sexta-feira, 20 de janeiro de 2023

O Voo do Cagarro - 42: O futuro tem tons de azul

Navio de investigação científica "Arquipélago".
Foto: F Cardigos

Ao ler, em novembro, uma nota de imprensa sobre o sector das algas e, hoje, o 2022 Blue Economy Report, ambos responsabilidade da Comissão Europeia, fiquei ainda mais convicto que a sua aposta na economia do mar é séria e potencialmente consequente. Na nota, a Comissão explicava a importância das algas como alternativa e complemento à agricultura tradicional e como poderá ser relevante para a captura e diminuição das emissões de gases com efeito de estufa, como são os casos do Dióxido de Carbono e do Metano que causam acidificação, e regenerar o oceano e os mares através da remoção de nutrientes que causam eutrofização.
Sigo as temáticas relacionadas com o uso sustentável do Oceano desde os finais dos anos 90. Entre regulamentos, diretivas, linhas de financiamento e comunicações, a Comissão Europeia tem traçado um caminho seguro.
Em contraste, este entusiasmo da Comissão não foi imediatamente acompanhado por investimentos privados equivalentes. Houve uma falha que inibia a adesão e a utilização das oportunidades sistematicamente abertas. Os orçamentos, que são sempre mais elevados nos investimentos marítimos, o risco, que é exponenciado pela física, química e biologia marinhas, e o desconhecimento do sector financeiro relativamente ao mar foram, durante anos, responsáveis por esta inibição.
Entretanto, algo mudou e para melhor. O sistemático estudo científico do mar, onde o Instituto Okeanos da Universidade dos Açores teve um papel essencial, e os projetos de literacia dos oceanos retiraram parte das relutâncias relacionadas com a falta de conhecimento e o receio a ele associado. Nasciam assim as primeiras empresas emanadas de projetos de investigação (“spin-offs”, em inglês). De seguida, com a criação de fundos específicos e aceleradores de investimento, as administrações regionais e central foram cruciais para gerar dezenas de novas pequenas empresas (“start-ups”, em inglês).
Estes passos intermédios foram essenciais para que, mais recentemente, surgissem diversos fundos de capitais de risco dedicados ao mar que erodiram substancialmente a barreira que se colocava aos investidores. Os fundos de capitais de risco são uma forma de investir mais dinâmica e versátil, muito alicerçada no conhecimento e apostando numa relação próxima entre o financiador e o empreendedor.
Hoje, em Portugal e na generalidade da União Europeia, começam a surgir os mais imaginativos projetos que usam todas as características do Oceano para produzir alimento seguro e de qualidade (seja através da pesca sustentável ou da aquacultura responsável), medicamentos inovadores, transportes de carga mais eficazes, turismo marinho mais informado e energia limpa. Por razões profissionais, tive a oportunidade de acompanhar alguns dos visionários e visionárias que se espalham pelas ilhas e pelas costas Sul e Ocidental de Portugal e reconheço que a economia azul está bem viva!
Não quero destacar qualquer dos fundos que incluem capitais de risco nem os empresários que lideram esses investimentos, mas uma pesquisa sumária na internet ou a consulta das páginas da Direção-Geral de Política do Mar demonstrarão o benigno explodir de muitas dessas iniciativas. Por exemplo, sabia que há soluções no mar da Ponta de Sagres com potencial para a diminuição da dor crónica? Sabia que há soluções portuguesas para a redução radical das emissões dos navios de cruzeiro?
Há um mundo novo e este está pintado de azul. Entre os diminutos e sobre-utilizados 92 mil quilómetros quadrados de terra que ocupa o nosso pequeno retângulo e suas ilhas ou o 1,7 milhão de quilómetros quadrados da Zona Económica Exclusiva de Portugal, onde parece ser mais sensato fazer investimentos de longo prazo? A estratégia foi bem montada, as soluções começam a despontar e eu sinto que o futuro tem cada vez mais tons de azul!

Frederico Cardigos é biólogo marinho no Eurostat. As ideias expressas neste artigo são da exclusiva responsabilidade do autor e podem não coincidir com a posição oficial da União Europeia.


sexta-feira, 6 de janeiro de 2023

Voo do Cagarro - 41: Desafiando a precisão da Inteligência Artificial: a final dos Açores

