sexta-feira, 18 de outubro de 2019

Crónicas de Bruxelas: 55 - Solidariedade Revisitada


Bandeira de Timor-Leste no topo da Ilha do Pico, Açores, no dia 10 de setembro de 1999
Foto: F Cardigos


Leio os jornais regionais dos Açores, aqui em Bruxelas, e registo as palavras do Ministro Pedro Siza Vieira ao visitar a ilha do Faial após a passagem do furacão “Lorenzo”. Disse ele, “É notável como esta comunidade, toda ela, se mobilizou para ajudar a recuperar as praias, a limpar as ruas, as casas e esse também é um exemplo para todo o país”.

Apenas os que não viviam no Faial em 1998 podem ficar surpreendidos com isso. Lembro-me bem como, imediatamente, os faialenses e os que estavam de visita se organizaram para dar apoio aos milhares de pessoas que quase tudo tinham perdido. Coordenados pelos bombeiros e pelas forças vivas da ilha, todos se mobilizaram para transportar víveres, medicamentos e comida ou, simplesmente, dar uma palavra de alento. A seguir chegaram os militares e iniciou-se o derribamento das estruturas cuja solidez apresentava perigo, foram construídas pontes e reconstruídas estradas. Depois, passados muitos meses, a normalidade voltou progressivamente. O que eu quero enfatizar é que a primeira onda de ajuda foi então endógena e, sem surpresa, agora endógena foi.
Portugal, diga-se com orgulho, tem uma longa tradição de solidariedade. Nas minhas memórias mais antigas estão as extensas listas de donativos que os continentais deram em apoio às vítimas e à reconstrução na sequência do terramoto dos Açores de 1980. Isto não aconteceu por qualquer tentativa de exibição, longe disso, porque os dadores eram muito maioritariamente anónimos. Na televisão, a seguir ao telejornal, passava uma lista infindável de dadores e o valor atribuído à frente. Nesse período houve muitos apostadores, provavelmente centenas, que ganharam o segundo prémio do totobola e ele foi inteirinho para a Terceira, São Jorge e Graciosa, as ilhas mais tocadas pelo sismo de 80. Não era um valor muito elevado, mas era dinheiro e muitos, abnegadamente, o doaram. Não sei que parte desta história é romanceada pela minha memória, mas a enorme onda de solidariedade nacional está largamente registada nos órgãos de comunicação social.
E esta solidariedade manifesta-se também com outros países. Fomos nós que ajudámos a Finlândia quando eram um povo que estava à beira da fome e, curiosamente, não nos incomodamos praticamente nada com a recente falta de reciprocidade de alguns dos seus dirigentes. Mais perto de nós, no final do milénio, Lisboa e Portugal inteiro encheram-se de branco em solidariedade pelo povo de Timor Leste. Esta é uma belíssima história que urge ser registada dignamente e contada por quem saiba. Este branco também chegou aos Açores e pessoas do Faial e do Pico foram até ao ponto mais alto de Portugal colocar uma bandeira de Timor-Leste, cujo esplendor chegasse a Ramelau. Não sei se chegou, mas chegou certamente o branco de Portugal. Foi uma extraordinária onda de solidariedade internacional.
Os portugueses são uma mistura de povos. Para não ir mais atrás na história, aos lusitanos misturam-se os romanos, árabes, galegos e outros espanhóis, judeus, os flamengos, os franceses que nos invadiram três vezes, os ciganos, os africanos, os brasileiros e, mais recentemente, os povos do Leste. Talvez por sermos esta fabulosa mistura, temos particular empatia por qualquer povo que sofra. Somos todos irmãos!
Somos assim e, para mim é o ponto alto da pátria. Se alguma coisa me faz sentir patriota e comover-me quando oiço um fado aqui na Bélgica é recordar-me do dia em que Lisboa se vestiu de branco e parou para que o mundo olhasse para Timor-Leste. E o mundo olhou.
Não estranho o que aconteceu no Faial nos últimos dias. Mas enche-me de orgulho e quero dizer bem alto que estes são os Açorianos e este é o meu país: Portugal!

sexta-feira, 4 de outubro de 2019

Crónicas de Bruxelas: 54 - Vilões de hoje, heróis de amanhã?


