas de Bruxelas: 9 - Museus

Bonecos em tamanho real no museu das figuras de banda desenhada.
Foto: F Cardigos

Como já relatei anteriormente, há uma intensa aposta dos Belgas na cultura. Desde a educação de cada jovem até à disponibilização da arte, material ou imaterial, a cada cidadão, um pouco de tudo é proposto para que se possa usufruir de muitos dos pequenos e grandes prazeres que este mundo nos pode proporcionar.
Poder-se-ia pensar, como de resto eu pensava, que o investimento do Estado Belga na arte estaria essencialmente relacionado com a tentativa de incutir um sentido de pátria aos habitantes de um dos recentes países Europeus (relembro que a Bélgica tem pouco mais de 170 anos), mas isso seria uma simplificação exagerada da realidade. Depois de ter visitado muitos museus de Bruxelas e arredores, e apesar de ninguém me ter dito, penso que a tentativa de transmitir este sentimento patriota passa pela partilha das diferentes expressões artísticas deste povo, mas, ao mesmo tempo, por dois outros níveis estratégicos.
Passo a explicar. A Bélgica é um país constituído por quatro comunidades culturalmente diferentes. Há uma comunidade flamenga a Norte, uma comunidade francófona a Sul, uma pequena comunidade germanófila a Leste e uma comunidade que mistura as duas primeiras na cidade de Bruxelas (localizada no centro do país). Para ser totalmente claro, e como um à parte, há que dizer que esta comunidade da cidade capital é ainda mais complexa já que agrega dezenas de milhares de funcionários das instituições europeias, da sede mundial da NATO e de organizações de pressão e representação que são oriundas de todos os cantos do mundo. Não esquecendo ainda uma grande percentagem de população imigrante. Enfim… é complicado... Terminado o à parte, refiro que um dos objectivos do investimento em arte poderá ser estender o conhecimento, a compreensão e a valorização do que se faz em cada uma das comunidades às restantes. Faz sentido.
Passemos a outro dos níveis estratégicos. Os museus Belgas, faça-se a respectiva vénia, concentram e expõem arte de todo o mundo. Este povo aprecia verdadeiramente o multiculturalismo. Tendo isto em consideração, imagino que, por exemplo, ao passearem-se pelo museu dos instrumentos musicais e ao ver e ao ouvir peças dos quatro cantos do nosso planeta, os cidadãos belgas se sintam orgulhosos do espólio que angariaram. A Bélgica teve a vontade e teve a capacidade de agregar exemplos do que de bom se faz no mundo e isso é, na minha opinião, um factor de orgulho e de integração nacional. A seguir à educação escolar, os museus são a ferramenta que, pelas razões apontadas atrás, mais ajudam a enaltecer o orgulho patriótico, naquilo que este conceito tem de bom.
Há muitas dezenas de museus na cidade de Bruxelas. Os temas são mesmo muito variados e incluem, entre muitos outros, a pintura, a banda desenhada, os antigos territórios Belgas, o chocolate, a guerra, os automóveis, a história, a geografia, as instituições europeias, a antropologia, a cerveja, a história natural e mesmo um dos grandes vultos musicais da Bélgica, Jacques Brel. Sinto-me repentinamente invadido por um “ne me quittes pas”… Passando à frente de mais um à parte e continuando, os museus estão bem organizados e, na sua maioria, fazem parte de uma rede a que nos podemos associar obtendo facilidades de visita e informações variadas. Como ponto negativo,, senti já um excessivo zelo pelo respeito do horário de encerramento para lá do que seria razoável. A certo passo, bem cedo, os funcionários começam a “torcer o nariz” relembrando activamente e sonoramente qual a hora de encerramento. É um mal menor. Um dos pontos altos é a possibilidade de fotografar (desde que não se use flash) todos os museus. Neste momento, tenho milhares de fotografias de muitos museus da Bélgica e que apenas quando me reformar poderei organizar devidamente.

Se mais nada houvesse para fazer, os museus de Bruxelas poderiam ocupar um visitante durante longas semanas. No entanto, sinto que um possível propósito da existência de fabuloso e dispendioso espólio é ajudar a manter unido um país ainda jovem. É um objectivo nobre até porque a Bélgica é um país de gente boa e que ajuda a construir um mundo melhor. Espero que assim continue.