sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Badejo d'Ouro

Badejo, Mycteroperca fusca, fotografado na ilha de Santa Maria, Açores.
Foto: ImagDOP/UAz

No início do mês de Novembro, em pleno II Congresso Internacional “O Desporto e o Mar” do Clube Naval do Funchal, o Doutor Arturo Boyra das Canárias foi perentório quando afirmou que um mero morto tem muito valor, “600 euros, no mínimo em Espanha”. “No entanto”, foi dizendo à medida que apresentava os cálculos que mostram quanto ganham os operadores marítimo-turísticos das Canárias com a observação subaquática, “este mesmo mero vale um milhão de euros por ano se estiver vivo” e, rematou, “vamos matar a galinha dos ovos de Ouro?!”.
Na realidade, este contraste entre o valor dos meros vivos e meros mortos já foi utilizado no passado (*), mas nunca, que eu saiba, com valores tão enfáticos e tão indiscutíveis. O argumento parece infalível e foi já utilizado para justificar a proteção das tintureiras dos Açores (*), mas ainda sem grandes resultados. Para os meros, tem servido.
Aliás, se nós os soubermos utilizar, os animais têm, regra geral, um valor muito maior vivos do que mortos. Que o diga a empresa de exportação de peixe vivo, a Flying Sharks. Pegam em peixes que não têm qualquer valor comercial nos Açores, como os cabozes ou os foliões, e exportam-nos para os maiores aquários do mundo.
Que o digam também os pescadores de pesca grossa (*). Estes operadores, que esquadrinham os mares com os seus poderosos barcos de fibra-de-vidro branca (***), podem pescar o mesmo peixe por diversas vezes (*), alugando a embarcação e o saber por múltiplos do valor do peixe morto. Isto para não falar nos teores de mercúrio dos espadins, tão elevados que tenho dúvidas que possam ser consumidos sem perigo para a saúde (*). Para a pesca grossa, estão no ponto!
Não se pense que estou a defender que deixemos de comer peixe. Nada disso! Estou a defender que pensemos antes de tirar a vida a animais que são muito mais lucrativos vivos. É, pelo menos, uma questão de bom senso.
No mesmo congresso, a certo ponto, convidaram-nos para mergulhar na Baixa das Moreias. É um local mesmo em frente ao Clube Naval do Funchal e que se acede a partir do seu Centro de Mergulho. Mais simples era impossível. Claro que aceitei entusiasticamente o convite. Depois de vinte minutos debaixo de água, vendo alguns dos animais e algas que caracterizam aquele pedaço do Atlântico, aproximou-se um badejo. O líder do mergulho reconheceu o animal e acenou-me. Estávamos a dez metros de profundidade e, apesar de já me terem contado, eu não estava preparado para o que iria testemunhar.
O badejo, que deveria ter uns cinco quilos, aproximou-se do mergulhador que dirigia as nossas operações e aninhou-se calmamente nas suas mãos (*). Com serenidade, o nosso líder colocou uma mão na sua boca e outra no seu dorso. O peixe assim ficou, imóvel… Inacreditável… Mas havia mais! O líder do mergulho, sempre com o peixe nas suas mãos, aproximou-se de mim e deu-mo. “Vou pegar num peixe vivo!”, exclamei interiormente, totalmente possuído pelo entusiasmo. Agarrei-o com o mesmo cuidado e fiz-lhe algumas festas. Impressionante… No final, larguei-o e ele deu uma volta e voltou a insistir que o acariciasse. O processo foi-se repetindo com todos os mergulhadores que faziam parte deste grupo, um após o outro...
Este não é um comportamento natural dos animais marinhos e resulta das muitas horas que os mergulhadores do Clube Naval do Funchal dedicam a eles. Os peixes estão perfeitamente habituados à sua presença e aproximam-se sem qualquer relutância, até porque, muitas vezes, os mergulhadores não se inibem de lhes levar alimentos.
Ou seja, apesar de gostar mais das águas em estado puro dos Açores, não posso deixar de apreciar a forma como os madeirenses estão a utilizar o seu mar. A mim impressionou-me verdadeiramente e não tenho dúvidas que aquele badejo se irá tornar a estrela de muitas fotografias e vídeos. Se o mero das Canárias valia um milhão de euros, este badejo vale o seu peso em Ouro e puro! Mas tem esse valor apenas enquanto continuar vivo (*). Na lota, valerá pouco mais do que nada.
Estamos num período em que várias coincidências contribuíram para impulsionar o mergulho nos Açores. À descoberta do mergulho com tubarões-azuis (**, *, *) e jamantas (*, *, *, *) juntou-se a instabilidade no Norte de África e no Médio-Oriente. Destinos como o Mar Vermelho foram preteridos (*) e isso constituiu uma enorme mais-valia para o nosso arquipélago (*). Os trabalhos da Doutora Adriana Ressurreição do Departamento de Oceanografia e Pescas da Universidade dos Açores demonstram claramente o aumento de rendimento das actividades aquáticas e subaquáticas nos últimos anos.
No entanto, e obviamente que ainda bem, esta situação não irá durar para sempre. Dentro em breve, países como o Egipto (*) e a Eritreia (*) (*) encontrarão o seu rumo de paz e de estabilidade. Se até lá não cativarmos este mercado, perderemos esta janela de oportunidade. É preciso, com a maior urgência, resolver pequenos problemas no turismo subaquático dos Açores, tais como, acabar com o uso de redes de emalhar nas zonas costeiras que, como os próprios pescadores dizem, “destroem tudo”, e reforçar as limitações impostas nas áreas marinhas protegidas, para que terminem os conflitos de utilização (*). É necessário também, que os operadores marítimo-turísticos dos Açores formem uma união honesta, coerente, abnegada e abrangente para que os seus pontos de vista sejam mais respeitados. Foram estas as principais conclusões que eu retive da IV Bienal do Turismo Subaquático que decorreu a meio de Outubro na ilha Graciosa.
Claro que todos queremos que os turistas subaquáticos se sintam bem nos Açores. É certo, porém, que poucos quererão voltar a locais em que os centros de mergulho não têm casa de banho ou em que se mergulha a dezenas de milhas da costa em solitários semirrígidos. É muito engraçado para nós e para os nossos amigos, mas impensável para o exigente turismo do Mar Vermelho e esse é o nosso único e verdadeiro competidor. Mãos à obra!


sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Carcharhinidae


Carcharhinidae é o nome de uma família. No caso, trata-se de uma família de eméritos tubarões muito conhecida. Entre os elementos mais famosos desta família, temos o Prionace glauca e o Galeocerdo cuvieri ou, mais simplesmente, a tintureira e o tubarão-tigre, respetivamente. Outros tubarões, também famosos, como o tubarão-branco ou o rinquim, não fazem parte desta família, mas sim da Lamnidae. Claro que estamos a falar de famílias taxonómicas (científicas) e não de famílias de sangue, como fazemos entre humanos.
Voltando à nossa família, a Carcharhinidae. Em 1988 apareceram alguns tubarões pertencentes a esta família nos ilhéus das Formigas. Foi no dia 17 de Julho, mais precisamente, que pescadores capturaram alguns animais e suscitaram a curiosidade da comunidade científica. Em 1995, o técnico da Universidade dosAçores, João Brum, em conjunto com o Professor José Azevedo, publicaram um artigo científico que clarificou a identificação dos animais e assim deu uma nova espécie aos Açores: os Carcharhinusgalapagensis ou, como são conhecidos entre os amantes do mar, os tubarões-das-Galápagos.
Claro, como é habitual, os cientistas não se contentando com uma resposta, lançaram imediatamente mais umas quantas perguntas: Como é que estes tubarões conseguiram chegar das Galápagos até aqui? Porquê apenas agora? Ir-se-ão conseguir estabelecer? Irão ameaçar as populações de presas ou competidores? Porque aparecem nas Formigas e não em qualquer outro local dos Açores? Aparentemente, algumas destas novas perguntas começam a ter também resposta.
É senso comum que estes tubarões tenham conseguido chegar até aos Açores com a abertura do Canal do Panamá. Esta resposta explicaria também a segunda questão. Apesar de não haver provas, parece tão evidente que esta resposta não tem suscitado o devido debate. Eventualmente, devia ser debatida porque a densidade nalguns pontos do Atlântico é tão elevada que não faz sentido o povoamento apenas ter sido iniciado em 1914. Esta técnica de eliminar hipóteses concorrentes pela simplicidade e lógica da resposta obtida tem um nome. Chama-se Navalha de Occam (ou Lei da Parcimónia) e postula simplificadamente que “a resposta menos complexa costuma ser a correcta”.
Quanto ao estabelecimento da população, a questão é bem mais complicada. Eu já mergulhei muitas vezes nos ilhéus das Formigas, no Recife Dollabarat e no Banco do Entre-Meio (as três áreas acessíveis da Reserva Natural das Formigas). No entanto, por apenas duas vezes consegui ver estes animais debaixo de água. Isso, pensava eu, indiciava que a população não era muito robusta. Numa dessas duas vezes consegui ver cinco tubarões em simultâneo! Para além do entusiasmo e emoção, tenho de admitir que também houve algum “respeito”…
Ao longo dos anos, tenho advogado a proteção efetiva dos ilhéus das Formigas. Enquanto tive responsabilidades pela matéria, ajudei a implementar regras mais restritivas de utilização e incentivei o incremento da sua fiscalização. Apesar disso, mesmo eu, sempre duvidei da sua eficiência. Portanto, imaginem a minha alegria quando, este ano, um dos responsáveis por uma empresa de mergulho turístico comescafandro autónomo de Santa Maria, o Paulo Reis (*), me relatou que na época de 2013 viram tubarões-das-Galápagos em quase todos os mergulhos. Num deles, viram mesmo 12 animais diferentes! Para além de espetacular, é mais um indício de que a Reserva está a ser respeitada. É um assunto a seguir com atenção e, aparentemente, responde à dúvida sobre a manutenção da população de tubarões.
Quanto a ameaçar outras espécies… pode estar a acontecer, mas não se nota nada. A última vez que mergulhei nas Formigas, vi tanta vida e tão animada que me custa a crer que estes tubarões estejam a prejudicar a fauna local. No entanto, sou de opinião que este tema poderia justificar uma excelente tese de mestrado ou de doutoramento. Há candidatos?

