segunda-feira, 17 de setembro de 2018

Crónicas de Bruxelas: 28 - A importância de um aceno


Detalhe da estrada entre Santa Cruz e Lajes das Flores.
Foto: F Cardigos

Uma das coisas que sempre me impressionou nos Açores, particularmente nas ilhas de menor dimensão, foi a forma generosa e intuitiva como as pessoas se cumprimentam. Talvez por ser oriundo de Lisboa, onde há uma maior distância entre as pessoas fora do círculo chegado de familiares e amigos, este gesto, com um implícito “estou aqui e estou contigo”, sempre me pareceu valioso. Também por isso, dou-lhe particular atenção e sou sensível a detalhes que roçam o implausível.
Um dos trabalhos que a vida profissional me levou a realizar há cerca de duas dezenas de anos, implicou alojar-me em Santa Cruz das Flores e a trabalhar quotidianamente nas Lajes da mesma ilha. Todos os dias, de madrugada e ao final do dia, conduzia um carro entre as duas vilas desta belíssima ilha. Por inerência aos 18 km de estrada sinuosa, as pessoas tendem a conduzir a baixas velocidades, com a mão esquerda na parte de cima do volante e a direita no manipulo das velocidades. Quando dois carros se cruzam, não podendo largar o volante, um ou mais dedos são alçados e, da outra viatura, surge o mesmo cumprimento. O que é quase inacreditável é que o número de dedos alçados por um condutor é replicado exatamente na mesma medida pelo condutor contrário. Notei isto depois de me cruzar com imensas viaturas e, quase sistematicamente, obter este resultado sempre que eu tomava a iniciativa. Comecei por pensar que seria impressão minha, mas, depois de ganhar mesmo algumas apostas, fiquei convencido. Há um qualquer código de boa educação, escrito ou não, que implica que, naquela estrada, as pessoas se cumprimentem exatamente com o mesmo aceno. Seja um simples “um dedo”, sejam “dois dedos”, “três dedos” ou “quatro dedos”, há uma qualquer comunicação com mensagens implícitas (“bom dia”, “ganhamos”, “foi espetacular!”…?) que eu não entendo, mas registei.
Seja qual for a ilha, há uma outra variância nos acenos relacionada com o tempo de ausência. Quando duas pessoas se veem pela primeira vez após longo tempo, o aceno é transportado para um nível mais elevado. Este aceno implica um passou-bem, apertando firmemente as mãos, entre eles, e dois beijinhos, entre elas ou eles e elas. Nos casos mais emocionais, há mesmo direito a um abraço. Quando a ausência é de um dia, o aceno transforma-se numa exibição da palma da mão (sinal universal de paz, diga-se) e, dentro do mesmo dia, um leve agitar vertical da cabeça. É assim e ninguém prescreveu, que eu saiba.
Todos estes acenos são determinantes e a ausência deles pode levar a conclusões nefastas. Entre o “estava certamente distraído” ao “nem me falou”, passando por todas as possibilidades intermédias, tudo são interpretações que terão de ser escalpelizadas e ninguém ficará tranquilo enquanto isso não acontecer. É assim a vida nas ilhas.
Quando escrevo estas linhas estou no Corvo e prestes a regressar a Bruxelas. Já sei, porque é sempre assim nos primeiros dias, distraidamente, irei cumprimentar quem se cruzar comigo no caminho para casa. Receberei de volta um gesto admirado, quase de medo, ou, mais habitualmente, ir-me-ão ignorar. É assim nas cidades grandes… Mas há exceções! Na floresta em redor da cidade de Bruxelas, no final de semana, entre as pessoas que praticam desporto ou, simplesmente, passeiam, os acenos voltam. Não é, portanto, apenas uma questão de geografia, mas também uma questão de densidade. Parece que uma densidade de pessoas superior a um determinado nível nos torna menos humanos, menos sensíveis e menos empáticos. Talvez…
As terras com acenos, seja nos arredores de uma grande cidade ou nas ilhas dos Açores, são enormemente reconfortantes. Pena que, para se notar, seja necessário sentir a sua ausência.

