segunda-feira, 23 de julho de 2018

Crónicas de Bruxelas: 24 - DiscoverEU+? Sim, mas também DiscoverEUultra!


Vista noturna em Estrasburgo.
Foto: F Cardigos

A primeira fase da excelente iniciativa do Parlamento Europeu foi executada de forma brilhante pela Comissão Europeia. Cem mil jovens de dezoito anos, sim, escrevi bem, cem mil, um estádio de futebol dos grandes cheio de jovens, concorreram ao DiscoverEU. Estes jovens da União Europeia candidataram-se aos 15 mil passes que dão acesso a um mês inteiro de viagens gratuitas de comboio. Em Portugal, já se sabe, houve 302 jovens selecionados que partirão para a grande aventura no início do Verão.
Não me canso de dizer e de escrever, vai ser espetacular. Só pode ser espetacular!
Os jovens selecionados terão agora de encontrar os recursos necessários para se alimentar e para pagar as estadias, mas esse é um problema menor. Sendo jovens, terão facilmente o engenho para encontrar sítios baratos (pousadas da juventude e parques de campismo) ou encontrar os trajetos que os levem a cruzar-se com casas de familiares que os acolham, entre muitas outras possibilidades. Para a alimentação terão de ter algum dinheiro, mas, estivessem onde estivessem, teriam de comer, portanto… há que aprender a cozinhar, para os que não sabem ainda, comprar alimentos baratos e transformá-los em iguarias irresistíveis. Estou desejoso de ler os relatos. Ah, importante, não se esqueçam de verificar o seguro de viagem e do cartão europeu de seguro de doença! Os azares acontecem e, portanto, nada melhor do que estar prevenido.
Como referia atrás, já é conhecido o número de selecionados em Portugal. Fazendo uma proporção à população residente, isto dá-nos que eventualmente terão sido selecionados 7 ou 8 jovens dos Açores. Não tenho conhecimento de haver qualquer regra de atribuição de quotas por região, portanto, na realidade, podem ter sido selecionados de zero a 302 jovens dos Açores. Seja 1 ou sejam 302, boa sorte e divirtam-se!
Ao falar com os meus botões, perguntei-me, “será que este programa irá continuar no futuro?” Quero crer que sim. Espero que continue e que a Comissão e o Parlamento Europeu encontrem as ferramentas para aumentar o número de viagens financiadas. Cem mil concorrentes para 15 mil vagas dá uma probabilidade de ser selecionado na ordem dos 15%. É pouco. Deveria haver muito mais vagas. Aliás, na realidade, contas minhas, devem haver cerca de 6 milhões de jovens com 18 anos na União Europeia, portanto, a margem de crescimento potencial do programa é enorme. Colocando estes números de outra forma, apenas 0,25% dos jovens europeus com 18 anos poderão partir no programa DiscoverEU. Obviamente, nem todos estão interessados e nem todos terão a capacidade de o fazer, mas, na minha opinião, se a primeira edição do DiscoverEU correr bem do princípio até ao fim, há que pensar em transformá-lo num DiscoverEU+, com ainda mais lugares disponíveis e, quem sabe, com uma bolsa associada que ajude a pagar parte das estadias e da alimentação? Coisas a pensar no final do Verão. Para já, o plano da Comissão Europeia é abrir uma nova chamada em outubro e, depois, simplesmente, fazer “explodir” estes números e, a partir de 2021, financiar 200 mil jovens por ano! Fabuloso!
Na realidade, os meus botões querem ir ainda mais longe. É evidente que os objectivos do DiscoverEU são importantes: proporcionar aos jovens da União Europeia a possibilidade de conhecer as culturas do Velho Continente e viverem grandes aventuras na sua casa alargada, fomentando a coesão e solidariedade entre os povos. Mas… Como temos verificado nos diferentes plebiscitos europeus, com particular ênfase no Brexit, os jovens acreditam, reconhecem e valorizam os ideais europeus. O calcanhar de Aquiles, na realidade, são os mais idosos. São os idosos que veem o sucesso Europeu com maior desconfiança, são os mais idosos que têm maior receio dos refugiados e migrantes e são os mais idosos que parecem não compreender a importância e o potencial de vivermos em União. Há que os sensibilizar!
Para responder a este problema, claro está, não espero convencer os mais idosos a partir numa aventura de um mês saltitando de cidade em cidade e de comboio em comboio. Compreendo e sou solidário. Os interessados neste programa viajarão de avião e poderão, se assim o quiserem, viajar com os netos. Quem esteja reformado poderá, no meu sonho, candidatar-se a viajar com os seus netos para qualquer região da União Europeia. Ilustrando, no caso de Portugal, o Sr. Tibério e a Sra. D. Maria de Fátima, ambos da ilha do Corvo nos Açores, poderão pegar nos seus seis netos (Ana Rita, Marta, Tomás, Maria Inês, Rafael e Mariana) e viajar até Estrasburgo, onde irão visitar a sede do Parlamento Europeu e, durante uma semana, usufruir de uma das mais belas cidades da Europa.
O meu DiscoverEUultra é um sonho, eu sei. Mas muitas das grandes obras nascem de sonhos maravilhosos!

