sábado, 5 de maio de 2018

Crónicas de Bruxelas: 19 - Leves dissertações sobre a língua


Meios de transportes quinhentistas no Museu da Marinha
Foto: Frederico Cardigos

Uma das teorias que mais aprecio no mundo da biologia está relacionada com a falta de diversidade genética nas populações fundadoras. O conceito é muito simples, mas com aplicações que vão muito além da biologia. Basicamente, aquilo que se postula é que, num novo povoamento, a diversidade de indivíduos é, muito provavelmente, menor que na população original. Se pensarmos um pouco, rapidamente concluímos que apenas poderia ser desta forma.
Imaginemos a diversidade da população portuguesa residente em Portugal na atualidade. A sua diversidade genética é equivalente aos seus cerca de 10 milhões de indivíduos. Uma diversidade extraordinária. Se, no século XVI, uma pequena componente da nossa população, digamos de 1000 pessoas, saísse de Portugal e fosse, imaginemos, para o Brasil, obviamente, essa subpopulação teria uma diversidade genética muito menor, principalmente, como muitas vezes era o caso, se a população dadora fosse ela própria já segregada (limitada a poucas povoações relativamente isoladas). É lógico. O resultado dos cruzamentos dessa população ao longo de gerações, admitindo que não havia cruzamentos com os índios sul-americanos ou com as restantes populações de outros países europeus que colonizaram o Brasil, teria sempre uma diversidade mais baixa que a população portuguesa de Portugal. Aliás, porque a população original, na metrópole, também aumenta a sua diversidade ao longo das gerações, muito dificilmente a subpopulação brasileira poderia atingir os níveis de diversidade de Portugal.
No entanto, como todos sabemos, a população portuguesa que chegou ao Brasil não se manteve isolada e, rapidamente, houve cruzamentos com a população local dando origem a uma extraordinária diversidade. Tudo isto é pacífico. A coisa, para mim, torna-se particularmente engraçada quando saímos das questões de genética e entramos na linguística.
Ora acontece que a língua não se mistura com a mesma facilidade. Não podemos colocar um português e um índio do Amazonas a falar um com o outro, nas respetivas línguas originais, e esperar que a geração seguinte fale com uma mistura das duas. Apesar de ser exatamente isso que acontece a nível genético, não é de todo o que acontece a nível linguístico. A geração seguinte, na melhor das hipóteses, falará as duas línguas de forma independente e, por vezes, contaminará de forma limitada cada uma das línguas com sotaques e com as palavras que esta não tinha originalmente. Voltando ao Brasil do século XVI, imagino que o português local tenha sido contaminado com as palavras inerentes aos nomes das espécies de plantas e animais que não conheciam e, em sentido contrário, os indígenas tenham usado palavras portuguesas para, por exemplo, descreverem a instrumentação usada nos navios. Ou seja, exemplificando, certamente que as línguas locais do Brasil ganharam a palavra “astrolábio” e os portugueses, que jamais tinham visto um “tucano”, adotaram esse nome na língua de Camões.
Voltemos um pouco atrás. Muitos de nós, eu certamente, gostamos muito da forma como os brasileiros falam português. Aquele quase cantar atrai-nos e, parece-me, um português mais simples, bonito, prático e escorreito. É assim que eu sinto. Na música, especialmente, o português do Brasil sabe-me mesmo bem.
Não há descrições muito precisas, tanto quanto sei, sobre a forma como se falava português no Portugal do século XVI. No entanto, porque não houve diversidade suficiente para uma grande evolução da língua no Brasil, imagino que o português do Brasil se deve aproximar muito do português que se falava em Portugal no século XVI, especialmente o que falavam as populações que para lá emigraram.
Para Brasil e Portugal, sendo uma teoria com alguma validade, tanto quanto sei, nunca foi comprovada ou estudada. Já os franceses estudaram a relação entre o francês do Canadá e o francês falado em França e concluíram que o québécois (francês falado no Estado do Quebeque no Canadá) é, na realidade, um francês antigo. Lá está, reforça-se a possibilidade da minha teoria relativamente ao português do Brasil. Resta saber se é verdade… Entre a teoria e a realidade vai um mundo de possibilidades e eu não sou filologista.
Estando muitas vezes em Bruxelas, pergunto-me frequentemente se o meu português irá mudar, contaminado com palavras do francês, do flamengo e das outras dezenas de línguas que por aqui se falam. Expressões como “et voilá”, quando concluo uma tarefa, ou um “dank u wel”, para agradecer qualquer coisa, saem-me ocasionalmente, mas desaparecem muito rapidamente quando passo uns dias em Portugal da mesma forma como os francesismos ou americanismos, que pareciam perenes, desaparecem rapidamente do léxico dos emigrantes portugueses que regressaram de França e dos Estados Unidos da América. As línguas, a nível individual, são como a água e o azeite, podem misturar-se se agitamos muito, mas, passado pouco tempo, estão novamente separadas. Há maravilhosas exceções, como os crioulos, o que torna tudo isto ainda mais fascinante!