sexta-feira, 24 de agosto de 2018

Crónicas de Bruxelas: 27 - Corpo Europeu de Solidariedade


Ser solidário
Foto: F Cardigos


Poucas pessoas nos Açores já terão ouvido falar do Corpo Europeu de Solidariedade. No entanto, é importante tê-lo em particular atenção uma vez que, apesar de apenas começar oficialmente em outubro, já tem mais de 60 mil jovens inscritos. Como se pode ler no sítio internet dedicado à iniciativa, este Corpo Europeu pretende dar a oportunidade de fazer voluntariado ou para “trabalhar em projetos, no próprio país ou no estrangeiro, em benefício de pessoas e comunidades de toda a Europa”. Todos os jovens dos 17 aos 30 anos são bem-vindos. Neste momento, há 28 projectos em Lisboa e 2 em Faro, mas talvez seja mais interessante pensar em usar este instrumento para obter uma experiência internacional, fazendo parte de programas também úteis, mas mais enriquecedores do ponto de vista cultural.
Dependendo do projecto específico, as deslocações e as despesas locais poderão ser pagas pela organização que dinamiza a atividade de solidariedade escolhida pelo voluntário. Portanto é muito importante ler com cuidado a descrição do projecto em que nos iremos envolver, não apenas pela componente mais relevante e relacionada com o acto de solidariedade em si, mas também pelas contrapartidas, que, no final do dia, podem ou não viabilizar o projecto individual.
Espera-se que as plataformas de governo multinível sejam envolvidos, desde as autarquias às autoridades regionais e nacionais. Ou seja, o Corpo Europeu de Solidariedade não deve surgir da simples intenção de uma qualquer organização não governamental ou associação, mas sim desenvolver-se num contexto mais alargado e robusto. Esta postura serve também para evitar que o Corpo Europeu de Solidariedade seja utilizado para que essas entidades obtenham mão-de-obra barata e subsidiada pela União Europeia, como já foi alvitrado por alguns. Se isso acontecer na realidade, esta boa iniciativa estará condenada.
A União Europeia tem em curso diversas acções relacionadas diretamente com o apoio aos jovens. O DiscoverEU, o Erasmus e este Corpo Europeu de Solidariedade, cada uma delas constitui uma oportunidade palpável de partir, em simultâneo, para a aventura da descoberta, do conhecimento e da fraternidade.
A propósito do DiscoverEU relembro que estão, neste preciso momento, a viajar de comboio e com as viagens pagas, milhares jovens da União Europeia. Para ter uma ideia do que se passa nessa enorme aventura, desafio uma busca nas redes sociais, como o twitter por exemplo, usando a etiqueta #DiscoverEU. Relembro também que haverá uma segunda oportunidade para os jovens que tenham 18 anos em setembro.
O Programa Erasmus será amplamente reforçado no próximo quadro comunitário de apoio, portanto de 2021 em diante. Pelo que vou vendo à minha volta, pelo entusiamo dos mais jovens por esta iniciativa, os pais que se preparem porque a exceção será os que não tenham tido uma experiência internacional numa parte do seu período formativo. Para além da importância de isso constar no currículo para quando se enfrentar o mercado de emprego, há essencialmente as histórias e as aventuras que eles poderão contar.
A União Europeia está a apostar em força nos jovens europeus, contribuindo para que se tornem melhores pessoas, mais aptas e mais felizes. Tenho que admitir que me causa um enorme orgulho viver neste tempo de oportunidades e espero que os jovens do meu país saibam aproveitar. Atrevam-se!

