terça-feira, 7 de agosto de 2018

Plásticos, microplásticos e outros hidrocarbonetos



Tartaruga Caretta caretta no Mar dos Açores
Foto: Sónia Mendes ImagDOP

Há mais de duas dezenas de anos atrás, um bom amigo e reconhecido cientista dizia-me que tinha encontrado uma tartaruga morta e que, para seu espanto, quando lhe fez a necrópsia, reparou que este animal, apesar da nítida subnutrição, tinha o estômago cheio, mas cheio de sacos de plástico. Referia ele de forma que todos entendêssemos, “esta tartaruga morreu de fome com a barriga cheia”. Aparentemente, já então concluíamos, as tartarugas confundiam os plásticos com o seu alimento, as alforrecas, e, não conseguindo digerir ou excretar o plástico, morriam por falta de alimento. Então, o que me preocupava, não entendendo o alcance do que estava à minha frente e de forma até um pouco egoísta, era que, se o número de tartarugas começasse a diminuir, teríamos mais águas vivas (alforrecas) o que dificultaria os meus passeios subaquáticos. Na realidade, esse era o menor dos problemas…
Estes plásticos perdidos nas águas começaram a matar tartarugas de diversas formas. Mas não é só este o impacto.  A sua progressiva degradação, sabe-se hoje, transforma-os em microplásticos. Estes pequenos detritos são consumidos pelo plâncton, a base da maioria das cadeias alimentares marinhas, fazendo com que estes pequenos organismos, também eles, morram por subnutrição ou, noutros casos, reduzam tanto a sua condição que, apesar de não morrerem, deixam de ter as características necessárias para servirem de verdadeiro alimento para os níveis tróficos superiores. Ou seja, simplificando, estivemos, em tempos idos, à beira de extinguir as grandes baleias por as perseguirmos e matarmos e, hoje, podemos estar a ameaçá-las reduzindo assustadoramente a qualidade do seu alimento.
A solução é conhecida. Há que reequacionar a utilização de todos os plásticos, reduzir o seu uso, privilegiar o uso de plásticos que permitam reutilização, reciclá-los caso não se possam reutilizar, e, em último caso, incinerá-los para produzir energia. Nos dias de hoje, por diversas razões, o depósito de plásticos em aterro é impensável e o seu arremesso para as linhas de água ou para os oceanos é um ato criminoso.
Nesta linha de pensamento, a Comissão Europeia lançou recentemente uma proposta legislativa que limita muito o plástico de uso único (cotonetes, palhinhas e outros). Ao mesmo tempo, o Reino Unido, que está em vias de sair da União Europeia, já anunciou medidas similares, o mesmo acontecendo na cidade de Seattle (Estados Unidos). A Índia quer ir mais longe e pretende banir o uso de diversos tipos de plástico.
Como um exemplo simples de reação individual, refiro o café onde costumo ir tomar o pequeno-almoço quando estou em Bruxelas. Este estabelecimento já anunciou aos seus clientes que irá descontinuar o uso de palhinhas. As bebidas servidas no café já não têm palhinhas de qualquer tipo e as bebidas para levar terão palhinhas de algas ou de baunilha, ficando a escolha ao critério do consumidor.
Em relação à procura de soluções para o plástico que já prolifera pelos mares, tem havido diversas iniciativas mais ou menos visionárias. Desde o “comedor” de plástico de Boyan Slat ao simples apoio financeiro aos pescadores e outros profissionais dos mares que recolherem plásticos flutuantes, estão em cima da mesa dezenas de soluções.
Para os céticos, relembro que a humanidade já conseguiu lidar com problemas sem aparente solução nas mais diversas frentes. Já nos livramos do fascismo durante a segunda guerra mundial, já reduzimos drasticamente o buraco do Ozono e já nos livrámos do alcatrão flutuante. Todos eram problemas sem solução e cá estamos.
Somos uma espécie brilhante e o problema dos plásticos na água, tal como o aquecimento global, ambos com os hidrocarbonetos fósseis em comum, são problemas interligados e com solução. Há apenas que arregaçar as mangas e resolver!