segunda-feira, 9 de julho de 2018

Crónicas de Bruxelas: 23 - Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas em Bruxelas

Bruno Bettencourt tocando viola-da-terra na Embaixada de Portugal na Bélgica
Por F Cardigos


Compreendo as razões subjacentes ao Dia de Portugal ser também o Dia de Camões e das Comunidades Portuguesas. É uma forma de integrar a cultura, aquilo que nos define enquanto povo, e a nossa extensão extraterritorial. No entanto, nada disso se sente tão bem como estando fora de Portugal no dia 10 de junho. Em Portugal, o nosso país, com as suas virtudes e defeitos, não está em questão nem está distante. Vivendo no estrangeiro, esta inevitabilidade não é nada evidente. Os emigrantes sentem realmente saudades do seu país e da sua cultura e, ao mesmo tempo, dada a distância, põem em causa a sua portugalidade. Portanto, as celebrações do nosso país são igualmente importantes e determinantes. Importantes porque dão a oportunidade de relembrar a cultura e são determinantes para que os nossos emigrantes, envolvidos pela cultura e pelo país que os recebeu, não abandonem a sua identidade de origem.
Este ano, na Bélgica, pude assistir às celebrações do Dia de Portugal com uma atenção redobrada. A iniciativa do Presidente da República em celebrar o Dia de Portugal nos Açores e nas comunidades açorianas da América do Norte motivou algumas embaixadas de Portugal pelo mundo a associarem-se à nossa Região Autónoma. Este foi precisamente o caso da Embaixada de Portugal em Bruxelas. Dinamizado pelo Embaixador Alves Machado em associação com o Embaixador responsável pela Representação Permanente de Portugal junto da União Europeia, Nuno Brito, e com o Embaixador responsável pela Representação Permanente de Portugal junto na NATO, Almeida Sampaio, o Dia de Portugal tornou-se este ano, de certa forma, o Dia de Portugal e Açores.
Houve momentos particularmente felizes, mesmo emotivos, como a atuação de Bruno Bettencourt, exibindo o som e explicando a viola-da-terra dos Açores na sala Damião de Goes da Representação Permanente de Portugal. Esse momento em particular, dignificado também pela presença da Diretora Regional dos Assuntos Europeus dos Açores, Célia Azevedo, deixou-nos, aos açorianos, com a garganta apertada ao ouvir parte do nosso reportório tradicional ou, numa novidade para mim, música de Carlos Paredes tocada no instrumento de cordas mais nobre das nove ilhas. No entanto, o que mais me chamou a atenção foi a duração das festividades. Para além dos diplomatas, também as associações de portugueses em Bruxelas dinamizaram diversas iniciativas, o que resultou em celebrações que tiveram início no dia 9 de junho e apenas terminaram no dia 12. No dia 10, o campo de jogos do Parque Leopoldo ficou pequeno para as centenas de portugueses e seus convidados que queriam degustar as propostas gastronómicas razoavelmente lusas que ali eram partilhadas. A música popular ajudou a passar uma agradável tarde em que se ouvia português com os mais diversos e sotaques. O português é uma língua extraordinária!
No dia 11 de junho, com entardecer reservado às cerimónias formais na Representação Permanente de Portugal, centenas, talvez 400 pessoas, lotaram um espaço em que, entre outros, foram consumidos vários queijos de São Jorge, Faial e São Miguel, 200 queijadas de Vila Franca e vinhos do Pico. Dois televisores e um ecrã apresentaram filmes dos Açores; pinturas, desenhos e fotografias das melhores paisagens e mostrando a biodiversidade dos Açores polvilhavam as paredes da sala e centenas de brochuras davam soluções a quem nos quiser visitar ou, simplesmente, conhecer melhor o arquipélago.
Claro que devemos tentar celebrar o Dia de Portugal todos os dias, mas, nessa impossibilidade, penso que, graças ao esforço de todos, o nosso país e, em particular, os Açores ficaram dignificados nestes dias em terras do Rei dos Belgas.

sábado, 16 de junho de 2018

Crónicas de Bruxelas: 22 - Sim, diga lá, o que é a que União Europeia jamais fez por nós?


