segunda-feira, 12 de novembro de 2018

Crónicas de Bruxelas: 32 - É necessário?

Um carro simples.
Por: F Cardigos


Penso que todos temos consciência que a nossa utilização dos recursos do planeta está no limite. Dando apenas alguns exemplos que me assaltam a memória quando penso nisso, muito mais de metade dos recursos marinhos utilizados estão abaixo dos limites de sustentabilidade, as emissões de metano que resultam da produção animal são um enorme catalisador das alterações climáticas e, mesmo nos Açores, usamos a água doce a níveis que não são compatíveis com os mananciais existentes em algumas ilhas.
Se outros povos começarem a consumir e a poluir como se faz no ocidente, o planeta deixará de oferecer as condições necessárias à nossa sobrevivência. A nossa existência passará a ser uma longínqua memória se não houver inversões notórias. O planeta que nos abriga não aguenta mais consumo ou, colocando por outras palavras, não pode haver mais crescimento. Faço uma distinção entre o “planeta” e o “planeta que nos abriga” porque, na realidade, por muito que estraguemos, o planeta continuará por cá. A única diferença é que continuará sem nós.
Não é um problema dos Açores, de Portugal ou da Europa. Este é um problema do mundo humano. No entanto, por ser um problema do mundo não nos dá o direito de nos distanciarmos dele. Pelo contrário, todos somos responsáveis por agir.
Quando vejo nas notícias que Portugal se prepara para começar a explorar petróleo pergunto-me se o decisor não conhece os valores de concentração de carbono na atmosfera? Portugal deveria abdicar da utilização deste recurso, forçando um pouco mais a passagem para as fontes energéticas alternativas e amigas do ambiente.
Dizem-me alguns amigos que a tendência decrescente na utilização dos combustíveis fósseis tem que ser global e que isso não é incompatível com uma exploração por parte de Portugal, que aproveite os últimos esgares de necessidade de combustíveis fósseis, até porque ainda serão necessárias mais umas décadas até estarmos completamente independentes. A mim, esta aproximação faz-me lembrar a expressão inglesa “not in my backyard”. Ou seja, parem lá vocês de explorar o planeta, “vão sem mim, que eu vou lá ter…”, parafraseando os Deolinda.
Não pode ser.
E o problema está longe de ser apenas uma questão petrolífera. Tudo está em questão. Precisamos mesmo de ter o último modelo de telemóvel? No outro dia vi o jogador de futebol Modric, que ganha milhões de euros por ano, com um velhinho modelo da Apple. Compreendo que as pessoas tenham recursos e gostem de usar o seu dinheiro. No entanto, à medida de cada um, teremos mesmo de deixar o paradigma do consumo e passar para o paradigma da suficiência. Isto obriga a uma introspeção e à resposta, honesta, à pergunta “o que preciso para ser feliz?”
A esse título partilho um dado interessante. Cientistas estudaram o aumento da felicidade com o aumento da riqueza. Sem espanto, detetaram que, em termos médios, quanto mais ricas são as pessoas, mais felizes são. Agora, o que os espantou é que não é uma relação linear, mas sim uma relação assintótica. Ou seja, o dobro da riqueza não trás o dobro da felicidade. A partir de um certo valor de riqueza qualquer crescimento, mesmo que infinito, não trás um acréscimo de felicidade minimamente significativo. Portanto, pessoas como o Bill Gates não são muito mais felizes que qualquer pessoa da classe média alta de Portugal. Podemos aliás, ilustrar isso com a coleção de carros de Cristiano Ronaldo. Quando ele comprou a primeira “bomba” deve ter ficado felicíssimo. Neste momento, mais um carro não deve passar de uma interessante curiosidade de revista de cordel e razoavelmente efémera.
Então, “o que é necessário?” Volto a repetir que isso depende de cada um. Eu diria que ter recursos financeiros suficientes para proporcionar à família segurança, educação e saúde são pontos razoavelmente comuns a todos. Falando no meu caso pessoal, acrescentando ao anterior, ter um carro sempre foi algo que considerei importante. Depois de ter o meu Toyota Prius, passe a publicidade, não sinto qualquer interesse em adquirir outra viatura. É suficiente.
Quando um governante responsável diz que é necessário proporcionar emprego para todos os cidadãos e progresso, eu entendo, mas quando se começa a falar em crescimento, particularmente em geografias mais desenvolvidas, a mim sabe-me a irresponsabilidade. O planeta não aguenta, simplesmente não aguenta.