domingo, 22 de abril de 2018

Crónicas de Bruxelas: 18 - Gabinete dos Açores em Bruxelas


Aspecto estilizado de um dos espaços do Gabinete dos Açores em Bruxelas
Por F. Cardigos

Desde meio de outubro de 2017 que a cidade de Bruxelas tem uma “ilha” do arquipélago dos Açores. O arquipélago é agora promovido, defendido e representado não apenas pelo trabalho dos deputados Europeus, não apenas por parte da representação permanente de Portugal junto das instituições europeias e não apenas pela força e empenho das dezenas de açorianos que aqui vivem e trabalham. Desde meio de outubro que está em plena atividade o Gabinete dos Açores em Bruxelas.
Assente em termos legais numa Estrutura de Missão para a sua implementação, o Gabinete dos Açores tem orientado a sua atuação segundo diversos vetores. Primeiro, houve que dar visibilidade ao Gabinete dos Açores em Bruxelas e demonstrar competência. Apenas desta forma poderemos ser respeitados, ser tomados em consideração e ter o privilégio de acompanhar com detalhe o desenvolvimento dos processos legislativos que nos são particularmente úteis. Para isso, o Gabinete tem mantido reuniões com os interlocutores considerados chave no que diz respeito às suas prioridades de atuação, tem participado nos eventos mais significativos e dinamiza uma conta no Twitter (@AzoresEUoffice), visto ser este um importante meio de divulgação usado pelas instituições europeias. Um dos indicadores de sucesso neste campo é o convite para participar em alguns grupos de trabalho. Isso já aconteceu na área da energia, da investigação científica marinha, das pescas e da mineração.
O segundo vetor consiste em facilitar a estadia dos açorianos que se encontram ocasionalmente em Bruxelas. Para isso, o Gabinete mantém dois espaços de trabalho e uma sala de reuniões numa zona central de Bruxelas, mais especificamente, na Rotunda de Schuman. Estes espaços do Gabinete estão localizados a 3 minutos a pé dos edifícios principais da Comissão Europeia, entre os quais o Berlaymont, a 5 minutos dos edifícios principais do Conselho (Justus Lipsius e Europa) e a 15 minutos da sede em Bruxelas do Parlamento Europeu. Das imediações do Gabinete há comboios e autocarros diretos de e para o Aeroporto Nacional de Bruxelas.
Os espaços do Gabinete podem ser usados por todos os açorianos que se encontrem em trabalho em Bruxelas desde que solicitado com antecedência e desde que, obviamente, não tenha havido outros agendamentos anteriores. Já decorreram diversos tipos de reuniões, essencialmente de entidades públicas, e algumas visitas exploratórias. Para todos, a prioridade do Gabinete é facilitar ao máximo a permanência em Bruxelas e ajudar a maximizar o impacto da deslocação ao centro da Europa. Adicionalmente, quando solicitado, o próprio Gabinete agenda reuniões e acompanha os trabalhos externos dos visitantes oriundos dos Açores. Este acompanhamento inclui, sempre que necessário, a interpretação linguística e o auxílio temático.
O terceiro vetor relaciona-se com a transmissão de informação sobre o que se passa em Bruxelas para os Açores. Isso é realizado essencialmente a dois níveis. Por um lado, a informação quotidiana é remetida para o Governo dos Açores sobre os diferentes temas prioritários (política de coesão, agricultura, pescas, mar, ciência, ambiente, turismo e energia) e outros. Em paralelo, semanalmente, é composto um Boletim Informativo (Az@Brx) que tenta sintetizar os diferentes temas discutidos ou apresentados em Bruxelas e que podem ter interesse para os Açorianos. Este boletim é hoje enviado para centenas de endereços de correio eletrónico por solicitação prévia.
No último vetor, mas não o menos importante, há a chamada representação a pedido. No caso de alguma entidade açoriana necessitar de ter representação em Bruxelas, mas não tiver possibilidade de se deslocar, o Gabinete dos Açores pode desempenhar essa tarefa. Desta forma, o Gabinete tem representado essencialmente entidades públicas, defendendo as linhas indicadas previamente e fazendo posteriormente a síntese dos temas discutidos nas diferentes reuniões.
O trabalho do Gabinete de representação dos Açores em Bruxelas está ainda no início. No entanto, há já alguns resultados interessantes e que são promissores para o futuro que aí vem.

