domingo, 25 de fevereiro de 2018

Crónicas de Bruxelas 14 - Mau tempo

Neve em Bruxelas.
Foto: F Cardigos

O conceito de “mau tempo” depende largamente do gosto pessoal e da experiência que temos ao longo da vida. O meu coincide parcialmente com o de muitas pessoas, mas não com a totalidade. Gosto de Sol sobre um céu azul, da brisa refrescante sobre a tarde, mas gosto de neve e frio, especialmente se tiver um bom casaco, e gosto do mau tempo no mar… Gosto do vento forte, da emoção das ondas grandes, gosto de sentir os salpicos de mar a polvilhar-me a cara enquanto se tenta navegar para o porto de abrigo de qualquer ilha dos Açores e gosto de sentir o barco a escorregar nas ondas... Gostos… Aborrece-me o tempo indefinido, entre as boas abertas e a chuva molha-tolos, ou as rajadas ocasionais num amanhecer sombrio. Se é para ser, que seja a sério!
Vem tudo isto a propósito do tempo de Bruxelas. Para a maioria das pessoas, a cidade de Bruxelas tem um céu permanente cinzento, raramente se vislumbra o Sol, chove muito e faz frio. Se é verdade que a capital Europeia tem tudo isso, não é menos verdade que há muitos dias de céu azul, com um Sol radioso e temperaturas generosas. Quando isso acontece, muitos dos cidadãos da cidade ocupam os parques e jardins usufruindo sofregamente do “bom tempo”. Aos milhares, e estou longe de estar a exagerar, polvilham todas as zonas verdes de tapetes onde se deitam a conversar ou a apanhar Sol, se exercitam a tocar um instrumento musical, a praticar um desporto em família ou a jogar um qualquer jogo de tabuleiro. Passam os finais de tarde durante a semana ou dias inteiros no final de semana em espaços centrais e emblemáticos, como o Parque do Cinquentenário, ou na floresta que circunda a cidade de Bruxelas, a Forêt de Soignes. Talvez resultado da escassez de oportunidades, sempre que o “bom tempo” desponta, dá-se esta "deslocação de massas" benigna e entusiasta.
Assim, quando informo que venho dos Açores segue-se quase sempre a pergunta, “mas como é que conseguiste trocar o bom tempo das ilhas pelo cinzento de Bruxelas?”. É que, ainda por cima, à inexplicável ilusão de que as ilhas são todas tropicais, nos boletins meteorológicos televisivos locais, ao “bom tempo” é muitas vezes associado o Anticiclone dos Açores. Portanto, para um belga médio, o “bom tempo” é dos Açores e quem disser o contrário mente.
A experiência ensinou-me a não afrontar este mito e tentar ser conciliador, o que me leva a tentar explicar que o tempo nos Açores é “susceptível”. Não é bom nem mau, tem “personalidade própria”. Depois, com o correr da conversa, tento explicar que o tempo nos Açores tem uma “personalidade própria” “muito forte” e que uma das artes dos Açorianos é saber conviver com os elementos fazendo das contingências atmosféricas uma das suas mais valias. Navegar à vela com vento é muito mais engraçado do que o fazer na calmaria, fazer um trilho no meio da bruma torna o levantar da mesma um espectáculo inesquecível, com uma qualquer caldeira a emergir por entre as nuvens.

Passei o ano nos Açores. Fui até ao Corvo e entre o calor familiar dentro de casa e as tempestades à volta, usufrui daquilo que os Açores têm de muito bom. Não é para todos, admito, mas, tal como a música clássica, a pintura expressionista ou a gastronomia asiática, o tempo dos Açores primeiro estranha-se e, depois, entranha-se. Para mim, hoje em dia, um Inverno sem uma boa borrasca açoriana não é Inverno a sério, mas, ao mesmo tempo, começo a conseguir compreender o prazer de uma boa tempestade de neve. Lá está, gostos…

domingo, 11 de fevereiro de 2018

Crónicas de Bruxelas: 13 - Política de Coesão em risco

Obra apoiada pelo FEDER na costa da Ilha do Corvo.
Foto: F Cardigos

Segundo um inquérito recente, apenas 29% dos portugueses estão cientes que há projectos a ser executados na sua área de residência com apoio da União Europeia. Ou seja, mais de dois terços dos portugueses não fazem ideia que há verbas avultadas oriundas dos fundos comunitários que cofinanciam as obras de que beneficiam quotidianamente. Isto é particularmente surpreendente porque todas as obras cofinanciadas têm essa referência exposta em local digno e praticamente todos os dias se fala na importância dos financiamentos comunitários na comunicação social. Ou as pessoas andam particularmente distraídas ou estão concentradas em fontes informativas de credibilidade duvidosa. As chamadas “fake news”, ao inundarem a comunicação e as redes sociais com “veneno” antieuropeu estão a produzir o efeito desejado pelos antieuropeístas… Reforçando este ponto de vista, refira-se que num artigo de jornal do início de Dezembro fazia-se uma súmula de 42 notícias falsas sobre a União impressas nos jornais britânicos ao longo dos últimos vinte anos.
Esta injusta ignorância é transversal a grande parte da União Europeia, atingindo o máximo na Dinamarca (86%) e o mínimo na Polónia (20%). Outros países que partilham um elevado grau de desconhecimento incluem, para além da Dinamarca, a Áustria (84%), a Bélgica (83%), a Holanda e o Reino Unido (ambas com 82%). Estes dois últimos países fizeram recentemente escolhas através de referendos cujos resultados apontaram para um distanciamento da União Europeia e, no caso do Reino Unido, com as consequências dramáticas do Brexit.
Curiosamente, por entre as pessoas que declaram ter conhecimento dos cofinanciamentos da União europeia, 78% têm uma percepção positiva do seu resultado. O máximo da percepção de resultados positivos é atingido na Irlanda (90%), o mínimo na Itália (43%) e Portugal está junto à média com 77%. Portanto, a maioria desconhece a importância da União Europeia em termos de investimentos reais no seu território, mas, os que a reconhecem, consideram que o seu efeito melhora o seu dia-a-dia.
Estes resultados e as conclusões não são minhas, mas sim da Comissão Europeia, e foram recentemente divulgados numa conferência em Bruxelas sobre a Política de Coesão. A Política de Coesão é uma de diversas políticas que tem instrumentos financeiros associados. Outras políticas, que inacreditavelmente dois terços dos portugueses não sabem que têm um importante e generoso braço financeiro, incluem, entre outras, a Política Agrícola Comum, a Política Comum das Pescas e a Rede Natura 2000.
A Política de Coesão é, e passo a citar, “a principal política de investimento da União Europeia. Está direcionada para todas as regiões e cidades da União Europeia com vista a apoiar a criação de emprego, a competitividade empresarial, o crescimento económico e o desenvolvimento sustentável e a melhorar a qualidade de vida dos cidadãos.”. No terreno, a Política de Coesão é agilizada através do Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional (FEDER), do Fundo Social Europeu (FSE) e do Fundo de Coesão. Para além dos fundos relacionados com a Política de Coesão, os Fundos Europeus Estruturais e de Investimento (FEIE) incluem ainda o Fundo Europeu Agrícola de Desenvolvimento Rural (FEADER) e o Fundo Europeu para os Assuntos Marítimos e as Pescas (FEAMP).
Sei que os números grandes são difíceis de conceptualizar, mas de qualquer forma, aqui fica: de 2014 a 2020 terão sido investidos 352 mil milhões de euros através da Política de Coesão, ou seja, 1/3 do Orçamento da União Europeia. No período de financiamento de 2007 a 2012, por exemplo, foram melhorados os sistemas de água para mais de 3 milhões de cidadãos; 15 milhões de pessoas participaram nas acções de formação financiadas pelo Fundo Social Europeu e 198 mil empresas receberam apoios directos. No caso dos Açores, entre muitos outros, os centros de saúde, as escolas, as estradas, as selagens das lixeiras, os alojamentos locais, os restaurantes e um etecetera muito grande foram parcialmente apoiados pelos fundos de coesão. Os investimentos do Governo Regional, das autarquias e dos particulares estão a receber mais de 658 milhões de euros (total aprovado desde 2014 a Outubro de 2017) para cofinanciar centenas de iniciativas. É muito dinheiro!

Acontece, e isto é grave, que há diversos políticos europeus que consideram que a Política de Coesão já não é assim tão importante e defendem o seu fim. Justificam com o facto de já não estarmos em crise, de estarmos a canalizar verbas avultadas para projectos frágeis ou pouco reprodutivos do ponto de vista financeiro e de haver uma baixa execução financeira. Para que não tenham sucesso, é essencial que os cidadãos europeus façam sentir aos seus eleitos que consideram a Política de Coesão importante. Isso pode ser feito por diversas formas, mas irei salientar duas que me parecem bastante simples: aderir à Aliança para a Coesão (no Google procurar “cohesion alliance” e, se concordarem, seguir as indicações) e contar as histórias de sucesso da Política de Coesão. Para nos inspirarmos, no nosso caso, muito provavelmente, bastará olhar pela janela.