(english version)

Plastics, microplastics and other hydrocarbons


Sea-turtle Caretta caretta tied by gost net.
photo: F Cardigos

More than two dozen years ago a good friend and recognised scientist told me that he had found a dead turtle and, to his astonishment, when he performed a necropsy he noticed that this animal, despite its malnutrition, had a full stomach. Full of plastic bags... "This turtle died of starvation with a full belly", he concluded in a way that we all understood.
Apparently, turtles confuse plastics with their food, jellyfish, and, unable to digest or excrete it, they die from starvation. What worried me at that point, not understanding the full consequences of what was in front of me, was that if we started to reduce the number of turtles we would have more jellyfish which would make my underwater excursions difficult. In fact, this was the least of the problems...
These lost plastics kill turtles in different ways. But there is more to the issue than that. The progressive degradation of plastics, it is known today, turns them into microplastics. These small debris are consumed by plankton, the basis of most marine food chains, again causing these small organisms to starve or, in other cases, to worsen their condition to a point that, although alive, they no longer have the characteristics necessary to serve as true food for higher trophic levels. In other words, we have been on the verge of extinguishing the great whales by chasing and killing them and, today, we may be threatening them by alarmingly reducing the quality of their food.
The solution is known. It is necessary to reconsider the use of all plastics, to reduce their use, to favour the use of plastics that allow reuse, to recycle them if they cannot be reused, and, as a last option, to incinerate them to produce energy. Nowadays, for various reasons, the deposit of plastic in landfill is unthinkable and throwing it to the water lines or to the oceans is a criminal act.
In this line of thinking, the European Commission has recently launched a legislative proposal that greatly limits single-use plastic (swabs, straw and others). At the same time, the United Kingdom, which is about to leave the European Union, has announced similar measures, and so did Seattle (USA). India wants to go even further and intends to ban the use of various types of plastic.
The coffee shop where I usually go to have breakfast when I am in Brussels has already informed its customers that they will discontinue the use of plastic straws. The drinks they serve in the shop do not have straws of any kind and the drinks to take away will have straws of algae or vanilla.
Concerning the plastic that already proliferates in the seas, there have been several initiatives more or less visionary. From Boyan Slat's plastic "eater" to the simple financial support for fishermen and seaman who collect floating plastics, dozens of solutions are on the table.
For the sceptical people, I recall that humanity has been able to deal with problems with no apparent solution in a large variety of domains. We got rid of fascism during World War II, we got rid of most of the ozone hole and we got rid of the floating tar, just to mention three examples in different areas. All were problems without solution and here we are.
We are a brilliant species and the problem of plastics in the water, such as global warming, are problems interconnected by hydrocarbons and with solution. We just have to roll up our sleeves and do it!


