sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Crípticos…


Criptomérias na berma da estrada na Ilha do Faial.
Foto: F Cardigos SIARAM

Há uns dias atrás, ouvi umas referências às criptomérias da Ilha do Faial e de como era ambientalmente importante proteger estas árvores que, nos lados das estradas, se mantinham há cinquenta anos. Cinquenta anos?! A minha primeira observação é, se há criptomérias com cinquenta anos nos lados das estradas, abatam-nas de imediato! O perigo de caírem numa próxima tempestade é enorme e a madeira que poderiam produzir está a perder qualidade a olhos vistos. Fazendo um favor à segurança colectiva e à economia, também colectiva, alguém que leve essas árvores. Já! Todos gostamos de seres vivos, mas, estes em particular, existem e são mantidos com uma função específica: produzir madeira. Outros servem para produzir carne, outros leite… Por muito bonitos que sejam e alimentem a nossa tranquilidade paisagística, em primeiro lugar está a tarefa que nos levou a colocá-las nos Açores.
Nos Açores há espécies e conjuntos de espécies com o respectivo contexto ecológico (normalmente denominados habitats) com enorme interesse ambiental. Essas espécies ou habitats com interesse ambiental são naturais das ilhas e, nos casos mais valiosos, exclusivos (endémicos) das ilhas. Há espécies cuja origem os biólogos ainda não conseguiram determinar e, por essa razão, são chamadas de criptogénicas.
No outro extremo da escala estão as espécies introduzidas e as invasoras. A maioria das espécies introduzidas foi colocada no arquipélago por razões comerciais (essencialmente ligadas à agricultura ou à pecuária) ou por razões estéticas. Infelizmente, algumas foram introduzidas por acidente ou, num terrível caso, por carinho! Imagine-se…
Ou seja, antes de explicar esse caso de afecto exacerbado, tenho de me deter sobre as espécies simplesmente introduzidas. De entre o milhar de espécies de plantas dos Açores, apenas 360 são daqui naturais. Todas as restantes foram introduzidas. Ou seja, estas espécies introduzidas têm uma função eminentemente ligada ao benefício humano. Incluem-se nessa lista as criptomérias e os plátanos. Já as espécies naturais têm uma função no ecossistema podendo, ou não, apresentar benefícios directos para os seres humanos. Reparem que as espécies naturais estão nas ilhas há milhões de anos e as introduzidas apenas há cinco séculos. 
Quando uma das espécies introduzidas passa a apresentar malefícios para o ambiente ou para os seres humanos, toma o nome de invasora. Ou seja, uma criptoméria demasiado velha é uma ameaça e, por definição, torna-se invasora. É obrigação nossa retirá-la do meio ambiente.
Há um célebre caso nos Açores, em que um casal, depois de prestar serviço na Base das Lajes, resolveu regressar ao Continente. Ao verem como os seus pardais se tinham adaptado e eram felizes no arquipélago dos Açores e na incerteza do que iriam encontrar no regresso à sua terra, resolveram libertá-los. Progressivamente, ao longo de gerações, os pardais invadiram e dizimaram as plantações de cereais da Terceira e, de seguida, das restantes ilhas dos Açores. Foi uma acção carinhosa para com os animais, mas que teve enormes consequências negativas. Conclui-se que, sem o devido conhecimento, as pessoas dizem e fazem enormes disparates, o que nos trás de volta às criptomérias cinquentenárias…
Aliás, caso este assunto das criptomérias fosse relevante para a conservação da natureza, digam-me lá: acham que o Parque Natural do Faial não teria intervindo? Depois de tudo o que vimos o Parque fazer nos últimos três anos, depois de terem sido premiados ao mais alto nível Europeu, passará pela cabeça de alguém que o Parque deixasse passar qualquer atentado ambiental? Pelos vistos passa…

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Os Cagarros!


Jovem cagarro no ninho
Foto: PH Silva SIARAM

Tenho acompanhado na internet, via Facebook, algumas dúvidas sobre a adequação da “Campanha SOS Cagarro”. São dúvidas legítimas e oriundas de pessoas que não se limitam a absorver a informação disponível. Querem saber mais e querem saber porquê. Pessoalmente, considero a dúvida uma das mais importantes características humanas e, por essa razão, tenho-me empenhado em esclarecê-las de imediato. No entanto, para um público mais alargado, aqui ficam algumas considerações.
Os cagarros, ou cagarras como lhes chamam nalgumas ilhas, são aves marinhas extraordinariamente bem adaptadas ao seu meio. Por essa razão, é quase totalmente correcto quando se afirma, e bem, que não precisam da nossa ajuda e que até agradeceriam se não os perturbássemos. O problema é que nós os perturbamos. Ou seja, a nossa qualidade de vida tem interferência directa no ciclo biológico dos cagarros desde que chegámos às ilhas, há cinco séculos atrás. Nos primeiros tempos, interferíamos capturando-os (para alimentação, uso do óleo e uso de penas), depois com a ocupação do espaço que utilizam para nidificação e, mais recentemente, com o uso massivo de luzes. Na realidade, os cagarros, espécie que se salva nesta época, não foi a espécie de ave marinha dos Açores que maior declínio sofreu com a presença do homem. Há indicações que os estapagados seriam os mais abundantes, mas que os primeiros colonizadores os terão dizimado até níveis hoje bastante reduzidos. Nunca recuperaram o seu efectivo inicial.
Voltando aos cagarros. Estes animais põem apenas um ovo por ano. Se esse ovo não tiver sucesso, não haverá nova postura, como acontece, por exemplo, com as gaivotas. Isso significa que o casal fará um enorme esforço para que aquele ovo tenha sucesso. Assim, o macho e a fêmea, durante o período de incubação, ir-se-ão substituindo no ninho garantindo que o ovo está quase sempre acompanhado. Como o esforço de 55 dias de incubação é grande, se os progenitores tiverem a garantia que o ovo não irá ter sucesso por, por exemplo, ter-se partido, abandonam-no de imediato. Uma das razões que pode levar ao abandono é a demora do parceiro nas saídas para a alimentação. Ou seja, entre a cria ou a própria vida, os cagarros optam pela segunda.
Apesar disso, e como é muito importante o sucesso da nidificação, os cagarros, em caso de dúvida, continuarão a incubar o ovo. Investigadores da Universidade dos Açores já viram cagarros a incubar ovos visivelmente (e olfactivamente) putrefactos.
Também pode acontecer que um dos progenitores tenha um acidente durante a época reprodutiva ou que tenha de viajar para uma longa distância, por exemplo por falta de alimento nas zonas circundantes do ninho. Em qualquer destes casos, será fatal para o ovo.
Até aqui, tudo é natural. Ou seja, está no que pode ser referido como mortalidade sem influência do homem. Os problemas começam com o nascimento do pinto.
Durante os primeiros dias, o pinto terá sempre a companhia de um dos progenitores, para o manter quente e alimentar e isso contribuirá para a sua provável sobrevivência. Depois desta fase inicial, os pais terão dois tipos de voos. Um voo curto, para ir buscar alimento para o pinto, e um outro longo, para ir buscar alimento para si próprios. Este voo longo implica deslocações de milhares de quilómetros.
Os cientistas ainda não têm a certeza da razão porque os cagarros fazem dois tipos de voos, mas adiantam duas hipóteses: ou não há alimento suficiente para os pintos e adultos em volta das ilhas dos Açores, ou os cagarros precisam de outro tipo de alimento, por exemplo mais nutritivo que ocorre nas águas mais ricas e frias do Atlântico norte. A tendência é para aceitar a primeira, mas ainda não está completamente claro.
Normalmente estas viagens são alternadas de modo a que a cria seja alimentada à noite com alguma frequência por um dos progenitores. Apesar de surpreendente, o que referi neste parágrafo está cientificamente estudado pela Doutora Maria Carvalho, do Departamento de Oceanografia e Pescas da Universidade dos Açores (DOP), que colocou transmissores e seguiu os cagarros por via satélite. Se a falta de alimento implicar a saída dos dois pais, o pinto, especialmente nos primeiros dias estará totalmente vulnerável ao ataque de gatos e ratos. Repare-se que não existiam gatos nem ratos nas ilhas antes do homem cá chegar, portanto, é mesmo nossa responsabilidade o que lhes acontece neste período e, pior, ainda não encontrámos forma de contrariar este efeito.
No final deste período, os cagarros terão de "explicar" ao seu pinto que está no momento de ele seguir a sua vida. Na maioria dos casos, a forma de dar esta explicação é um pouco cruel: os pais abandonam os pintos nos ninhos. Neste período em que estão sós, os pintos são especialmente susceptíveis aos ataques por gatos. Normalmente, nesta fase, os ratos já não se conseguem impor às crias que, entretanto, ganharam uma massa corporal que impõe algum respeito.
Na ilha do Corvo, a Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves fez um trabalho científico em que estimou que a mortalidade nos ninhos é de 60%. Este número deveria, naturalmente, rondar os 35%. É um número verdadeiramente assustador e é responsabilidade do homem.
Depois, os 40% que conseguem sobreviver, saem dos ninhos, esticam as asas e fazem o primeiro voo. Como já foi referido, estes jovens cagarros viveram sempre dentro dos ninhos, portanto, nunca viram qualquer luz até iniciarem os procedimentos para o primeiro voo. Ao sair, à noite, são confrontados com a iluminação pública, os faróis de sinalização marítima e as luzes dos carros. Atrapalhados ou não, alguns caem nas estradas e nos quintais. Se nada se fizer, estes cagarros são presas fáceis para gatos e cães e, muitos deles, são também colhidos fatalmente pelos automóveis. Repare-se que eles caem por causa do homem, caem em estruturas feitas pelo homem, são vítimas de animais introduzidos pelo homem ou são atropelados por máquinas feitas pelo homem. Nós temos, de facto, responsabilidade.
Por estas razões todas, o mínimo que podemos fazer é dar uma ajuda a estas aves e colocá-los junto à costa de onde poderão partir quando considerarem adequado. Nunca se deve atirar um cagarro para dentro de água. Coloca-se perto da água e ele partirá quando considerar que está pronto.
Dos jovens cagarros que saem dos ninhos e caiem sobre as estradas, hoje em dia, 90% são salvos pela “Campanha SOS Cagarro”. É um número, de facto, enorme. No entanto, há ainda 10% que são atropelados, embatem fatalmente contra os edifícios sobre iluminados ou são atacados pelos animais domésticos.
Já agora, completando a história, o que acontece a seguir é o seguinte. Destes cagarros, nem todos terão a capacidade de se alimentar em tempo. Repare-se que eles apenas saíram dos ninhos porque estão esfomeados. Muitos, portanto, acabarão por morrer de fome. Estima-se que 50% morram de fome. Se admitirmos que os humanos não têm influência na abundância do pescado de que se alimentam os cagarros, esta é uma componente da mortalidade que é natural. Sendo mortalidade natural, não temos o dever ou sequer o direito de interferir.
Neste período, depois de chegarem à água, os jovens cagarros reúnem-se em enormes bandos em volta das ilhas. Disse-me um amigo pescador que os cagarros estão, neste preciso momento, nestes bandos em volta da ilha do Faial. Oxalá se consigam alimentar!
Depois, irão passar cinco anos seguidos no mar sem nunca pisar terra. Circularão entre o Oceano Atlântico Norte e Sul e, alguns, já foram detectados mesmo no Oceano Índico. São viagens enormes. É para ter a certeza de onde veem e para onde vão que tentamos anilhar os cagarros. É mais uma interferência do homem e que se justifica para tentarmos aprender mais sobre a circulação global. Ao mesmo tempo, sabendo o ano em que foram anilhados e contando os que regressam, ficaremos a saber muitas outras informações sobre o seu ciclo de vida. É por isso que é tão importante a sua anilhagem.
Apesar de chegarem a terra pela primeira vez quando têm cerca de 5 anos, eles não se reproduzem de imediato. Irão amadurecer durante mais três ou quatro anos até que estejam aptos a fazer ninho, encontrar parceiro e a reproduzirem-se. É nestas vindas anuais a terra que os cagarros, já adultos, irão aprender a conviver com as luzes e, como notamos nos cagarros mais adultos, ganharão a habilidade de não ficarem tão perturbados com as mesmas.
Segundo os estudos do Doutor Joël Bried, do DOP, os cagarros são animais razoavelmente fiéis. Isto é, depois de encontrarem um parceiro, se nada de mal lhes acontecer, manterão a relação para o resto da vida. Há casos de divórcios, mas são raros (18%). Durante o Inverno separam-se em busca de alimento, mas, no início da Primavera encontram-se junto de terra. Para evitar os predadores, os bandos de cagarros encontram-se todos os finais de tarde junto às ilhas, esperando o anoitecer, e depois sobrevoam as costas, cantando a música que apenas o parceiro conseguirá decifrar.
Esta característica, de virem para terra apenas ao anoitecer, é provavelmente uma adaptação aos predadores. Na Selvagem Grande do arquipélago da Madeira, em que não há predadores, os cagarros chegam a terra ainda durante o dia. Por curiosidade, sem razão aparente, o mesmo não acontece na Selvagem Pequena. Será que já ali houve predadores…?
Depois de se encontrarem, os casais de cagarros farão os procedimentos nupciais e o ciclo reinicia-se.
Em termos numéricos, os 188 mil casais existentes nos Açores, dada a competição por ninho e incapacidades reprodutivas naturais, põem 170 mil ovos. Destes, 68 mil saem actualmente dos ninhos. Caso não houvesse a Campanha SOS Cagarro, cinco a dez mil morreriam em terra. Portanto, chegariam ao mar 58 mil. Destes, morrem naturalmente metade, ou seja, 29 mil poderiam partir para a primeira migração para Sul. Se o homem  e seus animais introduzidos não existissem, a mortalidade nos ninhos seria mais baixa, não havia mortes na saída e, portanto, mesmo com 50% de mortalidade no mar, por fome, teríamos cerca de 55 mil cagarros.
Ou seja, números crus, o homem implica uma redução anual no sucesso reprodutivo dos cagarros de 55 mil para 29 mil animais. Uma redução de quase dois para um. Se podemos ajudar um pouco com a “Campanha SOS Cagarro”, penso que temos o dever moral de o fazer.
Com este acto, subimos os valores dos Cagarros na primeira migração de 29 para 34 mil aves. Pode parecer pouco, mas é um aumento de 17%. Nós podemos influenciar em 17% por cento por ano o sucesso desta espécie. Vamos ficar a olhar para eles na berma da estrada ou agir? Penso que a resposta é simples e este ano foi positivamente partilhada por mais de 4700 açorianos. Não apenas salvaram cagarros, como reduziram a iluminação pública e privada e tiveram cuidados adicionais com a condução.
Como referi anteriormente, embora não seja uma questão que esteja estudada cientificamente, as ilhas que mais cagarros têm são aquelas em que há historicamente mais empenho na “Campanha SOS Cagarro”. Este facto indicia a importância e consequência desta acção. Vemo-nos na “Campanha SOS Cagarro 2012”?
Todas estas questões são escalpelizadas no sítio internet http://soscagarro.azores.gov.pt.