domingo, 28 de janeiro de 2018

Crónicas de Bruxelas: 12 - Como fazer bem um país

"Naissance d'une Nation" de Marius Vos.
Foto: F Cardigos

Ao contrário do que este título poderá indiciar, e apesar de ser um firme defensor da autodeterminação dos povos, eu sou muito crítico quanto à formação de novos países. Penso que a cultura, a dimensão, a coerência, a solidariedade e a redundância da maioria dos países actualmente existentes deve ser mantida e apenas colocada em causa perante situações extremas.
Ainda em jeito de introdução, devo deixar claro que não estou a escrever sobre a Catalunha ou a Escócia, mas sim sobre Estados soberanos. Portanto, não vou escrever sobre o eventual futuro, mas sim sobre o passado. Para olhar para esse passado, vou-me deter em três exemplos: Timor-Leste, Eslováquia e Estónia.
Como as pessoas da minha geração e mais idosas se lembram, no início do século, após dezenas de anos de repressão Indonésia, Timor-Leste conseguiu a sua independência. Várias pessoas protagonizaram a resistência timorense, tornando-se heróis internacionais. Portugal, neste período, na minha opinião, escreveu algumas das suas páginas de ouro em termos de abnegada solidariedade e virtude diplomática.
A Eslováquia nasceu, enquanto país soberano, por cisão da Checoslováquia em 1993. Muito simplesmente, as autoridades do Sul demonstraram interesse em ser independentes e o Norte aceitou. A norte ficou a República Checa e a Sul a Eslováquia. Não houve dramas nem confrontos. O então Presidente da Checoslováquia não apelou a nacionalismos, nem movimentou as tropas. Tudo foi feito com rapidez e elevação.
Por último, quero deter-me no caso mais antigo deste trio. A Estónia cobre um território habitado desde há mais de oito mil anos. Durante centenas de anos, o seu espaço fez parte de países como a Alemanha, a Dinamarca, a Suécia e, finalmente, o Império Russo. No século XIX , por iniciativa de intelectuais deste território, fizeram-se esforços para valorizar a cultura estónia passando também por uma divulgação e normalização da própria língua. Com o segundo maior nível de literacia do Império, a população da Estónia estava preparada para o processo que hoje é denominado por “acordar nacional”. Localmente, uma das formas utilizadas para valorizar a cultura foi a realização de encontros de coros musicais. No século XIX esta seria uma maneira eficiente de transmitir a língua de uma forma apelativa, harmónica, inclusiva e festiva. Desde 1869 que o Festival de Coros da Estónia anima a cidade de Tallinn a cada cinco anos. Em 2014, perante 80 mil pessoas, actuaram mais de trinta mil cantores divididos em mais de 1000 coros. São números impressionantes e que, sem dúvida, movimentam uma pequena nação.
Entre os passos mais importantes do “acordar nacional” no século XIX conta-se o progressivo estabelecimento de instituições estónias o que, aproveitando a Revolução Russa de Outubro de 1917, permitiu que no início de 1918 a Estónia já se autoproclamasse como país independente. As instabilidades europeias dos anos 30 e 40 atiraram a Estónia para um período de quase nula autonomia, quanto mais independência… Em 1991, com a queda do Muro de Berlim, a Estónia voltou a ser um Estado soberano e, já agora, assente numa democracia sólida.

Por razões completamente diferentes e com percursos contrastados, Timor-Leste, Eslováquia e Estónia tornaram-se recentemente inquestionáveis Estados soberanos. As suas jovens democracias, ainda com algumas vicissitudes, são prometedoras de países estáveis e justos. Penso que são exemplos dignos de como se faz um país. 

domingo, 14 de janeiro de 2018

Crónicas de Bruxelas: 11 - Banda Desenhada

Aspecto exterior do Museu Hergé.
Foto: F Cardigos

Uma das virtudes da Bélgica é o seu apreço pela banda desenhada. Na cidade de Bruxelas existem diversas livrarias e dois museus especializados nesta arte. Alguns dos maiores vultos dos livros aos quadradinhos são belgas e, apenas para nomear o mais conhecido, relembro que Hergé, o criador do Tintim, era belga. Mas há muito mais: os estrumpfes, o Gaston Lagaffe e o Marsupilami são também belgas. Mesmo o Michel Vaillant, que é tão francês quanto uma personagem de banda desenhada pode ter nacionalidade, nasceu na revista do Tintim. Para além de Vaillant, também Blake e Mortimer, Ric Hochet e Alix nasceram na revista “para jovens dos 7 aos 77 anos”. Aliás, as ligações entre a Bélgica e a França, no que diz respeito à banda desenhada, são muito intensas. Por exemplo, as personagens Spirou e Fantasio foram criadas em França, mas foi o belga Franquin que produziu as suas histórias durante dezenas de anos.
Porque sou apreciador de banda desenhada, visitei com algum cuidado os dois museus completamente dedicados a esta arte aqui em Bruxelas. Um deles tem o nome de Centro Belga de Banda Desenhada e está instalado num edifício Arte-Nova com alas que versam temas como os autores belgas ou a arte de desenhar. No entanto, a ala que me impressionou mais foi a dedicada à cidade de Bruxelas. Os curadores do museu ampliaram vinhetas que ilustram a cidade de Bruxelas. O resultado é impressionante. Sentimo-nos a fazer uma visita virtual guiada pelos mais importantes heróis da banda desenhada, belgas ou não, passando de telhados para ruas e de ruas para os edifícios mais emblemáticos. Valoriza a cidade e a banda desenhada. Muito bem!
O segundo museu é dedicado às personagens de banda desenhada. Aqui estão em exibição muitas centenas de bonecos de banda desenhada com tamanhos que variam desde o polegar até ao tamanho real, se é que uma personagem de banda desenhada pode ter um tamanho “real”... Nalguns locais, incluindo no próprio museu, é possível adquirir este tipo de bonecos ou os seus acessórios. Por exemplo, numa livraria de Bruxelas, vi um modelo da nave que “levou” o Tintin à Lua à venda por mais de oitocentos euros e, neste momento, num sítio da internet pedem 1250 euros por um exemplar em resina do Gaston Lagaffe a dormir no ninho dos marsupilamis!
Já fora de Bruxelas, há um outro museu muito interessante. Este é totalmente dedicado a Hergé, o criador do Tintin. Está instalado num edifício moderno, concebido de raiz para albergar algumas das preciosidades criadas por este autor e, evidentemente, com particular destaque para as Aventuras de Tintim e Milu.

Para os belgas a banda desenhada é tão importante que um dos aviões da Brussels Airlines, está totalmente decorado com imagens das Aventuras de Tintin. Já tive a sorte de viajar para Lisboa neste avião. Para além das imagens omnipresentes, à partida de Bruxelas distribuíram álbuns do Tintin para lermos durante a viagem. Não há dúvida que é uma excelente forma de promover um dos produtos de maior sucesso da Bélgica e divulgar a sua cultura. Talvez fosse de fazer o mesmo na SATA, eventualmente usando queijadas da Graciosa, amostras de queijo de São Jorge, poemas de Antero, fotografias subaquáticas ou, sei lá, tanta coisa... Não sei se seria financeiramente viável, mas poria o mundo a falar ainda mais sobre os Açores, tal como eu estou agora a escrever sobre a Bélgica!

domingo, 31 de dezembro de 2017

Crónicas de Bruxelas: 10 - Guichês

Guichê em Bruxelas.
Foto: F Cardigos

Desde tempos remotos que houve necessidade de estabelecer o modo, os locais e o tempo em que os cidadãos comunicavam com a administração. Não sou historiador nem tenho ambições de sistematizar uma viagem neste relacionamento ao longo dos tempos, mas imagino que seja um tema interessante. Apenas me irei deter no meu tempo de vida, portanto, poucos anos mais uns poucos...
Antigamente, qualquer funcionário de repartição pública, banco, correios, estações de autocarros e comboios comunicava com o cidadão comum através de guichês. O guichê é uma estrutura que separa duas divisões em que, de um lado, se encontra o território do funcionário e, do outro, o território do atendido. Os guichês mais assustadores são compostos por um balcão alto e, na parte superior desse balcão, um vidro mais ou menos espesso que protege o funcionário da pessoa que esteja a ser atendida. Os guichês mais avançados têm sistemas de comunicação através de microfone e altifalante e os eventuais documentos são trocados através de bandejas rastejantes. As vantagens dos guichês incluem a proteção física do funcionário contra doenças ou reações menos apropriadas do atendido.
Em Portugal, desde o 25 de Abril, os guichês têm vindo a desaparecer gradualmente, em particular, no espaço da administração pública. Em seu lugar têm aparecido secretárias em que de um lado se senta o funcionário e, do outro, se senta a pessoa que está a ser atendida. Seja nas câmaras municipais ou nas repartições de finanças, no Portugal de hoje os guichês estão em extinção. Na minha opinião, é um bom avanço que contribui para melhorar as relações entre a administração e os cidadãos, tornando-as mais humanas.
Veio-me tudo isto à memória por, num curto período de tempo, ter sido confrontado com dois guichês aqui em Bruxelas. Primeiro no Parlamento Europeu, em que trocaram um simpático e conveniente balcão por um guichê dos mais assustadores e avançados. Os funcionários do Parlamento Europeu encarregues das acreditações dos visitantes estão agora escondidos atrás de um vidro tão espesso que apenas os podemos entender se o sistema de comunicação electrónico estiver em funcionamento. Como os vidros são ligeiramente escurecidos, às vezes pergunto-me se haverá seres humanos do lado de lá… Razões de segurança não parecem justificar todo este aparato, já que apenas podemos chegar a estes guichês depois de termos passado dois níveis de segurança.
Já depois de ter deixado de trabalhar no Parlamento Europeu tive de regularizar a minha situação na Commune (similar à nossa Junta de Freguesia, mas com mais competências). Fiquei espantado por, também aqui, haver guichês.
Há anos que, em Portugal, os guichês foram sendo substituídos por móveis modernos e acolhedores, que convidam quem tem um problema a sentar-se e a comunicar civilizadamente com funcionários que, sem receio, recebem com conforto e solicitude. Há sítios de contacto rápido, como os correios, em que ainda há balcões, mas na maioria dos departamentos administrativos, já se entra, senta-se e fica-se à vontade. Em muitos locais ainda se espera de pé e por tempos não admissíveis, o que é um contra-senso e uma oportunidade de melhoria para os serviços públicos em Portugal, mas, quando finalmente iniciamos a conversa com o funcionário, sentimos-nos bem.
Como um número crescente de operações burocráticas comuns já podem ser realizadas usando a internet, se uma pessoa tem de se deslocar às finanças ou à Câmara Municipal é porque o caso é grave, complicado ou a pessoa em causa tem dificuldades em lidar com as novas tecnologias. Também por estas razões, há que receber bem, com conforto e dignidade. Faz todo o sentido.
As estações de transportes públicos (comboio, metro e autocarro) e alguns serviços nocturnos de elevado risco, como as farmácias e as bombas de gasolina durante a noite, ainda têm guichês, mas pouco mais. Os guichês são “animais” em extinção em Portugal. Neste campo, a Bélgica ainda tem um caminho a percorrer para mais humanizar as relações entre a administração e os cidadãos. 

