domingo, 9 de dezembro de 2018

Crónicas de Bruxelas: 33 - Brexit

Bandeira do Reino Unido e estrelas da União Europeia
Montagem: F Cardigos

Escrevo estas palavras sem saber como terminará a Cimeira que, no edifício em frente ao Gabinete dos Açores em Bruxelas, decorre já há uma hora. A chamada Cimeira do Brexit reúne os 28 chefes de Estado e de Governo da União Europeia, portanto incluindo ainda a primeira-ministra britânica. Espera-se que, no final desta reunião, haja um consenso sobre a relação entre a União Europeia e o Reino-Unido no chamado período de transição. Todos sabem que este período de transição terá início após o dia 29 de março de 2019, mas ninguém tem uma ideia clara sobre quando terminará. Talvez no final da cimeira fique mais evidente.
O que se sabe é que a proposta de acordo de transição, no que diz respeito aos chefes de Estado e de Governo da União Europeia, irá mesmo avançar. Se a mesma, posteriormente, será aceite pelo Parlamento e povo britânico e pelo Parlamento Europeu é algo que ninguém sabe. Theresa May, a primeira-ministra do Reino Unido, terá de negociar com os diferentes grupos dentro da Câmara dos Comuns e lidar com o descontentamento generalizado em Londres e na Escócia pelo avanço do divórcio.
Mais importante do que fazer futurologia, até porque estamos a poucos dias do desenlace, é, no meu ponto de vista, pensar em tudo o que se está a passar. Na minha opinião, chegámos a este ponto como consequência de um referendo pouco pensado e populista.
Para a maioria dos britânicos que votaram pela saída o que estava em causa era a capacidade do seu país tomar decisões relacionadas com o comércio e o movimento de cidadãos. Na realidade, todos estamos conscientes agora, estava em causa muito mais do que isso. Uma vez que nem todos os países que fazem parte do Reino Unido votaram pela saída da União Europeia, a Grã-Bretanha ficou com dois pés fora (Inglaterra e País de Gales) e dois pés dentro (Escócia e Irlanda do Norte).
O Reino Unido passar a tomar decisões no que diz respeito ao comércio internacional implica sair da teia global de acordos muito interessantes que a União Europeia mantém. Para além disso, introduzir barreiras ao comércio entre as ilhas britânicas e o continente europeu traduzir-se-á em perdas de montantes nas exportações incomportáveis para os súbditos de Sua Majestade Elisabete II. Atenção, também a União Europeia ficará a perder, mas a resiliência de 27 Estados e 430 milhões de habitantes é diferente de um Estado com menos de 70 milhões de pessoas. Nalgumas regiões da Inglaterra prevêem-se perdas percentuais no Produto Interno Bruto com dois dígitos.
Por último, a livre circulação de pessoas. Com o Brexit, a Grã-Bretanha até poderá vir a controlar melhor a circulação de pessoas. No entanto, há dois detalhes… Por um lado, o Reino Unido depende dos trabalhadores estrangeiros, como é o caso dos enfermeiros portugueses, e, ao mesmo tempo, tem uma enorme quantidade de pessoas a trabalhar na União Europeia. É impensável impedir a sua mobilidade. Por outro lado, há a imperiosa necessidade de manter a fronteira entre República da Irlanda e a Irlanda do Norte aberta, para respeitar o Acordo de Sexta-feira Santa, e aí poderão sempre passar quaisquer cidadãos e mercadorias, diga-se. As consequências de impedir a mobilidade de pessoas entre as irlandas poderão ser desastrosas.
Neste momento, poderá o leitor perguntar-se: “então para que serve o Brexit?” Tenho grandes dificuldades em vislumbrar resultados palpáveis positivos da saída da Grã-Bretanha da União Europeia. Vejo que perderam o assento no Conselho da União Europeia, perderam os deputados no Parlamento Europeu, perderam o Comissário Europeu e, com o tempo, todos os funcionários superiores na União Europeia. Ou seja, perderam a capacidade de se pronunciar sobre regras que continuarão, por um período ainda determinar e no seu próprio interesse, a vigorar no seu território.

segunda-feira, 12 de novembro de 2018

Crónicas de Bruxelas: 32 - É necessário?