segunda-feira, 6 de agosto de 2018

Crónicas de Bruxelas: 25 - Bruxelas partiu para parte incerta


Rotunda de Schuman, vista parcial
Foto: F Cardigos

Chegou o Verão.
Para além das temperaturas elevadas que assolam Bruxelas, a cidade esvaziou-se de pessoas, parecendo mesmo que partiram para parte incerta. As férias escolares levam muitos funcionários a, naturalmente, pedir férias durante o Verão e como por aqui se trabalha essencialmente em rede, faltando tantos “nós” dessa rede, os restantes funcionários acabam por partir também ou, no máximo, aproveitam para meter o escritório em dia. Portanto, a azáfama que normalmente se vê pelas ruas das instituições europeias, seja por ausência geográfica ou seja por o trabalho estar mais concentrado no interior dos escritórios, é substituída por uma cidade essencialmente fantasma.
Algumas instituições levam este período de uma forma tão rigorosa que, simplesmente, fecham. Por exemplo, o Parlamento Europeu encerrou todos os trabalhos no edifício principal aqui em Bruxelas no dia 13 de julho e apenas voltará a estar em pleno funcionamento no dia 27 de agosto. Durante esse tempo, os eurodeputados deverão ocupar duas semanas em visitas às circunscrições que os elegeram e gozar o seu período de férias. Em termos genéricos, o mesmo acontece no Conselho, ficando apenas ativa a Comissão Europeia.
O Comité Económico e Social e o Comité das Regiões são órgãos consultivos do Parlamento Europeu, Conselho e Comissão e mantêm os seus trabalhos até um pouco mais tarde, efetuando algumas das audições públicas que ajudam a estruturar as suas opiniões. Nessas audições encontramos alguns dos representantes de setores, os chamados lobistas, e os representantes regionais com presença permanente em Bruxelas.
O Gabinete dos Açores em Bruxelas mantém as suas portas abertas até ao início de agosto, sendo um dos raros casos em que isso acontece. A maioria das representações regionais vão partindo a partir do meio de julho até que, na última semana desse mês, quase nenhuma está por Bruxelas.
Na representação da Região Autónoma dos Açores fazem-se os últimos relatórios de participação em reuniões e audições, preparam-se os boletins informativos temáticos que serão emitidos durante o mês de agosto e prepara-se o mês de setembro, agendando reuniões e analisando o final do período legislativo. A especial ênfase ao final do período legislativo justifica-se porque o Parlamento Europeu terá eleições no mês de maio de 2019 e, até lá, nova e complexa legislação terá de estar discutida e aprovada. Entre os diferentes dossiers, assumem particular importância o quadro financeiro plurianual de 2021 a 2027 e seus derivados nas componentes relacionadas com a coesão, agricultura, pescas, ambiente, energia e ciência.
No dia 4 de agosto e até dia 27, também nós partiremos, deixando Bruxelas ainda mais perdida na sua particular solidão. A cidade será devolvida aos seus legítimos donos, os belgas, e partilhada com aqueles turistas que procuram a cidade da arte nova, das florestas, dos jardins e dos museus que, no restante ano, é positivamente esmagada por 20 mil funcionários europeus e, talvez, o equivalente ao dobro em funcionários de estruturas de apoio e de sensibilização.
Do Gabinete dos Açores em Bruxelas olho para a rotunda de Schuman. Este espaço, que no restante período do ano está ocupado com manifestações e ações de sensibilização ou motivação para políticos, está com um ar desolador. O senhor que num dos extremos vende flores e o seu amigo que vende fruta já se despediram de mim na semana passada. Estavam felizes, celebrando o Verão, as férias e o descanso, tal como daqui a algumas semanas celebrarão, com empenho, a chegada do frio e do trabalho. Todos nós!

segunda-feira, 23 de julho de 2018

Crónicas de Bruxelas: 24 - DiscoverEU+? Sim, mas também DiscoverEUultra!