domingo, 17 de dezembro de 2017

Crónicas de Bruxelas: 9 - Museus

Bonecos em tamanho real no museu das figuras de banda desenhada.
Foto: F Cardigos

Como já relatei anteriormente, há uma intensa aposta dos Belgas na cultura. Desde a educação de cada jovem até à disponibilização da arte, material ou imaterial, a cada cidadão, um pouco de tudo é proposto para que se possa usufruir de muitos dos pequenos e grandes prazeres que este mundo nos pode proporcionar.
Poder-se-ia pensar, como de resto eu pensava, que o investimento do Estado Belga na arte estaria essencialmente relacionado com a tentativa de incutir um sentido de pátria aos habitantes de um dos recentes países Europeus (relembro que a Bélgica tem pouco mais de 170 anos), mas isso seria uma simplificação exagerada da realidade. Depois de ter visitado muitos museus de Bruxelas e arredores, e apesar de ninguém me ter dito, penso que a tentativa de transmitir este sentimento patriota passa pela partilha das diferentes expressões artísticas deste povo, mas, ao mesmo tempo, por dois outros níveis estratégicos.
Passo a explicar. A Bélgica é um país constituído por quatro comunidades culturalmente diferentes. Há uma comunidade flamenga a Norte, uma comunidade francófona a Sul, uma pequena comunidade germanófila a Leste e uma comunidade que mistura as duas primeiras na cidade de Bruxelas (localizada no centro do país). Para ser totalmente claro, e como um à parte, há que dizer que esta comunidade da cidade capital é ainda mais complexa já que agrega dezenas de milhares de funcionários das instituições europeias, da sede mundial da NATO e de organizações de pressão e representação que são oriundas de todos os cantos do mundo. Não esquecendo ainda uma grande percentagem de população imigrante. Enfim… é complicado... Terminado o à parte, refiro que um dos objectivos do investimento em arte poderá ser estender o conhecimento, a compreensão e a valorização do que se faz em cada uma das comunidades às restantes. Faz sentido.
Passemos a outro dos níveis estratégicos. Os museus Belgas, faça-se a respectiva vénia, concentram e expõem arte de todo o mundo. Este povo aprecia verdadeiramente o multiculturalismo. Tendo isto em consideração, imagino que, por exemplo, ao passearem-se pelo museu dos instrumentos musicais e ao ver e ao ouvir peças dos quatro cantos do nosso planeta, os cidadãos belgas se sintam orgulhosos do espólio que angariaram. A Bélgica teve a vontade e teve a capacidade de agregar exemplos do que de bom se faz no mundo e isso é, na minha opinião, um factor de orgulho e de integração nacional. A seguir à educação escolar, os museus são a ferramenta que, pelas razões apontadas atrás, mais ajudam a enaltecer o orgulho patriótico, naquilo que este conceito tem de bom.
Há muitas dezenas de museus na cidade de Bruxelas. Os temas são mesmo muito variados e incluem, entre muitos outros, a pintura, a banda desenhada, os antigos territórios Belgas, o chocolate, a guerra, os automóveis, a história, a geografia, as instituições europeias, a antropologia, a cerveja, a história natural e mesmo um dos grandes vultos musicais da Bélgica, Jacques Brel. Sinto-me repentinamente invadido por um “ne me quittes pas”… Passando à frente de mais um à parte e continuando, os museus estão bem organizados e, na sua maioria, fazem parte de uma rede a que nos podemos associar obtendo facilidades de visita e informações variadas. Como ponto negativo,, senti já um excessivo zelo pelo respeito do horário de encerramento para lá do que seria razoável. A certo passo, bem cedo, os funcionários começam a “torcer o nariz” relembrando activamente e sonoramente qual a hora de encerramento. É um mal menor. Um dos pontos altos é a possibilidade de fotografar (desde que não se use flash) todos os museus. Neste momento, tenho milhares de fotografias de muitos museus da Bélgica e que apenas quando me reformar poderei organizar devidamente.

Se mais nada houvesse para fazer, os museus de Bruxelas poderiam ocupar um visitante durante longas semanas. No entanto, sinto que um possível propósito da existência de fabuloso e dispendioso espólio é ajudar a manter unido um país ainda jovem. É um objectivo nobre até porque a Bélgica é um país de gente boa e que ajuda a construir um mundo melhor. Espero que assim continue.

sábado, 2 de dezembro de 2017

Crónicas de Bruxelas: 8 - Trânsito

Aspecto do trânsito na cidade de Bruxelas.
Foto: F Cardigos

Os belgas, dizem-me, são muito dedicados à família e às actividades realizadas em conjunto dentro do seio familiar. Entre as actividades privilegiadas contam-se a realização de diversos desportos, o usufruto da natureza, as prolongadas refeições que contam diversos pratos intermediados por longas conversas, a prática religiosa (católica) e a bricolage. Interessa-me aqui particularmente a bricolage porque, segundo a minha teoria, não comprovada, este interesse tem uma ligação directa com grande parte da realidade belga, incluindo o trânsito.
Bruxelas é uma cidade extraordinária, como tenho vindo a relatar nestas crónicas. Há inúmeros pontos fortes e, como não poderia deixar de ser, debilidades. O trânsito é, sem sombra de dúvida, um dos factores que mais ensombra a vida em Bruxelas e com consequências tremendas. O tráfego é de tal forma intenso que resulta em níveis de poluição que já valeram à cidade admoestações por parte da Comissão Europeia. Sim, não é apenas Portugal que recebe reprimendas da Comissão Europeia, as razões é que são diferentes… Os níveis de poluição são tão severos que nos andares mais baixos do edifício em que trabalho é proibido abrir as janelas durante a tarde, para evitar as consequências nocivas para a saúde dos trabalhadores. Por sorte, eu trabalho “num modesto primeiro andar a contar vindo do céu”, para citar uma conhecida música portuguesa.
O trânsito nas horas de ponta é infernal e, não compreendo porquê, não há acções consequentes por parte do município que alterem este estado de coisas. Os transportes públicos são muito razoáveis e circulam dentro do horário estabelecido. Quer dizer… os motoristas de autocarro não têm qualquer noção das distâncias necessárias para acelerar ou travar, o que resulta em alguns dissabores, mas nada de muito grave.
Voltando à linha de raciocínio.
As permanentes obras contribuem para o caos automobilístico. Desde prédios totalmente funcionais que são destruídos e reconstruídos no mesmo local e com a mesma tipologia, a rearranjos de arruamentos, obras e obretas, sem qualquer nexo aparente, até a obras de manutenção realmente essenciais, tudo polvilha a cidade de Bruxelas de tapumes, guindastes e obriga a restrições e reorientações do tráfego. Penso eu, esta tendência dos belgas de transformar o ambiente construído que os rodeia é a extensão para o nível do Estado do seu gosto pela bricolage. Da pequena obra na cozinha e a jardinagem de final de semana passamos à detonação de prédios e tudo lhes parece natural... Não é!
Se os transportes públicos são muito razoáveis e o trânsito é um pequeno inferno, o que falta para as pessoas abandonarem os seus veículos privados em casa e passarem para os transportes públicos? O que falta para que os carros que têm realmente que circular o possam fazer de forma fluída? Penso que apenas se resolverá este problema com o regrar destas obras que emprestam a cada dia uma novidade que afunila e atrasa a circulação e exaspera cada condutor. Ao mesmo tempo, terão de realizar-se acções fortes que limitem o número de viaturas, especialmente nos dias em que a meteorologia favorece a concentração de poluentes, tal como acontece em diversas cidades da vizinha França e da distante China, apenas para dar dois exemplos. Quando isso acontecer, a maioria dos cidadãos da cidade de Bruxelas irá finalmente conhecer os seus transportes públicos e ficará alegremente surpreendida.

