domingo, 9 de dezembro de 2018

Crónicas de Bruxelas: 33 - Brexit

Bandeira do Reino Unido e estrelas da União Europeia
Montagem: F Cardigos

Escrevo estas palavras sem saber como terminará a Cimeira que, no edifício em frente ao Gabinete dos Açores em Bruxelas, decorre já há uma hora. A chamada Cimeira do Brexit reúne os 28 chefes de Estado e de Governo da União Europeia, portanto incluindo ainda a primeira-ministra britânica. Espera-se que, no final desta reunião, haja um consenso sobre a relação entre a União Europeia e o Reino-Unido no chamado período de transição. Todos sabem que este período de transição terá início após o dia 29 de março de 2019, mas ninguém tem uma ideia clara sobre quando terminará. Talvez no final da cimeira fique mais evidente.
O que se sabe é que a proposta de acordo de transição, no que diz respeito aos chefes de Estado e de Governo da União Europeia, irá mesmo avançar. Se a mesma, posteriormente, será aceite pelo Parlamento e povo britânico e pelo Parlamento Europeu é algo que ninguém sabe. Theresa May, a primeira-ministra do Reino Unido, terá de negociar com os diferentes grupos dentro da Câmara dos Comuns e lidar com o descontentamento generalizado em Londres e na Escócia pelo avanço do divórcio.
Mais importante do que fazer futurologia, até porque estamos a poucos dias do desenlace, é, no meu ponto de vista, pensar em tudo o que se está a passar. Na minha opinião, chegámos a este ponto como consequência de um referendo pouco pensado e populista.
Para a maioria dos britânicos que votaram pela saída o que estava em causa era a capacidade do seu país tomar decisões relacionadas com o comércio e o movimento de cidadãos. Na realidade, todos estamos conscientes agora, estava em causa muito mais do que isso. Uma vez que nem todos os países que fazem parte do Reino Unido votaram pela saída da União Europeia, a Grã-Bretanha ficou com dois pés fora (Inglaterra e País de Gales) e dois pés dentro (Escócia e Irlanda do Norte).
O Reino Unido passar a tomar decisões no que diz respeito ao comércio internacional implica sair da teia global de acordos muito interessantes que a União Europeia mantém. Para além disso, introduzir barreiras ao comércio entre as ilhas britânicas e o continente europeu traduzir-se-á em perdas de montantes nas exportações incomportáveis para os súbditos de Sua Majestade Elisabete II. Atenção, também a União Europeia ficará a perder, mas a resiliência de 27 Estados e 430 milhões de habitantes é diferente de um Estado com menos de 70 milhões de pessoas. Nalgumas regiões da Inglaterra prevêem-se perdas percentuais no Produto Interno Bruto com dois dígitos.
Por último, a livre circulação de pessoas. Com o Brexit, a Grã-Bretanha até poderá vir a controlar melhor a circulação de pessoas. No entanto, há dois detalhes… Por um lado, o Reino Unido depende dos trabalhadores estrangeiros, como é o caso dos enfermeiros portugueses, e, ao mesmo tempo, tem uma enorme quantidade de pessoas a trabalhar na União Europeia. É impensável impedir a sua mobilidade. Por outro lado, há a imperiosa necessidade de manter a fronteira entre República da Irlanda e a Irlanda do Norte aberta, para respeitar o Acordo de Sexta-feira Santa, e aí poderão sempre passar quaisquer cidadãos e mercadorias, diga-se. As consequências de impedir a mobilidade de pessoas entre as irlandas poderão ser desastrosas.
Neste momento, poderá o leitor perguntar-se: “então para que serve o Brexit?” Tenho grandes dificuldades em vislumbrar resultados palpáveis positivos da saída da Grã-Bretanha da União Europeia. Vejo que perderam o assento no Conselho da União Europeia, perderam os deputados no Parlamento Europeu, perderam o Comissário Europeu e, com o tempo, todos os funcionários superiores na União Europeia. Ou seja, perderam a capacidade de se pronunciar sobre regras que continuarão, por um período ainda determinar e no seu próprio interesse, a vigorar no seu território.

segunda-feira, 12 de novembro de 2018

Crónicas de Bruxelas: 32 - É necessário?

Um carro simples.
Por: F Cardigos


Penso que todos temos consciência que a nossa utilização dos recursos do planeta está no limite. Dando apenas alguns exemplos que me assaltam a memória quando penso nisso, muito mais de metade dos recursos marinhos utilizados estão abaixo dos limites de sustentabilidade, as emissões de metano que resultam da produção animal são um enorme catalisador das alterações climáticas e, mesmo nos Açores, usamos a água doce a níveis que não são compatíveis com os mananciais existentes em algumas ilhas.
Se outros povos começarem a consumir e a poluir como se faz no ocidente, o planeta deixará de oferecer as condições necessárias à nossa sobrevivência. A nossa existência passará a ser uma longínqua memória se não houver inversões notórias. O planeta que nos abriga não aguenta mais consumo ou, colocando por outras palavras, não pode haver mais crescimento. Faço uma distinção entre o “planeta” e o “planeta que nos abriga” porque, na realidade, por muito que estraguemos, o planeta continuará por cá. A única diferença é que continuará sem nós.
Não é um problema dos Açores, de Portugal ou da Europa. Este é um problema do mundo humano. No entanto, por ser um problema do mundo não nos dá o direito de nos distanciarmos dele. Pelo contrário, todos somos responsáveis por agir.
Quando vejo nas notícias que Portugal se prepara para começar a explorar petróleo pergunto-me se o decisor não conhece os valores de concentração de carbono na atmosfera? Portugal deveria abdicar da utilização deste recurso, forçando um pouco mais a passagem para as fontes energéticas alternativas e amigas do ambiente.
Dizem-me alguns amigos que a tendência decrescente na utilização dos combustíveis fósseis tem que ser global e que isso não é incompatível com uma exploração por parte de Portugal, que aproveite os últimos esgares de necessidade de combustíveis fósseis, até porque ainda serão necessárias mais umas décadas até estarmos completamente independentes. A mim, esta aproximação faz-me lembrar a expressão inglesa “not in my backyard”. Ou seja, parem lá vocês de explorar o planeta, “vão sem mim, que eu vou lá ter…”, parafraseando os Deolinda.
Não pode ser.
E o problema está longe de ser apenas uma questão petrolífera. Tudo está em questão. Precisamos mesmo de ter o último modelo de telemóvel? No outro dia vi o jogador de futebol Modric, que ganha milhões de euros por ano, com um velhinho modelo da Apple. Compreendo que as pessoas tenham recursos e gostem de usar o seu dinheiro. No entanto, à medida de cada um, teremos mesmo de deixar o paradigma do consumo e passar para o paradigma da suficiência. Isto obriga a uma introspeção e à resposta, honesta, à pergunta “o que preciso para ser feliz?”
A esse título partilho um dado interessante. Cientistas estudaram o aumento da felicidade com o aumento da riqueza. Sem espanto, detetaram que, em termos médios, quanto mais ricas são as pessoas, mais felizes são. Agora, o que os espantou é que não é uma relação linear, mas sim uma relação assintótica. Ou seja, o dobro da riqueza não trás o dobro da felicidade. A partir de um certo valor de riqueza qualquer crescimento, mesmo que infinito, não trás um acréscimo de felicidade minimamente significativo. Portanto, pessoas como o Bill Gates não são muito mais felizes que qualquer pessoa da classe média alta de Portugal. Podemos aliás, ilustrar isso com a coleção de carros de Cristiano Ronaldo. Quando ele comprou a primeira “bomba” deve ter ficado felicíssimo. Neste momento, mais um carro não deve passar de uma interessante curiosidade de revista de cordel e razoavelmente efémera.
Então, “o que é necessário?” Volto a repetir que isso depende de cada um. Eu diria que ter recursos financeiros suficientes para proporcionar à família segurança, educação e saúde são pontos razoavelmente comuns a todos. Falando no meu caso pessoal, acrescentando ao anterior, ter um carro sempre foi algo que considerei importante. Depois de ter o meu Toyota Prius, passe a publicidade, não sinto qualquer interesse em adquirir outra viatura. É suficiente.
Quando um governante responsável diz que é necessário proporcionar emprego para todos os cidadãos e progresso, eu entendo, mas quando se começa a falar em crescimento, particularmente em geografias mais desenvolvidas, a mim sabe-me a irresponsabilidade. O planeta não aguenta, simplesmente não aguenta.

