sexta-feira, 1 de novembro de 2019

Crónicas de Bruxelas: 56 - O estranho contraste entre vida vivida e a memória que prevalece

Estátua do Imperador Carlos V
Foto: F Cardigos

Recentemente, tomei conhecimento da obra de Luís Filipe Thomaz dedicada a compreender o último feito de Fernão Magalhães, a primeira circum-navegação. Fiquei estarrecido ao saber que, afinal, Fernão Magalhães não tinha qualquer propósito de dar a volta ao mundo quando deixou terras ibéricas. Deixo os detalhes para a obra do historiador e apenas saliento a seguir o que me parece mais importante.
Lemos nesta obra que o extraordinário navegador português se ofereceu ao imperador Carlos V, não para fazer a circum-navegação, mas sim para confirmar a posição das possessões castelhanas no Pacífico e por uma rota que evitasse grande parte das zonas controladas pelos portugueses em África e na Ásia. Foi por essa razão que torneou a América pelo Sul e se lançou Oceano Pacífico adentro.
O ponto essencial é que ele iria tentar regressar pela mesma rota que tinha seguido até aí. Isso apenas não aconteceu porque morreu nas Filipinas e quem lhe sucedeu, Sebastian Elcano, que, não sabendo tanto de navegação, não arriscou voltar para trás através do grande e desconhecido oceano. A história, na totalidade, é fascinante e vale mesmo a pena ler o livro de Luís Filipe Thomaz. Para o que me interessa nesta crónica, podemos ficar por aqui. Fernão Magalhães ficou para a história por algo que não tinha intenção de fazer e que não fez: circum-navegar o planeta Terra.
Jacques II de Chabanes ou Senhor de La Palice foi um filósofo que, em toda a sua vida, passou o tempo a dizer coisas muito sensatas e óbvias. Depois de falecer, o seu trabalho passou a ser usado por todos sempre que se querem referir a algo evidente. Mentira! Como mentira?! Todos nós já ouvimos políticos a dizer para algo óbvio “O senhor de La Palice não diria melhor!” ou “Caro colega, isso é uma La Paliçada”, quando pretendem minorar a afirmação de um adversário por ser evidente. Onde está afinal a verdade?
A verdade é que o Senhor de La Palice foi, na realidade, um valente guerreiro que combateu ferozmente sob as ordens de três reis de França e morreu com bravura, já como marechal, no campo de batalha. “E, no entanto”, como alguém afirmou com toda a razão, ”o Senhor de La Palice nada disse”. O que aconteceu é, na minha opinião, verdadeiramente extraordinário.
Depois de morrer, como acontecia então com os heróis de guerra de França, o corpo foi transportado de Pavia, em Itália, até Paris com escolta militar. Os seus homens dedicaram-lhe um longo poema que cantaram durante a viagem. Tudo se complica no final dessa longa poesia, tão longa como a idade e os feitos do Senhor de La Palice: “Hélas La Palice est mort, Il est mort devant Pavie, Un quart d'heure avant sa mort, Il faisait encore envie”. Repare-se, o que está escrito é que um quarto de hora antes de morrer, ainda causava inveja. Que mais poderia ser dito em homenagem a um grande guerreiro? Pouco antes de morrer ainda se batia com tal valentia que causava inveja!
Acontece que, o tempo muito rapidamente se encarregou de trocar as últimas palavras que passaram a ler-se “… Un quart d'heure avant sa mort, Il serait encore en vie” ou um quarto de hora antes da sua morte estava ainda vivo. Passamos de uma honra militar para uma evidência e o Senhor de La Palice, que nada disse, passou a ser referido cada vez que alguém diz uma evidência óbvia, passe o pleonasmo; algo que ele, eventualmente, nunca terá feito.
Deve haver outros casos de pessoas que se tornaram conhecidas por algo que nunca fizeram. Aliás, há sempre a tendência de vangloriar os que partem, apagando o menos bom. No entanto, penso que dificilmente alguém chegará ao contraste de Fernão Magalhães e do Senhor de La Palice. Foram seres humanos com vidas extraordinárias, plenos de valor e factos pelos quais devem ser recordados, excepto por aquilo por que todos os reconhecemos habitualmente. 