Entretanto, diz-me um colega, “tive de mudar de casa!”. O médico disse-lhe que os níveis de poluição no seu bairro central não são compatíveis com a fragilidade da sua saúde pulmonar. Por esta e por outras razões, entre as quais o terem espaço para as suas actividades de bricolage, muitos belgas moram já fora da cidade de Bruxelas, o que contribui ainda mais para o trânsito infernal quando diariamente se deslocam para os seus empregos. Conclusão, ou se faz alguma coisa rapidamente em relação ao trânsito em Bruxelas ou pode correr muito mal…

domingo, 26 de novembro de 2017

Crónicas de Bruxelas: 7 - Roménia


Delta do Danúbio, entre a Roménia e a Ucrânia.
Foto: F Cardigos

É evidente que a saudade da família e dos amigos, a distância ao mar e às confortantes referências pessoais são factores que pesam, mas há algumas vantagens em viver grande parte do tempo deslocado longe de casa e no centro da Europa. Uma delas é a facilidade de aceder a muitos países e, desta forma, conviver com culturas diferentes e outras formas de ver o mundo. Seja por razões de trabalho ou aproveitando um final de semana mais comprido, é frequente os habitantes de Bruxelas cruzarem fronteiras e experimentarem a diversidade europeia.
Na última semana estive na Roménia, mais precisamente em Constanta, tendo brevemente passado por Bucareste. Constanta é uma cidade costeira do Mar Negro, em que uma parte significativa dos seus 350 mil habitantes presta serviços a um dos grandes portos europeus. Há diversas universidades generalistas com campus em Constanta e duas escolas superiores, uma pública e outra privada, totalmente dedicadas à marinharia.
Estive em Constanta para participar num congresso internacional sobre o Mar Negro. O meu objectivo principal era compreender um pouco mais quais as soluções para um espaço marítimo que está sob uma enorme pressão em termos de exploração e poluição e mesmo militar. Não se vivem tempos fáceis no Mar Negro. Essencialmente por haver um evidente distanciamento político entre a Rússia, por um lado, e a Ucrânia, a União Europeia e a Turquia, por outro, não há nenhuma opção milagrosamente fácil. O caminho será espinhoso e tortuoso. Outra coisa não seria de esperar depois da anexação da Crimeia... No entanto, como quase sempre acontece quando os desafios são elevados, há um conjunto de pessoas dedicadas que tentam encontrar saídas para situações que são, sem dúvida, muito complicadas. Assim, notei que as pessoas com quem falei querem encontrar caminhos equilibrados, tendo em conta os aspectos geopolíticos, os relacionados com as pescas, com os transportes marítimos e com a poluição oriunda das indústrias costeiras.
Fora do congresso, em Constanta, vi pessoas acolhedoras, empenhadas nas suas profissões e curiosas em relação ao seu futuro e à vida integrada na União Europeia. Fazendo em alguns aspectos lembrar Portugal a meio dos anos 80, as duas cidades que visitei, Bucareste e Constanta, estão a entrar rapidamente num modo de vida assente na propriedade privada e na competição, mas ainda assente numa estrutura e organização com nítidas reminiscências do período comunista. Vemos instalações eléctricas desajustadas do mundo desenvolvido e novas empresas a ocupar espaços em prédios envelhecidos e pavilhões decadentes, alguns, aparentemente, à beira de ruir a qualquer momento. No entanto, aquilo que mais me fascinou foi a vida. As pessoas estão optimistas e dinâmicas, com uma energia que faz inveja à indiferença e ao cinzentismo que vemos em outros pontos da Europa.
A certo ponto, decorreu, como normalmente, o jantar formal do congresso. Depois de terminadas as entradas, fiquei surpreendido por a música ambiente estar tão alta. Olhei para a pessoa que estava sentada ao meu lado, o responsável pelo organismo científico que ajuda a determinar as possibilidades de pesca no Mar Negro e Mediterrâneo, e disse-lhe que, infelizmente, dado o barulho, não conseguíamos falar. Ele olhou-me, riu-se educadamente e perguntou-me “mas quem é que quer conversar?!”. Ia ficar ofendido, mas percebi de imediato o que ele queria dizer. Todos os participantes locais já estavam no espaço central da sala a dançar e a pular, contagiando os restantes a integrar as danças romenas, gregas e búlgaras. Foram pacientemente explicando aos estrangeiros cada um dos passos, mas sem qualquer preocupação com o sucesso dos seus esforços. Eles queriam dançar e queriam que todos participassem, sem qualquer preocupação com os aspectos estéticos do resultado final. O ideal para desastrados da dança como eu. No entanto, tudo aquilo foi evoluindo ao longo do jantar e, depois da sobremesa, enquanto se esperava pelo café já se ouvia e dançava, imagine-se, heavy metal… Eu vi septuagenários a dançar música do grupo Paulista “Sepultura”. Inacreditável…
Para os que conhecem, imaginem um filme do Sérvio Emir Kustirica em que um conjunto de pessoas corre alegremente pela cidade, contagiando tudo e todos, e uma incansável banda de música os segue atrás. É isto. Na Roménia, durante o dia, todos são sérios e empenhados, mas, quando o sol se põe (e talvez isso explique parte das histórias da Transilvânia), há uma saudável transfiguração para pessoas cheias de vida e transbordantes de energia!

No avião de regresso a Bruxelas, conheci um camionista Romeno que voltava ao seu trabalho no norte da Europa, mais precisamente à Noruega. Depois de conversarmos um pouco, diz-me ele que “a Noruega é muito organizada, mas se eu tivesse uma proposta de trabalho na Roménia a ganhar um quarto do que ganho em Bergen, mudava já e sem hesitação”. Depois de três dias na Roménia, sinto que consigo entende-lo perfeitamente. 

domingo, 12 de novembro de 2017

Crónicas de Bruxelas: 6 - A boa música

Música de rua em Bruxelas.
Foto: F Cardigos

Era um jovem quando pela primeira vez estive numa cidade em que, no mesmo final de semana, havia mais de uma centena de concertos musicais gratuitos. A cidade era Bruxelas e o evento chamava-se então "Rally du Jazz". Ao caminhar pelas ruas de Bruxelas nesses dias, íamos ouvindo diferentes sons que escolhíamos ouvir durante mais tempo ou passar à frente. As melodias que a cada esquina se adivinhavam transmitiam emoções diversas. Entre o que se gostava e o que não se gostava, entre o que já se conhecia e o que se descobria, as vibrações eram muito positivas. Para mim, que, como a maioria dos jovens dos países do Sul, não tinha grandes recursos económicos, era uma forma de, adicionalmente, entrar em muitos dos espaços habitualmente pagos de Bruxelas. É que todos os concertos eram estritamente gratuitos.
Os músicos vinham dos quatro cantos do mundo, embora muitos fossem belgas e, diga-se, bons. A esse título conto uma pequena história. Um destes dias estive num concerto de uma banda musical da qual não sabia absolutamente nada, tirando o nome. Uns amigos desafiaram-me e lá fui eu para o que poderia apelidar de "blind concert". Gosto do conceito. Os "El Juntacadaveres", assim se chamava a banda, tocavam música de inspiração sul-americana e eram muito razoáveis. Gostei. Chegado o momento de apresentar os músicos, o vocalista começa a dissertar: "dos Estados Unidos da América, o nosso baixo", já não me lembro do nome, e continuou as apresentações até ao baterista, "de São Paulo, Brasil, Paulinho Curucutu, uma salva de palmas para ele!". Aplaudi, como aliás tinha aplaudido os restantes artistas. No final, não resisti e fui à saída de artistas onde várias pessoas se digladiavam para comprar CDs e obter os autógrafos dos músicos. Fiz o mesmo e dirigi-me ao Paulinho Curucutu. Estendendo o CD disse "Oi cara, vocês tocam muito bem. Fiquei surpreendido.", disse eu tentando dar uma entoação de terras de Vera Cruz às minhas palavras. Ele respondeu-me no melhor francês "Pardon. Que dites vous?!". Mas... "Vous êtes brasilien!?", disse eu entre o tom acusatório e confuso... "Moi?! Tu rigoles?! Je n'ai jamais été au Brésil.". Depois, continuou ele em francês, "Ah... as apresentações dos músicos... Isso é uma brincadeira que o vocalista faz para dar um aspecto mais convincente à nossa actuação! Desta vez fui brasileiro? Já fui argentino, colombiano e costa-riquenho... Desculpa..." Fiquei desarmado. Sabia que os poetas são uns autoassumidos mentirosos e aceites como tal pela sociedade, mas os músicos...? Não sei se está certo... No entanto, o fundamental para este artigo é que eles eram belgas e tão bons artistas que, sem hesitação, eu pensaria que eles eram naturais, crescidos e vividos nos quatro cantos do mundo que o vocalista apregoou.
Adolf Sax, o inventor do saxofone, era belga. Um dos meus guitarristas favoritos, Django Reinhardt, era belga. E dezenas de músicos que fui descobrindo em Bruxelas e em Portugal são belgas. Apesar de ser um país pequeno, a bélgica tem bons artistas em penso eu, isso resulta de uma política de educação musical que funciona. Para as crianças é relativamente fácil obter boas aulas de música por quase nada. Há, de facto, uma estratégia que privilegia as artes e, entre elas, a música. Por exemplo, as finais e meias-finais do concurso de musica clássica Rainha Elisabeth são transmitidas em directo pela televisão nacional e as finais em horário nobre. É uma estratégia que não deixa a boa cultura em segundo plano em relação às telenovelas e big-brothers, como vemos na nossa televisão portuguesa.
Uma das pérolas de Bruxelas é precisamente o Museu dos Instrumentos Musicais, um local imprescindível a quem visita a cidade. Começando pelo magnífico edifício Arte-nova e terminando na fabulosa coleção de instrumentos que podemos mesmo ouvir individualmente, tudo é extraordinário. O "Sounds", o "Jazz Station" e o "L'Archiduc" são alguns dos espaços que quase diariamente apresentam bons concertos. Desde o artista de rua, convidado a tocar nessa noite, aos melhores intérpretes internacionais, tudo é possível encontrar nestas e noutras salas.

Em qualquer final de tarde ou final de semana, nas ruas centrais de Bruxelas, temos sempre música pelo ar. Entre os cafés com música ao vivo, as salas de espectáculo ou os artistas de rua, há sempre música para nos animar ou, simplesmente, confortar. No entanto, durante o fim de semana do "Rally du Jazz", cujo nome passou a "Jazz Marathon" e agora é "Jazz Weekend", a harmonia é elevada a um nível absolutamente extraordinário. Que o digam os 300 mil visitantes que, nesse final de semana, enchem anualmente as ruas, cafés, discotecas e parques de Bruxelas.

domingo, 29 de outubro de 2017

Crónicas de Bruxelas: 5 - Parlamentar, o jogo

Jogo "Parlamentar" a ser testado.