segunda-feira, 29 de outubro de 2018

Crónicas de Bruxelas: 31 - A Caminhada da Vida


Vai ser um dia com uma brilhante luz do Sol
Foto: F Cardigos

Ao sair de casa, no carro, liguei o rádio e a estação Classic 21, talvez uma das emissoras mais conhecidas de Bruxelas, emitia o clássico dos Dire Straits, Walk of Live. No exterior, ao Sol que quase cegava misturava-se um frio penetrante. Ao som da música, trauteava a letra, “He got the action, he got the motion, Oh yeah, the boy can play…”, até que passou para os versos seguintes e isso desacelerou-me o cérebro. Dedication, devotion, Turning all the night time into the day”. “Dedicação, devoção, transformando todo o tempo de noite no dia seguinte”. A tradução é minha e, como se pode perceber, é uma tradução livre, ou seja, poderia ser diferente. É uma tradução mais emocional do que literal. A tradução de poesia é uma arte e muito longe estou eu de pretender que esteja ao meu alcance.
Transformando as trevas escuras e turvas da noite na claridade e felicidade do dia… Passando da tristeza e sombras da noite para a verdade científica escorreita, precisa e alegre do dia seguinte. Foi aqui que o meu pensamento ficou às voltas. Desliguei-me desta música e fui transportado para uma outra, usada num anúncio de boa memória, “I can see clearly now the rain is gone, I can see all obstacles in my way, Gone are the dark clouds that had me blind, It's gonna be a bright, Bright sun-shining day”, imortalizada por Jimmy Cliff . Não é fácil cantarolar uma letra com outra música de fundo. Apaguei o rádio e deixei-me ir…
Aquilo que o meu cérebro me estava tentar dizer, acho eu, é que por muito grande que seja a dificuldade (“rain”) e por mais intransponível que pareça o problema (“dark clouds”) vai haver um momento em que voltaremos a saber lidar com os obstáculos no caminho (“I can see all obstacles in my way”) e ficaremos bem (“It's gonna be a bright (…) sun-shining day”). Eu e o meu cérebro, por vezes, temos dificuldades de comunicação, mas penso que era esta a mensagem que me foi inicialmente suscitada pela Caminhada da Vida dos Dire Straits.
A verdade é que, no meu caso, já me vi em encruzilhadas aparentemente sem solução (“Dire Straits”, curiosamente) e, com dedicação ou mesmo devoção (“Dedication, devotion”), elas dissiparam-se. Umas vezes transformando-se em novas dificuldades, diga-se, outras em dias felizes (“Here is that rainbow I've been praying for”).
É esta a caminhada da vida. Umas vezes incompreensivelmente apanhados pelas contingências maléficas de algo que não dominamos e, outras, surpreendidos pela felicidade com que somos bafejados. O único remédio, quando apanhados em tais contingências, pelo menos no meu caso, é trabalhar e lutar. O único remédio é sorrir e virar a cara para o vento deixando a água salgada bater-nos na cara e dizer que não temos medo, mesmo que estejamos apavorados. É enfrentar a impossibilidade de vitória com a certeza que o final de tudo ainda está muito longe e novas e gloriosas oportunidades estarão por surgir. É cantar cada derrota como se de uma epopeia se tratasse e olhar para cada vitória com uma saborosa humildade. Esta é a caminhada da minha vida e a mensagem é sempre It's gonna be a bright, Bright sun-shining day, mesmo que não faça qualquer ideia de como lá chegar.
Vai ser um dia com uma brilhante luz do Sol, vai mesmo!

domingo, 14 de outubro de 2018

Crónicas de Bruxelas: 30 - Eleições Comunais


Montra com cartazes de publicidade partidária em Bruxelas.
Por: F Cardigos

Ao chegar a Bruxelas, depois de umas magníficas férias nos Açores, não posso dizer que as diferenças fossem muitas. No entanto, havia uma que me entrava pelos olhos dentro. As montras estavam povoadas por cartazes com caras de pessoas bem penteadas e com ar confiante que sorriam na direção de quem passava. Para além do sorriso, havia um nome, provavelmente correspondente à pessoa ilustrada, um logótipo ou pequena frase e um número.
Não foi preciso pensar muito para concluir que estes cartazes estavam relacionados com as eleições Comunais da Bélgica que se realizam a 14 de outubro. Estas estruturas do ordenamento administrativo, que em Portugal estariam entre a Câmara Municipal e a Junta de Freguesia, procuram eleger, como acontece de seis em seis anos, novos titulares ou confirmar os atuais.
Portanto, se a face e o nome eram autoexplicativos, o logótipo e, essencialmente, o número não o eram. Se fosse sempre um logotipo de um partido ou coligação, ainda compreenderia. Mas não era o caso. Em muitos casos, o logotipo era substituído pela expressão: “Liste du Bourgmestre”. Fui à procura de explicações.
O essencial e que caracteriza indelevelmente as eleições na Bélgica, em completo contraste com Portugal, é que o voto é obrigatório. Por essa razão e porque no passado houve excessos, a publicidade eleitoral está muito orientada para prestar a informação essencial e não para aliciar os eleitores a irem votar, já que esse é um dado legalmente adquirido. Portanto, na Bélgica não há isqueiros, chapéus, aventais e outras bugigangas para serem oferecidas. A publicidade eleitoral está normalizada. Há cartazes, panfletos, sessões de esclarecimento e pouco mais. Já vi os candidatos e seus amigos nos parques e lojas a dar explicações sobre o recenseamento eleitoral para estrangeiros residentes e clarificando as suas ideias.
Segundo me explicaram, a tal expressão, “Liste du Bourgmestre” é utilizada nos casos em que o atual presidente se recandidata. Como tenho verificado, a “lista do Presidente” é, muitas vezes, constituída por diversos partidos e independentes. Faltava-me a explicação sobre o número que constava nos cartazes…
Ora, o que acontece é que, aqui na Bélgica, o voto pode ser preferencial. Para explicar como o processo funciona irei descrever o ato de votar em si. Oxalá fosse escorreito, mas não é. Começa logo pelo facto de não haver apenas um processo, mas sim quatro: um para a Flandres, outro para a Valónia, um outro para Bruxelas e, finalmente, um para a região germanófona. Portanto, irei descrever o processo usado em Bruxelas e salientarei algumas diferenças para as restantes regiões.
Nas comunas de Bruxelas há voto eletrónico presencial (na Valónia ainda se vota em papel). Assim, depois de identificado, ao cidadão eleitor chegado à mesa de voto é dado um cartão magnético. Com esse cartão, o eleitor dirige-se à câmara de voto onde está um ecrã táctil e uma ranhura. Na ranhura, o eleitor insere o cartão e no ecrã aparece uma pergunta sobre a língua que pretende utilizar. Pode-se escolher entre o francês e o flamengo, dado Bruxelas ser uma região bilingue. Na Flandres, na Valónia e na zona germanófona esta pergunta é redundante, visto o flamengo, o francês e o alemão serem as línguas oficiais respectivas.
Depois aparecem no ecrã as diversas listas concorrentes. Nesse momento, o eleitor decide se vota na lista A, B, C, etc... Ah, uma diferença em relação a Portugal, apenas se vota numa única lista. Ao contrário, relembro, em Portugal, nas eleições autárquicas vota-se três vezes. Uma para a junta, outra para a assembleia municipal e, uma outra, para a vereação. Aqui não há duas estruturas (junta e município), apenas uma (commune) e é a Assembleia da commune que elege o órgão executivo. Das eleições resultam o Presidente, que é o primeiro na lista mais votada (na Valónia pode não ser o primeiro) e os conselheiros (equivalentes a membros da Assembleia Municipal/Freguesia).
Depois, após negociações, de entre os conselheiros eleitos são nomeados os diversos vereadores (órgão executivo). É muito habitual os vereadores serem oriundos de diversas listas. Por exemplo, em Ixelles, uma das comunas da Região de Bruxelas, a presidente pertence ao MR (“Movimento Reformador”, liberais), há quatro vereadores do MR, três vereadores do PS (socialistas francófonos) e um do SP.A (socialistas flamengos). Todos têm competências atribuídas, ao contrário do que acontece tipicamente em Portugal, em que os vereadores da oposição são ostracizados do poder.
Portanto, voltando à minha linha de descrição, o eleitor regista a lista em que quer votar na segunda pergunta. Depois de escolher a lista, pode escolher quais os candidatos em que quer votar dentro dessa lista. Caso não escolha ninguém, é como se tivesse escolhido todos. Não pode, como me interroguei de imediato, fazer uma mistura entre candidatos de várias listas. Portanto, fazendo um paralelismo com as eleições regionais dos Açores, caso houvesse voto preferencial, poderia expressar que queria votar no candidato a presidente do seu partido favorito e no candidato número 14 desse mesmo partido, mas não pode dar a sua preferência a todos os candidatos a presidente de todos os partidos. É que a resposta à segunda pergunta na sequência de voto exclui de imediato os candidatos das restantes listas.
É, assim, por esta razão que o número que aparece nos cartazes é tão importante. O eleitor pode mesmo expressar que não gosta do candidato a presidente proposto pela sua lista e escolher, dentro da lista, outras pessoas para o representar. Para escolher, há que encontrar o número e registá-lo no ecrã no momento do voto.
Estive a fazer uma pequena pesquisa e encontrei um caso em que o candidato a Presidente foi preterido pelo voto preferencial. Mas, segundo apurei, isso é possível na Valónia, mas não em Bruxelas. Em Bruxelas, mesmo que o candidato a Presidente não tenha qualquer voto preferencial, será sempre o Burgomestre se a sua lista for a mais votada. Em resumo, o voto preferencial em Bruxelas pode alterar a ordem de todos os membros da assembleia eleitos exceto o candidato a presidente.
A existência do voto preferencial provoca autênticas guerras dentro da própria lista. Deparei-me com um curioso caso em que desapareceram os cartazes de um determinado candidato e os principais suspeitos eram os concorrentes da mesma lista. Na minha investigação, um outro candidato queixou-se que os seus parceiros estavam a colar os seus cartazes por cima do seu. Uma autêntica selva…
Ainda é cedo para me pronunciar sobre o voto preferencial, porque me dá a sensação de privilegiar os candidatos populistas e espertalhões e não os mais virtuosos. No entanto, entre ter um partido a seriar os candidatos ou os eleitores, como eu ou quem me lê, parece-me ser mais interessante a segunda opção. Algo a refletir!