Pubicado no Jornal Tribuna das Ilhas de 2 de Dezembro de 2011
Publicado no Jornal Correio dos Açores nos dias 6 de Dezembro e 7 de Dezembro de 2011

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Responsabilidade

Artefacto com interesse cultural encontrado no Porto da Horta
durante a prospecção arqueológica associada à construção do novo molhe.
Foto: F Cardigos SIARAM

Rezam os pergaminhos ecologistas que, a par de uma sociedade democrática, deve-se assentar o progresso no desenvolvimento sustentável. Isso significa, segundo está estabelecido, que os aspectos ambientais, sociais e económicos devem estar a par e não são hierarquizáveis. Ou seja, não é possível sacrificar o ambiente a favor de um maior rendimento (economia) ou de um maior índice de emprego (sociedade) ou vice-versa. Segundo este modelo, são as instituições que devem garantir a sua aplicação.
Invariavelmente, tentar corromper um destes pilares acarreta uma factura a pagar no futuro. Há diversos exemplos de como se entra num clima de estabilidade quando é respeitado o desenvolvimento sustentável e, por outro lado, como as sociedades regridem, declinam ou mesmo se auto-aniquilam quando tentam favorecer um dos pilares.
Desde o momento em que foram aprovados para uso planetário, o que aconteceu na Cimeira do Rio em 1992, os pilares do desenvolvimento sustentável têm sofrido algumas adaptações conforme o interesse ou a abordagem, mas, passado pouco tempo, volta-se à sua fórmula fundamental. É difícil, de facto, chegar a um novo conceito tão simples e tão eficiente como o do desenvolvimento sustentável na sua versão original. Para mais, é um conceito que ganhou aceitação global.
Recentemente, numa Cimeira organizada em Lisboa, chegou-se ao entendimento que era essencial criar um novo pilar relacionado com a Cultura. A Cultura está, por enquanto, inserida no pilar Social, mas, defendeu-se e com razão, que os aspectos culturais são demasiado importantes para que não tenham uma ênfase particular. Apesar de entender e ser solidário, tenho dúvidas que se alcance um novo entendimento que seja tão abrangente e consequente como aconteceu na fórmula original, dado o seu enorme sucesso. Independentemente das consequências, é importante destacar os aspectos culturais como prioritários, principalmente num planeta em conformação, formatação e uniformização galopantes. Um dos melhores atributos que a humanidade tem e que lhe deu uma enorme capacidade de adaptação é a diversidade. Com a imposição do inglês como língua franca, duas ou três religiões dominantes e duas unidades monetárias (dólar e euro), torna-se difícil manter a diversidade.
Na Cimeira de Joanesburgo, tentou-se aperfeiçoar a componente da responsabilidade e às Instituições, vistas no sentido governativo, acrescentaram-se os cidadãos e as empresas. Com este interessante passo, tentou-se expressar a importância das grandes empresas em relação à situação global. O resultado é interessante e, caso tenhamos esse trabalho, verificaremos que hoje em dia, qualquer grande empresa tem um gabinete ou serviço dedicado a esta extensão. Fiz o teste e reparei que a maior empresa do mundo em bebidas com cola, logo na entrada do seu ecrã principal na internet, faz um apelo ao salvamento dos ursos polares. No site de uma enorme empresa de telemóveis havia uma ligação para o Ambiente em que, de uma forma brilhante e intuitiva, eram demonstradas as preocupações ambientais daquela empresa. No caso de uma companhia de pastas de dentes, para além de uma ligação ambiental, também havia um código de conduta que expressava as preocupações da empresa a nível ambiental e social. Ou seja, parece-me que as preocupações com o desenvolvimento sustentável a nível institucional e empresarial estão a ter consequência. No caso das empresas, parece-me ainda estar demasiado orientado para a sua auto-promoção, mas pode ser uma impressão minha.
Agora, mais importante ainda, e com um longo patamar de evolução está o envolvimento individual. De facto, a nossa responsabilização para com o desenvolvimento sustentável ainda tem um longo percurso pela frente. Estas palavras, apesar de estarem a ser repetidas por mim e com total solidariedade, foram ditas há poucos dias pelo Presidente do Clube de Roma, Dr. Ricardo Diez-Hochleitner, com enorme emoção. Segundo ele, “é impensável estarmos perante um momento em que sabemos quais são os problemas, temos as soluções tecnológicas, temos dinheiro para os investimentos e não os fazemos apenas porque estamos demasiado confortáveis a não pensar nesses assuntos”. Não podia dizer melhor. É tempo de, enquanto cidadãos, exigirmos e empenharmo-nos para que sejam dadas respostas que invertam o aquecimento global, a perda de espécies, o incremento das bio-invasões, a fome que grassa por grande parte do planeta, a diminuição radical da mortalidade infantil, etc., etc… Se falharmos, falhamos todos, portanto, o empenho tem que ser de cada um. Temos tudo para ser felizes, basta apenas que haja empenho e que este seja global!

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Quanto vale o Mar dos Açores?

