sexta-feira, 26 de setembro de 2003

A Paz do Mar Veraneante

O mar tem esta particularidade de apaziguar a alma e fazer esquecer os pecados. Durante os breves momentos em que estamos a nadar, sobre a água numa embarcação, ou apenas numa rocha à beira-mar, parece que não existem problemas. O leve ondular, a temperatura fria, o cheiro a algas, o sol por cima das nossas cabeças, tudo parece contribuir para algo que nos dá prazer e acalma.

Tenho a felicidade de ter uma profissão (biólogo marinho) que me proporciona muitas horas de mar, muitas horas dentro de água, muitas horas de paz e serenidade. Mesmo quando levamos um complexo rol de tarefas, há sempre um leve sorriso, quase de gozo, “vai resolver-se”. Como se ficássemos impunes, intocáveis e imunes, pelo menos momentaneamente.

Certas pessoas dizem que é mau refugiarmo-nos no mar e esquecer os problemas nacionais (fogos, pedofilia, falta de dinheiro, etc.), mas a culpa é do mar. Ele é que nos suga as preocupações. Até estou em crer que se todos nos metêssemos dentro de água, metade dos problemas desapreciam...

Na manhã do dia em que escrevo estas linhas, entrou um pequeno golfinho no Porto da Horta (Açores). O cetáceo, um golfinho-comum de tenra idade, não conseguia encontrar a saída. Algumas das pessoas que trabalham à volta do Porto (Empresas de Observação de Cetáceos, Junta Autónoma do Porto e Postos Abastecedores de Combustível) contactaram de imediato a Rede de Arrojamento de Cetáceos dos Açores (RACA). Por sua vez, a RACA fez deslocar ao local os biólogos e os técnicos que estavam mais perto da área. Por sorte, eu ainda não tinha saído para o mar e pude assim juntar-me à equipa. Depois de algum trabalho foi possível, utilizando embarcações, direccionar o golfinho para a saída do Porto. Estive muito perto do animal e penso que consegui adivinhar-lhe o desespero; estar naquele mar tão fechado sem encontrar a saída e longe do seu bando. Ao sair do porto, o primeiro problema desapareceu. Contudo, caso não encontre os seus pares, terá poucas hipóteses de sobreviver, mas, ao sair do Porto, passou a ter maior probabilidade de conseguir chamar por ajuda. Oxalá a tenha encontrado!

Quando o pessoal envolvido no processo percebeu que, após mais de uma hora de esforços, tinham conseguido dar mais uma oportunidade aquele delicado golfinho, desataram a bater palmas e a festejar. À chegada ao cais diversas pessoas perguntavam qual tinha sido a sorte do golfinho. Com prazer, fomos dizendo que pelo menos por agora poderá ter sorte. A curiosidade de que senti ser alvo foi esclarecedora. Cada vez mais as pessoas se preocupam pelas coisas do mar e do ambiente. A sorte deste golfinho não é muito relevante quando comparada com a pressão a que os nossos mares estão actualmente sujeitos; mas a simpatia, a curiosidade e a solidariedade daquelas pessoas com este animal é sintomática de que há esperança. Há esperança de que uma parte significativa das pessoas se revolte contra todas as atrocidades que quotidianamente são perpetradas contra o ar que respiram e que é suporte do ambiente que temos de preservar, a água que bebem e que também é tão vital para inúmeros seres, os alimentos que necessariamente ingerimos e cuja modificação tem consequências nem sequer previsíveis. Há esperança que as pessoas percebam que as modificações climatéricas que permanentemente nos surpreendem não são mercê do acaso. Que todas estas e outras agressões nos obrigam a colectivamente reagir e obrigar ao cumprimento da tantas vezes insuficiente Lei. Mas nada mau seria que ao menos se cumprisse a Lei, a Lei que já existe e sistematicamente se ignora.

Um amigo, o Professor brasileiro Otto Bismark, especialista em ataques por tubarões, disse uma vez numa conferência “evidentemente que cada vez que há um ataque de um tubarão é um enorme drama, mas o verdadeiro problema do Brasil é a fome. A diferença é tão grande que não faz sentido sequer pensar nos ataques de tubarão como um problema”. Da mesma forma, a sorte deste golfinho alimentou o sobressalto da alma de todos os envolvidos naquele dia, mas na realidade, o problema do mar é outro muito maior e mais grave. Era bom que pelo menos durante um tempinho pensássemos com a mesma paixão no nosso ambiente em termos globais e exigíssemos que não só os responsáveis assumissem as responsabilidades para que foram eleitos ou nomeados, mas todos, todos nós os cidadãos que de uma forma ou de outra nos servimos e servimos o mar, fossemos também conscientes da parte que nos compete e cabe na sua preservação.


