sexta-feira, 19 de março de 2021

Crónicas de Bruxelas - 92: Sonhar em lusitano?

 


"História Global de Portugal", de vários autores.
Foto: F Cardigos

Comecei a ler a “História Global de Portugal” com enorme hesitação. Sei como é fácil exceder as interpretações factuais sobre o passado quando as evidências são escassas ou discutíveis. Não é difícil cair na tentação de, apanhando um punhado de indícios interessantes, complementar com alguma imaginação, independentemente de ser verdade ou não.

Aliás, nos Açores, somos permanentemente confrontados com isso, ao ver os autoproclamados “especialistas” afirmar vezes sem conta que, “agora sim”, encontraram a prova inequívoca que o arquipélago já era habitado antes das Descobertas. Passado pouco tempo, invariavelmente, vêm os historiadores e arqueólogos desmentir factualmente as ditas provas. É um “filme” tão delirante que já incluiu pirâmides afundadas junto ao Banco D. João de Castro e tão tentador que passou por um documentário da National Geographic.

Eu estou totalmente convencido que é altamente provável que as ilhas dos Açores tenham sido visitadas por fenícios, por viquingues ou por outros povos antigos. Para além de terem a capacidade tecnológica e a curiosidade, há até alguns indícios nesse sentido. No entanto, o passo que vai do “indício” até à “prova” tem um enorme comprimento e, na minha opinião, este ainda não foi transposto. Mais importante do que aquilo que eu penso, os verdadeiros historiadores e arqueólogos consideram que, neste momento, não há provas de povoamentos ou sequer visitas de povos antigos no arquipélago.

Portanto, depois de ultrapassar as primeiras páginas da “História Global de Portugal” e ao ler aquilo que classifico como “excessivas certezas”, resolvi perguntar a um amigo arqueólogo se os autores eram pessoas sérias, ou seja, se valia a pena continuar. Obtida a sua aprovação, li com redobrado prazer porque, de facto, o livro tem imensas informações e uma abordagem original. Não disserto sobre essa abordagem para não estragar o prazer de quem o for ler. Mas, aviso prévio, vou revelar uma das informações…

Estava então entretido a ler a “História Global de Portugal” quando, de repente, sou confrontado com um par de frases notáveis, quase ao nível da epifania. A língua lusitana não desapareceu! Mais importante, há palavras em português que são, na realidade, de origem lusitana. Não é apenas “Viriato”, mas “veiga”, “lapa”, “lameiro” e “arroio” são também palavras que utilizamos hoje e de uma forma muito parecida com a que os lusitanos usaram há mais de dois mil anos, muito, mas muito antes de Portugal o ser.

Movido pela curiosidade e pesquisando na internet, descobri que há muitos mais vocábulos lusitanos conhecidos, embora não se tenham mantido na nossa língua. Era engraçado encontrar todas as peças necessárias para que se pudesse voltar a falar lusitano. No entanto, pelo que pude apurar, ainda estamos longe de poder construir um verdadeiro dicionário português-lusitano e há muitas dúvidas sobre a forma de pronunciar as palavras que se conhecem. Quanto à fórmula escrita o enigma é ainda maior… Oxalá haja pessoas sérias a estudar este assunto e que um dia o lusitano possa voltar a ser falado.

A diversidade linguística está em risco, essencialmente por causa da globalização e das migrações. Todas as pessoas querem falar com toda a gente e as grandes línguas, na qual se inclui o português, vão-se impondo e esbatendo ou mesmo aniquilando as restantes.

Em 1996, 96% das línguas existentes eram faladas por apenas 3% da população mundial e, em 2003, existiam 6 mil línguas no mundo, no entanto, cerca de metade estava em risco. Estes números, segundo a UNESCO, têm uma enorme probabilidade de piorar com o passar do tempo, estimando esta organização que, por volta de 2100, 90% das línguas tenham sido substituídas pelas dominantes.

Era muito engraçado transformar o lusitano, uma língua morta, numa língua falada. Seria uma forma de dar esperança aos falantes resistentes das línguas em risco, de aumentar a diversidade linguística e de enriquecer ainda mais o património cultural de Portugal.