É na interface terra-mar que estão grande parte dos valores conhecidos no mar dos Açores.
No entanto, é para lá do horizonte que está o final deste arco-íris.
Foto: F. Cardigos SIARAM 


Há uns dias atrás, na sequência da preparação de uma peça de suporte ao Fórum da Economia do Mar [*] promovido pela Câmara do Comércio e Indústria de Ponta Delgada, uma jornalista de uma rádio regional fez-me esta pergunta: “Quanto vale o Mar dos Açores?”. Apanhado, pois nunca tinha pensado de forma tão crua, escusei-me a responder e prometi que iria pensar no assunto.
Debati-me, literalmente, com a questão. Sendo responsável pela gestão do Domínio Público Marítimo e Assuntos do Mar dos Açores, eu tinha de saber quanto valia o que estava a gerir, mas não fazia ideia da resposta. Sabia, como todos sabemos, alguns dos parciais, como os relacionados com as pescas [p. ex. *], e, também, que o total é elevado e que há muito ainda por explorar [p.ex. *]. Também tenho clara consciência que, provavelmente, nunca se saberá o valor exacto dada a complexidade do tema. No entanto, para mim, esta era uma resposta de mau perdedor. É difícil admitir tal fraqueza e, portanto, resolvi de imediato meter mãos à obra.
Comecei por uma questão muito simples e, logo aí, obtive duas respostas. Fui verificar, com a ajuda dos colaboradores da direcção regional, quanto vale a extracção de areias marinhas nos Açores. É um tema cujo licenciamento é feito por nós, temos os relatórios de descarga, sabemos a quanto é vendida a areia e, portanto, tudo estaria bem. Fizemos as contas e deu um milhão e oitocentos mil euros por ano. Excelente! … mas… “Podia ter sido extraída mais”, retorquiu-me a colaboradora que fez as contas. “Podiam ter vendido até 3,5 milhões de euros, já que era esse o limite ambientalmente definido”. Ou seja, no caso mais simples, já temos dois valores e ainda não pensamos na economia de escala, causada pelo benefício na construção civil, nos empregos directos de quem trabalha na actividade, e nos indirectos, de quem mantém os barcos, os abastece, etc. Estamos no tema mais fácil e já temos todas estas dúvidas e uma miríade de variáveis.
Resolvemos então elencar todas as actividades que se realizam no mar dos Açores e que geram proveitos económicos. Chegamos à conclusão que existem seis grandes grupos: 1. Recolhas (que incluem os diferentes tipos depesca e aquacultura), 2. Extracção (areias), 3. Transportes [*] (pessoas, cargas, informação e estruturas de suporte), 4. Turismo (com todas as suas vertentes), 5. Ciência (básica e aplicada à farmacologia, biotecnologia, tecnologia azul e robótica submarina) e 6. Cultura (enquanto fonte de inspiração e cenário para História e estórias). Este foi o esquema simplificado a que chegamos e onde tentámos depois encaixar as novas valências emergentes e que incluem a extracção de minerais, o suporte para a produção e transferência de energia entre ilhas e continente e o abastecimento a navios em trânsito. Um aparte para referir que o abastecimento de navios em trânsito é especialmente importante quando estão a mudar as rotas, resultante da ampliação do Canal do Panamá, e os tipos de combustíveis estão progressivamente a ser alterados para fórmulas mais limpas, incluindo a utilização de gás natural. Este combustível exige abastecimentos mais frequentes e isso obrigará a que se faça um maior número de acostagens em cada viagem (incluindo as transatlânticas).
Como é fácil verificar, não é nada fácil contabilizar os dividendos que advêm ou poderão resultar da optimização da exploração marinha. Apesar disso, é um esforço que tem de ser feito e será nisso também em que irei trabalhar nos próximos dias. Espero ter algumas respostas interessantes.
Entretanto, no Fórum da Economia do Mar, durante as palestras propriamente ditas, fiquei a saber que no Continente também não sabem qual é o valor do mar e, curiosamente, estão, também a tentar descobri-lo. Para isso, contrataram uma equipa universitária especializada. Como este estudo inclui a totalidade do território nacional, daí também teremos valores para os Açores.
O que acabei por responder à senhora jornalista é que, com todas estas realidades e oportunidades, “o mar é uma excelente saída para uma crise que insiste em nos acompanhar. Apenas necessita de imaginação, coragem e competência.” Vamos a isso?!

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Entrevista dada ao Jornal Terra Nostra

Cagarro fotografado no ninho.
Foto: Paulo Henrique Silva - SIARAM

Arrancou no dia 1 de outubro mais uma edição da campanha SOS Cagarro. Este ano celebram-se 20 anos que institucionalmente se salvam cagarros nos Açores. Que balanço se pode fazer até este momento?
O balanço destes vinte anos é extraordinário. Esta campanha é realmente dos açorianos e continua a mover os açorianos. Para além das questões ambientais, os açorianos incluem já no seu património cultural esta interessantíssima ave.
Estas aves passam 7 anos no mar antes de virem pela primeira vez a terra. São autênticos animais de mar que nos visitam para acasalar e nidificar. Como são fieis ao local de nascimento e ao parceiro, é muito importante oferecer-lhes as melhores condições para que tenham sucesso. Estas e muitas outras curiosidades são também essenciais para que a população humana compreenda o enorme valor que tem esta parte do seu património ambiental.

A campanha SOS Cagarro arranca anualmente no período em que as jovens aves saem dos ninhos em direcção ao mar, até hoje, quantos foram já recuperados?
No início, o registo de aves salvas era muito incipiente pelo que não há números fidedignos. No entanto, fazendo uma estimativa conservadora, diria que devem ter sido salvos nestes últimos vinte anos cerca de 33 mil jovens aves.

Quantos cagarros foram salvos em 2010?
Foram salvos 3718 cagarros em 2010, sendo que, destes, 935 foram salvos na ilha de São Miguel. No entanto, tenho que frisar que estes são números mínimos. Ou seja, há muitas pessoas que salvam cagarros e não dão disso nota às entidades organizadoras. Apesar de ser importante o registo, para percebermos tendências e identificar locais particularmente sensíveis, o essencial é salvar estes míticos animais.

Com que tipo de meios?
Os meios são os que estão ao alcance de cada um e resultante do empenho que colocam na actividade. É uma actividade voluntária e abnegada. Há quem prefira acompanhar as brigadas organizadas pelos Serviços de Ambiente ou Organizações Não-Governamentais e há quem prefira usar o seu próprio automóvel para percorrer as estradas mais sensíveis. No total, registamos 1244 pessoas envolvidas.
Relembro que, em traços largos, o método inclui colocar uma toalha sobre o animal, por forma a imobiliza-lo suavemente, coloca-lo dentro de uma caixa arejada e libertá-lo junto ao mar na manhã seguinte. É um acto simples, mas crucial. Em caso de dúvida, pode-se consultar a página internet da Campanha em http://soscagarro.azores.gov.pt/, escrever aos dinamizadores da campanha através do endereço de correio electrónico cagarro@azores.gov.pt ou ligar para a linha SOS Cagarro usando o número de telefone 912233518 (linha SOS Cagarro).

Quantas entidades participaram?
No total aderiram oficialmente 140 entidades. Integram a Campanha os serviços do Governo Regional, Autarquias, Escolas, Universidade, Associações Não-Governamentais para o Ambiente, Órgãos de Comunicação Social, Associações de Bombeiros, Escuteiros, Pescadores, Associações de Jovens e Patrimoniais, Forças da Ordem Pública (Brigada SEPNA da GNR, PSP e Polícia Marítima), Marinha (por causa dos faróis), Força Aérea Portuguesa, Portos dos Açores, Aeroportos, Gestores de Monumentos e Estádios (por causa da iluminação), vários Párocos e diversas Empresas Privadas.

E em termos de envolvimento dos cidadãos, pode-se afirmar que estão mais sensíveis para a protecção desta ave?
Certamente. Passados vinte anos o panorama é totalmente diferente. Porque, por vezes, temos alguma dificuldade em relembrar as situações passadas, vale a pena recordar que os cagarros eram desprezados pelos automobilistas e, ainda há pouco tempo, eram utilizados para alimentação. Hoje isso é, felizmente, impensável.

Nota-se um aumento dos números de salvamentos ou um decréscimo?
Há um aumento na eficiência dos salvamentos. No entanto, isso não significa que haja um aumento do número de aves salvas. O número de salvamentos resulta do número de pessoas envolvidas, mas, também, do sucesso de nidificação, da sobrevivência dos jovens cagarros no ninho, das condições meteorológicas à saída dos ninhos (essencialmente vento e nebulosidade), da presença de fontes luminosas que confundam os jovens cagarros e mesmo a fase da lua no momento da saída. Por exemplo, no ano de 2008 houve um número elevadíssimo de salvamentos, mas porque no período da saída do ninho houve uma tempestade conjugada com luminosidade demasiado elevada nos portos. Felizmente, desde então, durante a Campanha, os portos diminuíram em 70% a iluminação pública.

Em termos de estimativas, quantos casais se supõe que nidifiquem nos Açores? Das que nascem, quantas chegam à fase adulta?
Segundos os dados de monitorização ambiental, os Açores albergam cerca de 188 mil casais. Isso significa que circulam no arquipélago entre 500 a 700 mil indivíduos. Depois de começarem a voar, o índice de sobrevivência é muito alto, atingindo cerca de 95% de ano para ano. No entanto, apenas para entendermos como é uma ave frágil, relembro que na Ilha do Corvo há dados que apontam para uma mortalidade de 60% no ninho. São números assustadores e resultam, em grande parte, por acção de animais domésticos, como os gatos.

Na ilha do Faial são necropsiados alguns dos cagarros encontrados mortos. A análise destes permite perceber o estado das nossas águas. Em que estado se encontram?
A análise efectuada aos animais mortos na Campanha SOS Cagarro incide mais na determinação da causa de morte. Como são animais que ainda não chegaram à água, a causa de mortalidade dificilmente estará relacionada com eventuais poluentes marinhos.
No entanto, outros estudos apontam para uma qualidade da água em volta dos Açores como excepcional. Apenas os poluentes que se encontram dispersos nas águas de todos os oceanos são registados no nosso arquipélago. Esses, infelizmente, resultam da dispersão dos poluentes oriundos das zonas do globo severamente poluídas e sobre eles pouco podemos fazer.