Cookie, o gato
Foto: F Cardigos

Que têm em comum Aristides Sousa Mendes, o Edward Snowden e Rui Pinto? Muito pouco, de facto. No entanto há uma linha comum. Todos foram considerados heróis e vilões em simultâneo. 
Aristides Sousa Medes, um dos bons seres humanos que cruzou o planeta Terra, salvou milhares de refugiados, maioritariamente judeus, durante a segunda guerra mundial. O então Cônsul de Portugal em Bordéus, em desobediência a ordens superiores, concedeu vistos aos que se encontravam em fuga do terror nazi. Esse feito levou a que fosse alvo de diversas honras e que pertença ao exclusivo grupo dos “Justos entre as nações”. Há apenas quatro portugueses com esse título. No entanto, no Portugal de então, o Governo do ditador Salazar, retirou-lhe o vencimento durante um ano. Herói mundial, vilão no seu país.
Edward Snowden é um norte-americano que, em 2013, denunciou a ação de espionagem internacional perpetrada pela Agência de Segurança Americana. Os atos de espionagem incluíam a devassa sistemática da vida privada e pública, incluindo a escuta de governos amigos, como os Europa ocidental. Quanto a mim, este é um dos maiores crimes cometidos por um país dito democrata no século XXI. O denunciante, na minha perspetiva, merecia o Prémio Nobel da Paz, mas, ao mesmo tempo, tenho que admitir, à luz da lei norte-americana, é indiscutível que Edward Snowden terá de ser detido, julgado e, muito provavelmente, condenado e preso durante muitos anos por traição. Herói mundial, vilão no seu país.
Rui Pinto é um cidadão português que, alegadamente (ainda não foi julgado), terá devassado a privacidade informática de pessoas e instituições e terá distribuído essa informação por terceiros. Ao fazê-lo, aparentemente, terá exposto diversos vícios no mundo do futebol que permitirão melhorar o desporto-rei. O que Rui Pinto terá eventualmente feito é criminoso à luz da lei portuguesa, sem qualquer dúvida, mas, em Bruxelas, tem o título quase heroico de whistleblower. Whistleblower é o nome dado a quem denuncia, ao público ou às autoridades, atitudes mal-intencionadas por parte de organizações. Herói em Bruxelas, potencial vilão em Portugal.
Onde quero chegar com estes três casos? Quero enfatizar que podemos ter dois estados em simultâneo (heróis e vilões, no caso) e, que por muito estranho que isso possa parecer, eles são compatíveis. No mundo da física atómica, essa possibilidade foi teoricamente testada no início século passado naquilo a que se chamou o “Gato de Schrödinger”. De acordo com essa experiência, é possível teorizar que um gato dentro de uma caixa, nas condições experimentais propostas por Schrödinger, está, em simultâneo, vivo e morto.
Alguns seres humanos são colocados perante situações limite e, por vezes, a única saída moralmente por si aceitável é sacrificarem uma parte da sua vida ou uma das suas existências. Tal como Aristides Sousa Mendes, talvez um dia Edward Snowden e Rui Pinto sejam perdoados no seu país. Não me compete dissertar sobre se os fins justificaram os meios até porque não conheço o suficiente sobre o último caso. No entanto, aquilo que me parece certo é que, ao optarem pelo caminho que seguiram, caíram na dupla existência do Gato de Schrödinger. Apenas quando “se abrir a caixa”, ou seja, no futuro, se saberá se estarão “vivos ou mortos” no seu país, concluindo-se então se era aceitável o que fizeram, ou não. Aristides Sousa Mendes foi metaforicamente retirado da caixa com vida. Será o destino de Edward Snowden e Rui Pinto? Serão os vilões de hoje os heróis de amanhã também nos respetivos países? O futuro o dirá.