Respeitando o conselho médico, andava eu pela cidade de Bruxelas entretido entre a obtenção do número mínimo de passos obrigatórios por dia e a esperança de ser surpreendido por qualquer coisa, algo que aqui acontece com alguma frequência. Ok, não é Paris, Londres ou Nova Iorque, mas não deixa de ter muitas pessoas, uma enorme diversidade de culturas e “boa onda”, o que é metade da receita para a surpresa. Se hoje tinha esperança, não fiquei desiludido.
Ao passar por um dos parques emblemáticos da cidade de Bruxelas, o parque que foi edificado para celebrar os cinquenta anos deste jovem país (relembro que a Bélgica tem pouco mais de 180 anos), reparei num extenso conjunto de barraquinhas. Periodicamente, há neste parque eventos que vão desde a festa medieval até à mostra de produtos portugueses, passando por quase tudo o resto. No dia de hoje, o espaço estava ocupado pelo Festival de Jogos de Bruxelas. Havia dezenas e dezenas de representações de empresas de jogos de mesa ou jogos de sociedade, conforme preferirem. Os seus nomes davam para cobrir todas as preferências, mas gostei especialmente das edições “Le Droit de Perdre”. Expressa bem o único direito que um jogador tem. O jogador pode ter o mérito de ganhar, mas tem certamente o direito de perder!
Cada uma destas empresas representava, expunha, exemplificava e vendia de um a centenas de jogos. Por todo o lado havia mesas com tabuleiros e, nas cadeiras em volta, sentavam-se amigos, famílias, conhecidos e desconhecidos e mesmo alguns autores dos jogos. O ambiente era fantástico. Desde o tradicional xadrez, passando por jogos de sensibilização ambiental, como um jogo chamado “Fotossíntese”, ou outros complicadíssimos envolvendo casas, castelos, guerreiros exemplarmente pintados em tabuleiros gigantes e que eu não percebi como se jogavam…
Na maior das barraquinhas, já com tamanho suficiente para se lhe chamar pavilhão, havia um espaço para teste de novos jogos. Os autores estavam presentes com tabuleiros, fichas e cartazes, nitidamente preliminares daquilo que um dia será um novo jogo de mesa, e desafiavam os transeuntes a experimentar o seu protótipo. Segundo me explicaram é uma situação duplamente ganhadora porque o transeunte tem uma experiência totalmente nova e os autores podem afinar as regras, os desafios ou o design dos jogos. Parei por algum tempo junto de alguns destes protótipos e testemunhei a curiosidade daqueles que se submergiam nos “novos mundos” e os apontamentos que os autores iam registando nos blocos de notas. Funcionava!

Um destes novos jogos chamava-se “Parlamenteur”. “Não é possível”, pensei para com os meus botões… “um jogo sobre o Parlamento…”, sem notar à primeira no detalhe do final do nome. Abordei um dos autores e disse-lhe que era interessante terem feito um jogo sobre parlamentares e eu trabalhar precisamente num parlamento, “não estava à espera”. O autor, embaraçado, mas, ao mesmo tempo, divertido, respondeu-me que sabia que nem todos os parlamentares eram mentirosos! Apenas aí caí em mim e reparei que o nome do jogo era um trocadilho entre as palavras francesas “parlamentar” e “mentiroso”. Ele explicou-me que o jogo se apoiava na mecânica das alianças que se formam num parlamento para formar governo e fazer passar as leis para explicar como funciona a democracia e alertar para como pode ser corrompida. “É um jogo muito pedagógico e que pretende ajudar a formar cidadãos mais informados e atentos aos detalhes do jogo político”. Os transeuntes que estavam a experimentar o jogo pareciam empenhados na vitória dos seus partidos imaginários, tentando obter as necessárias maiorias. Pelas palavras e pelos maneirismos, pareceu-me que estes jogadores já estavam a dominar a arte de cativar pela abnegação dos argumentos e pelo altruísmo dos objectivos que vou vendo no Parlamento Europeu. Espero que o jogo saia depressa e uma coisa posso garantir, vão ter um cliente!

domingo, 15 de outubro de 2017

Crónicas de Bruxelas: 4 - Encontrei a Babilónia em Bruxelas

A panóplia de línguas que ouvimos constantemente em Bruxelas é absolutamente fascinante. Tanto por aproximação à nossa língua (italiano e castelhano), pelo seu exotismo (grego e alemão) ou por as ter aprendido na escola (inglês e francês), há sete línguas que consigo identificar facilmente, mas o mesmo não acontece com as outras 17 que se falam oficialmente no Parlamento Europeu. A estas, acrescentem as línguas não oficiais, as línguas dos visitantes e os dialectos de cada comunidade e, penso eu, facilmente compreenderão porque considero que encontrei a Babilónia em Bruxelas.
Uma viagem de elevador é uma extraordinária aventura. Começamos por tentar entender a língua de quem vai conversando e, depois, tentamos, pelos gestos e pelo gracejar, entender qual será o tema em causa. Por vezes, uma expressão comum, tipo "Cristiano Ronaldo", faz-nos adivinhar o sentido da discussão. No entanto, é muito habitual não entender nem o tema nem sequer vislumbrar a língua. Tenho tentado fazer associações musicais para, pelo menos, entender qual a área europeia. Gostava de perceber se estou a ouvir romeno ou croata, maltês ou gaélico ou outras do meu grupo das exóticas como o finlandês ou húngaro. Nada feito. Continuam a existir as línguas que identifico e as outras. E as outras são mesmo muitas...
Com esta complexidade linguística, facilmente se entende que tanto os intérpretes como os tradutores são imprescindíveis em todas as instituições europeias. Resultado da complexa e dificilmente explicável organização das Instituições Europeias, os tradutores estão colocados no Luxemburgo e, por isso, pouco convivemos. Apenas damos por eles quando encontramos um ou outro erro de tradução e temos de sugerir correcções.
Já com os intérpretes é bem diferente. Eles acompanham os trabalhos onde quer que estejam os deputados europeus, tal como nós, os assistentes parlamentares. Muitas vezes, damos as intervenções antecipadamente aos intérpretes para garantir uma boa transmissão da mensagem nas diferentes línguas e é frequente entregar-lhes documentos de contexto para preparação de visitas ou debates. No entanto, onde mais se interage com os intérpretes é nas viagens de comboio entre Bruxelas e Estrasburgo, para onde nos deslocamos para participar nas sessões plenárias. Estas viagens e as conversas que se estabelecem entre nós são uma oportunidade para ficarmos a conhecer as particularidades desta profissão.
Uma das coisas que mais me fascinou foi saber que raramente os intérpretes aprendem algo durante o seu trabalho. Não, não é por serem políticos a falar... Longe disso. O que se passa, explicaram-me, é que o cérebro está demasiado ocupado a garantir a tradução e a entender o contexto para conseguir fixar a mensagem em si. Outros disseram-me que os intérpretes desenvolvem em particular a memória de curta duração. No início do período de trabalho ainda retêm alguma coisa, mas depois, com o avançar do dia, começam a não fixar nada do que se fala. Explicaram-me também que muitas das mensagens são muito pesadas do ponto de vista emotivo e que, por isso, o cérebro tem que se abstrair do significado. Sim, ponho-me a pensar, o que diria o meu cérebro se tivesse de facilitar a transmissão da mensagem xenófoba da Marine Le Pen...
Depois, explicaram-me também, é muito difícil entender todos os dialetos de certas línguas. Por exemplo, alguns dos galegos recusam-se a falar castelhano e preferem fazê-lo naquilo que anunciam como português. Estando supostamente a falar português, os intérpretes ficam condenados a ter que lidar com aquele estranho português e os participantes portugueses nas reuniões a tentar perceber o galego, já que os intérpretes portugueses não podem interpretar de alegado-português para português. É que, simplesmente, o galego não é português, por muito que os galegos o queiram... Para tentar ultrapassar estas situações, os intérpretes têm formações colectivas e, mesmo durante os debates, vão-se entreajudando. Neste caso em particular, do deputados que insistem em falar galeg... português!, os intérpretes portugueses vão auxiliando os restantes colegas.

Numa das últimas viagens de comboio conheci o chefe dos intérpretes portugueses. A seu cargo tem, entre muitas outras coisas, a definição dos intérpretes que participam em cada missão parlamentar. Segundo ele, o momento mais exigente para os intérpretes estrangeiros, que já consta nos anais das crónicas não oficiais do Parlamento Europeu, aconteceu numa visita aos Açores! Apesar das características linguísticas e fonéticas do nosso arquipélago, tudo corria bem até que... chegaram a Rabo de Peixe. Ao enfrentarem a comunidade piscatória, todos os intérpretes ficaram bloqueados, incluindo os portugueses!

domingo, 1 de outubro de 2017

Crónicas de Bruxelas: 3 - Recolha de resíduos, o ponto fraco de Bruxelas

Há uns meses atrás, na ilha das Flores, ouvi o senhor vice-presidente da Câmara Municipal das Lajes discursar durante um evento sobre o 14º Objectivo do Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas organizado pelo INATEL. Entre os diversos pontos que enalteciam a virtude da gestão camarária, a certo ponto, passou-se para os números. Concentrei-me. Porque os números são indicadores objectivos permitem-nos fazer um balanço justo e claro da gestão. Disse ele então que o concelho de Portugal com melhor índice de reciclagem de resíduos per capita era precisamente o das Lajes das Flores e, complementou, estava muito bem acompanhados porque no segundo lugar estava o concelho de Santa Cruz das Flores. Espectacular!
Ao ouvir estas palavras reflecti sobre a gestão de resíduos nos Açores. De facto, a planificação estratégica feita há algum tempo e a sua implementação nos últimos anos mudou radicalmente a forma como os resíduos são tratados no arquipélago. O comportamento pessoal mudou, a recolha mudou, o encaminhamento mudou e o destino final mudou. Um completo contraste com o que se passa em Bruxelas, no que se refere à recolha.
Em Bruxelas, a maioria dos resíduos domésticos e comerciais são deixados à porta de casa e das lojas em dias pré-definidos de acordo com a sua tipologia e recolhidos passadas poucas horas. Frequentemente, os sacos rompem-se e as ruas são invadidas por hordas daquilo que as pessoas não quereriam ver dentro das suas próprias casas. Nos dias com algum vento, os cartões esvoaçam rapidamente dando um aspeto caótico à cidade... De seguida, com um dispêndio que não deve ser nada baixo, aparecem umas brigadas de limpadores e varredores que tentam conter os danos. Em resumo, não há dia em que eu não apanhe qualquer coisa do chão e vá meter no caixote do lixo mais próximo. Não o faço por especial sentido cívico, mas sim porque é insuportável ver jardins tão fantásticos e ruas com extraordinárias obras de arte polvilhadas com garrafas de plástico ou guardanapos. "Chateia-me, pá..."
Será que há demasiado dinheiro para gerir esta cidade? Se houver necessidade de alguma contenção, então que se invistam em mais ecopontos e institua-se a sua utilização. A recolha porta a porta funciona em pequenas comunidades que sejam particularmente atentas e responsáveis.
Para além disso, aqui em Bruxelas há um conjunto de regras que excluem dos "amarelos", que aqui são "azuis", muitos dos plásticos. Apenas as embalagens podem ir para reciclagem. Recuso-me a cumprir, mas posso mesmo ser multado! Imagine-se isto na dita capital da Europa...