Um carro simples.
Por: F Cardigos


Penso que todos temos consciência que a nossa utilização dos recursos do planeta está no limite. Dando apenas alguns exemplos que me assaltam a memória quando penso nisso, muito mais de metade dos recursos marinhos utilizados estão abaixo dos limites de sustentabilidade, as emissões de metano que resultam da produção animal são um enorme catalisador das alterações climáticas e, mesmo nos Açores, usamos a água doce a níveis que não são compatíveis com os mananciais existentes em algumas ilhas.
Se outros povos começarem a consumir e a poluir como se faz no ocidente, o planeta deixará de oferecer as condições necessárias à nossa sobrevivência. A nossa existência passará a ser uma longínqua memória se não houver inversões notórias. O planeta que nos abriga não aguenta mais consumo ou, colocando por outras palavras, não pode haver mais crescimento. Faço uma distinção entre o “planeta” e o “planeta que nos abriga” porque, na realidade, por muito que estraguemos, o planeta continuará por cá. A única diferença é que continuará sem nós.
Não é um problema dos Açores, de Portugal ou da Europa. Este é um problema do mundo humano. No entanto, por ser um problema do mundo não nos dá o direito de nos distanciarmos dele. Pelo contrário, todos somos responsáveis por agir.
Quando vejo nas notícias que Portugal se prepara para começar a explorar petróleo pergunto-me se o decisor não conhece os valores de concentração de carbono na atmosfera? Portugal deveria abdicar da utilização deste recurso, forçando um pouco mais a passagem para as fontes energéticas alternativas e amigas do ambiente.
Dizem-me alguns amigos que a tendência decrescente na utilização dos combustíveis fósseis tem que ser global e que isso não é incompatível com uma exploração por parte de Portugal, que aproveite os últimos esgares de necessidade de combustíveis fósseis, até porque ainda serão necessárias mais umas décadas até estarmos completamente independentes. A mim, esta aproximação faz-me lembrar a expressão inglesa “not in my backyard”. Ou seja, parem lá vocês de explorar o planeta, “vão sem mim, que eu vou lá ter…”, parafraseando os Deolinda.
Não pode ser.
E o problema está longe de ser apenas uma questão petrolífera. Tudo está em questão. Precisamos mesmo de ter o último modelo de telemóvel? No outro dia vi o jogador de futebol Modric, que ganha milhões de euros por ano, com um velhinho modelo da Apple. Compreendo que as pessoas tenham recursos e gostem de usar o seu dinheiro. No entanto, à medida de cada um, teremos mesmo de deixar o paradigma do consumo e passar para o paradigma da suficiência. Isto obriga a uma introspeção e à resposta, honesta, à pergunta “o que preciso para ser feliz?”
A esse título partilho um dado interessante. Cientistas estudaram o aumento da felicidade com o aumento da riqueza. Sem espanto, detetaram que, em termos médios, quanto mais ricas são as pessoas, mais felizes são. Agora, o que os espantou é que não é uma relação linear, mas sim uma relação assintótica. Ou seja, o dobro da riqueza não trás o dobro da felicidade. A partir de um certo valor de riqueza qualquer crescimento, mesmo que infinito, não trás um acréscimo de felicidade minimamente significativo. Portanto, pessoas como o Bill Gates não são muito mais felizes que qualquer pessoa da classe média alta de Portugal. Podemos aliás, ilustrar isso com a coleção de carros de Cristiano Ronaldo. Quando ele comprou a primeira “bomba” deve ter ficado felicíssimo. Neste momento, mais um carro não deve passar de uma interessante curiosidade de revista de cordel e razoavelmente efémera.
Então, “o que é necessário?” Volto a repetir que isso depende de cada um. Eu diria que ter recursos financeiros suficientes para proporcionar à família segurança, educação e saúde são pontos razoavelmente comuns a todos. Falando no meu caso pessoal, acrescentando ao anterior, ter um carro sempre foi algo que considerei importante. Depois de ter o meu Toyota Prius, passe a publicidade, não sinto qualquer interesse em adquirir outra viatura. É suficiente.
Quando um governante responsável diz que é necessário proporcionar emprego para todos os cidadãos e progresso, eu entendo, mas quando se começa a falar em crescimento, particularmente em geografias mais desenvolvidas, a mim sabe-me a irresponsabilidade. O planeta não aguenta, simplesmente não aguenta.