Quais as expectativas para a campanha deste ano?
O essencial é, em primeiro lugar, que ninguém se magoe. Andar na estrada a apanhar cagarros oferece perigo se os envolvidos não tomarem cuidado com o trânsito automóvel e também com os bicos dos cagarros. De resto, a ideia é aumentar o número de pessoas envolvidas, aumentar a sensibilidade ambiental, aumentar o interesse sobre a ave e diminuir as fontes de poluição luminosa.
Vinte anos depois, é excelente verificar que nunca ocorreu qualquer acidente, tirando umas bicadas sem consequências, e que as populações de cagarros estão robustas nos Açores. Os sons nocturnos dos cagarros, graças a esta Campanha, ir-nos-ão acompanhar durante muitos mais anos!

Observando Tubarões nos Açores

Tintureira fotografada na área marinha protegida do Banco "Condor".

Quis o destino que fosse à Graciosa para participar na “IIIBienal de Turismo Subaquático”. Nos dias em que lá estive, como seria expectável, tive a oportunidade de rever muitos amigos, discutir novas e velhas ideias e aprender.
Todas as apresentações tiveram o seu valor e, algumas delas, foram profusamente ilustradas com as melhores imagens que podem ser produzidas no mundo subaquático. Curiosamente, as melhores das melhores, eram portuguesas e com sotaque açoriano. De facto, os Açores, com destinos como o Corvo, particularmente a Reserva Voluntária do Caneiro dos Meros, o Complexo dasFormigas e Dollabarat e o Banco Condor, com os seus tubarões-azuis, dominaram as emoções e encheram os olhos de quem gosta do profundo azul.
Um dos temas que me levou à Ilha Branca foi apresentar e dinamizar a discussão sobre o Código de Conduta Voluntário para Observar Tubarões. Este Código foi solicitado por quatro empresas de turismo subaquático do Faial e do Pico e, desde então, também em conjunto com a Universidade dos Açores, a as DirecçõesRegionais do Turismo e dos Assuntos do Mar todos se têm empenhado no afinar deste documento.
No final do Inverno passado, já tínhamos o Código praticamente pronto. No entanto, com o iniciar dos trabalhos da época alta, as empresas envolvidas começaram a notar que algumas das regras propostas não eram as melhores para a actividade. Digamos que foi um saber que também resultou da experiência feita. Ficou então estabelecido que o Código seria melhorado durante toda a época e, depois então, aprovado.
Aproveitando esse balanço, propusemos, e foi por todos aceite, apresentar o Código na “Azores Ocean Tour”, que decorreu na Ilha do Pico, e na Bienal, a tal da Graciosa. Aliás, reforçando e em jeito de aparte, não estranho a atitude aberta e disponível destas quatro empresas, a CW Azores, a Dive Azores, a Norberto Diver e a PicoSport, até porque todo o processo tem sido de uma enorme franqueza e partilha. Imagine-se que as empresas até enviaram imagens próprias de comportamentos que consideraram negativos, sugerindo que fossem partilhados para que os erros não se repitam!
Como não será de admirar, nos dois eventos foram dadas inúmeras sugestões que recolhemos e que agora serão alvo de um maturado processo de decisão. Muitas e boas ideias que merecerão atenção e reflexão cuidadas.
Um dos temas que mais paixões levantou foi a alimentação de tubarões. Para uma larga maioria, é impensável alimentar tubarões para os manter perto dos mergulhadores porque, essencialmente, eles poderão passar a associar a presença de humanos à comida. Imagine-se o que essa confusão poderia gerar no momento em que houvesse humanos e não houvesse a comida… Digamos que isso já aconteceu noutros locais e o resultado não foi nada agradável… para os humanos!
Os mais puristas defendem que nem para atrair tubarões se deve utilizar engodo. Mas, um outro grupo, ainda mais minoritário, considera que nem sequer se deve entrar dentro de água, porque isso já pode condicionar os magníficos esqualos do azul. Tenho a certeza que as melhores soluções emergirão nos próximos dias, mas ficamos com uma panóplia de pontos de vista, de hipóteses e de “certezas absolutas”. Na realidade, olhando em retrospectiva, é nestes momentos de partilha apaixonada de gente que ama muito a sua actividade predilecta, que me sinto bem em ser humano.
Quanto aos tubarões, muito pior do que jamais eles serão para nós, somos nós próprios que os colocamos em perigo, principalmente pela utilização de cegas artes de pesca e pelo medo que os filmes norte-americanos nos incutiram. Felizmente, no Faial, no Pico e no Recife Dollabarat há uma nova geração de empreendedores que lucra e estima estes magníficos animais na versão vivos e ao vivo. Quanto a mim, fazem muitíssimo bem! 

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Prevaricador beneficiado

O prevaricador beneficiado apanha e come impunemente
lapas dentro da época de defeso.

Sempre me fizeram impressão aquelas histórias dos ladrões que fogem com o dinheiro e não são apanhados ou os intrujões que mentem impunemente. A ideia que alguém possa tirar benefício de uma maldade corroí-me as entranhas. Principalmente enquanto gestor público, eu sinto que devo ser honesto, trabalhador, correcto e de respeitar o próximo, o que contrasta com uma parte do que vamos vendo à nossa volta.
Um dia, um antigo presidente de Câmara disse-me que governar com dinheiro era fácil. “Difícil” dizia ele “é inventar o dinheiro necessário para fazer obra”. Na minha franca ingenuidade pensei nos projectos cofinanciados, nas parcerias público-privadas (antes de serem amaldiçoadas) e na recolha de apoios de terceiros. Longe de mim estava eu de pensar que, na realidade, o enigma residia numa outra solução muito mais vil. “Inventar dinheiro” era mesmo inventar dinheiro e esconder as dívidas ou acumular os passivos em empresas acessórias à governação. Comecei a perceber isso quando analisei a realidade dos clubes de futebol que nasciam à luz dos apoios camarários e outros igualmente difusos e duvidosos. No entanto, estava longe de imaginar a escala da aldrabice até há poucos dias atrás.
A dívida da Madeira não me escandaliza. É a que é, simplesmente. O que é inacreditável é que foi escondida de todos e o mais inacreditável é que o Governo que a provocou irá ser reeleito. Como é possível um prevaricador tão descarado ser beneficiado pelo próprio povo? Terá de ser a justiça, e espero que não hesite, a fazer o que o povo não fez quando podia e devia.
Custa-me ouvir a líder do maior partido da oposição nos Açores, por quem tenho estima e consideração, dizer que as obras das SCUTs nos Açores deveriam ter sido entregues a empresas regionais. Uma obra de centenas de milhões de euros era “entregue” a empresas regionais!? Não haverá senso suficiente para entender que isso seria uma clamorosa ilegalidade?! Desrespeita todo o regime de contratação pública de Portugal e é altamente injusto para quem, no final do dia, paga cerca de um terço das nossas contas. Para que isso fosse possível, seria necessário esconder as contas públicas. Faz-vos lembrar alguma coisa?
E que dirá o povo? O povo açoriano, penso eu, não gosta. Eu, parte do povo, não gosto nada. Tenho esperança que optemos por não ser enxovalhados como outros estão a ser por causa das suas opções de longo prazo.
Quero frisar que esta minha observação está longe de ser partidária. Esta é uma questão particular a quem prevarica. Da mesma forma como vejo a oposição dos Açores e o Governo da Madeira, vejo o Governo da Grécia, a Câmara Municipal de Felgueiras (em que a Presidente fugiu para o Brasil para não enfrentar a justiça e a seguir foi eleita) ou o mais recente caso da Câmara de Oeiras. Nos casos dos eleitos, são o resultado de populismos fáceis e recompensados pelo pouco reflectido voto popular!
Em qualquer destes últimos casos não houve qualquer dúvida da culpa de quem os praticou. Segundo o julgamento, a Presidente da Câmara de Felgueiras foi ilibada dos crimes de que era acusada, mas, para mim, será sempre culpada de ter virado as costas à justiça refugiando-se noutro país.
Eu, pessoalmente, já fui prejudicado pela clamorosa ineficiência da justiça portuguesa. Apesar disso, dificilmente viraria as costas à luta, principalmente se isso adviesse da minha actividade como gestor público, por muito que me custasse. Mas, se por acaso tal acontecesse, esconder-me-ia para todo o sempre tal a vergonha. Estas pessoas não o fizeram, apresentando-se como os escolhidos que estão acima da lei e o mais curioso é que o povo gostou.
O povo gosta, o povo permite, o povo estimula e o povo é beneficiado. Quanto a mim, o povo que procede desta forma também deveria ser corrigido. Não me parece normal que quem elege estes dirigentes, que nos prejudicam colectivamente, seja beneficiado com as obras públicas que resultaram da aldrabice. Sendo mais concreto, neste momento, por exemplo, penso que se deveriam colocar portagens, para além das SCUTS do continente, também nos túneis da Madeira. Posto de outra forma, então quero o meu túnel entre a Horta e a Praia do Almoxarife, já!
Vivemos num regime parecido ao da Cidade Estado de Esparta, na antiga Grécia, em que os cidadãos eram punidos por terem sido apanhados e não por terem cometido o crime. Hoje, a grande mudança é que, mesmo sendo apanhado, continua a não haver punição. Tem que mudar, tem que mudar depressa e tem que mudar já!

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Porto Santo no arquipélago da Madeira

Vestígios da cultura em socalcos, assente em muros de pedra seca,
outrora omnipresente em Porto Santo.
Foto: F Cardigos SIARAM.