segunda-feira, 29 de outubro de 2018

Crónicas de Bruxelas: 31 - A Caminhada da Vida


Vai ser um dia com uma brilhante luz do Sol
Foto: F Cardigos

Ao sair de casa, no carro, liguei o rádio e a estação Classic 21, talvez uma das emissoras mais conhecidas de Bruxelas, emitia o clássico dos Dire Straits, Walk of Live. No exterior, ao Sol que quase cegava misturava-se um frio penetrante. Ao som da música, trauteava a letra, “He got the action, he got the motion, Oh yeah, the boy can play…”, até que passou para os versos seguintes e isso desacelerou-me o cérebro. Dedication, devotion, Turning all the night time into the day”. “Dedicação, devoção, transformando todo o tempo de noite no dia seguinte”. A tradução é minha e, como se pode perceber, é uma tradução livre, ou seja, poderia ser diferente. É uma tradução mais emocional do que literal. A tradução de poesia é uma arte e muito longe estou eu de pretender que esteja ao meu alcance.
Transformando as trevas escuras e turvas da noite na claridade e felicidade do dia… Passando da tristeza e sombras da noite para a verdade científica escorreita, precisa e alegre do dia seguinte. Foi aqui que o meu pensamento ficou às voltas. Desliguei-me desta música e fui transportado para uma outra, usada num anúncio de boa memória, “I can see clearly now the rain is gone, I can see all obstacles in my way, Gone are the dark clouds that had me blind, It's gonna be a bright, Bright sun-shining day”, imortalizada por Jimmy Cliff . Não é fácil cantarolar uma letra com outra música de fundo. Apaguei o rádio e deixei-me ir…
Aquilo que o meu cérebro me estava tentar dizer, acho eu, é que por muito grande que seja a dificuldade (“rain”) e por mais intransponível que pareça o problema (“dark clouds”) vai haver um momento em que voltaremos a saber lidar com os obstáculos no caminho (“I can see all obstacles in my way”) e ficaremos bem (“It's gonna be a bright (…) sun-shining day”). Eu e o meu cérebro, por vezes, temos dificuldades de comunicação, mas penso que era esta a mensagem que me foi inicialmente suscitada pela Caminhada da Vida dos Dire Straits.
A verdade é que, no meu caso, já me vi em encruzilhadas aparentemente sem solução (“Dire Straits”, curiosamente) e, com dedicação ou mesmo devoção (“Dedication, devotion”), elas dissiparam-se. Umas vezes transformando-se em novas dificuldades, diga-se, outras em dias felizes (“Here is that rainbow I've been praying for”).
É esta a caminhada da vida. Umas vezes incompreensivelmente apanhados pelas contingências maléficas de algo que não dominamos e, outras, surpreendidos pela felicidade com que somos bafejados. O único remédio, quando apanhados em tais contingências, pelo menos no meu caso, é trabalhar e lutar. O único remédio é sorrir e virar a cara para o vento deixando a água salgada bater-nos na cara e dizer que não temos medo, mesmo que estejamos apavorados. É enfrentar a impossibilidade de vitória com a certeza que o final de tudo ainda está muito longe e novas e gloriosas oportunidades estarão por surgir. É cantar cada derrota como se de uma epopeia se tratasse e olhar para cada vitória com uma saborosa humildade. Esta é a caminhada da minha vida e a mensagem é sempre It's gonna be a bright, Bright sun-shining day, mesmo que não faça qualquer ideia de como lá chegar.
Vai ser um dia com uma brilhante luz do Sol, vai mesmo!