segunda-feira, 1 de outubro de 2018

Crónicas de Bruxelas: 29 - Em frente ao Pico


Pico visto do Faial.
Foto: F Cardigos

Nos últimos dias antes de regressar a Bruxelas para mais um período de trabalho, vi-me em frente ao Pico. Passeei em frente ao Pico, almocei a olhar para o Pico, tomei banho de água salgada sob a vigilância do Pico, li quase na sombra da ilha montanha e, no entanto, formalmente falando, não estive no Pico. Mas, pergunto-me, será que não estive mesmo no Pico?
Há quinze mil anos atrás, durante a última glaciação, o Faial e o Pico eram apenas uma ilha. Como o nível médio da água do mar estava mais de uma centena de metros abaixo do que está hoje, a meia centena de metros de profundidade do meio do Canal não eram suficientes para separar as duas ilhas. Como o cientista Fernando Tempera oportunamente identificou, há mesmo antigas dunas relíquias em certas zonas do fundo do canal que hoje separa o Faial do Pico (1). Ou seja, em termos históricos, o Faial e o Pico são a mesma ilha e podem ter estado unidas também por praias. Pena que ninguém delas tivesse desfrutado…
Quando pergunto aos meus amigos faialenses de que freguesia são, a maioria das respostas inclui um “mas a minha mãe é de São Caetano”, “São Mateus” ou “vim nascer ao Faial, mas sou do Pico”. Quando oiço as disputas entre estas duas ilhas, não raras as vezes, elas são concluídas com um “e eu até sou do Pico” ou “e eu nasci no Faial”. Neste ponto, a discussão habitualmente esmorece, ficando os interlocutores com o olhar perdido na paisagem do lado de lá… ou será do lado de cá? Muito, mas muito mais do que separa estas ilhas é o que as une e, quase sempre, as disputas são acirradas por pessoas que, dentro ou fora das ilhas, beneficiam do sectarismo e da intolerância.
Vejo os resultados das provas dos botes baleeiros que decorreram por estes dias nas Lajes do Pico. Sem surpresa, o Pico ganhou nos remos e o Faial ganhou na vela. É quase sempre assim, como uma complementaridade que, mais uma vez, encontra confirmação.
Nos últimos dias, eu estive sempre a ver o Pico, sendo mesmo um elemento essencial na paisagem. Por vezes, tento descobrir o Piquinho, tantas vezes escondido entre as nuvens, e olho a Madalena e os seus ilhéus, vejo os barcos a partir para o lado de lá ou a regressar de Oriente. Tudo, nestes dias me foi alimentado pelo Pico. Eu fui mais feliz porque a ilha em frente estava lá, e imponente, o verdadeiro e único topo de Portugal! Se estivesse do lado de lá, com sorte jantando no Ancoradouro, contemplaria o Faial com similar admiração.
Que seria do Faial, e particularmente da cidade da Horta, sem o Pico? Quão pobre ficaria o Pico se lhe levassem o Faial? Estas duas ilhas estão ligadas desde há centenas de milhares de anos e, mesmo por via terrestre, voltarão a estar ligadas na próxima glaciação, dentro de cerca de cem mil anos (2).  
Parto para a Bélgica daqui a pouco. Esse país dividido, extremamente dividido, mas que une a Europa como poucos. Sinto uma certa revolta pelos facilitismos usados por alguns seres humanos para dividir comunidades que têm tudo para aprender e usufruir da mútua companhia. É mais fácil acicatar, acirrar e destruir do que construir e estabelecer pontes perenes. Tal como subir à montanha em frente, o caminho para a felicidade não é fácil, mas fracos seríamos nós se, preguiçosamente, abdicássemos da conquista e da felicidade.


Nota: por correcção do Doutor Fernando Tempera foram introduzidas duas alterações em relação ao artigo publicado:
(1) O termo "fossilizado" foi substituído por "relíquia". Nos trabalhos científicos sugere-se que "que alguns campos de dunas submarinas são hoje relíquias (ou seja, mais ou menos inactivas) de períodos em que o nível do mar estava mais baixo e as correntes no canal seriam suficientemente (mais) intensas para movimentar volumes de sedimento maiores e criar dunas de até 18m de altura.".
(2) O valor "dez mil anos" foi substituído por "cem mil anos" porque "As emissões de CO2 antropogénico que já estão acumuladas na atmosfera irão protelar o início da próxima glaciação em pelo menos 100.000 anos (vide Ganopolski, A., R. Winkelmann & H.J. Schellnhuber (2016). Critical insolation-CO2 relation for diagnosing past and future glacial inception. Nature, 529(7585): 200-203."

segunda-feira, 17 de setembro de 2018

Crónicas de Bruxelas: 28 - A importância de um aceno


Detalhe da estrada entre Santa Cruz e Lajes das Flores.
Foto: F Cardigos

Uma das coisas que sempre me impressionou nos Açores, particularmente nas ilhas de menor dimensão, foi a forma generosa e intuitiva como as pessoas se cumprimentam. Talvez por ser oriundo de Lisboa, onde há uma maior distância entre as pessoas fora do círculo chegado de familiares e amigos, este gesto, com um implícito “estou aqui e estou contigo”, sempre me pareceu valioso. Também por isso, dou-lhe particular atenção e sou sensível a detalhes que roçam o implausível.
Um dos trabalhos que a vida profissional me levou a realizar há cerca de duas dezenas de anos, implicou alojar-me em Santa Cruz das Flores e a trabalhar quotidianamente nas Lajes da mesma ilha. Todos os dias, de madrugada e ao final do dia, conduzia um carro entre as duas vilas desta belíssima ilha. Por inerência aos 18 km de estrada sinuosa, as pessoas tendem a conduzir a baixas velocidades, com a mão esquerda na parte de cima do volante e a direita no manipulo das velocidades. Quando dois carros se cruzam, não podendo largar o volante, um ou mais dedos são alçados e, da outra viatura, surge o mesmo cumprimento. O que é quase inacreditável é que o número de dedos alçados por um condutor é replicado exatamente na mesma medida pelo condutor contrário. Notei isto depois de me cruzar com imensas viaturas e, quase sistematicamente, obter este resultado sempre que eu tomava a iniciativa. Comecei por pensar que seria impressão minha, mas, depois de ganhar mesmo algumas apostas, fiquei convencido. Há um qualquer código de boa educação, escrito ou não, que implica que, naquela estrada, as pessoas se cumprimentem exatamente com o mesmo aceno. Seja um simples “um dedo”, sejam “dois dedos”, “três dedos” ou “quatro dedos”, há uma qualquer comunicação com mensagens implícitas (“bom dia”, “ganhamos”, “foi espetacular!”…?) que eu não entendo, mas registei.
Seja qual for a ilha, há uma outra variância nos acenos relacionada com o tempo de ausência. Quando duas pessoas se veem pela primeira vez após longo tempo, o aceno é transportado para um nível mais elevado. Este aceno implica um passou-bem, apertando firmemente as mãos, entre eles, e dois beijinhos, entre elas ou eles e elas. Nos casos mais emocionais, há mesmo direito a um abraço. Quando a ausência é de um dia, o aceno transforma-se numa exibição da palma da mão (sinal universal de paz, diga-se) e, dentro do mesmo dia, um leve agitar vertical da cabeça. É assim e ninguém prescreveu, que eu saiba.
Todos estes acenos são determinantes e a ausência deles pode levar a conclusões nefastas. Entre o “estava certamente distraído” ao “nem me falou”, passando por todas as possibilidades intermédias, tudo são interpretações que terão de ser escalpelizadas e ninguém ficará tranquilo enquanto isso não acontecer. É assim a vida nas ilhas.
Quando escrevo estas linhas estou no Corvo e prestes a regressar a Bruxelas. Já sei, porque é sempre assim nos primeiros dias, distraidamente, irei cumprimentar quem se cruzar comigo no caminho para casa. Receberei de volta um gesto admirado, quase de medo, ou, mais habitualmente, ir-me-ão ignorar. É assim nas cidades grandes… Mas há exceções! Na floresta em redor da cidade de Bruxelas, no final de semana, entre as pessoas que praticam desporto ou, simplesmente, passeiam, os acenos voltam. Não é, portanto, apenas uma questão de geografia, mas também uma questão de densidade. Parece que uma densidade de pessoas superior a um determinado nível nos torna menos humanos, menos sensíveis e menos empáticos. Talvez…
As terras com acenos, seja nos arredores de uma grande cidade ou nas ilhas dos Açores, são enormemente reconfortantes. Pena que, para se notar, seja necessário sentir a sua ausência.