domingo, 8 de abril de 2018

Crónicas de Bruxelas 17 - Estou a perder “amigos” no Facebook!



Ao abrir o Facebook reparei que o meu número de “amigos” se tinha reduzido. Não que viva obcecado com o número de conhecidos que tenho a mim ligados através da maior rede social do planeta, mas acontece que estou muito perto de um número redondo o que torna este decréscimo evidente… E, portanto, tal como a população do Corvo que, diz-se, nunca passou das mil almas, o meu número redondo insiste em não ser ultrapassado e, para mais, passou agora a decrescer.
Se fosse mais distraído, poderia ficar surpreendido. Não é o caso. O mau uso dos dados dos utilizadores perpetrado pelo Facebook, ilustrado pelo escândalo Cambridge Analytica, está a fazer com que muitos utilizadores adiram ao movimento #DeleteFacebook e desliguem as suas contas. Simpaticamente, alguns destes aderentes têm enviado mensagens de despedida. Esta postura demonstra que há mesmo quem saia e, visto que sobrevivem, demonstra também que há vida para lá do Facebook…
Tentativas de manipulação de consciência não são de agora. Sempre as houve. Por motivos políticos, de soberania, religiosos, profissionais ou comerciais ou fruto de amores e de paixões, a todo o momento houve pessoas interessadas em manipular outras pessoas. Seja mais ou menos conscientemente, desde que há palavras para serem ditas, qualquer orador tem como fito informar, sensibilizar e, em muitos casos, manipular quem o está a ouvir. Ao longo dos tempos e fruto do avanço tecnológico, a transmissão da mensagem tornou-se mais complexa passando da simples palavra para os sinais de fumo, para a argila, para a pedra, depois para o papiro, papel, telégrafo, rádio, televisão e, agora, internet. Não há grandes diferenças em relação ao passado. O que muda é a rapidez, a eficiência e a abrangência.
Não há ninguém no planeta Terra minimamente informado que não saiba que o negócio essencial das redes sociais é vender direta ou indiretamente a nossa informação pessoal. De forma mais ou menos estruturada, com maior ou menor detalhe, tanto o Google, o Facebook, como o Twitter e outros analisam os nossos perfis e, cirurgicamente, colocam anúncios “interessantes” no nosso campo visual enquanto utilizamos as suas plataformas ou aplicações informáticas associadas.
O que se passou neste caso é que a informação detalhada de 50 milhões de pessoas foi exportada para terceiros, a empresa Cambridge Analytica, e estes puderam orientar publicidade enganosa que sensibilizasse o perfil sociológico ou psicológico de cada pessoa em particular. Aparentemente, algumas eleições e referendos foram mesmo condicionados com este procedimento.
Não haja dúvida que o comportamento de Facebook foi, no mínimo, irresponsável e não haja dúvida que, de acordo com o que tem sido veiculado pela comunicação social, o comportamento de Cambridge Analytica é criminoso, mas nós pusemo-nos a jeito. Ou seja, ao partilhar informação privada nas redes sociais e sabendo que o negócio destas empresas é precisamente vender publicidade orientada para o nosso perfil, estivemos e estamos a expor-nos e a aceitar sermos orientados, inconscientemente, para decisões que não queremos necessariamente tomar. O pequeno-grande passo que esta associação entre o Facebook e a Cambridge Analytica deu foi de usarem informação privada para, com base em notícias falsas ou exageradas, condicionarem a capacidade de decisão individual em momentos tão importantes como as eleições ou os referendos.
Agora, estando o problema identificado, resta às autoridades judiciais fazerem o seu trabalho. Para mim, a tarefa é estar ainda mais atento e ter, como dizia Sérgio Godinho sobre o Casimiro, “cuidado com as imitações…”.