sexta-feira, 18 de outubro de 2019

Crónicas de Bruxelas: 55 - Solidariedade Revisitada


Bandeira de Timor-Leste no topo da Ilha do Pico, Açores, no dia 10 de setembro de 1999
Foto: F Cardigos


Leio os jornais regionais dos Açores, aqui em Bruxelas, e registo as palavras do Ministro Pedro Siza Vieira ao visitar a ilha do Faial após a passagem do furacão “Lorenzo”. Disse ele, “É notável como esta comunidade, toda ela, se mobilizou para ajudar a recuperar as praias, a limpar as ruas, as casas e esse também é um exemplo para todo o país”.

Apenas os que não viviam no Faial em 1998 podem ficar surpreendidos com isso. Lembro-me bem como, imediatamente, os faialenses e os que estavam de visita se organizaram para dar apoio aos milhares de pessoas que quase tudo tinham perdido. Coordenados pelos bombeiros e pelas forças vivas da ilha, todos se mobilizaram para transportar víveres, medicamentos e comida ou, simplesmente, dar uma palavra de alento. A seguir chegaram os militares e iniciou-se o derribamento das estruturas cuja solidez apresentava perigo, foram construídas pontes e reconstruídas estradas. Depois, passados muitos meses, a normalidade voltou progressivamente. O que eu quero enfatizar é que a primeira onda de ajuda foi então endógena e, sem surpresa, agora endógena foi.
Portugal, diga-se com orgulho, tem uma longa tradição de solidariedade. Nas minhas memórias mais antigas estão as extensas listas de donativos que os continentais deram em apoio às vítimas e à reconstrução na sequência do terramoto dos Açores de 1980. Isto não aconteceu por qualquer tentativa de exibição, longe disso, porque os dadores eram muito maioritariamente anónimos. Na televisão, a seguir ao telejornal, passava uma lista infindável de dadores e o valor atribuído à frente. Nesse período houve muitos apostadores, provavelmente centenas, que ganharam o segundo prémio do totobola e ele foi inteirinho para a Terceira, São Jorge e Graciosa, as ilhas mais tocadas pelo sismo de 80. Não era um valor muito elevado, mas era dinheiro e muitos, abnegadamente, o doaram. Não sei que parte desta história é romanceada pela minha memória, mas a enorme onda de solidariedade nacional está largamente registada nos órgãos de comunicação social.
E esta solidariedade manifesta-se também com outros países. Fomos nós que ajudámos a Finlândia quando eram um povo que estava à beira da fome e, curiosamente, não nos incomodamos praticamente nada com a recente falta de reciprocidade de alguns dos seus dirigentes. Mais perto de nós, no final do milénio, Lisboa e Portugal inteiro encheram-se de branco em solidariedade pelo povo de Timor Leste. Esta é uma belíssima história que urge ser registada dignamente e contada por quem saiba. Este branco também chegou aos Açores e pessoas do Faial e do Pico foram até ao ponto mais alto de Portugal colocar uma bandeira de Timor-Leste, cujo esplendor chegasse a Ramelau. Não sei se chegou, mas chegou certamente o branco de Portugal. Foi uma extraordinária onda de solidariedade internacional.
Os portugueses são uma mistura de povos. Para não ir mais atrás na história, aos lusitanos misturam-se os romanos, árabes, galegos e outros espanhóis, judeus, os flamengos, os franceses que nos invadiram três vezes, os ciganos, os africanos, os brasileiros e, mais recentemente, os povos do Leste. Talvez por sermos esta fabulosa mistura, temos particular empatia por qualquer povo que sofra. Somos todos irmãos!
Somos assim e, para mim é o ponto alto da pátria. Se alguma coisa me faz sentir patriota e comover-me quando oiço um fado aqui na Bélgica é recordar-me do dia em que Lisboa se vestiu de branco e parou para que o mundo olhasse para Timor-Leste. E o mundo olhou.
Não estranho o que aconteceu no Faial nos últimos dias. Mas enche-me de orgulho e quero dizer bem alto que estes são os Açorianos e este é o meu país: Portugal!

sexta-feira, 4 de outubro de 2019

Crónicas de Bruxelas: 54 - Vilões de hoje, heróis de amanhã?