terça-feira, 21 de agosto de 2018

Crónicas de Bruxelas: 26 - Ser reconhecido

Bandeira do Conselho Europeu e da União Europeia
Foto de Nuno Lopes

No testamento de Mouzinho da Silveira pode ler-se: “Quero que o meu corpo seja sepultado no cemitério da ilha do Corvo, a mais pequena das dos Açores (…); são gentes agradecidas e boas, e gosto agora da ideia de estar cercado, quando morto, de gente que na minha vida se atreveu a ser agradecida.” As palavras, que sintetizo, seguiram-se à demonstração de gratidão que os corvinos exibiram ao então Ministro Mouzinho da Silveira pela sua decisão de reduzir para metade o foro que pagavam, com enorme esforço, desde o século XVI ao século XIX.
Vem isto a propósito da União Europeia e do contributo que a União Europeia disponibiliza à Região Autónoma dos Açores. Olhando para os números do orçamento da Região dos últimos anos, podemos facilmente verificar que entre 10 e 15% da despesa é suportada por fundos europeus. Melhor apenas os contributos do Estado Português, um pouco mais de 15%, e do IVA gerado nos Açores, cerca de 20%. Os contributos financeiros europeus na sua totalidade materializam-se nos diferentes investimentos protagonizados pelo Governo Regional, mas também pelas autarquias açorianas e privados. A proporção do auxílio da União nestes investimentos pode ser, de facto, amplamente maioritária.
Obras como o Nonagon ou o preço reduzido nos transportes aéreos e marítimos entre ilhas, no meio de muitos outros exemplos, resultam parcialmente da “bolsa” da União Europeia. Através de uma consulta simples na internet, por exemplo nos sítios do ProRural ou dos Açores 2020, obtemos uma visão precisa do impacto que a União Europeia tem no nosso dia a dia.
Num artigo recente com autoria de Gualter Furtado, publicado no Diário dos Açores, defendia-se um uso mais abrangente da bandeira da União Europeia como reconhecimento pelo auxílio no estruturar dos valores democráticos e de desenvolvimento. Esta atitude, segundo o autor, seria também uma forma de demonstrar internamente e a quem nos visita que estamos integrados e queremos contribuir para a construção do projeto Europeu.
Parece-me bem e fui verificar quais os preceitos para a utilização da bandeira da União Europeia. Curiosamente, a bandeira da União Europeia não era originalmente desta organização ou das organizações que a precederam (Comunidade Europeia do Ferro e do Aço e Comunidade Económica Europeia). A bandeira europeia remonta ao ano de 1955, quando o Conselho da Europa a adoptou. Essa organização, sim, concebeu e usou originalmente as doze estrelas.
Apenas em 1983, e progressivamente, foi sendo incorporada pelas instituições daquilo que é hoje a União Europeia. Agora, esta bandeira é universalmente utilizada para simbolizar o Conselho da Europa e a União Europeia (duas organizações bem distintas). Hoje em dia, os direitos de autor da bandeira são da União Europeia, mas os princípios de utilização por terceiros foram estabelecidos pelo Conselho da Europa e publicados no Jornal Oficial da União Europeia. É mais uma benigna originalidade da União Europeia…
Tudo isto para concluir que, ao contrário do que acontece com a utilização das bandeiras dos diferentes países, não há regras muito severas para a utilização da bandeira da União Europeia. Ou seja, qualquer pessoa ou instituição pode usar as “doze estrelas douradas dispostas em círculo sobre um fundo azul, que simbolizam os ideais de unidade, solidariedade e harmonia entre os povos da Europa” desde que o faça com respeito e que não tente abusar da presunção de ligação entre a União Europeia ou o Conselho da Europa com o utilizador.
Associarmo-nos ao espírito e valores europeus e demonstrar gratidão à organização de que fazemos parte de pleno direito parece-me também um acto de inteligência e de redundância civilizacional. É um orgulho poder demonstrar a tripla pertença: Açores, Portugal e União Europeia. Hoje em dia, pertencer a esta tríade é saber que, por muitas contrariedades e sobressaltos que hajam, estamos numa sociedade que pretende fazer o Bem e melhorar constantemente.