sexta-feira, 28 de janeiro de 2022

Voo do Cagarro - 17: Em véspera de eleições

 

Uma das belezas da democracia é o dia das eleições. Aquele dia em que tudo acontece meio ao retardador para permitir que os interessados no nosso futuro coletivo expressem a sua preferência política e partidária.

Após semanas de debates, discussões, ações de rua, conferências de imprensa, webinars e outras formas de esclarecimento e sensibilização, a escolha de quase todos nós, dos cerca de 50% que iremos votar, está feita. Para os poucos que não estiverem ainda decididos, vou partilhar o método que uso hoje em dia.

O essencial é descobrir as linhas vermelhas dos programas eleitorais. Por exemplo, mar, ciência, cultura, ambiente, alterações climáticas, autonomia, União Europeia, euro, NATO, pena de morte e prisão perpétua são temas que, para mim, têm que estar esclarecidos a meu contento nos programas eleitorais. Se não estiverem, o partido em causa é por mim excluído. Ainda nesta fase, a fase das minhas linhas vermelhas, excluo os partidos que alimentam ódios, xenofobias, intolerâncias perante a diferença ou declarada falta de bom senso. Os meus representantes têm que dignos e com valores sólidos. Cada pessoa terá as suas linhas vermelhas e saberá defini-las. Com este primeiro parágrafo, tipicamente, elimino metade dos partidos.

Numa segunda fase, reflito nas minhas preferências pessoais. Por exemplo, quero que haja preocupações sociais, mas que isso não implique a falência do Estado, quero que a educação se foque nos alunos e seu sucesso e não nos professores e, da mesma forma, quero que os resultados na saúde sejam medidos pelo número de pessoas saudáveis e não por outras vias mais corporativas.

Por último, há a questão da confiança. Tenho que confiar que os candidatos a primeiro-ministro são competentes e que as pessoas que se propõem pelo meu círculo eleitoral estão comprometidas e empenhadas e têm capacidade para garantir que as minhas linhas vermelhas são respeitadas. Candidatos débeis, pouco preparados ou sem hipótese de influenciar as decisões e as políticas nacionais dificilmente terão o meu voto.

Este é um método simples e que me tem servido bem. Umas vezes os meus candidatos ganham e, outras, perdem. É a democracia a funcionar.

Há diversas idiossincrasias que enevoam a representatividade que o resultado eleitoral deve espelhar. Por exemplo, temos um preocupante nível de abstenção e a dimensão dos círculos eleitorais influência a decisão do voto. Nos círculos mais pequenos, a probabilidade de eleger um deputado de um partido outro que os três ou quatro mais votados é praticamente nula. Em trocas de impressões com amigos que querem votar nesses partidos nos Açores, referem-me que ficam com o amargo sabor de voto inutilizado.

Ambos problemas teriam solução no futuro. Bastaria implementar o voto eletrónico e criar um círculo de compensação nacional, à semelhança do que existe nas eleições legislativas da região autónoma dos Açores. Com o voto eletrónico, grande parte das justificações que hoje são usadas para não votar (incluindo a pandemia), deixariam de ter razão de ser. Cada um, em sua casa, poderia votar calmamente, tal como pagamos os impostos ou compramos qualquer bem. É simples.

Com o círculo de compensação, os votos não utilizados para eleger deputados em qualquer círculo seriam depositados no círculo de compensação. Portanto, neste caso, ao contrário do que outros defendem, eu considero que o número de representantes no Parlamento deve até aumentar um pouco.

Apesar destas idiossincrasias, a democracia portuguesa, também a nível eleitoral, tem funcionado bem. Raramente há qualquer problema.

No final do dia das eleições, teremos o apuramento dos resultados e ficaremos a conhecer o nome dos nossos novos representantes. Como tantos outros, estarei colado aos ecrãs para conhecer os resultados, círculo a círculo, perceber se as minhas preferências para o Parlamento de Portugal foram as escolhidas pelos meus concidadãos e para descobrir quem será o primeiro-ministro.


sexta-feira, 14 de janeiro de 2022

Voo do Cagarro - 16: A problemática da coisa

"Coisa" em linguagem gestual.
 

Poucas coisas me irritam tanto na comunicação oral em português como a utilização da expressão “coisa”. Quando oiço “coisa”, fico fora de mim. Para além disso, fico perdido… A que se refere a coisa?

- “É mais acima?”, pergunto. - “Sim, perto daquela coisa”, respondem. Não!! Ninguém sabe qual é a “coisa”. Trata-se da loja do Senhor José, da gaiola da Tia Gertrudes, do carro da Dona Felisberta?! Do prego na parede? Ninguém sabe.

- “Está um pouco amargo, mete mais um pouco daquela coisa branca?”. Coisa branca?! Será açúcar, sal ou arsénico? Opto pelo último apenas para provar um ponto de vista.

Usar “coisa” é um perigo fruto da preguiça.

- “Queres alguma coisa?”, perguntam-me. Com prazer traquina, respondo - “Sim”, sabendo perfeitamente a inutilidade da minha resposta que terá de ser seguida de um arrastado – “O que queres, então?”.

- “A verdadeira arte é comunicar em português sem utilizar as expressões “hã” e “coisa” ”, disse-me o meu avô há muito tempo e acrescentou que o nível seguinte é não utilizar a expressão “mas”. Ainda me lembro, até porque não se ficou por aqui.

“Pior, mas muito pior”, disse-me ele com uma voz soturna e grave, “é utilizar expressões como “subir para cima” ou “voar pelo ar”. São pleonasmos de quem está desatento ou tem muito tempo livre”. “Coisa de poetas”, disse com desdém.  

O céu ficou pesado, com uma cor de cinzento chumbo, o vento e os pássaros calaram-se, os olhos dele ruboresceram-se quando expressou as palavras seguintes. “Nota bem. Nunca, mas nunca uses a expressão… Eu vou dizer, mas apenas para que nunca digas. Se o disseres, eu volto de onde estiver apenas para te assombrar para o resto da vida.” Pausa, seguida de silêncio mórbido. Reinício lento: “A expressão “espaço de tempo” é o erro primordial. Desde a fundação do universo que não se misturam o espaço e o tempo. Tinham passado poucos momentos após a formação do universo e o espaço já tinha consolidado as suas três dimensões, nas quais podemos andar para a frente e para trás, para cima e para baixo, e o tempo corria sem olhar para trás. Portanto, jamais uses aquela expressão que alguns seres humanos tentam vulgarizar.”

Não sei se as evoluções resultantes da Teoria da Relatividade ou as multidimensões da Teoria das Cordas permitem misturar espaço e tempo desta forma, mas, apenas o calafrio que me causa poder ter o meu avô a erguer-se em fúria por entre os mortos é suficiente para não ousar usar aquela expressão. Sim, sim, não me apanham a repeti-la… “Período de tempo, período de tempo, período de tempo…”, repito todas as noites, tentando memorizar para não ser apanhado em falso.

A verdade é que a língua portuguesa, até por estas subtilezas que alguns apelidam de erros, é uma extraordinária forma de comunicar, seja em discurso direto, poesia ou canto. Desde sempre que me delicio com a imaginação dos nossos escritores, poetas, cantores ou declamadores. As “Palavras Ditas” do Mário Viegas são por mim visitadas e revisitadas (ah, que pleonasmo lindo!) sempre que toca a nostalgia de ouvir um bom português cheio de emoção.

Mas que coisa esta, o espaço e a vastidão que o português ocupa no meu tempo, hã?!