sexta-feira, 24 de agosto de 2018

Crónicas de Bruxelas: 27 - Corpo Europeu de Solidariedade


Ser solidário
Foto: F Cardigos


Poucas pessoas nos Açores já terão ouvido falar do Corpo Europeu de Solidariedade. No entanto, é importante tê-lo em particular atenção uma vez que, apesar de apenas começar oficialmente em outubro, já tem mais de 60 mil jovens inscritos. Como se pode ler no sítio internet dedicado à iniciativa, este Corpo Europeu pretende dar a oportunidade de fazer voluntariado ou para “trabalhar em projetos, no próprio país ou no estrangeiro, em benefício de pessoas e comunidades de toda a Europa”. Todos os jovens dos 17 aos 30 anos são bem-vindos. Neste momento, há 28 projectos em Lisboa e 2 em Faro, mas talvez seja mais interessante pensar em usar este instrumento para obter uma experiência internacional, fazendo parte de programas também úteis, mas mais enriquecedores do ponto de vista cultural.
Dependendo do projecto específico, as deslocações e as despesas locais poderão ser pagas pela organização que dinamiza a atividade de solidariedade escolhida pelo voluntário. Portanto é muito importante ler com cuidado a descrição do projecto em que nos iremos envolver, não apenas pela componente mais relevante e relacionada com o acto de solidariedade em si, mas também pelas contrapartidas, que, no final do dia, podem ou não viabilizar o projecto individual.
Espera-se que as plataformas de governo multinível sejam envolvidos, desde as autarquias às autoridades regionais e nacionais. Ou seja, o Corpo Europeu de Solidariedade não deve surgir da simples intenção de uma qualquer organização não governamental ou associação, mas sim desenvolver-se num contexto mais alargado e robusto. Esta postura serve também para evitar que o Corpo Europeu de Solidariedade seja utilizado para que essas entidades obtenham mão-de-obra barata e subsidiada pela União Europeia, como já foi alvitrado por alguns. Se isso acontecer na realidade, esta boa iniciativa estará condenada.
A União Europeia tem em curso diversas acções relacionadas diretamente com o apoio aos jovens. O DiscoverEU, o Erasmus e este Corpo Europeu de Solidariedade, cada uma delas constitui uma oportunidade palpável de partir, em simultâneo, para a aventura da descoberta, do conhecimento e da fraternidade.
A propósito do DiscoverEU relembro que estão, neste preciso momento, a viajar de comboio e com as viagens pagas, milhares jovens da União Europeia. Para ter uma ideia do que se passa nessa enorme aventura, desafio uma busca nas redes sociais, como o twitter por exemplo, usando a etiqueta #DiscoverEU. Relembro também que haverá uma segunda oportunidade para os jovens que tenham 18 anos em setembro.
O Programa Erasmus será amplamente reforçado no próximo quadro comunitário de apoio, portanto de 2021 em diante. Pelo que vou vendo à minha volta, pelo entusiamo dos mais jovens por esta iniciativa, os pais que se preparem porque a exceção será os que não tenham tido uma experiência internacional numa parte do seu período formativo. Para além da importância de isso constar no currículo para quando se enfrentar o mercado de emprego, há essencialmente as histórias e as aventuras que eles poderão contar.
A União Europeia está a apostar em força nos jovens europeus, contribuindo para que se tornem melhores pessoas, mais aptas e mais felizes. Tenho que admitir que me causa um enorme orgulho viver neste tempo de oportunidades e espero que os jovens do meu país saibam aproveitar. Atrevam-se!

terça-feira, 21 de agosto de 2018

Crónicas de Bruxelas: 26 - Ser reconhecido

Bandeira do Conselho Europeu e da União Europeia
Foto de Nuno Lopes

No testamento de Mouzinho da Silveira pode ler-se: “Quero que o meu corpo seja sepultado no cemitério da ilha do Corvo, a mais pequena das dos Açores (…); são gentes agradecidas e boas, e gosto agora da ideia de estar cercado, quando morto, de gente que na minha vida se atreveu a ser agradecida.” As palavras, que sintetizo, seguiram-se à demonstração de gratidão que os corvinos exibiram ao então Ministro Mouzinho da Silveira pela sua decisão de reduzir para metade o foro que pagavam, com enorme esforço, desde o século XVI ao século XIX.
Vem isto a propósito da União Europeia e do contributo que a União Europeia disponibiliza à Região Autónoma dos Açores. Olhando para os números do orçamento da Região dos últimos anos, podemos facilmente verificar que entre 10 e 15% da despesa é suportada por fundos europeus. Melhor apenas os contributos do Estado Português, um pouco mais de 15%, e do IVA gerado nos Açores, cerca de 20%. Os contributos financeiros europeus na sua totalidade materializam-se nos diferentes investimentos protagonizados pelo Governo Regional, mas também pelas autarquias açorianas e privados. A proporção do auxílio da União nestes investimentos pode ser, de facto, amplamente maioritária.
Obras como o Nonagon ou o preço reduzido nos transportes aéreos e marítimos entre ilhas, no meio de muitos outros exemplos, resultam parcialmente da “bolsa” da União Europeia. Através de uma consulta simples na internet, por exemplo nos sítios do ProRural ou dos Açores 2020, obtemos uma visão precisa do impacto que a União Europeia tem no nosso dia a dia.
Num artigo recente com autoria de Gualter Furtado, publicado no Diário dos Açores, defendia-se um uso mais abrangente da bandeira da União Europeia como reconhecimento pelo auxílio no estruturar dos valores democráticos e de desenvolvimento. Esta atitude, segundo o autor, seria também uma forma de demonstrar internamente e a quem nos visita que estamos integrados e queremos contribuir para a construção do projeto Europeu.
Parece-me bem e fui verificar quais os preceitos para a utilização da bandeira da União Europeia. Curiosamente, a bandeira da União Europeia não era originalmente desta organização ou das organizações que a precederam (Comunidade Europeia do Ferro e do Aço e Comunidade Económica Europeia). A bandeira europeia remonta ao ano de 1955, quando o Conselho da Europa a adoptou. Essa organização, sim, concebeu e usou originalmente as doze estrelas.
Apenas em 1983, e progressivamente, foi sendo incorporada pelas instituições daquilo que é hoje a União Europeia. Agora, esta bandeira é universalmente utilizada para simbolizar o Conselho da Europa e a União Europeia (duas organizações bem distintas). Hoje em dia, os direitos de autor da bandeira são da União Europeia, mas os princípios de utilização por terceiros foram estabelecidos pelo Conselho da Europa e publicados no Jornal Oficial da União Europeia. É mais uma benigna originalidade da União Europeia…
Tudo isto para concluir que, ao contrário do que acontece com a utilização das bandeiras dos diferentes países, não há regras muito severas para a utilização da bandeira da União Europeia. Ou seja, qualquer pessoa ou instituição pode usar as “doze estrelas douradas dispostas em círculo sobre um fundo azul, que simbolizam os ideais de unidade, solidariedade e harmonia entre os povos da Europa” desde que o faça com respeito e que não tente abusar da presunção de ligação entre a União Europeia ou o Conselho da Europa com o utilizador.
Associarmo-nos ao espírito e valores europeus e demonstrar gratidão à organização de que fazemos parte de pleno direito parece-me também um acto de inteligência e de redundância civilizacional. É um orgulho poder demonstrar a tripla pertença: Açores, Portugal e União Europeia. Hoje em dia, pertencer a esta tríade é saber que, por muitas contrariedades e sobressaltos que hajam, estamos numa sociedade que pretende fazer o Bem e melhorar constantemente.