A última questão também ainda não tem resposta. Não entendo. Sinceramente, não entendo. Nas costas das ilhas têm aparecido, em números crescentes, os tubarões-tigres-da-areia (*, *, *) e, nas Formigas, aparecem os tubarões-das-Galápagos. Interessantíssimo! E aguardando por cientistas que aceitem debruçarem-se sobre este extraordinário desafio…

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Robots assassinos

Veículo subaquático autónomo "Infante" sendo testado no Canal Faial-Pico em 2003.
In: Relatório Anual de 2003 do Instituto de Sistemas e Robótica do Instituto Superior Técnico.

Em 2029, super-computadores dominam o mundo, determinados a eliminar a raça humana. Para destruir o futuro da humanidade enviam um cyborg indestrutível - um Exterminador - para o passado, com a missão de matar Sarah Connor, a futura mãe do líder da resistência humana, John Connor”. Esta poderia ser a simples sinopse de um filme de ficção científica de sucesso [*]. Ou não…
Lendo uma mensagem de correio electrónico de meu colega Eng. Luís Sebastião, registo “No início parece um género de um controlo de formação e, depois, com um pouco de processamento de imagem levam a medusa para um motor que a destrói em segundos...”. Trata-se da descrição de um teste de robots aquáticos feito por uma equipa estrangeira. Estes robots, automaticamente e através de sistemas computacionais muito avançados, detectam e destroem águas-vivas [*]. O sonho do veraneante…
Claro que, desenganem-se, o objectivo essencial destes “animais de ferro” não é propriamente proteger os banhistas, até porque, apesar de destruídos, os componentes das águas vivas continuam activos e viáveis o tempo suficiente para ainda irritar. O objectivo prático é apenas impedir que os sistemas de refrigeração das grandes indústrias fiquem entupidos com medusas, como aconteceu recentemente numa central nuclear sueca [*]. Não posso dizer que não seja importante, até porque sabemos quais as consequências que podem resultar de uma central nuclear que deixa de ser refrigerada… [*]
No entanto, tentar matar um problema raramente é boa solução. Sabe-me a pouco e a fraco. Porque não, em alternativa, concentrar esforços em mitigar a base do problema que, no caso das águas-vivas, aparentemente, são as alterações climáticas globais. Dizem alguns entendidos que as temperaturas mais quentes promovem a proliferação destes seres gelatinosos. Ao mesmo tempo, o decréscimo das populações de predadores, vítimas da pesca involuntária, como é o caso das tartarugas e dos peixes-lua, também parece dar uma ajuda neste crescimento populacional involuntário. Portanto, diria eu, seria apropriado concentrar os nossos esforços no combate à libertação de Carbono na atmosfera e não em construir letais robots subaquáticos. Aliás, um parêntesis para dizer que bom mesmo era acabar com aqueles outros robots que matam humanos à distância e sem julgamento e a quem deram o pomposo nome de “drones”. [*]
Também não me agrada nada que se transforme o mar à medida do homem. Não é assim. Na minha convicta opinião, o mar deve ser deixado tão pristino quanto possível e de lá devemos tirar, sustentavelmente, os recursos que necessitamos. Não temos o direito de transformar o Oceano numa fria aquicultura.
O Mar é Selvagem! Podemos lá ir buscar algum alimento e algumas soluções, estudá-lo, usufruir da sua rebeldia e imprevisibilidade mas, penso eu, não temos o direito de o modificar. Esta aproximação robótica é triste, fria e demasiado antropogénica para o meu gosto.
Com tudo isto, não pensem que sou contra a robótica ou, em particular, contra a robótica submarina. Nem pensar! Sou um entusiasta e vibro com os esforços do Institutode Sistemas e Robótica da Universidade Técnica de Lisboa, parceiros do DOP/UAç, para ultrapassar os problemas com que se confrontam diariamente. Principalmente quando se tentam conceber veículos subaquáticos autónomos (os AUVs), que têm enormes desafios associados ao controle de navegação, às comunicações e à economia de energia, há que reconhecer que esta é uma ciência de ponta. É uma ciência que cria instrumentos que auxiliam os cientistas do mar no estudo dasfontes hidrotermais de grande profundidade, dos montes submarinos e das grandes massas de água. Utilíssimo e fascinante, sem dúvida nenhuma.

Pela minha parte, desde que não lhes instalem instrumentos de matar, eu gosto imenso de robots. Desde aqueles que construíamos em legos até aos que, com várias toneladas, já vimos a ser testados no Porto da Horta, todos são fantásticos exemplos do melhor que a mente humana tem para oferecer.