sexta-feira, 31 de janeiro de 2020

Crónicas de Bruxelas: 62 - NESOI financia ideias para a transição energética

Parque eólico na Ilha do Faial, Açores, Portugal
Foto: F Cardigos


Uma das perguntas recorrentes que me é feita, dadas as minhas funções em Bruxelas, prende-se com as oportunidades de financiamento proporcionadas pela União Europeia. De facto, é voz corrente que a União comparticipa projetos e, portanto, todos querem saber como poderão usufruir desse auxílio para implementar a sua ideia.
Para simplificar a circulação desta tipologia de informação, desde há largos meses que o Gabinete dos Açores em Bruxelas mantém um boletim semanal, o Az@Brx, em que se plasmam oportunidades identificadas no centro da Europa. No entanto, a verdade é que, tipicamente, as oportunidades europeias fluem para os diferentes territórios através dos seus governos nacionais e regionais. Desta forma, entre outros, temos o programa ProRural e o POSEI, para a agricultura, e o ProConvergência, para diversos temas. Ou seja, são oportunidades de financiamento europeu, mas, e muito bem, geridas localmente. O papel do Gabinete dos Açores em Bruxelas, a este nível, é auxiliar na garantia que estas verbas continuam a ser transferidas para a Região de acordo com as estratégias e metodologias estabelecidas pelo Governo dos Açores.
A um segundo nível, há, adicionalmente, verbas que são geridas diretamente pela Comissão Europeia e, portanto, não tendo como intermédios os diferentes governos. O financiamento é acessível através de processos competitivos exigentes e em que apenas a excelência tem sucesso. Eventualmente, os mais conhecidos destes programas serão o programa Horizonte 2020, para a ciência, o programa LIFE, para a conservação da natureza, e, com menor nível de complexidade, o WIFI4EU, que ajuda a financiar as redes sem fios em municípios. Em todos os casos que mencionei, os Açores têm tido grande sucesso. A Universidade dos Açores, essencialmente através da sua unidade de investigação Okeanos (ex-IMAR/DOP), ganha sucessivamente o financiamento a projetos por esta via. Já no LIFE, os grandes beneficiários são novamente a Universidade, mas acrescentam-se ONGs (SPEA) e, ultimamente, o próprio Governo Regional que montou uma competente equipa no seio da Direção Regional do Ambiente especializada em captar esta tipologia de financiamento. No caso do WIFI4EU, praticamente todos os municípios dos Açores estão a ser beneficiados. Neste segundo nível de financiamento há ainda programas que apoiam pessoas individualmente, como são, entre outros, o Erasmus+ e o DiscorverEU. As regras para ambos estão disponíveis na internet e, sempre que há grandes novidades, estas são expostas no Az@Brx.
Há um terceiro tipo de programa que financia projetos intermédios e estes, posteriormente, financiam projetos mais pequenos. Ou seja, são projetos a quem a Comissão Europeia atribui a responsabilidade de financiar outras iniciativas de menor dimensão. A Região já beneficiou deste circuito através, por exemplo, do NetBiome, em que houve projetos financiados para inventariar a biodiversidade dos Açores.
Hoje, chamo a atenção para o “European Islands Facility”, com o acrónimo NESOI. Este projeto está aberto à comunidade de 2400 ilhas da União Europeia habitadas e pretende financiar 60 excelentes projetos de transição energética. Com o conjunto de projetos a aprovar pretende-se mobilizar mais de 100 milhões de euros em investimentos que reduzam significativamente as emissões de dióxido de carbono e gases com efeito de estufa até 2023. Os detalhes estão disponíveis na internet, na página do projeto NESOI.
Com a aprovação do Pacto Ecológico Europeu (“European Green Deal”, em inglês) é muito natural que surjam cada vez mais oportunidades relacionadas com a transição energética, mitigação dos efeitos da intensificação das alterações climáticas globais e a adaptação às novas realidades ambientais. São problemas gigantes, mas que abrem oportunidades nos três níveis de financiamento referidos atrás. Há que ter boas ideias, estar atento e, com ou sem auxílio europeu, investir em bons negócios que fomentem dias ainda melhores.Uma das perguntas recorrentes que me é feita, dadas as minhas funções em Bruxelas, prende-se com as oportunidades de financiamento proporcionadas pela União Europeia. De facto, é voz corrente que a União comparticipa projetos e, portanto, todos querem saber como poderão usufruir desse auxílio para implementar a sua ideia.