Há uns dias atrás, ao sair de casa na ilha do Faial, reparei que os vidros dos carros tinham presos nos limpa pára-brisas um panfleto de anúncio a um espectáculo de striptease. Achei curioso, até porque não era coisa que esperasse ver em plena cidade da Horta. Um jovem à minha frente, longe de achar curioso, ficou furioso pela sugestão que lhe tinham colocado no carro. Tirou o panfleto, amarrotou-o irritadamente e mandou-o para o chão. De imediato, peguei no panfleto, dobrei-o para não causar demasiado embaraço, e fui-lhe entregar dizendo "compreendo a revolta, mas não no chão." Ele, com enorme fair-play, concordou dizendo "tem toda a razão". Era o que mais faltava, voltar aos Açores e, nos poucos dias que cá estou, ver lixo pelo chão. Já basta Bruxelas!

domingo, 17 de setembro de 2017

Crónicas de Bruxelas: 2 - Verde é a cor de Bruxelas


Os belgas podem ter, como todos os povos, imensas virtudes. No entanto, se há algo que é deles e de poucos mais, é o enorme bom gosto paisagístico.
Principalmente na Primavera e no Outono, os canteiros, as ruas, os jardins, os parques e as florestas embelezam-se de uma forma que chega a ser estonteante e não estou a exagerar.
Tudo isto resulta de uma estratégia de investimento nos espaços públicos que não tem paralelo em Portugal. Os Açores são lindíssimos, mas são-no naturalmente. É uma força bruta da natureza que os torna, tanto em terra como no mar, num dos mais belos locais do planeta. Não foi necessário qualquer investimento para serem como são. Aliás, por vezes, no caso dos Açores, o melhor é mesmo não mexer... A natureza nas magníficas ilhas do médio Atlântico Norte vale por si própria.
Até por ser uma cidade, em Bruxelas não é assim. Todos os parques têm equipas de jardineiros e as florestas têm serviços próprios que garantem o cultivo e a manutenção das centenas de milhares de flores, arbustos e árvores e a promoção das condições para que nasçam musgos e cogumelos. Os parques são desenhados por habilidosos jardineiros que colocam as flores nos sítios quase perfeitos. E digo "quase" porque, no ano seguinte, conseguem encontrar uma nova combinação ainda mais extraordinária que no ano anterior. Eu vi.
Apesar de não retirar qualquer prazer da maioria dos desportos singulares, exceptuando a natação, tenho praticado corrida por obrigação de manutenção física. Todas as semanas vou até uma das florestas que ficam no limite da cidade e obrigo-me a correr durante um pedaço de tempo que postulei como suficiente. A esta corrida semanal, junto uma caminhada diária de alguns quilómetros. Penso que o meu médico estará de acordo que isto é adequado, mas o melhor é continuar a não lhe perguntar...
Mas vem esta conversa do desporto à baila por causa da paisagem. Seria praticamente impossível praticar um desporto de que não gosto se não fosse acompanhado desta deslumbrante paisagem. No Outono, o amarelecer e avermelhar das folhas das árvores torna cada vista uma autêntica pintura de fogo de artifício cromático. No final de cada percurso há uma paisagem de cortar a respiração. Isso, diga-se, no meu caso até é perigoso porque, depois de correr alguns minutos, já fico muito perto de perder totalmente o fôlego...
Pouco me estimula a correr no Inverno e no Verão. No Verão, motiva-me a esperança de que as férias cheguem e possa partir para os Açores. No Inverno é apenas o ultrapassar-me que me empurra para a frente. Correr com temperaturas negativas ou pelo meio da neve é suficientemente radical para servir de "lebre". 
Mas a Primavera é espectacular. O renascer das folhas, que vou acompanhando e registando semanalmente, as flores que se vão multiplicando e que, com o avançar da Estação, se vão substituindo são extraordinárias. Há umas flores que, com o andar do tempo, vão como que subindo pelas encostas da floresta que mais frequento! Toda esta delicadeza e beleza é acompanhada por esquilos, morganhos, ratos, doninhas, raposas, dezenas de espécies de aves e, dizem, veados e javalis (eu nunca os vi). 

No outro dia, entre o desespero da luta contra o cansaço e o tédio que é para mim correr, vi um carro dentro da "minha" floresta. Nem queria acreditar. Comecei de imediato a esbracejar e a protestar como se a "casa" fosse minha... No meu melhor francês, que não é grande coisa, preparava-me para insultar o condutor quando reparei na farda do vigilante da natureza. Oppsss! Felizmente, tal como sei alguns impropérios em francês, também sei pedir desculpa, mesmo sem quase conseguir respirar...

domingo, 3 de setembro de 2017

Crónicas de Bruxelas: 1 - Em Bruxelas, tudo bem!


Ao ler uma entrevista a uma pessoa que está a fazer um trabalho relevante em Bruxelas, deparei-me com a opinião de que as pessoas nesta cidade, ao verem os militares nas ruas, “sentem que estão em guerra”. Não podia estar mais em desacordo.
Nas memórias mais antigas que tenho, incluem-se os dias a seguir ao 25 de Abril de 1974 em Lisboa. A capital de Portugal estava, literalmente, pejada de soldados e, estes, significavam mudança, paz e liberdade. Ficou gravado na minha memória. Para mim, soldados nas ruas são, pura e simplesmente, a antítese da guerra. São esperança de mudança.
Claro, tenho que admitir, esta é apenas a minha percepção pessoal.
Passeemos um pouco por Bruxelas para ver o que aqui se passa.
Todos os dias, ao entrar e ao sair do trabalho, faço questão de cumprimentar os soldados com que me cruzo, que estão escalados para proteger as Instituições Europeias. A calma paira e o bom tempo do final de tarde conduz-nos à simpatia e placidez.
Claro que nem sempre foi assim. Nos dias a seguir aos ataques de Paris e Bruxelas, a maioria das pessoas estavam assustadas com esta nova realidade e tristes por aqueles que sofreram directa ou indirectamente com a barbárie. No entanto, apesar da dor não passar, o medo rapidamente foi substituído pela curiosidade e pela resistência. A melhor forma de lutar contra os terroristas é não sucumbir à tentação do medo. Assim foi! Apesar de algumas perdas, que com o tempo serão corrigidas, penso que o mundo civilizado ganhou amplamente este desafio. Entre as perdas contam-se os ataques aos direitos civis e à privacidade, o Brexit e a inacreditável eleição do novo Presidente norte-americano, mas o bem irá prevalecer. É apenas uma questão de tempo.
Voltemos aos soldados. Poucos dias depois do choque inicial, passou a haver uma enorme curiosidade em relação aos militares que passaram a povoar Bruxelas. A toda esta curiosidade, os soldados respondiam com uma cortesia lacónica, simpáticos, mas mantendo a distância necessária à missão.
Apenas quem não se tenha detido um minuto a ver as notícias na televisão pode confundir o que se passa em Bruxelas com qualquer guerra. É uma diferença abismal. Felizmente, nunca estive num teatro de guerra e não quero estar! No entanto, nada pode estar mais distante do que se passa por aqui. Não há dramas, não há tiros, não há gritos, não há sofrimento, nada…
Escrevo estas linhas pouco depois de mais um alerta terrorista para a zona de Bruxelas. Todos sabemos que o perigo está latente e, há poucas semanas atrás, houve um ataque felizmente frustrado precisamente pelos soldados de Bruxelas. Estes soldados-de-paz impediram mais um drama. Obrigado. A presença dos militares aconchega-nos, dá-nos segurança e serena um pouco mais o coração desta União Europeia confusa e meio perdida.
A pessoa que referi no início deste artigo é uma professora no bairro mais problemático, ou que disso tem fama, de Bruxelas, Molenbeek. Com o seu trabalho está, sem dúvida, a ajudar a fazer diferença pela positiva. No entanto, o excesso de dramatismo, numa situação que, claramente, não o tem, faz-me pensar nos oportunismos alarmistas típicos da extrema direita.
Não! Temos de ser claros. Há problemas e eles têm que ser resolvidos. Porém, sem cair num excesso de ingenuidade, considero que é pelo optimismo, pelo rigor, pela sabedoria, pela curiosidade, pela tolerância e pela alegria que conseguiremos alterar o futuro para muito melhor.
Por fim. Num qualquer parque do centro de Bruxelas olho para o lado e vejo dois soldados (andam quase sempre aos pares). Perto deles, um homem aborda uma mulher com uma conversa tão previsível e melosa quanto explícita e consequente. Olham-se com olhos grandes e bem abertos por bonitos e suaves sorrisos. Ele conserta-lhe uma madeixa do cabelo que o vento tinha empurrado para a sua face. Ela permite. Continuam a conversar com os olhos dele metidos dentro dos olhos dela e os dela perscrutando o coração dele…
Definitivamente, isto seria impossível num qualquer teatro de guerra.
Em Bruxelas, tudo bem!