terça-feira, 7 de agosto de 2018

Plásticos, microplásticos e outros hidrocarbonetos



Tartaruga Caretta caretta no Mar dos Açores
Foto: Sónia Mendes ImagDOP

Há mais de duas dezenas de anos atrás, um bom amigo e reconhecido cientista dizia-me que tinha encontrado uma tartaruga morta e que, para seu espanto, quando lhe fez a necrópsia, reparou que este animal, apesar da nítida subnutrição, tinha o estômago cheio, mas cheio de sacos de plástico. Referia ele de forma que todos entendêssemos, “esta tartaruga morreu de fome com a barriga cheia”. Aparentemente, já então concluíamos, as tartarugas confundiam os plásticos com o seu alimento, as alforrecas, e, não conseguindo digerir ou excretar o plástico, morriam por falta de alimento. Então, o que me preocupava, não entendendo o alcance do que estava à minha frente e de forma até um pouco egoísta, era que, se o número de tartarugas começasse a diminuir, teríamos mais águas vivas (alforrecas) o que dificultaria os meus passeios subaquáticos. Na realidade, esse era o menor dos problemas…
Estes plásticos perdidos nas águas começaram a matar tartarugas de diversas formas. Mas não é só este o impacto.  A sua progressiva degradação, sabe-se hoje, transforma-os em microplásticos. Estes pequenos detritos são consumidos pelo plâncton, a base da maioria das cadeias alimentares marinhas, fazendo com que estes pequenos organismos, também eles, morram por subnutrição ou, noutros casos, reduzam tanto a sua condição que, apesar de não morrerem, deixam de ter as características necessárias para servirem de verdadeiro alimento para os níveis tróficos superiores. Ou seja, simplificando, estivemos, em tempos idos, à beira de extinguir as grandes baleias por as perseguirmos e matarmos e, hoje, podemos estar a ameaçá-las reduzindo assustadoramente a qualidade do seu alimento.
A solução é conhecida. Há que reequacionar a utilização de todos os plásticos, reduzir o seu uso, privilegiar o uso de plásticos que permitam reutilização, reciclá-los caso não se possam reutilizar, e, em último caso, incinerá-los para produzir energia. Nos dias de hoje, por diversas razões, o depósito de plásticos em aterro é impensável e o seu arremesso para as linhas de água ou para os oceanos é um ato criminoso.
Nesta linha de pensamento, a Comissão Europeia lançou recentemente uma proposta legislativa que limita muito o plástico de uso único (cotonetes, palhinhas e outros). Ao mesmo tempo, o Reino Unido, que está em vias de sair da União Europeia, já anunciou medidas similares, o mesmo acontecendo na cidade de Seattle (Estados Unidos). A Índia quer ir mais longe e pretende banir o uso de diversos tipos de plástico.
Como um exemplo simples de reação individual, refiro o café onde costumo ir tomar o pequeno-almoço quando estou em Bruxelas. Este estabelecimento já anunciou aos seus clientes que irá descontinuar o uso de palhinhas. As bebidas servidas no café já não têm palhinhas de qualquer tipo e as bebidas para levar terão palhinhas de algas ou de baunilha, ficando a escolha ao critério do consumidor.
Em relação à procura de soluções para o plástico que já prolifera pelos mares, tem havido diversas iniciativas mais ou menos visionárias. Desde o “comedor” de plástico de Boyan Slat ao simples apoio financeiro aos pescadores e outros profissionais dos mares que recolherem plásticos flutuantes, estão em cima da mesa dezenas de soluções.
Para os céticos, relembro que a humanidade já conseguiu lidar com problemas sem aparente solução nas mais diversas frentes. Já nos livramos do fascismo durante a segunda guerra mundial, já reduzimos drasticamente o buraco do Ozono e já nos livrámos do alcatrão flutuante. Todos eram problemas sem solução e cá estamos.
Somos uma espécie brilhante e o problema dos plásticos na água, tal como o aquecimento global, ambos com os hidrocarbonetos fósseis em comum, são problemas interligados e com solução. Há apenas que arregaçar as mangas e resolver!


(english version)

Plastics, microplastics and other hydrocarbons


Sea-turtle Caretta caretta tied by gost net.
photo: F Cardigos

More than two dozen years ago a good friend and recognised scientist told me that he had found a dead turtle and, to his astonishment, when he performed a necropsy he noticed that this animal, despite its malnutrition, had a full stomach. Full of plastic bags... "This turtle died of starvation with a full belly", he concluded in a way that we all understood.
Apparently, turtles confuse plastics with their food, jellyfish, and, unable to digest or excrete it, they die from starvation. What worried me at that point, not understanding the full consequences of what was in front of me, was that if we started to reduce the number of turtles we would have more jellyfish which would make my underwater excursions difficult. In fact, this was the least of the problems...
These lost plastics kill turtles in different ways. But there is more to the issue than that. The progressive degradation of plastics, it is known today, turns them into microplastics. These small debris are consumed by plankton, the basis of most marine food chains, again causing these small organisms to starve or, in other cases, to worsen their condition to a point that, although alive, they no longer have the characteristics necessary to serve as true food for higher trophic levels. In other words, we have been on the verge of extinguishing the great whales by chasing and killing them and, today, we may be threatening them by alarmingly reducing the quality of their food.
The solution is known. It is necessary to reconsider the use of all plastics, to reduce their use, to favour the use of plastics that allow reuse, to recycle them if they cannot be reused, and, as a last option, to incinerate them to produce energy. Nowadays, for various reasons, the deposit of plastic in landfill is unthinkable and throwing it to the water lines or to the oceans is a criminal act.
In this line of thinking, the European Commission has recently launched a legislative proposal that greatly limits single-use plastic (swabs, straw and others). At the same time, the United Kingdom, which is about to leave the European Union, has announced similar measures, and so did Seattle (USA). India wants to go even further and intends to ban the use of various types of plastic.
The coffee shop where I usually go to have breakfast when I am in Brussels has already informed its customers that they will discontinue the use of plastic straws. The drinks they serve in the shop do not have straws of any kind and the drinks to take away will have straws of algae or vanilla.
Concerning the plastic that already proliferates in the seas, there have been several initiatives more or less visionary. From Boyan Slat's plastic "eater" to the simple financial support for fishermen and seaman who collect floating plastics, dozens of solutions are on the table.
For the sceptical people, I recall that humanity has been able to deal with problems with no apparent solution in a large variety of domains. We got rid of fascism during World War II, we got rid of most of the ozone hole and we got rid of the floating tar, just to mention three examples in different areas. All were problems without solution and here we are.
We are a brilliant species and the problem of plastics in the water, such as global warming, are problems interconnected by hydrocarbons and with solution. We just have to roll up our sleeves and do it!


segunda-feira, 6 de agosto de 2018

Crónicas de Bruxelas: 25 - Bruxelas partiu para parte incerta


Rotunda de Schuman, vista parcial
Foto: F Cardigos

Chegou o Verão.
Para além das temperaturas elevadas que assolam Bruxelas, a cidade esvaziou-se de pessoas, parecendo mesmo que partiram para parte incerta. As férias escolares levam muitos funcionários a, naturalmente, pedir férias durante o Verão e como por aqui se trabalha essencialmente em rede, faltando tantos “nós” dessa rede, os restantes funcionários acabam por partir também ou, no máximo, aproveitam para meter o escritório em dia. Portanto, a azáfama que normalmente se vê pelas ruas das instituições europeias, seja por ausência geográfica ou seja por o trabalho estar mais concentrado no interior dos escritórios, é substituída por uma cidade essencialmente fantasma.
Algumas instituições levam este período de uma forma tão rigorosa que, simplesmente, fecham. Por exemplo, o Parlamento Europeu encerrou todos os trabalhos no edifício principal aqui em Bruxelas no dia 13 de julho e apenas voltará a estar em pleno funcionamento no dia 27 de agosto. Durante esse tempo, os eurodeputados deverão ocupar duas semanas em visitas às circunscrições que os elegeram e gozar o seu período de férias. Em termos genéricos, o mesmo acontece no Conselho, ficando apenas ativa a Comissão Europeia.
O Comité Económico e Social e o Comité das Regiões são órgãos consultivos do Parlamento Europeu, Conselho e Comissão e mantêm os seus trabalhos até um pouco mais tarde, efetuando algumas das audições públicas que ajudam a estruturar as suas opiniões. Nessas audições encontramos alguns dos representantes de setores, os chamados lobistas, e os representantes regionais com presença permanente em Bruxelas.
O Gabinete dos Açores em Bruxelas mantém as suas portas abertas até ao início de agosto, sendo um dos raros casos em que isso acontece. A maioria das representações regionais vão partindo a partir do meio de julho até que, na última semana desse mês, quase nenhuma está por Bruxelas.
Na representação da Região Autónoma dos Açores fazem-se os últimos relatórios de participação em reuniões e audições, preparam-se os boletins informativos temáticos que serão emitidos durante o mês de agosto e prepara-se o mês de setembro, agendando reuniões e analisando o final do período legislativo. A especial ênfase ao final do período legislativo justifica-se porque o Parlamento Europeu terá eleições no mês de maio de 2019 e, até lá, nova e complexa legislação terá de estar discutida e aprovada. Entre os diferentes dossiers, assumem particular importância o quadro financeiro plurianual de 2021 a 2027 e seus derivados nas componentes relacionadas com a coesão, agricultura, pescas, ambiente, energia e ciência.
No dia 4 de agosto e até dia 27, também nós partiremos, deixando Bruxelas ainda mais perdida na sua particular solidão. A cidade será devolvida aos seus legítimos donos, os belgas, e partilhada com aqueles turistas que procuram a cidade da arte nova, das florestas, dos jardins e dos museus que, no restante ano, é positivamente esmagada por 20 mil funcionários europeus e, talvez, o equivalente ao dobro em funcionários de estruturas de apoio e de sensibilização.
Do Gabinete dos Açores em Bruxelas olho para a rotunda de Schuman. Este espaço, que no restante período do ano está ocupado com manifestações e ações de sensibilização ou motivação para políticos, está com um ar desolador. O senhor que num dos extremos vende flores e o seu amigo que vende fruta já se despediram de mim na semana passada. Estavam felizes, celebrando o Verão, as férias e o descanso, tal como daqui a algumas semanas celebrarão, com empenho, a chegada do frio e do trabalho. Todos nós!

segunda-feira, 23 de julho de 2018

Crónicas de Bruxelas: 24 - DiscoverEU+? Sim, mas também DiscoverEUultra!