Como nos últimos tempos toda a gente fala na Madeira, vou ser original, vou escrever sobre Porto Santo!
Por sorte, quis o destino que tivesse de ir a um interessantíssimo seminário sobre energias alternativas produzidas no mar que se realizou no Funchal com organização do Centro de Energia das Ondas. Ora, estando na Madeira continental e tendo um dia livre, como ocupá-lo? Nada melhor do que explorar novo território insular, fomos para Porto Santo.
A ilha de Porto Santo foi descoberta em 1418 por João Gonçalves Zarco e Tristão Vaz Teixeira. Desde então, esta ilha teve diversos momentos altos que incluíram a elevada produção cerealífera, por possuir uma produção de cal com elevada importância, pela construção de um aeroporto militar com enorme importância estratégica e, ainda mais recentemente, por uma indústria turística que, no Verão, multiplica por cinco a população local. O desenvolvimento futuro aposta na constituição de um Geoparque e na valorização do património ambiental classificado pela Rede Natura 2000.
Reza a história que o desaparecimento da produção de cereais foi consequente às alterações das condições climáticas da ilha. É deste aspecto que quero falar com mais detalhe. Segundo os Guias que nos acompanharam, muito simpáticos por sinal, o declínio da pluviosidade fez com que os campos fossem abandonados, restando hoje apenas vestígios dos muros de pedra seca de contenção que estruturavam os patamares em que as culturas eram feitas. De acordo com estes vestígios, as culturas estendiam-se até às partes mais elevadas da ilha. Por falta de vegetação que agregue os sedimentos superficiais, a ilha está agora gretada vendo-se restos de profundas linhas de água por todo o lado.
Hoje, numa nova aproximação, estão a ser introduzidas centenas de milhares de árvores que começam a ocupar uma modesta parte da ilha. Parece-me que, com esta decisão, se está a tornar novamente a ilha verde. Evidentemente, a escolha de espécies exóticas (i.e. que não pertencem à flora natural da ilha) oriundas do norte de África é a priori discutível, mas confio que tenha sido uma decisão bem ponderada.
Ao ver o sucesso destas novas plantas, questionei-me se teria sido o clima a alterar o sucesso das culturas cerealíferas ou se, ao contrário, teria sido uma sobre-exploração dos solos que teria condenado as plantações… Confrontei os nossos Guias com esta ideia e procurei informação na internet, mas sem sucesso.
Há diversos exemplos clássicos de mau uso do solo que provocaram uma dramática alteração da paisagem e, nos casos mais agudos, um cataclismo social. A civilização Suméria, berço da humanidade, desapareceu por sobre-salinizar o solo, consequente a regas excessivas, e foi o uso abusivo de árvores na Ilha de Páscoa que condenou a extraordinária civilização que construiu aquelas espantosas e misteriosas estátuas. Alegadamente, a civilização Maia já estaria condenada quando os espanhóis lá chegaram e lhe deram a estocada final. Segundo esta teoria, a utilização excessiva dos solos da América Central já teria traçado o destino que os aztecas vinham precipitando e que os espanhóis concluíram. Curiosamente, um dos habitantes mais ilustres de Porto Santo seria, uns anos mais tarde, responsável pela descoberta da América e por toda a sequência triste de acontecimentos que por aí se passou: Cristóvão Colombo.
Terá Porto Santo sido um caso semelhante? Ou antigas alterações climáticas terão tido esse efeito? Mistérios que nos fazem querer saber sempre mais. Se alguém me puder ajudar, agradecerei. Entretanto, aconselho a extraordinária praia da ilha dourada

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Opções

Prof. Dr. Avelino Menezes.


Estive há uns meses atrás a assistir a uma interessante palestra proferida pelo então reitor da Universidade dos Açores sobre a primeira República e a sua relação com a autonomia. Enquanto me deleitava com as suas sábias palavras, “apesar de não ser um período em que seja especialista”, como fez questão de referir, dei por mim a imaginar-me naqueles conturbados períodos e a tentar tomar as melhores opções. Seria republicano, como Manuel de Arriaga e Teófilo Braga? Ou seria monárquico, dando sequência às opções autonomistas então recentemente tomadas? Olhando para o meu próprio passado familiar, naquele período, verifico que apenas tenho membros do lado republicano, o que me deixa sem muitas opções…
Voltando às palavras do Professor Doutor Avelino Menezes, reparei a certo ponto que ele acabou de dizer “em termos académicos havia duas constrições naquele período: por um lado, a maioria dos candidatos que frequentava o ensino superior apenas o fazia para obter o título e os restantes também ficavam com cursos sem aplicabilidade, dado o distanciamento que os mesmos tinham em relação às necessidades ou ao mercado de trabalho.” Fiquei atordoado… Ele estava a falar da primeira República ou de hoje?! E continuou dando exemplos do que se passava naquele período: dívida pública, falta de reconhecimento ou autoridade internacional, falta de credibilidade da classe dirigente…
Com grande distância temporal, de facto, o que vivemos hoje plasma com algum rigor a situação na primeira República. Mais uma vez, estamos perante um cenário que nos pode levar por caminhos extremistas que, então, não soubemos evitar. Agora, para além das opções, temos o conhecimento. Com competência, dinamismo, tolerância e solidariedade teremos de saber gerir o tempo e as opções tendo especial cuidado porque é particularmente simples cair em aparentes soluções fáceis e populistas. Como dizia um poeta que muito aprecio sobre um seu personagem “ [Ele] Ficava de olho aberto / via as coisas de perto / que é uma maneira de melhor pensar / via o que estava mal / e como é natural / tentava sempre não se deixar enganar” (Sérgio Godinho in “Cuidado com as imitações”). Façamos o mesmo.
O novo Reitor da Universidade dos Açores, o Professor Doutor Jorge Medeiros tem enormes virtudes, mas, pelo que conheço dele, não terá a habilidade de nos fazer sonhar com tempos, História e estórias passadas. É uma enorme virtude, que muito admiro, esta capacidade de enrolar os ouvintes em palavras ricas, coloridas expressões e frases propositadamente cheias de sentido e sequência. São pessoas assim que nos educam verdadeiramente. É certo que para ser Reitor não será condição essencial, mas, nestes dois mandatos de Avelino Menezes, soube muito bem.
Por me ter ensinado e por ter sido um bom Reitor da mais difícil universidade de Portugal, agradeço-lhe Professor Doutor Avelino Menezes. Que a vida lhe traga simpáticas venturas e que saibam reconhecer o seu valor, aproveitando-o para outras dignas e proveitosas empreitadas. Que as suas opções e as opções que lhe apresentarem sejam entusiasmantes para si e benéficas para todos.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Solidariedade Ocidental


Vista do Corvo em direcção à costa Oriental das Flores.
Em primeiro plano vidália ou Azorina vidalii.
Em segundo plano, Porto Novo.
Foto: F Cardigos - SIARAM.


No início de Dezembro de 2010, a freguesia da Fajãzinha, na Ilha das Flores, foi fustigada por um violento temporal seguido de um assustador deslizamento de terras. Toda a área da povoação ficou coberta por um enorme lamaçal. Algumas casas ficaram inabitáveis, os espaços comuns deteriorados e as estradas destruídas. Apesar das perdas e do sobressalto, por sorte, este drama não atingiu proporções tão elevadas que colocasse em perigo vidas humanas.
Ainda durante a tempestade e logo que se determinou a magnitude do que estava em causa, diversas instituições fizeram o seu melhor para amenizar aquele que já se julgava ser um Natal perdido. Para além do Governo, das autarquias e das instituições ligadas à protecção civil, alguns grupos de privados puseram mãos à obra.
Na primeira linha, os vizinhos detentores da Aldeia da Cuada, a Sra. Teotónia e o Sr. Carlos Silva, abriram as portas da sua unidade hoteleira para receberem quem necessitasse. E necessitavam… Ainda na ilha das Flores, uma associação informal de donos de moto 4, conhecida como Kanadas & Kaminhos, ofereceu-se para transportar o que fosse necessário para a Fajãzinha. E era necessário. Chamo a atenção para estes dois privados porque não eram obrigados a oferecer os seus préstimos, mas, mesmo assim, avançaram e ajudaram quem necessitava de ajuda.
Na vizinha ilha do Corvo, um jovem chamado Marco Silva, ao perceber que poderia ajudar, colocou mãos à obra. Primeiro sozinho, depois com a Associação de Jovens da Ilha do Corvo, dinamizou uma página do Facebook que rapidamente angariou, entre abnegados leilões ou simples dádivas, vários milhares de euros que foram transferidos para a conta da Junta de Freguesia da Fajãzinha. Este dinheiro foi convertido em bens necessários e, pensou-se, teria ajudado.
Vem isto a propósito de há duas semanas ter decorrido na Ilha do Corvo a sua festa anual de maior importância, a Festa de Nossa Senhora dos Milagres (onde se inclui o Festival dos Moinhos). A convite da organização, juntou-se à festa a Banda Filarmónica da Fajãzinha. Quando já estavam no Corvo, em cima do palco, confessaram que tinham acabado de tocar ao final da tarde na Ilha vizinha, no Lajido, e que teriam de regressar novamente logo ao início da manhã, portanto, uma autêntica visita de médico efectuada por meia centena de pessoas. No entanto, adiantou o maestro, jamais poderiam dizer não a quem tanto os tinha “ajudado num momento de necessidade”. A resposta ali estava! Eles tinham necessitado, os corvinos e seus amigos tinham ajudado e isso estava, precisamente ali, a ser reconhecido em cima de um palco, na mais importante festividade do Corvo e para todos ouvirem.
Quase um ano depois, pude apertar a mão do meu amigo Marco e dizer-lhe nos olhos, “tu fizeste uma coisa bonita e eles não esqueceram”. Ele respondeu com a modéstia que o caracteriza, mas para a história ficará que os corvinos ajudaram quem necessitava e quem necessitava não esqueceu.
Mouzinho da Silveira foi um dos mais importantes estadistas do século XIX de Portugal. Com enorme deferência, sobre os habitantes da mais pequena ilha dos Açores, mencionou no seu testamento que gostaria “de estar cercado, quando morto, de gente que na minha vida se atreveu a ser agradecida”. Apesar da crise de valores em que vivemos e que, por vezes, nos faz perder a esperança de ultrapassar as menores dificuldades, que excepcional exemplo nos chega dos herdeiros do Grupo Ocidental!