Para simplificar a circulação desta tipologia de informação, desde há largos meses que o Gabinete dos Açores em Bruxelas mantém um boletim semanal, o Az@Brx, em que se plasmam oportunidades identificadas no centro da Europa. No entanto, a verdade é que, tipicamente, as oportunidades europeias fluem para os diferentes territórios através dos seus governos nacionais e regionais. Desta forma, entre outros, temos o programa ProRural e o POSEI, para a agricultura, e o ProConvergência, para diversos temas. Ou seja, são oportunidades de financiamento europeu, mas, e muito bem, geridas localmente. O papel do Gabinete dos Açores em Bruxelas, a este nível, é auxiliar na garantia que estas verbas continuam a ser transferidas para a Região de acordo com as estratégias e metodologias estabelecidas pelo Governo dos Açores.
A um segundo nível, há, adicionalmente, verbas que são geridas diretamente pela Comissão Europeia e, portanto, não tendo como intermédios os diferentes governos. O financiamento é acessível através de processos competitivos exigentes e em que apenas a excelência tem sucesso. Eventualmente, os mais conhecidos destes programas serão o programa Horizonte 2020, para a ciência, o programa LIFE, para a conservação da natureza, e, com menor nível de complexidade, o WIFI4EU, que ajuda a financiar as redes sem fios em municípios. Em todos os casos que mencionei, os Açores têm tido grande sucesso. A Universidade dos Açores, essencialmente através da sua unidade de investigação Okeanos (ex-IMAR/DOP), ganha sucessivamente o financiamento a projetos por esta via. Já no LIFE, os grandes beneficiários são novamente a Universidade, mas acrescentam-se ONGs (SPEA) e, ultimamente, o próprio Governo Regional que montou uma competente equipa no seio da Direção Regional do Ambiente especializada em captar esta tipologia de financiamento. No caso do WIFI4EU, praticamente todos os municípios dos Açores estão a ser beneficiados. Neste segundo nível de financiamento há ainda programas que apoiam pessoas individualmente, como são, entre outros, o Erasmus+ e o DiscorverEU. As regras para ambos estão disponíveis na internet e, sempre que há grandes novidades, estas são expostas no Az@Brx.
Há um terceiro tipo de programa que financia projetos intermédios e estes, posteriormente, financiam projetos mais pequenos. Ou seja, são projetos a quem a Comissão Europeia atribui a responsabilidade de financiar outras iniciativas de menor dimensão. A Região já beneficiou deste circuito através, por exemplo, do NetBiome, em que houve projetos financiados para inventariar a biodiversidade dos Açores.
Hoje, chamo a atenção para o “European Islands Facility”, com o acrónimo NESOI. Este projeto está aberto à comunidade de 2400 ilhas da União Europeia habitadas e pretende financiar 60 excelentes projetos de transição energética. Com o conjunto de projetos a aprovar pretende-se mobilizar mais de 100 milhões de euros em investimentos que reduzam significativamente as emissões de dióxido de carbono e gases com efeito de estufa até 2023. Os detalhes estão disponíveis na internet, na página do projeto NESOI.
Com a aprovação do Pacto Ecológico Europeu (“European Green Deal”, em inglês) é muito natural que surjam cada vez mais oportunidades relacionadas com a transição energética, mitigação dos efeitos da intensificação das alterações climáticas globais e a adaptação às novas realidades ambientais. São problemas gigantes, mas que abrem oportunidades nos três níveis de financiamento referidos atrás. Há que ter boas ideias, estar atento e, com ou sem auxílio europeu, investir em bons negócios que fomentem dias ainda melhores. 

sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

Crónicas de Bruxelas: 61 - O fascismo está de volta a Portugal?


Capa do livro "Reconnaître le fascisme", de Umberto Eco.
Foto: F Cardigos

Ao ler um ensaio sobre o fascismo de Umberto Eco, um escritor e filósofo italiano falecido há poucos anos, dei por mim a recear que esta forma de gestão do Estado possa estar de volta a Portugal. A tese do autor é que o fascismo é um perigo omnipresente na sociedade moderna e que se “veste” de formas diferentes para que se possa paulatina e sorrateiramente ir impondo como a “inevitável” forma de governo. 
A ideia não declarada explicitamente pelo autor é que as pessoas não são fascistas, mas são conduzidas a aceitar e, em última instância, a implorar pelo fascismo. Para se passar do ponto de partida até à aceitação e mesmo idolatrar os pressupostos fascistas de Mussolini, Hitler, Franco, Salazar ou qualquer um dos generais extremistas de direita que se impuseram na América do Sul há todo um processo prévio de preparação mais ou menos violento. 
Vale a pena fazer aqui uma pausa para definir o que é o fascismo. De forma simplista, fascismo é um “movimento político e filosófico ou regime, que faz prevalecer os conceitos de nação e raça sobre os valores individuais e que é representado por um governo autocrático, centralizado na figura de um ditador.” Relembro, porque há uma certa tendência para esquecer, o fascismo, nas suas diferentes formas, foi responsável por anos de perda de liberdade, perseguição, terror, miséria e morte, incluindo 11 milhões de vítimas diretas do nazismo (forma de fascismo que prevaleceu na Alemanha de Adolf Hitler) a que se adicionam as cerca de 70 milhões de mortes da Segunda Guerra Mundial. Há outras formas de os seres humanos se maltratarem, mas esta é provavelmente a mais repugnante. 
A resistência ao fascismo esteve longe de ser um exclusivo da esquerda, embora esta tenha tido um papel corajoso e meritório. Também para a direita, o fascismo é intolerável. Para os mais esquecidos relembro, a título de exemplo, que o fascismo em Itália foi também combatido com armas por conservadores de direita. Mesmo em Portugal houve resistência de direita ao fascismo. Ou seja, a resistência ao fascismo é uma questão civilizacional e não um diferendo dentro do arco-íris democrático. 
Segundo Umberto Eco, há vários sinais que anunciam a emergência do fascismo. Não aparecem todos em simultâneo e nem todos com a mesma desenvoltura. No entanto, cada um deles é um sintoma e muitos, em conjunto, são um sinal de alerta. 
Com o surgir de partidos intolerantes de direita em Portugal, vale a pena relembrar os catorze sinais do fascismo, segundo Umberto Eco: (1) culto da tradição (não confundir com cultura), (2) recusa do modernismo, (3) ação pela ação, (4) desacordo é traição, (5) medo da diferença, (6) apelo às classes médias frustradas, (7) obsessão pela intriga, (8) os inimigos são muito poderosos e muito débeis em simultâneo, (9) a vida é uma luta e há uma solução final para essa batalha, (10) desprezo pelos mais frágeis, (11) cada um é educado para se tornar um herói, (12) machismo, (13) os líderes fascistas são os interpretes da voz do povo, pelo que as eleições ou o parlamento pouco importam, e (14) uso de linguagem simplista. 
Fico espantado com a linguagem intolerante, simplista e agressiva que se espalha como fel pelas redes sociais e vejo um novo partido em Portugal que aglutina alguns dos sinais mencionados por Umberto Eco. Será este o futuro que queremos? 
Fascismo, nunca mais!

sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

Crónicas de Bruxelas: 60 - A inteligência artificial e o trabalho

Impressora 3D
Foto: F Cardigos


Um dos objectivos do meu trabalho em Bruxelas é, tanto quanto possível e baseado no melhor conhecimento disponível, tentar antecipar o futuro. Isso é feito inclui a aferição de oportunidades que podem surgir para os açorianos, mas também quais as ameaças gerais ou, simplesmente, tendências.
Desde há uns quatro anos que por aqui se analisam e discutem quais os efeitos da Inteligência Artificial no mundo laboral. Historicamente, já houve revoluções equivalentes. Por exemplo, com a revolução industrial, os trabalhadores abandonaram os campos e deslocaram-se para a cidade. Nesta nova revolução, com a robotização dos processos e com a sistematização das metodologias, passará a ser impossível ter humanos a fazer trabalhos susceptíveis de serem realizados por robots.
Imagine-se o que seria ter humanos a pintar carros numa linha de montagem. Impossível, porque os robots o fazem muito melhor, mais rápido e, acima de tudo, sem riscos de saúde. Quem quererá expor seres humanos a esse perigo?
O número de profissões em risco pela Inteligência Artificial é quase igual ao número de profissões existentes. No entanto, para já, quero deter-me numa: os médicos. Talvez não fosse uma profissão que considerássemos estar em risco, mas, na realidade, está. Desde a monitorização, avaliação, até à decisão ou execução, os robots, em breve, estarão a fazer melhor trabalho que os humanos. Repare-se que o grande trabalho do médico é, com as análises disponíveis e as suas observações, determinar qual a mais provável maleita de que sofre uma qualquer pessoa. Saliento que atrás usei a palavra “provável”. Ora, não há nenhum humano que possa determinar melhor probabilidades que uma máquina. Utilizando enormes quantidades de informação (análise de big data) e aferindo com enorme precisão as diferentes hipóteses, as máquinas, dentro em breve, ultrapassarão os médicos. Quem quererá ser diagnosticado por um humano se a máquina o fizer melhor?
Curiosamente, uma profissão que não está em risco tão elevado é a enfermagem. Não se antecipa que qualquer máquina desenvolva a empatia humana. O contacto humano, o toque, a palavra amiga e o amor são tudo características longe da capacidade mecânica e frígida dos robots mesmo no futuro. Será assim? Sim, pelo menos por agora...
Segundo um autor que muito aprecio, Yuval Harari, os empregos do futuro são os criativos e os que exigem empatia. Tudo o resto será feito por máquinas. Seria simples para uma máquina devidamente programada imitar uma pintura existente, imprimir uma escultura 3D a partir de uma anteriormente digitalizada ou mesmo compor uma sinfonia repetitiva, tudo isto já se faz, mas é-lhes ainda impossível transmitir emoções originais, contar a história de forma disruptiva ou repensar uma linha artística. Os verdadeiros artistas estão a salvo.
As máquinas estão impedidas de imaginar soluções que fujam à sua programação. Como alguém dizia depois de um computador ter ganho uma partida a um grande mestre do xadrez, a única coisa que o computador não podia fazer era levantar-se e ir embora. Até me atrevo a dizer que as máquinas, na realidade, não são propriamente inteligentes. São hábeis a integrar enormes quantidades de informação e, com essa base, tomar boas decisões. No entanto, alguma máquina conseguiu bater inequivocamente o teste de Turing? Não. Ainda não…
O certo é que mais e mais profissões serão progressivamente substituídas por máquinas. O processo é inevitável e vamos ver a alteração na nossa geração. Para os mais desatentos, veja-se o número de empregados que num supermercado contabilizam os nossos gastos. Antes, quando eu era jovem, era necessário escrever o valor numa máquina, número a número. A quantidade de pessoas empregadas nas máquinas registadoras dos supermercados era enorme. Depois vieram os scanners, em que o empregado apenas passava o código de barras pelo leitor. Aumentou-se a velocidade de contabilização e abriu-se a porta para o futuro. Hoje, cada vez mais, o próprio cliente faz essa identificação reduzindo em muito o número de empregados nesta profissão. Em breve, e já há testes nesse sentido, nem será necessário passar as compras pelo scanner. Um emissor colocado em cada produto irá identificar o produto à saída do supermercado e ao comprador restará aceitar pagar o preço que a máquina determinou sem sequer “olhar” para as compras. O futuro é frio, é inevitável e não inclui pessoas a registar os produtos nos supermercados.
Dado o enorme desemprego que aí vem, elementos do Parlamento Europeu e do Comité das Regiões Europeu têm defendido que o uso de robots deveria pagar impostos sociais. O aniquilar do emprego tradicional tem que ser compensado e essa compensação terá de vir do lucro proporcionado pelas máquinas. É essa a justificação.
O trabalho está a mudar. É impossível dizer que profissões continuarão a ter sucesso. Então como escolher? É difícil responder. No entanto, o trabalhador com sucesso no futuro terá de ter, muito provavelmente, elevada educação académica, para poder programar as máquinas, enorme nível cultural, para ser um excelente artista, ou extraordinária capacidade de adaptação, para se movimentar entre as profissões que as máquinas ainda não tenham tomado. Aposto nisto? Não, mas não tenho melhor conselho.