Vista noturna em Estrasburgo.
Foto: F Cardigos

A primeira fase da excelente iniciativa do Parlamento Europeu foi executada de forma brilhante pela Comissão Europeia. Cem mil jovens de dezoito anos, sim, escrevi bem, cem mil, um estádio de futebol dos grandes cheio de jovens, concorreram ao DiscoverEU. Estes jovens da União Europeia candidataram-se aos 15 mil passes que dão acesso a um mês inteiro de viagens gratuitas de comboio. Em Portugal, já se sabe, houve 302 jovens selecionados que partirão para a grande aventura no início do Verão.
Não me canso de dizer e de escrever, vai ser espetacular. Só pode ser espetacular!
Os jovens selecionados terão agora de encontrar os recursos necessários para se alimentar e para pagar as estadias, mas esse é um problema menor. Sendo jovens, terão facilmente o engenho para encontrar sítios baratos (pousadas da juventude e parques de campismo) ou encontrar os trajetos que os levem a cruzar-se com casas de familiares que os acolham, entre muitas outras possibilidades. Para a alimentação terão de ter algum dinheiro, mas, estivessem onde estivessem, teriam de comer, portanto… há que aprender a cozinhar, para os que não sabem ainda, comprar alimentos baratos e transformá-los em iguarias irresistíveis. Estou desejoso de ler os relatos. Ah, importante, não se esqueçam de verificar o seguro de viagem e do cartão europeu de seguro de doença! Os azares acontecem e, portanto, nada melhor do que estar prevenido.
Como referia atrás, já é conhecido o número de selecionados em Portugal. Fazendo uma proporção à população residente, isto dá-nos que eventualmente terão sido selecionados 7 ou 8 jovens dos Açores. Não tenho conhecimento de haver qualquer regra de atribuição de quotas por região, portanto, na realidade, podem ter sido selecionados de zero a 302 jovens dos Açores. Seja 1 ou sejam 302, boa sorte e divirtam-se!
Ao falar com os meus botões, perguntei-me, “será que este programa irá continuar no futuro?” Quero crer que sim. Espero que continue e que a Comissão e o Parlamento Europeu encontrem as ferramentas para aumentar o número de viagens financiadas. Cem mil concorrentes para 15 mil vagas dá uma probabilidade de ser selecionado na ordem dos 15%. É pouco. Deveria haver muito mais vagas. Aliás, na realidade, contas minhas, devem haver cerca de 6 milhões de jovens com 18 anos na União Europeia, portanto, a margem de crescimento potencial do programa é enorme. Colocando estes números de outra forma, apenas 0,25% dos jovens europeus com 18 anos poderão partir no programa DiscoverEU. Obviamente, nem todos estão interessados e nem todos terão a capacidade de o fazer, mas, na minha opinião, se a primeira edição do DiscoverEU correr bem do princípio até ao fim, há que pensar em transformá-lo num DiscoverEU+, com ainda mais lugares disponíveis e, quem sabe, com uma bolsa associada que ajude a pagar parte das estadias e da alimentação? Coisas a pensar no final do Verão. Para já, o plano da Comissão Europeia é abrir uma nova chamada em outubro e, depois, simplesmente, fazer “explodir” estes números e, a partir de 2021, financiar 200 mil jovens por ano! Fabuloso!
Na realidade, os meus botões querem ir ainda mais longe. É evidente que os objectivos do DiscoverEU são importantes: proporcionar aos jovens da União Europeia a possibilidade de conhecer as culturas do Velho Continente e viverem grandes aventuras na sua casa alargada, fomentando a coesão e solidariedade entre os povos. Mas… Como temos verificado nos diferentes plebiscitos europeus, com particular ênfase no Brexit, os jovens acreditam, reconhecem e valorizam os ideais europeus. O calcanhar de Aquiles, na realidade, são os mais idosos. São os idosos que veem o sucesso Europeu com maior desconfiança, são os mais idosos que têm maior receio dos refugiados e migrantes e são os mais idosos que parecem não compreender a importância e o potencial de vivermos em União. Há que os sensibilizar!
Para responder a este problema, claro está, não espero convencer os mais idosos a partir numa aventura de um mês saltitando de cidade em cidade e de comboio em comboio. Compreendo e sou solidário. Os interessados neste programa viajarão de avião e poderão, se assim o quiserem, viajar com os netos. Quem esteja reformado poderá, no meu sonho, candidatar-se a viajar com os seus netos para qualquer região da União Europeia. Ilustrando, no caso de Portugal, o Sr. Tibério e a Sra. D. Maria de Fátima, ambos da ilha do Corvo nos Açores, poderão pegar nos seus seis netos (Ana Rita, Marta, Tomás, Maria Inês, Rafael e Mariana) e viajar até Estrasburgo, onde irão visitar a sede do Parlamento Europeu e, durante uma semana, usufruir de uma das mais belas cidades da Europa.
O meu DiscoverEUultra é um sonho, eu sei. Mas muitas das grandes obras nascem de sonhos maravilhosos!

segunda-feira, 9 de julho de 2018

Crónicas de Bruxelas: 23 - Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas em Bruxelas

Bruno Bettencourt tocando viola-da-terra na Embaixada de Portugal na Bélgica
Por F Cardigos


Compreendo as razões subjacentes ao Dia de Portugal ser também o Dia de Camões e das Comunidades Portuguesas. É uma forma de integrar a cultura, aquilo que nos define enquanto povo, e a nossa extensão extraterritorial. No entanto, nada disso se sente tão bem como estando fora de Portugal no dia 10 de junho. Em Portugal, o nosso país, com as suas virtudes e defeitos, não está em questão nem está distante. Vivendo no estrangeiro, esta inevitabilidade não é nada evidente. Os emigrantes sentem realmente saudades do seu país e da sua cultura e, ao mesmo tempo, dada a distância, põem em causa a sua portugalidade. Portanto, as celebrações do nosso país são igualmente importantes e determinantes. Importantes porque dão a oportunidade de relembrar a cultura e são determinantes para que os nossos emigrantes, envolvidos pela cultura e pelo país que os recebeu, não abandonem a sua identidade de origem.
Este ano, na Bélgica, pude assistir às celebrações do Dia de Portugal com uma atenção redobrada. A iniciativa do Presidente da República em celebrar o Dia de Portugal nos Açores e nas comunidades açorianas da América do Norte motivou algumas embaixadas de Portugal pelo mundo a associarem-se à nossa Região Autónoma. Este foi precisamente o caso da Embaixada de Portugal em Bruxelas. Dinamizado pelo Embaixador Alves Machado em associação com o Embaixador responsável pela Representação Permanente de Portugal junto da União Europeia, Nuno Brito, e com o Embaixador responsável pela Representação Permanente de Portugal junto na NATO, Almeida Sampaio, o Dia de Portugal tornou-se este ano, de certa forma, o Dia de Portugal e Açores.
Houve momentos particularmente felizes, mesmo emotivos, como a atuação de Bruno Bettencourt, exibindo o som e explicando a viola-da-terra dos Açores na sala Damião de Goes da Representação Permanente de Portugal. Esse momento em particular, dignificado também pela presença da Diretora Regional dos Assuntos Europeus dos Açores, Célia Azevedo, deixou-nos, aos açorianos, com a garganta apertada ao ouvir parte do nosso reportório tradicional ou, numa novidade para mim, música de Carlos Paredes tocada no instrumento de cordas mais nobre das nove ilhas. No entanto, o que mais me chamou a atenção foi a duração das festividades. Para além dos diplomatas, também as associações de portugueses em Bruxelas dinamizaram diversas iniciativas, o que resultou em celebrações que tiveram início no dia 9 de junho e apenas terminaram no dia 12. No dia 10, o campo de jogos do Parque Leopoldo ficou pequeno para as centenas de portugueses e seus convidados que queriam degustar as propostas gastronómicas razoavelmente lusas que ali eram partilhadas. A música popular ajudou a passar uma agradável tarde em que se ouvia português com os mais diversos e sotaques. O português é uma língua extraordinária!
No dia 11 de junho, com entardecer reservado às cerimónias formais na Representação Permanente de Portugal, centenas, talvez 400 pessoas, lotaram um espaço em que, entre outros, foram consumidos vários queijos de São Jorge, Faial e São Miguel, 200 queijadas de Vila Franca e vinhos do Pico. Dois televisores e um ecrã apresentaram filmes dos Açores; pinturas, desenhos e fotografias das melhores paisagens e mostrando a biodiversidade dos Açores polvilhavam as paredes da sala e centenas de brochuras davam soluções a quem nos quiser visitar ou, simplesmente, conhecer melhor o arquipélago.
Claro que devemos tentar celebrar o Dia de Portugal todos os dias, mas, nessa impossibilidade, penso que, graças ao esforço de todos, o nosso país e, em particular, os Açores ficaram dignificados nestes dias em terras do Rei dos Belgas.