Publicado na coluna "Casa-Alugada" da Revista Mundo Submerso

terça-feira, 16 de setembro de 2003

Dollabarat

Há muitos anos atrás ouvi pela primeira vez esta história na Ilha do Corvo. Ouvi e não acreditei. Nela, um pescador dizia-me como um dia o pai dele, também pescador, tinha apanhado o maior susto da sua vida profissional. Dizia ele que o seu pai estava ancorado ao largo do Corvo, durante o dia e com cerca trinta metros de profundidade quando sentiu um súbito impulso na embarcação. Assustado, correu para a proa e olhou para a amarra. O impulso, agora constante, empurrava a embarcação para baixo de água, como se alguém lá no fundo estivesse a puxá-la. Na amarra estava uma mancha castanha que os seus olhos de pescador tinham aprendido a reconhecer, mesmo debaixo de água, como uma jamanta. O animal continuava a empurrar o inestético cabo como se estivesse descontente com aquela amarração que invadia o seu reino. Continuou a empurrar durante longos minutos e o receio do pescador aumentou quando percebeu que aquilo não iria parar. Entre o receio e a impotência de alterar a situação, cortou o cabo. A jamanta continuou o seu caminho e o barco ficou à deriva. Voltou ao porto e contou a sua aventura ao seu filho que, anos mais tarde, me contou a mim. Não que pudesse explicar os acontecimentos de outra forma, mas, uma jamanta a empurrar uma embarcação para baixo de água era algo que me ultrapassava. Não era possível que um animal tão pacífico e que não é alvo de qualquer pescaria nos Açores tivesse o ímpeto de tentar afundar um pequeno barco de pesca. Não fazia sentido, mas então o que teria acontecido...? Ouvi pela segunda vez a história na Ilha do Pico. Exactamente a mesma , embora com interlocutores diferentes. Uma jamanta teria tentado afundar uma embarcação de pesca até que o pescador cortou o cabo da amarra. Era realmente intrigante...

Este ano fizemos diversos mergulhos no Recife Dollabarat. Um desses mergulhos foi verdadeiramente espectacular. Como no Dollabarat os peixes não estão habituados a reconhecer os seres humanos como predadores, permitem grandes aproximações. Por outro lado, como se trata de um recife oceânico que aflora até aos três metros, a visibilidade é elevadíssima e a luz intensa. Enfim, reúne as condições que o fazem realmente um óptimo local para mergulhar e nós tivemos a sorte de, este ano, aí realizar uma daquelas imersões para recordar. Todo o trabalho foi feito e, ainda por cima, “no meio de uma paisagem tipo Mar Vermelho”. Estas palavras não são minhas, mas sim do Luís Quinta, um dos melhores fotógrafos subaquáticos que conheço e com uma vasta experiência de todo o tipo de locais de mergulho. Voltanto atrás. Estávamos então no final do mergulho e preparávamo-nos para emergir. Agarrados ao cabo de mergulho fazíamos os patamares de descompressão. Como qualquer mergulho perfeito nos Açores, no final apareceram jamantas. Estes grandes peixes, de feitio achatado, costumam fazer círculos em volta dos mergulhadores nos locais mais remotos. Assim acontece no Banco Princesa Alice, no Banco D. João de Castro e no Recife Dollabarat. Apesar do tamanho elevado e da semelhança com o batman, são tão pacíficos que é reconfortante senti-los ali perto de nós.

A corrente era tão fraca que resolvi nadar até uma das jamantas e agarrar-me ao seu dorso. Já fiz esta operação diversas vezes, comportando-me como uma rémora, e cheguei à conclusão que, desde que não toque no seu lado inferior, ou faça movimentos bruscos, a jamanta não se incomoda minimamente, parecendo até gostar. Nós obtemos uma confortável viagem subaquática e não compreendo o que é que a jamanta ganha, mas parece gostar que lhe toquemos no dorso. Estava então eu a aproximar-me da jamanta. Este animal em particular teria dois metros e meio de envergadura, não mais. Coloquei-me na posição e senti a sucção provocada pelo próprio movimento da jamanta. Aninhei-me no seu dorso e andei uns metros. Nisto reparei que, mesmo à nossa frente, estava o cabo de mergulho. Imagino que a minha aproximação tenha distraído a jamanta o tempo suficiente para que perdesse a noção da presença do cabo. Agora era tarde demais. Como os seus olhos ficam situados no extremo da parte anterior (do corpo?), há uma depressão no meio que foge ao raio de visão destes peixes. O cabo encaixou-se nesse espaço e a jamanta começou a empurrar o cabo de mergulho... Era tal e qual como os pescadores me haviam contado. A jamanta parecia não compreender o que lhe tinha acontecido e continuava a procurar escapar do cabo movimentando-se para a frente. Eu, o Pedro Afonso e o Luís Quinta começámos por tentar empurrar a jamanta para trás, mas isso apenas a assustou mais, continuando a ir para a frente ainda com mais força. Depois, parámos de tentar ajudar, pensando que esta se acalmaria e recuaria. Nada feito. Após cinco minutos de círculos sempre empurrando o cabo, a jamanta não mudou de comportamento. Neste momento já começavam a aparecer marcas da linha no seu dorso. Não tardaria a ferir-se. Com o receio que o animal se magoasse com gravidade, tomámos a decisão e cortámos o cabo.