Será que algum dia poderemos voltar a sonhar em lusitano?


sexta-feira, 5 de março de 2021

Crónicas de Bruxelas - 90: 2021, o ano do Investimento Limpo

 


Energia eólica no Faial.
Foto: F Cardigos

Por uma questão de bom senso, tento proteger as minhas poucas poupanças da corrosão causada pela inflação. Ou seja, o meu único objetivo no mundo dos investimentos é que o escasso dinheiro que tenho de lado para a minha reforma não se esfume pelo correr do tempo. Para isso, tento investir em soluções que garantam, com um risco mínimo, um rendimento de um por cento ao ano. Pretendo viver sempre do meu trabalho e não das engenharias financeiras capitalistas. É um mundo que não me interessa absolutamente nada.

Em meados de 2019, referiram-me um estudo científico britânico que garantia que as ações da EDP Renováveis estavam subvalorizadas na Bolsa. Pensei para mim próprio que, se estavam subvalorizadas, havia uma boa probabilidade de subirem. Se isso acontecesse, de acordo com o estudo, iriam subir de cerca de 10 euros para mais de 12.

Enchendo-me de coragem, investi uma pequena verba e esperei. Passado meses, com algumas oscilações, a valor por ação chegou quase aos 11 euros e eu considerei que já estava muito bom. Vendi e o meu tempo de investidor na EDP Renováveis acabou com um rendimento de cerca de 3% em seis meses, depois de descontados os impostos, as taxas e as despesas de mediação.

Refiro este meu mergulho no mundo da Wall Street nacional para realçar um facto muito interessante. É que, hoje, as ações da EDP Renováveis estão a 23 euros. Em exatamente um ano dispararam de 11 euros para 23. Se eu soubesse…

Não sou muito de ficar a chorar sobre o leite derramado, mas interessa-me compreender o que se passou. De facto, neste momento, como acontece com empresas como a Tesla e outras, o valor das suas ações reflete mais a expectativa futura do que o valor real no momento.

Estando alguns dos principais dirigentes da EDP Renováveis sob investigação das autoridades judiciais, o que pode justificar esta expectativa? Não deveria ser exatamente o contrário?

A resposta encontrei-a num artigo do Jornal de Negócios “Esta forte valorização dos títulos do Grupo EDP (ambas as cotadas atingiram máximos históricos) acontece em contraciclo com a bolsa nacional que, tal como outras congéneres europeias, desvalorizaram este ano com o impacto da pandemia. E é explicada, em grande parte, pelas expectativas em torno do Pacto Ecológico Europeu.”. Uma publicação internacional, o investing.com, reforçava, “One of the most popular bets in Europe's stock markets this year has been to buy into a Green future”.

Parece-me evidente que a aposta da Comissão Europeia no seu Green Deal (“Pacto Ecológico”, em português) está a ter eco no mercado de capitais. O futuro sustentável e verde está a começar e entra em 2021 com um folego notável. Para quem tinha dúvidas sobre a adequação económica da aposta das instituições europeias, os empresários esclareceram com aquilo que mais prezam em termos profissionais: dinheiro!

A outra grande aposta da Comissão Europeia é o Digital, onde a supercomputação e a inteligência artificial tomam um lugar preponderante. Tanto a aposta Verde como a Digital incluem diversas declinações. Estas declinações incluem, por exemplo no campo da agricultura do Pacto Ecológico Europeu, a estratégia “do prado ao prato”. Nela, encontram-se objetivos muito claros para o aumento da área de agricultura biológica, para a diversificação de culturas, para o reforço do bem-estar animal e para a redução da utilização de aditivos químicos artificiais. Outra declinação, a “biodiversidade 2030”, aponta para necessidade de aumentar as zonas protegidas.

O aumento de zonas protegidas pode, à primeira vista, nada ter a ver com o mundo económico… Nada mais errado. As zonas protegidas, como bem temos notado nos Açores, abrem avenidas para o investimento no turismo ecológico.

Portanto, tendo em consideração estes e muitos outros pontos destas iniciativas europeias, há que planear a estratégia de países, de regiões, de empresas e mesmo a nível individual. A Comissão Europeia afirmou que o futuro da Europa iria ser Verde e Digital e o futuro está já a ser mais Verde e, em breve, será ainda mais Digital.