Vista noturna em Estrasburgo.
Foto: F Cardigos

A primeira fase da excelente iniciativa do Parlamento Europeu foi executada de forma brilhante pela Comissão Europeia. Cem mil jovens de dezoito anos, sim, escrevi bem, cem mil, um estádio de futebol dos grandes cheio de jovens, concorreram ao DiscoverEU. Estes jovens da União Europeia candidataram-se aos 15 mil passes que dão acesso a um mês inteiro de viagens gratuitas de comboio. Em Portugal, já se sabe, houve 302 jovens selecionados que partirão para a grande aventura no início do Verão.
Não me canso de dizer e de escrever, vai ser espetacular. Só pode ser espetacular!
Os jovens selecionados terão agora de encontrar os recursos necessários para se alimentar e para pagar as estadias, mas esse é um problema menor. Sendo jovens, terão facilmente o engenho para encontrar sítios baratos (pousadas da juventude e parques de campismo) ou encontrar os trajetos que os levem a cruzar-se com casas de familiares que os acolham, entre muitas outras possibilidades. Para a alimentação terão de ter algum dinheiro, mas, estivessem onde estivessem, teriam de comer, portanto… há que aprender a cozinhar, para os que não sabem ainda, comprar alimentos baratos e transformá-los em iguarias irresistíveis. Estou desejoso de ler os relatos. Ah, importante, não se esqueçam de verificar o seguro de viagem e do cartão europeu de seguro de doença! Os azares acontecem e, portanto, nada melhor do que estar prevenido.
Como referia atrás, já é conhecido o número de selecionados em Portugal. Fazendo uma proporção à população residente, isto dá-nos que eventualmente terão sido selecionados 7 ou 8 jovens dos Açores. Não tenho conhecimento de haver qualquer regra de atribuição de quotas por região, portanto, na realidade, podem ter sido selecionados de zero a 302 jovens dos Açores. Seja 1 ou sejam 302, boa sorte e divirtam-se!
Ao falar com os meus botões, perguntei-me, “será que este programa irá continuar no futuro?” Quero crer que sim. Espero que continue e que a Comissão e o Parlamento Europeu encontrem as ferramentas para aumentar o número de viagens financiadas. Cem mil concorrentes para 15 mil vagas dá uma probabilidade de ser selecionado na ordem dos 15%. É pouco. Deveria haver muito mais vagas. Aliás, na realidade, contas minhas, devem haver cerca de 6 milhões de jovens com 18 anos na União Europeia, portanto, a margem de crescimento potencial do programa é enorme. Colocando estes números de outra forma, apenas 0,25% dos jovens europeus com 18 anos poderão partir no programa DiscoverEU. Obviamente, nem todos estão interessados e nem todos terão a capacidade de o fazer, mas, na minha opinião, se a primeira edição do DiscoverEU correr bem do princípio até ao fim, há que pensar em transformá-lo num DiscoverEU+, com ainda mais lugares disponíveis e, quem sabe, com uma bolsa associada que ajude a pagar parte das estadias e da alimentação? Coisas a pensar no final do Verão. Para já, o plano da Comissão Europeia é abrir uma nova chamada em outubro e, depois, simplesmente, fazer “explodir” estes números e, a partir de 2021, financiar 200 mil jovens por ano! Fabuloso!
Na realidade, os meus botões querem ir ainda mais longe. É evidente que os objectivos do DiscoverEU são importantes: proporcionar aos jovens da União Europeia a possibilidade de conhecer as culturas do Velho Continente e viverem grandes aventuras na sua casa alargada, fomentando a coesão e solidariedade entre os povos. Mas… Como temos verificado nos diferentes plebiscitos europeus, com particular ênfase no Brexit, os jovens acreditam, reconhecem e valorizam os ideais europeus. O calcanhar de Aquiles, na realidade, são os mais idosos. São os idosos que veem o sucesso Europeu com maior desconfiança, são os mais idosos que têm maior receio dos refugiados e migrantes e são os mais idosos que parecem não compreender a importância e o potencial de vivermos em União. Há que os sensibilizar!
Para responder a este problema, claro está, não espero convencer os mais idosos a partir numa aventura de um mês saltitando de cidade em cidade e de comboio em comboio. Compreendo e sou solidário. Os interessados neste programa viajarão de avião e poderão, se assim o quiserem, viajar com os netos. Quem esteja reformado poderá, no meu sonho, candidatar-se a viajar com os seus netos para qualquer região da União Europeia. Ilustrando, no caso de Portugal, o Sr. Tibério e a Sra. D. Maria de Fátima, ambos da ilha do Corvo nos Açores, poderão pegar nos seus seis netos (Ana Rita, Marta, Tomás, Maria Inês, Rafael e Mariana) e viajar até Estrasburgo, onde irão visitar a sede do Parlamento Europeu e, durante uma semana, usufruir de uma das mais belas cidades da Europa.
O meu DiscoverEUultra é um sonho, eu sei. Mas muitas das grandes obras nascem de sonhos maravilhosos!