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Ambiente Faialense

Extensão do Jardim Botânico do Faial.
Foto: F Cardigos SIARAM

No outro dia, li algures que era possível caracterizar o trabalho recente do sector do Ambiente na Ilha do Faial com uma bandeira azul e um aquário virtual… É obra conseguir esquecer as intervenções no Jardim Botânico, que, para além da ampliação do espaço, incluiu a construção do orquidário, a criação do “Herbário Eng. Ilídio Botelho Gonçalves” e a manutenção de um banco de sementes da flora endémica dos Açores, mas esqueceu-se também da recuperação da Casa dos Cantoneiros, a recuperação do Miradouro dos Dabney e cinco outros sítios de contemplação, a construção de um centro de observação de aves nos charcos de Pedro Miguel, a implementação de uma pista de BTT no Parque Natural do Faial, a criação da rota “Parque a Cavalo”, a limitação do perímetro da Caldeira e a publicação da respectiva regulamentação oficial, a consolidação do funcionamento do Centro de Interpretação do Vulcão dos Capelinhos e, já em construção, a recuperação da Casa dos Dabney na Praia de Porto Pim. Apenas “paliativos”, alguém disse…
Como é possível ignorar a recuperação de muitas áreas até há pouco tempo ocupadas por flora invasora, a concepção ou recuperação de sete trilhos pedestres, incluindo o Trilho dos Dez Vulcões, a publicação de um Guia interpretativo para todo o Parque Natural do Faial, o desenvolvimento de um curso de guias especializados em ambiente em parceria com a Escola Profissional da Horta, a criação e dinamização do selo de “Parceiro do Parque Natural”, a dinamização de uma newsletter periódica e a organização do Simpósio da Associação Ibero-Macaronésica dos Jardins Botânicos? Como ficou esquecido que, nos intervalos, ainda se conseguiu obter a representação de Portugal nos prémios EDEN (European Destinations of Excelence Network) e o galardão QualityCoast e, já agora, a colaboração na entrada da Horta nas Mais Belas Baías do Mundo (com a respectiva vénia à Câmara Municipal da Horta)?
É necessário estar distraído com qualquer coisa muito importante para tentar apagar todo este resultado numas lacónicas palavras e atropelar o magnífico trabalho feito por esta extraordinária equipa. Para que não fiquem quaisquer dúvidas, tudo o que referi atrás é o resultado do trabalho de um empenhado conjunto de profissionais com sede na Secretaria Regional do Ambiente e do Mar.
Ao mesmo tempo, esta mesma equipa, projectou o Centro de Resíduos do Faial e criou a Direcção Regional dos Assuntos do Mar, para gerir a orla costeira e o vasto Mar dos Açores, e a Entidade Reguladora de Serviços de Águas e Resíduos. Ambas as entidades têm sede na Ilha do Faial. Como se fosse pouco, esta mesma equipa propôs o diploma que dará corpo o Parque Marinho dos Açores e aí indicou como sede a cidade da Horta. Garanto-vos que é muito e bom trabalho e também pela Ilha do Faial!
Em relação ao Aquário Virtual e para que não se pense que estou a fugir a seja o que for, relembro que, antecipando que seria necessário adequar o investimento a uma nova realidade financeira, abandonamos o anterior projecto. Sinceramente, o que seria admissível? Insistir num investimento milionário ou fomentar uma aproximação reprodutiva e congruente com as actuais possibilidades? Obviamente, o segundo. Bafejados pela sorte, foi-nos proposto por um conjunto de jovens empreendedores locais de sucesso que fizéssemos uma enorme alteração no projecto. Estamos a trabalhar nisso e, em breve, teremos implementada uma solução imaginativa e que fomentará mais uma actividade na nossa ilha.
Mas mesmo que o projecto do Aquário Virtual corresse mal, e não está fora de hipótese que corra, seria admissível tentar julgar o trabalho feito no ambiente faialense com base nesse único facto? Pelos vistos, para algumas pessoas, o ambiente faialense resumir-se-á sempre ao que não conseguem ver. Nada a fazer…
Seria possível fazer melhor? É sempre possível fazer melhor, especialmente para quem, na bancada, se limita a ver o corso passar.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Açores, terra de mares


Aspecto de um coral-negro.

Quando nos detemos a pensar como caracterizar o mar dos Açores, o primeiro problema é a própria definição do que seja o Mar dos Açores. Até há pouco tempo, o mar era a faixa costeira que conseguimos ver de cada uma das ilhas, muito utilizada para pesca e lazer, e os autênticos corredores percorridos pelas embarcações de transporte de pessoas e mercadorias.
Apenas os melhores pescadores ousavam pensar na tridimensionalidade das massas de água e nas variações temporais das suas características. Fosse por questões de segurança ou por questões de abundância de uma determinada espécie, os profissionais da pesca equacionavam as temperaturas da água, as correntes dominantes e a geometria dos fundos.
O advento das grandes expedições oceanográficas do final do século XIX e início do século XX alargou o pensamento sobre os mares que rodeiam as nossas nove ilhas. Principalmente as expedições dirigidas pelo Príncipe Alberto do Mónaco, tanto pela abrangência, duração, intensidade, como pela dedicação e inter-relação com a sociedade açoriana, destacam-se em termos de consequência e de perenidade. Os açorianos conhecem e beneficiaram dos observatórios meteorológicos construídos por iniciativa e impulso do Príncipe. Mas os mais de cem volumes de relatórios da estadia de uma enorme equipa concentram-se nos oceanos que rodeiam os Açores. Apenas para ilustrar numericamente, nunca houve um conjunto de expedições que registasse tantas espécies (cerca de duas mil) no mar dos Açores como esta centenária iniciativa. O nosso nível de ignorância era tão elevado que desconhecíamos bancos de pesca tão importantes como o hoje chamado Princesa Alice. Esta antiga ilha jaz a 35 metros de profundidade e é um dos locais dos Açores em que há maior probabilidade de ver jamantas em mergulho com escafandro autónomo.
O nome “Princesa Alice” foi herdado do navio de investigação monegasco que o identificou originalmente. Dois factos foram quase de imediato realçados pela equipa científica. Primeiro, que era um local cheio de pescado e, segundo, que, poucos anos após a sua descoberta, já tinha visto a sua riqueza extraordinariamente reduzida. Poucos anos de exploração piscícola desordenada condenaram o espaço a uma nítida exploração, bem registada também nessa época. Penso que terá sido o primeiro registo de severa exploração no mar dos Açores. Em terra, muitos anos antes, já o Padre Gaspar Frutuoso fizera alusões ao decrescimento de diversas populações de plantas e animais como consequência da acção humana. O estranho é que, durante séculos, nunca resultou desta constatação qualquer movimentação tendente a gerir os recursos marinhos ou a defender a riqueza biológica.
Apesar de algumas iniciativas pontuais meritórias, as expedições oriundas do Principado apenas tiveram verdadeiros herdeiros quando nasceu a Universidade dos Açores. Tanto do ponto de vista da biologia como da geologia, o mar, os fundos marinhos e, mais recentemente, os sub-fundos começaram a ser verdadeiramente prospectados. O esforço que as equipas de investigação dos departamentos da Universidade têm feito em conjunto com os parceiros que foram identificando a nível nacional e internacional, resultam num conhecimento dos mares que ocupa tendencialmente todos os meios, habitats e espécies. Esta aventura do conhecimento tem demonstrado interessantes resultados que integram diferentes ciências e explicam alguns dos mais inesperados fenómenos do planeta Terra. Nesta busca pela verdade, merece particular destaque o estudo das fontes hidrotermais de grande profundidade, locais sem luz, com pressões dificilmente imagináveis, com variações de temperatura de dezenas de graus em poucos centímetros e com elevadas densidades de compostos químicos, para nós, letais. Estes compostos, normalmente limitadores da vida, são precisamente o que aqui a alimenta. Bactérias especializadas medeiam a síntese de matéria orgânica e consubstanciam a base de uma cadeia trófica totalmente desconhecida até ao final dos anos 70.
É, portanto, envolvidos nesta profusão de conhecimento que os açorianos vão perscrutando novas oportunidades e vislumbrando caminhos que, como numa aventura, arriscam seguir. É nesta senda que ganhámos inesperadas competências, como seja a gestão de quatro áreas marinhas para lá da zona económica exclusiva. Apenas uma destas áreas tem mais de 93 mil quilómetros quadrados e, para os países signatários da convenção OSPAR, somos nós os responsáveis pela sua gestão, incluindo o licenciamento das eventuais operações que se realizarem sobre os seus fundos. Temas como a prospeção mineralógica, investigação científica, tecnologia azul e turismo marinho do alto são expressões que começam a entrar no léxico quotidiano com uma assustadora velocidade.
Balizando ambientalmente estas responsabilidades e colocando fronteiras em relação à utilização, desenvolveu-se uma rede de áreas classificadas ou de elevada importância dos mares dos Açores integrando-a no Parque Marinho dos Açores. Para além das classificações OSPAR, ficaram sob este instrumento de gestão as áreas classificadas ou potencialmente a classificar ao abrigo das Directivas Aves e Habitats.
Com fundamento, há críticas quanto a este elevar de área e competências, apontando uma certa incapacidade de fiscalização. É certo. Fazer fiscalização tradicional no mar dos Açores é o mesmo que, ilustrando, ter um autocarro a percorrer todo o Portugal continental. Impossível. Mas a magnitude do problema é muito mais elevada se pensarmos que a ZEE que rodeia os Açores tem 10 vezes mais área que o Continente e uma corveta se desloca habitualmente a um quinto da velocidade de um autocarro. Para fazer, com os métodos tradicionais, a fiscalização dos Açores precisaríamos de meia centena de corvetas. Como isso é impraticável, teremos de pensar de uma forma bem diferente. Urge utilizar utensílios de deteção remota, associados aos satélites, apostar nos sistemas VTS e AIS e utilizar outras ferramentas imaginativas como fontes de monitorização ambiental e observação situacional. Assim, sem grande esforço, mas com uma enorme organização, poderemos facilmente exercer uma fiscalização apropriada da nossa própria casa.
Libertámo-nos dos mares costeiros e dos corredores de transportes. Hoje, o Mar dos Açores está em transição entre o quase um milhão de quilómetros quadrados da zona económica exclusiva e os mais de dois milhões que resultarão da provável delimitação da plataforma continental. No entanto, esta metamorfose terá de ser acompanhada pelo empreendorismo necessário a uma exploração séria e uma aproximação precaucionária e responsável, inerente a uma utilização sustentável. O Mar dos Açores cresceu, está mais conhecido e é mais útil, mas teremos de fazer um esforço para que a abrangência de utilizações se alargue a todos os novos temas. Este mar de responsabilidades e oportunidades precisa de coragem, valentia, bravura e inteligência. Felizmente, são todas características bem açorianas!