segunda-feira, 29 de outubro de 2018

Crónicas de Bruxelas: 31 - A Caminhada da Vida


Vai ser um dia com uma brilhante luz do Sol
Foto: F Cardigos

Ao sair de casa, no carro, liguei o rádio e a estação Classic 21, talvez uma das emissoras mais conhecidas de Bruxelas, emitia o clássico dos Dire Straits, Walk of Live. No exterior, ao Sol que quase cegava misturava-se um frio penetrante. Ao som da música, trauteava a letra, “He got the action, he got the motion, Oh yeah, the boy can play…”, até que passou para os versos seguintes e isso desacelerou-me o cérebro. Dedication, devotion, Turning all the night time into the day”. “Dedicação, devoção, transformando todo o tempo de noite no dia seguinte”. A tradução é minha e, como se pode perceber, é uma tradução livre, ou seja, poderia ser diferente. É uma tradução mais emocional do que literal. A tradução de poesia é uma arte e muito longe estou eu de pretender que esteja ao meu alcance.
Transformando as trevas escuras e turvas da noite na claridade e felicidade do dia… Passando da tristeza e sombras da noite para a verdade científica escorreita, precisa e alegre do dia seguinte. Foi aqui que o meu pensamento ficou às voltas. Desliguei-me desta música e fui transportado para uma outra, usada num anúncio de boa memória, “I can see clearly now the rain is gone, I can see all obstacles in my way, Gone are the dark clouds that had me blind, It's gonna be a bright, Bright sun-shining day”, imortalizada por Jimmy Cliff . Não é fácil cantarolar uma letra com outra música de fundo. Apaguei o rádio e deixei-me ir…
Aquilo que o meu cérebro me estava tentar dizer, acho eu, é que por muito grande que seja a dificuldade (“rain”) e por mais intransponível que pareça o problema (“dark clouds”) vai haver um momento em que voltaremos a saber lidar com os obstáculos no caminho (“I can see all obstacles in my way”) e ficaremos bem (“It's gonna be a bright (…) sun-shining day”). Eu e o meu cérebro, por vezes, temos dificuldades de comunicação, mas penso que era esta a mensagem que me foi inicialmente suscitada pela Caminhada da Vida dos Dire Straits.
A verdade é que, no meu caso, já me vi em encruzilhadas aparentemente sem solução (“Dire Straits”, curiosamente) e, com dedicação ou mesmo devoção (“Dedication, devotion”), elas dissiparam-se. Umas vezes transformando-se em novas dificuldades, diga-se, outras em dias felizes (“Here is that rainbow I've been praying for”).
É esta a caminhada da vida. Umas vezes incompreensivelmente apanhados pelas contingências maléficas de algo que não dominamos e, outras, surpreendidos pela felicidade com que somos bafejados. O único remédio, quando apanhados em tais contingências, pelo menos no meu caso, é trabalhar e lutar. O único remédio é sorrir e virar a cara para o vento deixando a água salgada bater-nos na cara e dizer que não temos medo, mesmo que estejamos apavorados. É enfrentar a impossibilidade de vitória com a certeza que o final de tudo ainda está muito longe e novas e gloriosas oportunidades estarão por surgir. É cantar cada derrota como se de uma epopeia se tratasse e olhar para cada vitória com uma saborosa humildade. Esta é a caminhada da minha vida e a mensagem é sempre It's gonna be a bright, Bright sun-shining day, mesmo que não faça qualquer ideia de como lá chegar.
Vai ser um dia com uma brilhante luz do Sol, vai mesmo!