sexta-feira, 20 de setembro de 2019

Crónicas de Bruxelas: 53 - Taça da União Europeia



Taça da União Europeia
Grafismo e foto: F Cardigos



Se há coisa que eu não entendo é quando os políticos se esquecem do que é que os seus cidadãos gostam ou tomam atitudes paternalistas em relação a isso. Se queremos que as pessoas adiram às prioridades estratégicas de uma unidade geográfica, essa unidade geográfica deve tentar entender como poderá comunicar com os seus cidadãos. Dado o perigoso distanciamento dos cidadãos em relação à política e, por inerência, à democracia, penso que está no momento de agir de forma revolucionária. Temos que pensar, como se costuma dizer, “fora da caixa”.
Obviamente que uma grande percentagem dos cidadãos da União Europeia gosta e muito de futebol. Na Europa, mesmo a parte das pessoas que não gostam de futebol mobilizam-se nos jogos dos campeonatos que incluem as seleções nacionais, no mínimo, para participar na festa. Eu vi isso em Portugal, na Bélgica e em todos os países por onde tenho passado. Lembro-me inclusivamente de estar na ilha de Rodes, Grécia, numa reunião científica e o café mais próximo da sala de conferências era o “2004”… Amantes do futebol português, imaginem porquê… Doeu-me.
Portanto, se queremos atrair os cidadãos para o mundo da União Europeia, a União Europeia tem que se aproximar do futebol. Longe de o fazer de forma subserviente, a União tem que tomar a liderança. A minha sugestão é muito simples. Que, em conjunto com a UEFA, se organize uma nova e curta competição (masculinos e femininos, claro!) que junte anualmente os vencedores das taças de cada país da União Europeia.
Os dirigentes europeus não podem continuar a viver numa redoma romântica em que esperam que as pessoas apenas se dediquem a atividades ditas intelectualmente elevadas. Não é assim. Aliás, admitindo que o futebol é apenas um espetáculo, que não é, repare-se que a União Europeia patrocina diversas artes e bem. Por que razão deixar de fora a arte que os europeus mais gostam? Sim, para mim, o futebol é uma arte, muito mais do que um desporto ou uma competição. Por que razão distanciar as instituições europeias do que mais apaixona as pessoas que pretendem servir?
Esta Taça da União Europeia seria constituída pelos 28 vencedores das taças de cada país. Por exemplo, no caso de Portugal, este ano seria representado pelo Sporting em masculinos e pelo Benfica em femininos. Era bonito.
Digo mesmo mais. Sabendo como os britânicos são os inventores do futebol, têm o campeonato mais espetacular e competitivo do mundo e adoram o desporto-Rei, eles iriam de imediato inverter o Brexit para poderem concorrer. Jamais os Farage, Boris e outros teriam qualquer chance frente à Taça da União Europeia. Era demasiado tentador. Os mesmos britânicos que votaram pela saída seriam os primeiros a querer permanecer e apenas para disputar a Taça da União Europeia. Podem dizer-me, e com toda a razão, que quereriam ficar na União Europeia pelas razões erradas, mas, acrescento eu, essas mesmas pessoas querem sair por razões também erradas, embora sejam outras. Erradas por erradas, pois que fiquem na União!
É totalmente verdade que há coisas muito mais importantes que o futebol. Também não se espera que a União Europeia gaste todos os seus recursos financeiros e humanos nesta Taça, apenas uma ínfinitíssima parte; aliás, quase que aposto que os patrocinadores privados cobririam rapidamente todo o orçamento. Concordo que o emprego, a saúde, a educação e a justiça são muito mais importantes que o futebol. No entanto, tenho que salientar, a felicidade dos seres humanos está longe de estar apenas ligada a questões lógicas, racionais e objetivas. A felicidade inclui tudo isso em primeira linha, mas inclui também a paixão. A paixão pelo futebol!