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Missões Científicas

Porto da Horta com três navios de investigação.
Da esquerda para a direita, "Pourquois pas?", "Arquipélago" e "D. Carlos I".
Foto: F Cardigos SIARAM.

O facto de estarmos no Verão promove, evidentemente, o trabalho de campo ou de mar e será sempre um período com mais actividade científica in situ. No entanto, parece-me que este ano está a ser particularmente prolífico. Dou alguns exemplos.
Quando estive em Santa Maria, a participar na segunda parte da Missão M@rbis 2011 a bordo do Navio de Treino de Mar “Creoula”, encontrei a expedição científica de paleontologia da Universidade dos Açores. Ao chegar à Horta, no final da missão, para além do Navio de Investigação “Arquipélago”, que também tinha participado na M@rbis, encontrei os navios “Pourquois pas?” e “D. Carlos I”. Ainda nem tinha conseguido acabar de digerir tanta informação, já se anunciava a expedição, também da Universidade dos Açores, à Ilha de São Jorge. Ao mesmo tempo e em paralelo, decorrem os trabalhos no Banco Condor e outras iniciativas importantes, mas sem a mesma exposição mediática ou evidente visibilidade. É muita gente e é muita curiosidade.
Todos sabemos que os Açores estão na moda, mas esta curiosidade científica que tenta esmiuçar o passado (paleontologia), o presente e o futuro (meteorologia), desde os fundos abissais oceânicos das fontes hidrotermais de grande profundidade até à ponta mais elevada da Ilha do Pico, onde se medem os compostos atmosféricos de fundo, dá-nos uma ideia do nível de escrutínio a que o nosso arquipélago está a ser sujeito. Desde os nossos cetáceos, passando pelas plantas endémicas e até aves marinhas, tudo está a ser caracterizado, verificado e conjecturado. Desde as aproximações mais improváveis e fantasiosas, incluindo alegações de povoamentos pré-históricos, até aos mais quantitativos e lineares estudos de sismologia, há espaço para todas as abordagens nas nove ilhas deste singular arquipélago. Esta curiosidade já não é nova, mas não parece esmorecer e, impõe-se a pergunta: Porquê? Porque se quer saber tanto sobre os Açores?
Provavelmente, não há uma resposta única, mas uma das razões será, certamente, posicional ou, como os comentadores políticos preferem, geoestratégica. Pelo facto de se localizar entre continentes, estar a meio do Atlântico Norte e entre três placas tectónicas, bem que nos podemos de gabar de estar no centro do mundo! Por outro lado, começamos a ter um longo historial de expedições científicas e, como todos sabemos, mais do que dar uma resposta simples e finalizadora, a investigação lança habitualmente muitas novas perguntas. Para lhes responder, fazem-se novas expedições e, se tudo decorrer normalmente, perpetuam-se no tempo e no nosso espaço. Finalmente, neste meu micro resumo de razões, adiciono que há uns dias atrás um amigo referia-me que há aqui “pessoas e dinâmicas” que motivam a facilidade da investigação. Concordo.
Na perspectiva do Governo dos Açores, é um enorme conforto verificar toda esta curiosidade. Por um lado, o investimento realizado em investigação científica não é equivalente às nossas disponibilidades, tendo presentes equipas do mundo inteiro e a expensas próprias! Ilustrando, a verba de quatro dias de aluguer do “Pourquois pas?” equivale a um ano inteiro de financiamento do “Arquipélago”. Agora fazendo uma multiplicação simples, reparem que o “Porquois pas?”, o “Atalante”, o “D. Carlos I” e tantos outros estão nos Açores num total de dias equivalente a três meses por ano. É muito dinheiro! Mas, mais ainda, esta ampla iniciativa internacional é feita em parcerias com os investigadores locais o que resulta numa partilha de conhecimentos e instrumentação que os investigadores da Universidade dos Açores e outras unidades de pesquisa científica bem têm sabido aproveitar. Complementando, vivendo nós num regime em que a decisão assenta no conhecimento, pelo facto de haver muita e boa investigação, passamos a ter os dados necessários para que o futuro possa ser mais seguro e benéfico para a população açoriana.
Para que todas as peças assentem bem é necessário que deste conhecimento também resulte investimento privado. Este é dos passos mais complicados e que ainda não tem o reflexo que potencialmente alberga. Por exemplo, a embarcação que tem fundo de vidro e que está no porto da Horta usa os conhecimentos angariados pelo DOP para descrever os fundos marinhos. Isso faz sentido. Também faz sentido que o GeoParque dos Açores utilize os conhecimentos angariados pelo Departamento de Geociências da Universidade para mobilizar algumas iniciativas hoteleiras e de restauração. É fantástico que a interpretação dos trilhos pedestres dos Açores utilize informação sobre a flora natural estudada e divulgada pelo Departamento de Ciências Agrárias da Universidade. É tudo verdade, mas ainda sabe a pouco. Por um lado, as unidades de investigação terão de disponibilizar mais informação utilizável e, ao mesmo tempo, os empreendedores terão de colocar as perguntas certas e em tom de desafio aos investigadores que participam nestas missões. Eles irão responder, mas devemos provocá-los.
Quando estive em Santa Maria e tive a oportunidade de fazer uma breve visita à Pedra que Pica, fiquei absolutamente fascinado. Ao contemplar aqueles fósseis estava a olhar para organismos que estavam vivos há cerca de cinco milhões de anos. Mais do que ver conchas, estava a olhar, com respeito, para alguns dos primeiros organismos açorianos. Esta minha experiência tem de estar disponível para todos os açorianos e para quem nos visitar, mas, lá está, procuram-se os empreendedores que nos guiem na aventura do conhecimento e, já agora, do lucro!

domingo, 24 de julho de 2011

Missão M@rbis 2011

Apesar dos grandes peixes ainda estarem ausentes, já é possível ver no Dollabarat meros com porte apreciável. Foto: MA Santos SIARAM.

Decorreu de 15 a 18 de Julho a segunda parte da Expedição M@rbis 2011. Neste período em especial, foi explorado o complexo das Formigas e Dollabarat. Depois da Madeira (Desertas e Porto Santo), o NTM “Creoula” deslocou-se aos Açores, onde se juntou ao NI “Arquipélago” e a diversas equipas científicas regionais e elaboraram um dos mais intensivos e extensivos programas de pesquisa científica efetuados neste fascinante recanto do nosso arquipélago. Esta missão teve a organização da Estrutura de Missão para os Assuntos do Mar (EMAM) e colaboraram, na componente açoriana, o Governo dos Açores e o Departamento de Oceanografia e Pescas (DOP) da Universidade dos Açores.
A Expedição M@rbis, em termos gerais, é uma ação da EMAM e tem como principal propósito a recolha de informação georreferenciada e de alta qualidade sobre a presença de espécies e habitats nas águas portuguesas. A informação recolhida é depositada numa poderosa ferramenta informática, denominada também M@rbis, e estes dados servirão para responder a questões relacionadas com o acompanhamento da delimitação da Plataforma Continental de Portugal e a monitorização da Rede Natura 2000.
O complexo das Formigas e do Dollabarat já é estudado desde há muitos anos. O primeiro registo de que tenho conhecimento sobre a biologia destas Formigas especiais é dado pelos trabalhos do Padre Gaspar Frutuoso, em pleno século XVI, referindo a presença de lobos-marinhos nos ilhéus. Depois disso, pouco foi feito até que, com o advento da Universidade dos Açores, o Departamento de Biologia (DB) e o DOP puseram as mãos ao trabalho. Neste momento, há séries temporais de mais de uma dezena de anos com estudos detalhados sobre este extraordinário complexo. Foram estas informações que conduziram à classificação deste local como Reserva Natural no âmbito do Parque Natural de Santa Maria, Zona Especial de Conservação da Rede Natura 2000, Área Marinha Protegida dentro da Convenção OSPAR e zona Ramsar realçando o papel destas águas na preservação da vida selvagem.
Tendo em conta que estes trabalhos de rastreio, inventariação e monitorização já se realizam há diversos anos, impõe-se perguntar o que trouxe a missão deste ano de novo? A resposta é tão vasta que receio ser este espaço demasiado curto para tanta informação. Tentemos.
Primeiro que tudo, a presença do Navio de Treino de Mar “Creoula”, gerido pela Marinha Portuguesa, que, com mais de noventa pessoas a bordo, estabeleceu-se como uma plataforma privilegiada que serviu de base a duas dezenas de investigadores. A partir desta embarcação, quatro equipas de mergulhadores-cientistas inventariaram detalhadamente os organismos presentes nos Ilhéus. Os resultados não demoraram a começar a surpreender. Logo na primeira amostragem foi recolhida uma nova espécie, Phyllariopsis brevipes. Para além da espécie mais comum de lamina, há agora uma segunda espécie confirmada neste local. Para além dos trabalhos subaquáticos, alguns equipamentos utilizados a partir de bordo mediram radiância, condutividade e temperatura. Estes dados permitirão tentar identificar as razões para parte da singularidade deste local em comparação com o restante arquipélago.
Pela primeira vez, uma técnica da direção regional da Cultura, especializada em arqueologia náutica, também acompanhou os trabalhos nas Formigas. Pelos registos efetuados, foi possível associar alguns dos fragmentos presentes no mar dos Ilhéus ao infortunado navio “Olympia”. Era uma questão que subsistia e que permitirá clarificar outros mistérios no futuro.
A bordo do Navio de Investigação “Arquipélago”, investigadores do DOP e do DB, para além do “simples” rastreio de espécies, recuperaram e, depois de efetuada a manutenção, recolocaram equipamentos de registo oceanográfico e realizaram mergulhos com um “lander”. Este equipamento, dotado de duas câmaras de filmar, ilustrou os fundos marinhos até 1100 metros de profundidade. Ao contrário dos ROV (Veículos marinhos de Operação Remota), que têm mobilidade, o “lander” aterra num local e filma a atividade que circula em sua volta. Desde tubarões de profundidade até enormes caranguejos, há uma nova fauna na escuridão das Formigas que agora ficou registada.
A bordo das duas embarcações, representantes da administração, pessoal da Marinha, jornalistas, estudantes de diferentes níveis, mergulhadores de segurança e escuteiros marítimos completavam o leque de interessados que ajudaram a desvendar alguns dos mistérios deste local. Vários dias passados e tenho a sensação de ter estado a trabalhar com uma verdadeira equipa de luxo!
Em termos de conservação deste local, depois de somados todos os minutos de mergulho e outras atividades efetuadas, há dois factos que ressaltam. Por um lado, a atividade de pesca ilegal diminuiu nos últimos anos, provavelmente fruto de uma incisiva ação por parte da Autoridade Marítima, mas, por outro, ainda há visíveis consequências de um passado que eu classifico de criminoso. Por exemplo, um dos mergulhadores registou um congro com um anzol na boca… Lamentável. Mais grave, as Formigas e o Dollabarat ainda não têm os peixes de grande dimensão de outros tempos. Vai levar tempo, mas tenhamos paciência, contentando-nos com os peixes-cão, bicudas, tubarões, jamantas, com os organismos coloniais que parecem autênticas árvores subaquáticas, as anémonas e as lesmas-do-mar e, em breve, voltará o esplendor das enormes algas a “esvoaçar” ao sabor das ondas e marés por entre as quais voltaremos a ver os pachorrentos meros com dezenas de quilos. Apesar de ser uma Reserva, com a autorização dos serviços competentes é possível submergir neste fantástico local. Para a recuperação do anterior esplendor, é preciso tempo, respeito e paciência, mas, se seguirmos este caminho, dentro em breve, o banco de pesca Mar da Prata e as costas de Santa Maria e São Miguel poderão estar a beneficiar dos efeitos da proximidade a uma fantástica reserva e uma das mais valiosas preciosidades do arquipélago dos Açores.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Barbárie