Edifício Berlaymont da Comissão Europeia em Bruxelas
Foto: F. Cardigos

Há muitos anos, integrado no filme “A vida de Brian”, vi pela primeira vez um maravilhoso sketch dos Monthy Phyton em que, perto do século I, uma hipotética força de resistência debatia a invasão romana. Numa reunião clandestina, perguntavam-se “o que é que os romanos jamais fizeram por nós?!”. Num conjunto de perguntas e respostas hilariantes, a resposta automática era “nada”. Após alguma reflexão, no meio de um total caos argumentativo, alguém dizia “o aqueduto” e outro “o saneamento básico”. A resposta do dinamizador, passava a ser “tudo bem, tirando o aqueduto e o saneamento básico, digam-me lá o que é que os romanos jamais fizeram por nós?”. Alguém de imediato acrescentava “as estradas”. O sketch continuava num crescendo alucinado que me agrada bastante e aconselho. Enfim, a conclusão é que, de facto, apesar da resistência local, os romanos tinham constituído um enorme avanço civilizacional.
Numa adaptação também hilariante, em 2016, e como ação de campanha pela manutenção da Grã-Bretanha na União Europeia, alguém enumerou algumas das vantagens desta estrutura. As vantagens para a Grã-Bretanha eram “57% do comércio”, “estabilidade económica e comercial”, “combate aos monopólios”, “ar e mares menos poluídos”, “proteção do ambiente”, “bem-estar animal”, “proteção dos direitos dos trabalhadores”, “férias pagas”, “viagens baratas”, “cuidados de saúde”, “educação”, “ciência”, “vinho”, “combate anti-terrorista”, “restrições a fumar em lugares públicos fechados ou locais de trabalho” e a “paz”. Mesmo assim, o resultado do referendo foi o que se viu… A minha conclusão é que, de facto, há uma certa propensão involuntária para ignorar as partes boas e realçar abundantemente o menos bom. Qual a responsabilidade dos órgãos de comunicação social, das redes sociais e de políticos populistas neste estado de coisas é algo que merecerá reflexão, mas não agora.
Neste momento, muito poderia ser dito sobre a União Europeia e o seu papel. Irei apenas salientar dois factos que aconteceram precisamente na semana passada: o Regulamento Geral de Proteção de Dados Pessoais entrou em vigor e foi proposta a proibição de uso massivo de plásticos de utilização única (vulgo “palhinhas e cotonetes”). São duas ações meramente exemplificativas por serem recentes e com cruciais consequências para o nosso bem-estar pessoal e ambiental.
A primeira ação, o Regulamento Geral de Proteção de Dados Pessoais, entre outras obrigações, impedirá que empresas e organismos públicos detenham e utilizem os nossos dados pessoais sem a nossa autorização. É um enorme passo civilizacional e que abala os gigantes informáticos, como o Facebook e o Google, e liberta a nossa caixa de correio eletrónico. No entanto, o ponto essencial é que a nossa privacidade, que tem sido desprezada e violentada nos últimos anos, acaba de ganhar uma nova importância.
A proibição de uso massivo de plásticos de utilização única é mais uma visionária ação da União Europeia. Reconhecendo que a proliferação dos microplásticos nos oceanos pode colapsar a vida tal como a conhecemos, incluindo a nossa, a Comissão resolveu propor acabar com o mal pela raiz, limitando em muito o uso de plásticos. Muito bem!
No ano passado, tive a oportunidade de ouvir cientistas turcos falarem sobre qualidade ambiental. Na sua palestra referiam-se abundantemente aos pontos de referência da “Diretiva” para a qualidade da água. Fiquei surpreendido porque não esperava que tivessem regras ambientais de tão alto-nível dedicadas à qualidade da água. No final, abordei-os e perguntei há quanto tempo tinham aprovado estas regras ambientais. A resposta não foi menos surpreendente, “não aprovamos”, “usamos as da União Europeia”.
A Comissão Europeia é o órgão executivo da União Europeia e tem cerca 32 mil funcionários. Estes trabalhadores constituem o corpo central que edifica e organiza a ação conjunta de 28 Estados com consequências positivas que se estendem muito para além das nossas fronteiras. Em muitos aspetos, a visão, leis e resultados da União Europeia apontam caminhos e soluções que, com o tempo, passam a ser globais.
Independentemente de outros detalhes relevantes como os expostos acima, o investimento na União Europeia é um apoio fundamental para a liberdade, para a livre circulação e para a paz. Se nada mais houvesse, para mim, estes pontos já valiam os 1,14% do PIB com que cada Estado contribui para o seu orçamento.