sábado, 16 de junho de 2018

Crónicas de Bruxelas: 22 - Sim, diga lá, o que é a que União Europeia jamais fez por nós?


Edifício Berlaymont da Comissão Europeia em Bruxelas
Foto: F. Cardigos

Há muitos anos, integrado no filme “A vida de Brian”, vi pela primeira vez um maravilhoso sketch dos Monthy Phyton em que, perto do século I, uma hipotética força de resistência debatia a invasão romana. Numa reunião clandestina, perguntavam-se “o que é que os romanos jamais fizeram por nós?!”. Num conjunto de perguntas e respostas hilariantes, a resposta automática era “nada”. Após alguma reflexão, no meio de um total caos argumentativo, alguém dizia “o aqueduto” e outro “o saneamento básico”. A resposta do dinamizador, passava a ser “tudo bem, tirando o aqueduto e o saneamento básico, digam-me lá o que é que os romanos jamais fizeram por nós?”. Alguém de imediato acrescentava “as estradas”. O sketch continuava num crescendo alucinado que me agrada bastante e aconselho. Enfim, a conclusão é que, de facto, apesar da resistência local, os romanos tinham constituído um enorme avanço civilizacional.
Numa adaptação também hilariante, em 2016, e como ação de campanha pela manutenção da Grã-Bretanha na União Europeia, alguém enumerou algumas das vantagens desta estrutura. As vantagens para a Grã-Bretanha eram “57% do comércio”, “estabilidade económica e comercial”, “combate aos monopólios”, “ar e mares menos poluídos”, “proteção do ambiente”, “bem-estar animal”, “proteção dos direitos dos trabalhadores”, “férias pagas”, “viagens baratas”, “cuidados de saúde”, “educação”, “ciência”, “vinho”, “combate anti-terrorista”, “restrições a fumar em lugares públicos fechados ou locais de trabalho” e a “paz”. Mesmo assim, o resultado do referendo foi o que se viu… A minha conclusão é que, de facto, há uma certa propensão involuntária para ignorar as partes boas e realçar abundantemente o menos bom. Qual a responsabilidade dos órgãos de comunicação social, das redes sociais e de políticos populistas neste estado de coisas é algo que merecerá reflexão, mas não agora.
Neste momento, muito poderia ser dito sobre a União Europeia e o seu papel. Irei apenas salientar dois factos que aconteceram precisamente na semana passada: o Regulamento Geral de Proteção de Dados Pessoais entrou em vigor e foi proposta a proibição de uso massivo de plásticos de utilização única (vulgo “palhinhas e cotonetes”). São duas ações meramente exemplificativas por serem recentes e com cruciais consequências para o nosso bem-estar pessoal e ambiental.
A primeira ação, o Regulamento Geral de Proteção de Dados Pessoais, entre outras obrigações, impedirá que empresas e organismos públicos detenham e utilizem os nossos dados pessoais sem a nossa autorização. É um enorme passo civilizacional e que abala os gigantes informáticos, como o Facebook e o Google, e liberta a nossa caixa de correio eletrónico. No entanto, o ponto essencial é que a nossa privacidade, que tem sido desprezada e violentada nos últimos anos, acaba de ganhar uma nova importância.
A proibição de uso massivo de plásticos de utilização única é mais uma visionária ação da União Europeia. Reconhecendo que a proliferação dos microplásticos nos oceanos pode colapsar a vida tal como a conhecemos, incluindo a nossa, a Comissão resolveu propor acabar com o mal pela raiz, limitando em muito o uso de plásticos. Muito bem!
No ano passado, tive a oportunidade de ouvir cientistas turcos falarem sobre qualidade ambiental. Na sua palestra referiam-se abundantemente aos pontos de referência da “Diretiva” para a qualidade da água. Fiquei surpreendido porque não esperava que tivessem regras ambientais de tão alto-nível dedicadas à qualidade da água. No final, abordei-os e perguntei há quanto tempo tinham aprovado estas regras ambientais. A resposta não foi menos surpreendente, “não aprovamos”, “usamos as da União Europeia”.
A Comissão Europeia é o órgão executivo da União Europeia e tem cerca 32 mil funcionários. Estes trabalhadores constituem o corpo central que edifica e organiza a ação conjunta de 28 Estados com consequências positivas que se estendem muito para além das nossas fronteiras. Em muitos aspetos, a visão, leis e resultados da União Europeia apontam caminhos e soluções que, com o tempo, passam a ser globais.
Independentemente de outros detalhes relevantes como os expostos acima, o investimento na União Europeia é um apoio fundamental para a liberdade, para a livre circulação e para a paz. Se nada mais houvesse, para mim, estes pontos já valiam os 1,14% do PIB com que cada Estado contribui para o seu orçamento.

sábado, 2 de junho de 2018

Crónicas de Bruxelas: 21 - Dissertando sobre participação a propósito de um Concerto no Parque


Concerto no Parque
Por Frederico Cardigos

Há uns dias atrás, atraído pela música, entrei num dos muitos parques de Bruxelas. Outrora o cemitério de Etterbeek, o Parque de Georges Henri foi transformado em local de lazer e é hoje disfrutado por centenas de pessoas mal o Sol desponta um pouquinho. Outra curiosidade deste parque, é ter ganho o nome da avenida que lhe é contígua, a avenida Georges Henri, e esta obteve o nome como homenagem aos filhos do proprietário que foi expropriado para esta ser construída. Uma abordagem curiosa.
Neste final do dia que mencionava no início deste texto, no parque havia uma banda musical que ajudava a celebrar a geminação entre a Commune de Woluwe Saint Lambert com a cidade francesa de Meudon. Uma nota para explicar que uma Commune é uma divisão territorial belga que tem uma dimensão entre uma câmara municipal e uma junta de freguesia em Portugal. Léopold Nord & Vous, mais tarde acompanhados por Philippe Lafontaine, animaram o anoitecer com músicas bem conhecidas da maioria das pessoas que assistiam, como pude comprovar pelo acompanhamento empenhado e permanente. Foi um serão bem passado, até para mim que ali não conhecia por ali ninguém.
Escrevo sobre este assunto porque sinto que aqui em Bruxelas há permanentes possibilidades de participação. Por iniciativa das Commune, mas também das diferentes organizações, governamentais ou não, há sempre atividades bem variadas. Há até organizações especialistas em orientar os recém-chegados para as ações mais próximas dos seus interesses. Claro que qualquer pessoa se pode queixar de solidão, mas quebrá-la, aqui, está, de facto, a palmo e meio de distância.
Ajuda a esta mobilização o facto de a maioria das decisões administrativas serem alvo de discussão pública ou, no mínimo, de informação prévia. Por exemplo, há umas semanas, a Commune decidiu construir uma passagem para peões na rua em que habito quando estou em Bruxelas. Eu soube disso com muitos dias de avanço porque uma informação especial da Commune tinha sido distribuída pelo correio, explicando aí os detalhes da intervenção e lamentando o incómodo. Não custa nada e fica bem.
Penso que, para além do que certamente mandará a lei, há aqui a noção que envolver os cidadãos no processo de decisão ou acompanhamento é uma forma adicional de promover informação sobre o benefício da obra e dar visibilidade a quem a dinamiza. Uma coisa é certa, são muitas obras!
Como resultado desta mobilização motivada pelas diferentes administrações e organizações, nasceu um espírito de participação muito activo. Quando sentem que podem fazer diferença, os belgas de Bruxelas mechem-se. Uma das mais expressivas ações de mobilização esteve relacionada com a alteração de rotas com que os aviões deveriam abordar o aeroporto de Bruxelas. Entre os que, vítimas do barulho, queriam que se alterassem as rotas e os que, com medo do mesmo barulho, desejavam que não se alterassem houve uma discussão que incluiu até enormes bandeiras nas varandas.
Na minha organização mental, a participação cívica tem três níveis. A participação passiva, aquela que nos leva a ver um jogo de futebol no estádio ou ouvir uma ópera no São Carlos, a participação ativa, é aquela que nos leva a participar num workshop, numa organização partidária ou a, simplesmente, escrever um artigo de jornal, e, por último, há a participação liderante. Neste último caso, o cidadão, por exemplo, dirige uma ação, monta uma exposição ou funda uma organização não governamental. Nalguns momentos da nossa vida, quando estamos deprimidos, não queremos saber de participação. Noutros, de acordo com a motivação, aventuramo-nos até a liderar ou fundar movimentos. Seja qual for a forma ou o momento, o importante, e é mesmo importante, é participar!