O Fayal Sport Club, o Atlético Clube da Horta e o Sporting Club da Horta são três clubes de futebol da ilha do Faial, nos Açores, Portugal. Todos eles disputam o Campeonato dos Açores, uma competição regional de futebol que inclui os clubes da ilha do Faial.
O Fayal Sport Club é o maior vencedor do campeonato, com 21 títulos, enquanto o Sporting Club da Horta tem 10 títulos e o Atlético Clube da Horta tem 7 títulos. Além disso, todos os três clubes também disputam outras competições nacionais e internacionais, como a Taça de Portugal e a Taça da Liga.
A rivalidade entre os três clubes é bastante forte, especialmente entre o Fayal Sport Club e o Sporting Club da Horta, que são os dois clubes mais antigos e mais bem-sucedidos da ilha do Faial. A rivalidade entre eles é conhecida como a "derby" da ilha do Faial e é um dos mais emblemáticos da região dos Açores. (…)
Uma das partidas mais famosas entre o Fayal Sport Club e o Sporting Club da Horta ocorreu em 1976, quando os dois clubes se enfrentaram na final da Taça de Portugal. Na época, o Fayal Sport Club era o atual campeão nacional e o Sporting Club da Horta era o vice-campeão. A final foi disputada em duas partidas, sendo a primeira em casa do Fayal Sport Club e a segunda em casa do Sporting Club da Horta.
Na primeira partida, o Fayal Sport Club venceu por 3 a 0, mas na segunda partida o Sporting Club da Horta conseguiu uma vitória por 2 a 1, levando a decisão da taça para os pênaltis. No final, o Fayal Sport Club conseguiu a vitória por 5 a 4 e levantou a taça pela primeira vez na sua história. Essa partida ficou conhecida como a "final dos Açores" e é lembrada como um dos momentos mais importantes da rivalidade entre os dois clubes.
Outro fato interessante a respeito dessa rivalidade é que, apesar de serem rivais esportivos, os jogadores e as torcidas dos três clubes da ilha do Faial costumam ter uma relação amigável fora de campo. Isso é comum em muitas rivalidades esportivas, onde os jogadores e as torcidas dos clubes rivais se respeitam e mantêm uma relação cordial fora do esporte.
O que acabou de ler resulta, respetivamente e estritamente, destas perguntas feitas por mim a um sistema de Inteligência Artificial (IA) denominado ChatGPT: “Por favor, disserte sobre a relação entre o Fayal Sport Club, o Atlético e o Sporting Club da Horta.” e “Há algum facto interessante a realçar nesta rivalidade?”
Quero realçar que as respostas foram-me dadas sem qualquer antecedente. Não mencionei anteriormente “Futebol”, “Portugal”, “Açores”, “Atlético Clube da Horta”, nada. A única informação que o sistema de IA recebeu da minha parte foram as exatas palavras que estão nas perguntas.
As respostas, dadas em português do Brasil, baseiam-se em factos que eu não dei ao sistema. Ou seja, o sistema conseguiu encontrar informação sobre o contexto geográfico do Faial nos Açores e em Portugal e as respostas foram-me dadas de forma estruturada, inteligível e razoavelmente bem escritas. No entanto, incluem informações erradas, como o nome completo do Atlético (que é “Angústias Atlético Clube”), as provas e os títulos e culmina na criação delirante da “final dos Açores”. Portanto, a máquina conseguiu obter informação de base, mas completou passando da informação à mentira e, finalmente, da mentira ao delírio.
Confrontei o sistema de IA com a sua falha, insistindo de forma assertiva: “Mas a "final dos Açores" nunca existiu. Você inventou!” A resposta da máquina foi desconcertante. “O erro na informação sobre a "final dos Açores" ocorreu porque eu me enganei ao fornecer a informação. Isso pode ter acontecido porque eu interpretei incorretamente a pergunta ou porque minhas fontes de treinamento incluíram dados incorretos. Como um modelo de linguagem, eu não tenho a intenção de inventar informações ou lhe fornecer informações incorretas.”
Tanto por razões profissionais como por razões pessoais, interessam-me muito os sistemas de IA, ou seja, sistemas informáticos que, com alguma informação de base e interação, podem aprender por si próprios. Há diversas grandes empresas que utilizam IA nos seus sistemas de comunicação com o público e compreendo que, tendencialmente, a sua presença ir-se-á intensificar dada a capacidade que têm para manusear e gerir grandes quantidades de informação.
Não me vou alongar nos detalhes das restantes perguntas e respostas da conversa com o ChatGPT, até porque não caberiam neste espaço. Aquilo que quero enfatizar é que este sistema de IA, neste momento, não tem fronteiras éticas definidas para reconhecer a importância da diferença entre a verdade e a mentira. Se não tem a capacidade para entender a importância da diferença entre a verdade e a mentira, na minha opinião, não terá capacidade para distinguir a importância da diferença entre o bem e o mal. Isso é um alerta quanto à utilização destes instrumentos em temas realmente relevantes no curto prazo.
Uma última curiosidade, o título deste artigo foi estabelecido em conjunto entre mim e o ChatGPT. Dei-lhe o artigo a ler e ele propôs o título, imagine-se!? A primeira parte do título é dele. Eu propus a segunda parte e o sistema de IA aceitou porque “pode ser atraente para os leitores interessados ​​em futebol ou nas rivalidades esportivas”.

Frederico Cardigos é biólogo-marinho no Eurostat. As opiniões manifestadas neste artigo são totalmente pessoais e podem não coincidir com a posição oficial da Comissão Europeia.