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Badejo d'Ouro

Badejo, Mycteroperca fusca, fotografado na ilha de Santa Maria, Açores.
Foto: ImagDOP/UAz

No início do mês de Novembro, em pleno II Congresso Internacional “O Desporto e o Mar” do Clube Naval do Funchal, o Doutor Arturo Boyra das Canárias foi perentório quando afirmou que um mero morto tem muito valor, “600 euros, no mínimo em Espanha”. “No entanto”, foi dizendo à medida que apresentava os cálculos que mostram quanto ganham os operadores marítimo-turísticos das Canárias com a observação subaquática, “este mesmo mero vale um milhão de euros por ano se estiver vivo” e, rematou, “vamos matar a galinha dos ovos de Ouro?!”.
Na realidade, este contraste entre o valor dos meros vivos e meros mortos já foi utilizado no passado (*), mas nunca, que eu saiba, com valores tão enfáticos e tão indiscutíveis. O argumento parece infalível e foi já utilizado para justificar a proteção das tintureiras dos Açores (*), mas ainda sem grandes resultados. Para os meros, tem servido.
Aliás, se nós os soubermos utilizar, os animais têm, regra geral, um valor muito maior vivos do que mortos. Que o diga a empresa de exportação de peixe vivo, a Flying Sharks. Pegam em peixes que não têm qualquer valor comercial nos Açores, como os cabozes ou os foliões, e exportam-nos para os maiores aquários do mundo.
Que o digam também os pescadores de pesca grossa (*). Estes operadores, que esquadrinham os mares com os seus poderosos barcos de fibra-de-vidro branca (***), podem pescar o mesmo peixe por diversas vezes (*), alugando a embarcação e o saber por múltiplos do valor do peixe morto. Isto para não falar nos teores de mercúrio dos espadins, tão elevados que tenho dúvidas que possam ser consumidos sem perigo para a saúde (*). Para a pesca grossa, estão no ponto!
Não se pense que estou a defender que deixemos de comer peixe. Nada disso! Estou a defender que pensemos antes de tirar a vida a animais que são muito mais lucrativos vivos. É, pelo menos, uma questão de bom senso.
No mesmo congresso, a certo ponto, convidaram-nos para mergulhar na Baixa das Moreias. É um local mesmo em frente ao Clube Naval do Funchal e que se acede a partir do seu Centro de Mergulho. Mais simples era impossível. Claro que aceitei entusiasticamente o convite. Depois de vinte minutos debaixo de água, vendo alguns dos animais e algas que caracterizam aquele pedaço do Atlântico, aproximou-se um badejo. O líder do mergulho reconheceu o animal e acenou-me. Estávamos a dez metros de profundidade e, apesar de já me terem contado, eu não estava preparado para o que iria testemunhar.
O badejo, que deveria ter uns cinco quilos, aproximou-se do mergulhador que dirigia as nossas operações e aninhou-se calmamente nas suas mãos (*). Com serenidade, o nosso líder colocou uma mão na sua boca e outra no seu dorso. O peixe assim ficou, imóvel… Inacreditável… Mas havia mais! O líder do mergulho, sempre com o peixe nas suas mãos, aproximou-se de mim e deu-mo. “Vou pegar num peixe vivo!”, exclamei interiormente, totalmente possuído pelo entusiasmo. Agarrei-o com o mesmo cuidado e fiz-lhe algumas festas. Impressionante… No final, larguei-o e ele deu uma volta e voltou a insistir que o acariciasse. O processo foi-se repetindo com todos os mergulhadores que faziam parte deste grupo, um após o outro...
Este não é um comportamento natural dos animais marinhos e resulta das muitas horas que os mergulhadores do Clube Naval do Funchal dedicam a eles. Os peixes estão perfeitamente habituados à sua presença e aproximam-se sem qualquer relutância, até porque, muitas vezes, os mergulhadores não se inibem de lhes levar alimentos.
Ou seja, apesar de gostar mais das águas em estado puro dos Açores, não posso deixar de apreciar a forma como os madeirenses estão a utilizar o seu mar. A mim impressionou-me verdadeiramente e não tenho dúvidas que aquele badejo se irá tornar a estrela de muitas fotografias e vídeos. Se o mero das Canárias valia um milhão de euros, este badejo vale o seu peso em Ouro e puro! Mas tem esse valor apenas enquanto continuar vivo (*). Na lota, valerá pouco mais do que nada.
Estamos num período em que várias coincidências contribuíram para impulsionar o mergulho nos Açores. À descoberta do mergulho com tubarões-azuis (**, *, *) e jamantas (*, *, *, *) juntou-se a instabilidade no Norte de África e no Médio-Oriente. Destinos como o Mar Vermelho foram preteridos (*) e isso constituiu uma enorme mais-valia para o nosso arquipélago (*). Os trabalhos da Doutora Adriana Ressurreição do Departamento de Oceanografia e Pescas da Universidade dos Açores demonstram claramente o aumento de rendimento das actividades aquáticas e subaquáticas nos últimos anos.
No entanto, e obviamente que ainda bem, esta situação não irá durar para sempre. Dentro em breve, países como o Egipto (*) e a Eritreia (*) (*) encontrarão o seu rumo de paz e de estabilidade. Se até lá não cativarmos este mercado, perderemos esta janela de oportunidade. É preciso, com a maior urgência, resolver pequenos problemas no turismo subaquático dos Açores, tais como, acabar com o uso de redes de emalhar nas zonas costeiras que, como os próprios pescadores dizem, “destroem tudo”, e reforçar as limitações impostas nas áreas marinhas protegidas, para que terminem os conflitos de utilização (*). É necessário também, que os operadores marítimo-turísticos dos Açores formem uma união honesta, coerente, abnegada e abrangente para que os seus pontos de vista sejam mais respeitados. Foram estas as principais conclusões que eu retive da IV Bienal do Turismo Subaquático que decorreu a meio de Outubro na ilha Graciosa.
Claro que todos queremos que os turistas subaquáticos se sintam bem nos Açores. É certo, porém, que poucos quererão voltar a locais em que os centros de mergulho não têm casa de banho ou em que se mergulha a dezenas de milhas da costa em solitários semirrígidos. É muito engraçado para nós e para os nossos amigos, mas impensável para o exigente turismo do Mar Vermelho e esse é o nosso único e verdadeiro competidor. Mãos à obra!


sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Carcharhinidae


Carcharhinidae é o nome de uma família. No caso, trata-se de uma família de eméritos tubarões muito conhecida. Entre os elementos mais famosos desta família, temos o Prionace glauca e o Galeocerdo cuvieri ou, mais simplesmente, a tintureira e o tubarão-tigre, respetivamente. Outros tubarões, também famosos, como o tubarão-branco ou o rinquim, não fazem parte desta família, mas sim da Lamnidae. Claro que estamos a falar de famílias taxonómicas (científicas) e não de famílias de sangue, como fazemos entre humanos.
Voltando à nossa família, a Carcharhinidae. Em 1988 apareceram alguns tubarões pertencentes a esta família nos ilhéus das Formigas. Foi no dia 17 de Julho, mais precisamente, que pescadores capturaram alguns animais e suscitaram a curiosidade da comunidade científica. Em 1995, o técnico da Universidade dosAçores, João Brum, em conjunto com o Professor José Azevedo, publicaram um artigo científico que clarificou a identificação dos animais e assim deu uma nova espécie aos Açores: os Carcharhinusgalapagensis ou, como são conhecidos entre os amantes do mar, os tubarões-das-Galápagos.
Claro, como é habitual, os cientistas não se contentando com uma resposta, lançaram imediatamente mais umas quantas perguntas: Como é que estes tubarões conseguiram chegar das Galápagos até aqui? Porquê apenas agora? Ir-se-ão conseguir estabelecer? Irão ameaçar as populações de presas ou competidores? Porque aparecem nas Formigas e não em qualquer outro local dos Açores? Aparentemente, algumas destas novas perguntas começam a ter também resposta.
É senso comum que estes tubarões tenham conseguido chegar até aos Açores com a abertura do Canal do Panamá. Esta resposta explicaria também a segunda questão. Apesar de não haver provas, parece tão evidente que esta resposta não tem suscitado o devido debate. Eventualmente, devia ser debatida porque a densidade nalguns pontos do Atlântico é tão elevada que não faz sentido o povoamento apenas ter sido iniciado em 1914. Esta técnica de eliminar hipóteses concorrentes pela simplicidade e lógica da resposta obtida tem um nome. Chama-se Navalha de Occam (ou Lei da Parcimónia) e postula simplificadamente que “a resposta menos complexa costuma ser a correcta”.
Quanto ao estabelecimento da população, a questão é bem mais complicada. Eu já mergulhei muitas vezes nos ilhéus das Formigas, no Recife Dollabarat e no Banco do Entre-Meio (as três áreas acessíveis da Reserva Natural das Formigas). No entanto, por apenas duas vezes consegui ver estes animais debaixo de água. Isso, pensava eu, indiciava que a população não era muito robusta. Numa dessas duas vezes consegui ver cinco tubarões em simultâneo! Para além do entusiasmo e emoção, tenho de admitir que também houve algum “respeito”…
Ao longo dos anos, tenho advogado a proteção efetiva dos ilhéus das Formigas. Enquanto tive responsabilidades pela matéria, ajudei a implementar regras mais restritivas de utilização e incentivei o incremento da sua fiscalização. Apesar disso, mesmo eu, sempre duvidei da sua eficiência. Portanto, imaginem a minha alegria quando, este ano, um dos responsáveis por uma empresa de mergulho turístico comescafandro autónomo de Santa Maria, o Paulo Reis (*), me relatou que na época de 2013 viram tubarões-das-Galápagos em quase todos os mergulhos. Num deles, viram mesmo 12 animais diferentes! Para além de espetacular, é mais um indício de que a Reserva está a ser respeitada. É um assunto a seguir com atenção e, aparentemente, responde à dúvida sobre a manutenção da população de tubarões.
Quanto a ameaçar outras espécies… pode estar a acontecer, mas não se nota nada. A última vez que mergulhei nas Formigas, vi tanta vida e tão animada que me custa a crer que estes tubarões estejam a prejudicar a fauna local. No entanto, sou de opinião que este tema poderia justificar uma excelente tese de mestrado ou de doutoramento. Há candidatos?