domingo, 14 de outubro de 2018

Crónicas de Bruxelas: 30 - Eleições Comunais


Montra com cartazes de publicidade partidária em Bruxelas.
Por: F Cardigos

Ao chegar a Bruxelas, depois de umas magníficas férias nos Açores, não posso dizer que as diferenças fossem muitas. No entanto, havia uma que me entrava pelos olhos dentro. As montras estavam povoadas por cartazes com caras de pessoas bem penteadas e com ar confiante que sorriam na direção de quem passava. Para além do sorriso, havia um nome, provavelmente correspondente à pessoa ilustrada, um logótipo ou pequena frase e um número.
Não foi preciso pensar muito para concluir que estes cartazes estavam relacionados com as eleições Comunais da Bélgica que se realizam a 14 de outubro. Estas estruturas do ordenamento administrativo, que em Portugal estariam entre a Câmara Municipal e a Junta de Freguesia, procuram eleger, como acontece de seis em seis anos, novos titulares ou confirmar os atuais.
Portanto, se a face e o nome eram autoexplicativos, o logótipo e, essencialmente, o número não o eram. Se fosse sempre um logotipo de um partido ou coligação, ainda compreenderia. Mas não era o caso. Em muitos casos, o logotipo era substituído pela expressão: “Liste du Bourgmestre”. Fui à procura de explicações.
O essencial e que caracteriza indelevelmente as eleições na Bélgica, em completo contraste com Portugal, é que o voto é obrigatório. Por essa razão e porque no passado houve excessos, a publicidade eleitoral está muito orientada para prestar a informação essencial e não para aliciar os eleitores a irem votar, já que esse é um dado legalmente adquirido. Portanto, na Bélgica não há isqueiros, chapéus, aventais e outras bugigangas para serem oferecidas. A publicidade eleitoral está normalizada. Há cartazes, panfletos, sessões de esclarecimento e pouco mais. Já vi os candidatos e seus amigos nos parques e lojas a dar explicações sobre o recenseamento eleitoral para estrangeiros residentes e clarificando as suas ideias.
Segundo me explicaram, a tal expressão, “Liste du Bourgmestre” é utilizada nos casos em que o atual presidente se recandidata. Como tenho verificado, a “lista do Presidente” é, muitas vezes, constituída por diversos partidos e independentes. Faltava-me a explicação sobre o número que constava nos cartazes…
Ora, o que acontece é que, aqui na Bélgica, o voto pode ser preferencial. Para explicar como o processo funciona irei descrever o ato de votar em si. Oxalá fosse escorreito, mas não é. Começa logo pelo facto de não haver apenas um processo, mas sim quatro: um para a Flandres, outro para a Valónia, um outro para Bruxelas e, finalmente, um para a região germanófona. Portanto, irei descrever o processo usado em Bruxelas e salientarei algumas diferenças para as restantes regiões.
Nas comunas de Bruxelas há voto eletrónico presencial (na Valónia ainda se vota em papel). Assim, depois de identificado, ao cidadão eleitor chegado à mesa de voto é dado um cartão magnético. Com esse cartão, o eleitor dirige-se à câmara de voto onde está um ecrã táctil e uma ranhura. Na ranhura, o eleitor insere o cartão e no ecrã aparece uma pergunta sobre a língua que pretende utilizar. Pode-se escolher entre o francês e o flamengo, dado Bruxelas ser uma região bilingue. Na Flandres, na Valónia e na zona germanófona esta pergunta é redundante, visto o flamengo, o francês e o alemão serem as línguas oficiais respectivas.
Depois aparecem no ecrã as diversas listas concorrentes. Nesse momento, o eleitor decide se vota na lista A, B, C, etc... Ah, uma diferença em relação a Portugal, apenas se vota numa única lista. Ao contrário, relembro, em Portugal, nas eleições autárquicas vota-se três vezes. Uma para a junta, outra para a assembleia municipal e, uma outra, para a vereação. Aqui não há duas estruturas (junta e município), apenas uma (commune) e é a Assembleia da commune que elege o órgão executivo. Das eleições resultam o Presidente, que é o primeiro na lista mais votada (na Valónia pode não ser o primeiro) e os conselheiros (equivalentes a membros da Assembleia Municipal/Freguesia).
Depois, após negociações, de entre os conselheiros eleitos são nomeados os diversos vereadores (órgão executivo). É muito habitual os vereadores serem oriundos de diversas listas. Por exemplo, em Ixelles, uma das comunas da Região de Bruxelas, a presidente pertence ao MR (“Movimento Reformador”, liberais), há quatro vereadores do MR, três vereadores do PS (socialistas francófonos) e um do SP.A (socialistas flamengos). Todos têm competências atribuídas, ao contrário do que acontece tipicamente em Portugal, em que os vereadores da oposição são ostracizados do poder.
Portanto, voltando à minha linha de descrição, o eleitor regista a lista em que quer votar na segunda pergunta. Depois de escolher a lista, pode escolher quais os candidatos em que quer votar dentro dessa lista. Caso não escolha ninguém, é como se tivesse escolhido todos. Não pode, como me interroguei de imediato, fazer uma mistura entre candidatos de várias listas. Portanto, fazendo um paralelismo com as eleições regionais dos Açores, caso houvesse voto preferencial, poderia expressar que queria votar no candidato a presidente do seu partido favorito e no candidato número 14 desse mesmo partido, mas não pode dar a sua preferência a todos os candidatos a presidente de todos os partidos. É que a resposta à segunda pergunta na sequência de voto exclui de imediato os candidatos das restantes listas.
É, assim, por esta razão que o número que aparece nos cartazes é tão importante. O eleitor pode mesmo expressar que não gosta do candidato a presidente proposto pela sua lista e escolher, dentro da lista, outras pessoas para o representar. Para escolher, há que encontrar o número e registá-lo no ecrã no momento do voto.
Estive a fazer uma pequena pesquisa e encontrei um caso em que o candidato a Presidente foi preterido pelo voto preferencial. Mas, segundo apurei, isso é possível na Valónia, mas não em Bruxelas. Em Bruxelas, mesmo que o candidato a Presidente não tenha qualquer voto preferencial, será sempre o Burgomestre se a sua lista for a mais votada. Em resumo, o voto preferencial em Bruxelas pode alterar a ordem de todos os membros da assembleia eleitos exceto o candidato a presidente.
A existência do voto preferencial provoca autênticas guerras dentro da própria lista. Deparei-me com um curioso caso em que desapareceram os cartazes de um determinado candidato e os principais suspeitos eram os concorrentes da mesma lista. Na minha investigação, um outro candidato queixou-se que os seus parceiros estavam a colar os seus cartazes por cima do seu. Uma autêntica selva…
Ainda é cedo para me pronunciar sobre o voto preferencial, porque me dá a sensação de privilegiar os candidatos populistas e espertalhões e não os mais virtuosos. No entanto, entre ter um partido a seriar os candidatos ou os eleitores, como eu ou quem me lê, parece-me ser mais interessante a segunda opção. Algo a refletir!