Há uns dias atrás, houve um Chefe de Estado que autorizou que, sem julgamento, se matasse um ser humano. Dizem que ele resistiu à detenção, apesar de estar desarmado e escondido atrás de uma das esposas…
A pessoa em causa, alegadamente, é responsável por diversos atentados a nível mundial, que causaram milhares de mortos, provocando o caos e a desordem. Tudo isto é, provavelmente, verdade até porque a pessoa em causa sempre assumiu essa responsabilidade. E, no entanto, que direito tem um conjunto de estrangeiros de ir a um país estranho e, à revelia de qualquer lei, matar um cidadão desarmado?
Este é um assunto particularmente delicado para os norte-americanos e, por isso, fui falar com alguns deles. Obviamente, a minha interpelação não tem valor estatístico, mas, fiquei com a nítida sensação que os norte-americanos julgam que o seu país agiu bem, que um julgamento de Osama Bin Laden resultaria numa confusão que perpetuaria a dor de todos os que sofreram e que “ele mereceu”. Ao mesmo tempo, admitiram, compreendiam as reticências dos que achavam que o caminho deveria ter sido outro...
Na realidade, penso que os norte-americanos comuns estavam sequiosos de vingança. Sendo uma sociedade moldada pelo mediatismo televisivo e condicionados por métodos de governação baseados no medo, o poderem retaliar compensa a histeria colectiva em que vivem…
Na minha opinião, para que fique claro, eu considero que Osama Bin Laden era uma má pessoa. No entanto, era a mesma má pessoa que, alegadamente, negociou com os norte-americanos em anteriores cenários de guerra. Seria demasiado penoso descobrirem-se as verdades? Provavelmente, Bin Laden merecia uma pena exemplar. Quem sabe, merecia mesmo uma pena que não se pratica em Portugal. Mas, por muito mau que seja, era um ser humano, merecia um julgamento.
No final da segunda guerra mundial, os cabecilhas do poder nazi, culpadíssimos de actos absolutamente ignóbeis e injustificáveis, foram julgados. Puderam alinhavar uma defesa e apenas foram condenados por um tribunal tão neutro quanto, nessa época, era possível. Neste momento, em Haia, há diversos suspeitos de crimes gravíssimos a serem julgados ou a aguardar julgamento. Porque não fizeram o mesmo os norte-americanos? São mais sensíveis? Estão acima da lei?
Porque me preocupa que um país tão importante, um enorme mercado livre, em que vivem alguns dos melhores pensadores de sempre, com excelentes cientistas e com admiráveis líderes esteja a cair numa vulgaridade assíncrona com os tempos, aqui fica o meu testemunho. O comportamento exibido no caso de Osama Bin Laden está errado.
Para os norte-americanos que sentem que esta é uma vitória, penso que um dia compreenderão que não há glória quando não se respeitam os adversários. Matar um homem que está escondido atrás de uma das suas mulheres é um acto que apenas espelha cobardia por parte de quem o executa.
Por último, com este acto, na minha opinião, o Presidente dos Estados Unidos da América perdeu o élan que tinha ganho na Europa. Soubesse-se o que se sabe hoje e provavelmente Barack Obama nunca teria ganho o prémio Nobel da Paz. Em termos de influência moral sobre o resto do mundo, a grande potência perdeu anos com este acto muito mal pensado.
O mundo pode ter ficado mais seguro, mas ficou, certamente, mais injusto.

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Eco-Castelinho

Baleia-anã (Balaenoptera acutorostrata) a saltar fora de água.
Foto: R Prieto ImagDOP.

Um dos livros que me impressionou enquanto pré-adulto foi “O Alquimista” do Paulo Coelho. Não gosto do estilo fatalista, determinista e populista da maioria dos escritos do Paulo Coelho. Se calhar também por isso, “O Alquimista” foi uma lufada de ar fresco de um autor que nos sugeria atenção para os sinais com que somos presenteados quotidianamente. Nestes dias, a minha mulher, para minha admiração porque não é o género dela, começou a ler “O Alquimista”.
No Dia Mundial dos Oceanos estive em Vila Franca do Campo, Ilha de São Miguel, participando numa conferência da Semana Azul do Concelho. Ao contrário do que era suposto, não me limitei a assistir, mas fui desafiado a também falar. Falar sobre mar… Era impossível resistir. Improvisei um pouco e por ali fui... A certo passo, projectei uma imagem de uma baleia-de-barbas a saltar fora de água (uma belíssima foto tirada pelo Dr. Rui Prieto) e informei que não se sabia muito bem qual a verdadeira razão que levava as baleias a saltar. Disse que havia diversas teorias, mas, não havia uma prova concreta. O certo é que o dispêndio de energia é tão elevado que implica, certamente, uma razão. São toneladas de animal que saem repentinamente para fora de água. Tem de haver uma razão. Perguntei à assistência qual era a opinião deles. De imediato, sem pestanejar um dos jovens que assistia, e que, mais tarde, soube chamar-se Hélio Medeiros, disse “estão a apanhar Sol!”. A resposta foi tão inesperada e tão pouco razoável que me fez parar e pensar que, de facto, os animais inteligentes têm uma certa propensão para fazer coisas energeticamente pouco sensatas apenas por prazer. Na minha lista de hipóteses, esta não estará na primeira linha, mas passou a constar, quanto mais não seja, pela inesperada piada.
À noite, depois de vir de São Miguel, estive no auditório do Departamento de Oceanografia e Pescas da Universidade dos Açores a ver um documentário chamado “Sea Change”. A certo passo, a cientista explicava o ciclo biológico do salmão (um saboroso peixe que não existe no Mar dos Açores). Dizia ela, “aqui podemos ver os salmões a dar saltos para fora de água e ninguém sabe explicar porque fazem isto”. Eu nem queria acreditar! Dei um salto na cadeira e disse “estão, claramente, a apanhar Sol!” Claro que me arrisquei a receber de volta um reprovador “Shhhh…” da restante audiência e fiquei envergonhadíssimo, mas, ao mesmo tempo, ri-me interiormente durante o resto do filme.
No dia seguinte, estive no Castelinho, um jardim-de-infância da Ilha do Faial. Fomos convidados a participar no hastear da bandeira-verde da eco-escola. Contextualizando, o Castelinho tem uma postura exemplar no que diz respeito a ambiente. Têm uma horta biológica, um compostor, fazem triagem de resíduos, anotam diariamente os consumos de água e luz… Enfim, tudo o que todos deveríamos fazer e que eles fazem! Uma das mães desabafava, com um certo exagero enfático espero eu, “cada vez que vou ao supermercado e trago sacos de plástico sou torturada pelos meus próprios filhos”. São uns autênticos guerrilheiros ambientais pensei eu. Precisamos deles! Por essa razão, quando convidado a discursar, resolvi fazê-lo para as crianças e com linguagem que elas percebessem. Talvez isso tenha provocado alguma indignação por parte dos adultos, mas, obviamente, se são assim interventivas ao ponto de merecerem a bandeira verde, é porque elas fazem a diferença e merecem que, naquele dia, o político presente fale para elas. Foi isso que eu pensei e assim fiz. Por outro lado, se aquelas duas centenas de crianças são assim é também porque os pais, educadores e auxiliares e administrativos da escola o propiciam e portanto são dignos da respectiva vénia e agradecimento. Aqui fica. Aliás, reforçando, uma instituição que homenageia os seus mais antigos funcionários, alguns já reformados, com a emoção que ali vi e com as boas práticas ambientais que registei é porque, mesmo sem disso ter consciência, tem o espírito de ecologia alargada que há tanto tempo se tenta imbuir na sociedade ocidental. O Castelinho dá-nos esperança num mundo melhor.
No espírito do Paulo Coelho, agora sei que, certamente, as baleias e os salmões saltam fora de água para, serem iluminadas pela luz do Sol, ou seja, para tentar ver o que eu vi naquela escola, o Eco-Castelinho! “Sicut aurora humanitates lucent”.