A última questão também ainda não tem resposta. Não entendo. Sinceramente, não entendo. Nas costas das ilhas têm aparecido, em números crescentes, os tubarões-tigres-da-areia (*, *, *) e, nas Formigas, aparecem os tubarões-das-Galápagos. Interessantíssimo! E aguardando por cientistas que aceitem debruçarem-se sobre este extraordinário desafio…

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Robots assassinos

Veículo subaquático autónomo "Infante" sendo testado no Canal Faial-Pico em 2003.
In: Relatório Anual de 2003 do Instituto de Sistemas e Robótica do Instituto Superior Técnico.

Em 2029, super-computadores dominam o mundo, determinados a eliminar a raça humana. Para destruir o futuro da humanidade enviam um cyborg indestrutível - um Exterminador - para o passado, com a missão de matar Sarah Connor, a futura mãe do líder da resistência humana, John Connor”. Esta poderia ser a simples sinopse de um filme de ficção científica de sucesso [*]. Ou não…
Lendo uma mensagem de correio electrónico de meu colega Eng. Luís Sebastião, registo “No início parece um género de um controlo de formação e, depois, com um pouco de processamento de imagem levam a medusa para um motor que a destrói em segundos...”. Trata-se da descrição de um teste de robots aquáticos feito por uma equipa estrangeira. Estes robots, automaticamente e através de sistemas computacionais muito avançados, detectam e destroem águas-vivas [*]. O sonho do veraneante…
Claro que, desenganem-se, o objectivo essencial destes “animais de ferro” não é propriamente proteger os banhistas, até porque, apesar de destruídos, os componentes das águas vivas continuam activos e viáveis o tempo suficiente para ainda irritar. O objectivo prático é apenas impedir que os sistemas de refrigeração das grandes indústrias fiquem entupidos com medusas, como aconteceu recentemente numa central nuclear sueca [*]. Não posso dizer que não seja importante, até porque sabemos quais as consequências que podem resultar de uma central nuclear que deixa de ser refrigerada… [*]
No entanto, tentar matar um problema raramente é boa solução. Sabe-me a pouco e a fraco. Porque não, em alternativa, concentrar esforços em mitigar a base do problema que, no caso das águas-vivas, aparentemente, são as alterações climáticas globais. Dizem alguns entendidos que as temperaturas mais quentes promovem a proliferação destes seres gelatinosos. Ao mesmo tempo, o decréscimo das populações de predadores, vítimas da pesca involuntária, como é o caso das tartarugas e dos peixes-lua, também parece dar uma ajuda neste crescimento populacional involuntário. Portanto, diria eu, seria apropriado concentrar os nossos esforços no combate à libertação de Carbono na atmosfera e não em construir letais robots subaquáticos. Aliás, um parêntesis para dizer que bom mesmo era acabar com aqueles outros robots que matam humanos à distância e sem julgamento e a quem deram o pomposo nome de “drones”. [*]
Também não me agrada nada que se transforme o mar à medida do homem. Não é assim. Na minha convicta opinião, o mar deve ser deixado tão pristino quanto possível e de lá devemos tirar, sustentavelmente, os recursos que necessitamos. Não temos o direito de transformar o Oceano numa fria aquicultura.
O Mar é Selvagem! Podemos lá ir buscar algum alimento e algumas soluções, estudá-lo, usufruir da sua rebeldia e imprevisibilidade mas, penso eu, não temos o direito de o modificar. Esta aproximação robótica é triste, fria e demasiado antropogénica para o meu gosto.
Com tudo isto, não pensem que sou contra a robótica ou, em particular, contra a robótica submarina. Nem pensar! Sou um entusiasta e vibro com os esforços do Institutode Sistemas e Robótica da Universidade Técnica de Lisboa, parceiros do DOP/UAç, para ultrapassar os problemas com que se confrontam diariamente. Principalmente quando se tentam conceber veículos subaquáticos autónomos (os AUVs), que têm enormes desafios associados ao controle de navegação, às comunicações e à economia de energia, há que reconhecer que esta é uma ciência de ponta. É uma ciência que cria instrumentos que auxiliam os cientistas do mar no estudo dasfontes hidrotermais de grande profundidade, dos montes submarinos e das grandes massas de água. Utilíssimo e fascinante, sem dúvida nenhuma.

Pela minha parte, desde que não lhes instalem instrumentos de matar, eu gosto imenso de robots. Desde aqueles que construíamos em legos até aos que, com várias toneladas, já vimos a ser testados no Porto da Horta, todos são fantásticos exemplos do melhor que a mente humana tem para oferecer.

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

As coisas que vamos aprendendo…

Exemplo de mapeamento de habitats no Canal Faial-Pico.

Ao regressar ao Departamento de Oceanografia e Pescas da Universidade dos Açores, após uma ausência de sete anos, interrogava-me sobre qual seria a grande novidade científica que me iria abismar. Estando relativamente a par do que se passa no estudo do mar, não podia ser uma novidade bombástica, daquela que se lê nos jornais. Essa, eu saberia. Portanto, estava curioso sobre aquela novidade deliciosa e esquiva, em que ainda não teria colocados os olhos. Ansiava por aquele momento em que dissesse um ingénuo disparate e me respondessem: “Mas nós já sabemos isso!”
Não tive que esperar muito…
Há novas espécies alienígenas marinhas nos Açores publicaram, entre muitos outros, os meus amigos Ricardo Cordeiro, Sérgio Ávila, Ana Costa (de São Miguel) e António Malaquias (vive na Noruega e é casado com uma faialense), o negócio do turismo de observação de jamantas [*, **] está em crescimento, não apenas nos Açores [**], mas no mundo inteiro [*], foi encontrada uma nova fonte hidrotermal de grande profundidade nos Açores [*] e as alforrecas estão a crescer em número porque os oceanos estão mais quentes, descobriram cientistas do Mediterrâneo [*, *]. Curiosamente, segundo estes cientistas, a nossa amiga água-viva (Pelagia noctiluca) [*] é uma das grandes beneficiadas. Estas foram algumas das primeiras novidades com que me bafejaram. Tanta coisa nova…
No entanto, o que mais me impressionou foi ficar a saber que foram definidos novos e variadíssimos habitats marinhos. Ou seja, houve um colega, o meu colega de gabinete Fernando Tempera, que passou muitas horas a observar vídeos da maioria das grandes expedições científicas e conseguiu sistematizar conjuntos de espécies e relacioná-los com as principais características biofísicas (como a profundidade e o tipo de substrato). É um daqueles trabalhos que exige muito conhecimento, para conseguir identificar todas as espécies, e uma enorme paciência…
Quando olhamos para a paisagem terrestre, distinguimos facilmente florestas, pradarias, praias, entre muitas outras. O mesmo aconteceria debaixo de água se conseguíssemos ver. Este colega abraçou a missão de tentar encontrar o equivalente a estas agregações até vários quilómetros de profundidade. Os vídeos recolhidos pelos submarinos [*, *] e veículos de operação remota (ROV) [*], transportados a bordo dos enormes navios de investigação que amarram no porto da Horta [*, *], foram escalpelizados detalhadamente e os resultados surgiram.
E, no campo dos mistérios que continuam sem resposta, aqui deixo alguns dos desafios que motivam os colegas da Universidade dos Açores: para onde vão as jamantas quando saem dos Açores? Porque aparecem mortas as baleia-de-bico apenas nas duas últimas semanas de Julho? Que espécies de profundidade que habitam o Mar dosAçores têm propriedades medicinais? Onde se acumulam as grandes concentrações de metais no mar profundo? Qual é o impacto esperado da atividade de mineraçãodos mares? Como irá evoluir a invasão de Caulerpano porto da Horta? Porque há espécies [*] que vivem em abundância no Faial e Pico, mas estão totalmente ausentes das restantes ilhas dos Açores? O que acontecerá com a acidificação dos oceanos consequente às alterações climáticas? Como irão evoluir as pescarias dos Açores? São tudo boas perguntas, para as quais há hipóteses explicativas, mas ainda não há verdadeiras respostas. Essas emergirão do estudo e dedicação dos cientistas dos Açores.
Ah, que mundo lindo este que está absolutamente cheio de maravilhosas perguntas! Melhor que o mistério da nossa ignorância é a conquista de uma resposta. Uma resposta. Uma boa resposta é o que espero conquistar até ao final do ano. Quando a tiver, aqui estarei a partilhá-la!

Exemplos de facies do mar profundo dos Açores.
(imagens de EMEPC, IMAR/DOP-UAz; Greenpeace (c) Gavin Newman; SEAHMA
in: Tempera, F, JN Pereira, AB Henriques, F Porteiro, T Morato, V Matos, M Souto, B Guillaumont, RS Santos (2012). Cataloguing deep-sea biological facies of the Azores.
Revista de Investigación Marina, 19(2): 36-38)