Este é o tempo de apostar nas soluções que ajudem a responder aos desafios globais criados pela poluição e pela sobre utilização dos recursos. Com base nos objetivos estabelecidos a nível mundial, como os Objetivos para o Desenvolvimento Sustentável da Organização das Nações Unidas e o Acordo de Paris sobre as Alterações Climáticas, e europeu há que planear e fazer acontecer o futuro. É isso que as futuras gerações esperam de nós.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2021

Crónicas de Bruxelas - 91: O resultado das eleições presidenciais visto de Bruxelas

 

Marcelo Rebelo de Sousa
Foto: Wikipedia

Ao acordar na segunda-feira a seguir às eleições presidenciais em Portugal, liguei a rádio nacional Belga francófona e, durante o noticiário que seguiu, anunciaram, sem surpresa, que o Presidente de Portugal, Marcelo Rebelo de Sousa, iria continuar a sê-lo. Para além disso, mencionaram apenas que a abstenção tinha sido de cerca de 60%. Num país em que a abstenção é vestigial, até porque o voto é obrigatório, isso é notícia.

Depois, ao longo do dia, lendo os jornais portugueses, percebi que estavam todos muito mais preocupados com os perdedores da noite eleitoral do que em analisar os dois grandes vencedores: a abstenção e o Presidente reeleito. Se o segundo é pacífico, já que o Presidente teve milhões de votos expressos e a maioria das pessoas gosta dele, a abstenção merece reflexão detalhada. O que se passa para os portugueses não votarem? Penso que há diferentes causas, algumas sem solução.

Em primeiro lugar, as pessoas têm, de acordo com a nossa legislação, o direito de não votar. Para mim, isso parece-me um enorme contrassenso. Se somos obrigados a pagar impostos e, desta forma, contribuir para o funcionamento do país, porque não somos obrigados a votar, algo muito mais simples. Porém, a lei é a lei.

Para além dos que não se reveem no sistema democrático, há uma faixa cinzenta que apelido de “indolentes”. São aqueles que não votam porque há um esforço demasiado elevado associado ao facto de ir votar, mas que o fariam se o sistema fosse facilitado. Não estou a julgar ninguém, nem a adjetivar o nível de esforço que pode, ou não, justificar a abstenção de cada um. Estou apenas a constatar. Para os ajudar, o Estado tem introduzido algumas ferramentas verdadeiramente interessantes, como o voto em mobilidade, o voto antecipado e o recenseamento automático. Estas ferramentas ajudam os “indolentes”, mas também os que estão deslocados em serviço, como eu, os deslocados por outras razões e os emigrantes.

Porém, ao olharmos para o voto dos emigrantes, reparamos que poucos votaram, mesmo com estas ferramentas. O número de votantes aumentou, mas a abstenção apenas passou de 99 para 98%. Num grupo que reúne um décimo dos eleitores, 98% de abstenção é um facto que deve preocupar o Estado e muito.

Falei com alguns emigrantes para entender por que razão não tinham votado. Explicaram-me que teriam de se deslocar centenas ou mesmo milhares de quilómetros, até ao consulado mais próximo, para cumprir o dever cívico. Por qualquer razão, nestas eleições não foi possível votar por correspondência. Algo incompreensível…

Realmente, votar é um direito muito mais acessível a uns do que a outros… Para resolver este problema, parece-me essencial introduzir o voto eletrónico à distância. Esta deve ser uma ferramenta a implementar com urgência e que, potencialmente, pode resolver facilmente 10% da abstenção.

Poderão dizer, e com alguma razão, que a pandemia justificou parte da abstenção. Para esses e para as pessoas que têm mobilidade reduzida, o Estado introduziu a possibilidade se votar a partir do próprio lar ou a partir das casas de repouso. Foi um passo importante, no entanto, dada a sua novidade, ainda não foi amplamente utilizado. É uma boa medida e fica para o futuro.

Depois temos o problema dos cadernos eleitorais desatualizados. Como não impede ninguém de votar, esta desatualização não é uma questão de vida ou de morte. No entanto, valia a pena fazer um esforço ainda maior para retirar dos cadernos eleitorais de forma automática as pessoas que já não se encontram entre nós.

Esta, para mim, é a análise que se justifica após estas eleições presidenciais. O resto é ruído.