Cookie, o gato
Foto: F Cardigos

Que têm em comum Aristides Sousa Mendes, o Edward Snowden e Rui Pinto? Muito pouco, de facto. No entanto há uma linha comum. Todos foram considerados heróis e vilões em simultâneo. 
Aristides Sousa Medes, um dos bons seres humanos que cruzou o planeta Terra, salvou milhares de refugiados, maioritariamente judeus, durante a segunda guerra mundial. O então Cônsul de Portugal em Bordéus, em desobediência a ordens superiores, concedeu vistos aos que se encontravam em fuga do terror nazi. Esse feito levou a que fosse alvo de diversas honras e que pertença ao exclusivo grupo dos “Justos entre as nações”. Há apenas quatro portugueses com esse título. No entanto, no Portugal de então, o Governo do ditador Salazar, retirou-lhe o vencimento durante um ano. Herói mundial, vilão no seu país.
Edward Snowden é um norte-americano que, em 2013, denunciou a ação de espionagem internacional perpetrada pela Agência de Segurança Americana. Os atos de espionagem incluíam a devassa sistemática da vida privada e pública, incluindo a escuta de governos amigos, como os Europa ocidental. Quanto a mim, este é um dos maiores crimes cometidos por um país dito democrata no século XXI. O denunciante, na minha perspetiva, merecia o Prémio Nobel da Paz, mas, ao mesmo tempo, tenho que admitir, à luz da lei norte-americana, é indiscutível que Edward Snowden terá de ser detido, julgado e, muito provavelmente, condenado e preso durante muitos anos por traição. Herói mundial, vilão no seu país.
Rui Pinto é um cidadão português que, alegadamente (ainda não foi julgado), terá devassado a privacidade informática de pessoas e instituições e terá distribuído essa informação por terceiros. Ao fazê-lo, aparentemente, terá exposto diversos vícios no mundo do futebol que permitirão melhorar o desporto-rei. O que Rui Pinto terá eventualmente feito é criminoso à luz da lei portuguesa, sem qualquer dúvida, mas, em Bruxelas, tem o título quase heroico de whistleblower. Whistleblower é o nome dado a quem denuncia, ao público ou às autoridades, atitudes mal-intencionadas por parte de organizações. Herói em Bruxelas, potencial vilão em Portugal.
Onde quero chegar com estes três casos? Quero enfatizar que podemos ter dois estados em simultâneo (heróis e vilões, no caso) e, que por muito estranho que isso possa parecer, eles são compatíveis. No mundo da física atómica, essa possibilidade foi teoricamente testada no início século passado naquilo a que se chamou o “Gato de Schrödinger”. De acordo com essa experiência, é possível teorizar que um gato dentro de uma caixa, nas condições experimentais propostas por Schrödinger, está, em simultâneo, vivo e morto.
Alguns seres humanos são colocados perante situações limite e, por vezes, a única saída moralmente por si aceitável é sacrificarem uma parte da sua vida ou uma das suas existências. Tal como Aristides Sousa Mendes, talvez um dia Edward Snowden e Rui Pinto sejam perdoados no seu país. Não me compete dissertar sobre se os fins justificaram os meios até porque não conheço o suficiente sobre o último caso. No entanto, aquilo que me parece certo é que, ao optarem pelo caminho que seguiram, caíram na dupla existência do Gato de Schrödinger. Apenas quando “se abrir a caixa”, ou seja, no futuro, se saberá se estarão “vivos ou mortos” no seu país, concluindo-se então se era aceitável o que fizeram, ou não. Aristides Sousa Mendes foi metaforicamente retirado da caixa com vida. Será o destino de Edward Snowden e Rui Pinto? Serão os vilões de hoje os heróis de amanhã também nos respetivos países? O futuro o dirá.