terça-feira, 15 de maio de 2018

Crónicas de Bruxelas: 20 - E agora temos de conviver com os animais dos outros…

Cão num restaurante de Bruxelas.
Foto: Frederico Cardigos


Por decisão da Assembleia da República, passará, em breve, a ser possível fazermo-nos acompanhar de animais de estimação durante as refeições nos restaurantes em Portugal. A mudança, por definição, é difícil e, sem surpresa, pude ouvir de imediato algumas vozes de indignação. O interessante é que alguns dos indignados, que muito prezo, estão aqui em Bruxelas, onde desde há muitos anos os animais de estimação são autorizados em restaurantes, sem que eu os tenha ouvido a queixarem-se. À minha observação, salientando a contradição, as respostas variam entre “mas aqui não estou na minha terra” ou, usando os ditados populares, “em Roma sê romano”.
Ora, o que me parece é que os donos dos animais interessados em os levar aos restaurantes, não para comer, obviamente, mas para continuar a usufruir da sua salutar companhia, terão de se interrogar se os seus animais se saberão comportar. A uma resposta negativa terá de corresponder a atitude cívica de não os levar. Eu agradecerei. De resto, não me incomoda nada que os animais lá estejam. Vendo bem, muitos de nós temos gatos ou cães em casa, portanto, porque não tê-los no restaurante? Apenas porque são de desconhecidos? Teremos de confiar e ser mais tolerantes.
Esta história dos animais na restauração fez-me recordar outras mudanças “impossíveis” do passado recente e ocorridas, precisamente, na restauração. Refiro-me aos telemóveis e ao tabaco.
Quando apareceram os telemóveis nos Açores, havia uma onda de censura a quem os usasse nos restaurantes e cafés. Lembro-me quando me chamaram à atenção apenas por ter o telemóvel em cima da mesa... Os telemóveis eram uns objetos volumosos, barulhentos e feios, de facto. Depois, passámos à fase contrária, em que tudo se tolerava e as pessoas passaram não só a tê-los à vista, como os usavam e, supremo da má-educação, entretinham-se a escolher o som de toque durante as refeições! Houve torturas medievais mais suaves… Com o tempo e sem legislação, penso eu, ganhámos o saber coletivo de usar o telemóvel sem incomodar os restantes, saindo inclusivamente da sala para não incomodar, no caso de ter mesmo de atender a chamada.
Com o tabaco, quando se decidiu bani-lo dos restaurantes, a reação foi ainda pior e a mudança, por contraste, mais rápida. Todos, ou quase todos, diziam que a cultura portuguesa não iria permitir banir o tabaco da maioria dos cafés e restaurantes. Até eu, que não sou fumador, tinha dúvidas quanto à obediência e até quanto à utilidade. Mudei quando, pela primeira vez na vida, consegui olhar de um extremo da sala para a luz da entrada do meu café habitual (o “Peter” na Horta) sem ver poeira no ar. Afinal não era poeira! Afinal havia diferença e os pulmões iriam agradecer. Passados poucos dias, entendemos que a diferença tinha sido para melhor e hoje seria impensável voltar atrás.
Trago estes dois pontos para cima da mesa (ou não estivesse a escrever sobre restaurantes) porque me parece que, em breve, estaremos a conviver em paz com os animais de estimação que formos encontrando durante almoços e jantares. Esta alteração poderá ser mais rápida, como foi o caso do tabaco, ou mais complexa e lenta, como foi com os telemóveis. Como pessoa que passa muito tempo em Bruxelas, onde a presença de cães nos restaurantes é frequente, apenas posso dizer que não me causa qualquer perturbação. Estou convicto que, em breve, também não transtornará ninguém em Portugal.

sábado, 5 de maio de 2018

Crónicas de Bruxelas: 19 - Leves dissertações sobre a língua


Meios de transportes quinhentistas no Museu da Marinha
Foto: Frederico Cardigos

Uma das teorias que mais aprecio no mundo da biologia está relacionada com a falta de diversidade genética nas populações fundadoras. O conceito é muito simples, mas com aplicações que vão muito além da biologia. Basicamente, aquilo que se postula é que, num novo povoamento, a diversidade de indivíduos é, muito provavelmente, menor que na população original. Se pensarmos um pouco, rapidamente concluímos que apenas poderia ser desta forma.
Imaginemos a diversidade da população portuguesa residente em Portugal na atualidade. A sua diversidade genética é equivalente aos seus cerca de 10 milhões de indivíduos. Uma diversidade extraordinária. Se, no século XVI, uma pequena componente da nossa população, digamos de 1000 pessoas, saísse de Portugal e fosse, imaginemos, para o Brasil, obviamente, essa subpopulação teria uma diversidade genética muito menor, principalmente, como muitas vezes era o caso, se a população dadora fosse ela própria já segregada (limitada a poucas povoações relativamente isoladas). É lógico. O resultado dos cruzamentos dessa população ao longo de gerações, admitindo que não havia cruzamentos com os índios sul-americanos ou com as restantes populações de outros países europeus que colonizaram o Brasil, teria sempre uma diversidade mais baixa que a população portuguesa de Portugal. Aliás, porque a população original, na metrópole, também aumenta a sua diversidade ao longo das gerações, muito dificilmente a subpopulação brasileira poderia atingir os níveis de diversidade de Portugal.
No entanto, como todos sabemos, a população portuguesa que chegou ao Brasil não se manteve isolada e, rapidamente, houve cruzamentos com a população local dando origem a uma extraordinária diversidade. Tudo isto é pacífico. A coisa, para mim, torna-se particularmente engraçada quando saímos das questões de genética e entramos na linguística.
Ora acontece que a língua não se mistura com a mesma facilidade. Não podemos colocar um português e um índio do Amazonas a falar um com o outro, nas respetivas línguas originais, e esperar que a geração seguinte fale com uma mistura das duas. Apesar de ser exatamente isso que acontece a nível genético, não é de todo o que acontece a nível linguístico. A geração seguinte, na melhor das hipóteses, falará as duas línguas de forma independente e, por vezes, contaminará de forma limitada cada uma das línguas com sotaques e com as palavras que esta não tinha originalmente. Voltando ao Brasil do século XVI, imagino que o português local tenha sido contaminado com as palavras inerentes aos nomes das espécies de plantas e animais que não conheciam e, em sentido contrário, os indígenas tenham usado palavras portuguesas para, por exemplo, descreverem a instrumentação usada nos navios. Ou seja, exemplificando, certamente que as línguas locais do Brasil ganharam a palavra “astrolábio” e os portugueses, que jamais tinham visto um “tucano”, adotaram esse nome na língua de Camões.
Voltemos um pouco atrás. Muitos de nós, eu certamente, gostamos muito da forma como os brasileiros falam português. Aquele quase cantar atrai-nos e, parece-me, um português mais simples, bonito, prático e escorreito. É assim que eu sinto. Na música, especialmente, o português do Brasil sabe-me mesmo bem.
Não há descrições muito precisas, tanto quanto sei, sobre a forma como se falava português no Portugal do século XVI. No entanto, porque não houve diversidade suficiente para uma grande evolução da língua no Brasil, imagino que o português do Brasil se deve aproximar muito do português que se falava em Portugal no século XVI, especialmente o que falavam as populações que para lá emigraram.
Para Brasil e Portugal, sendo uma teoria com alguma validade, tanto quanto sei, nunca foi comprovada ou estudada. Já os franceses estudaram a relação entre o francês do Canadá e o francês falado em França e concluíram que o québécois (francês falado no Estado do Quebeque no Canadá) é, na realidade, um francês antigo. Lá está, reforça-se a possibilidade da minha teoria relativamente ao português do Brasil. Resta saber se é verdade… Entre a teoria e a realidade vai um mundo de possibilidades e eu não sou filologista.
Estando muitas vezes em Bruxelas, pergunto-me frequentemente se o meu português irá mudar, contaminado com palavras do francês, do flamengo e das outras dezenas de línguas que por aqui se falam. Expressões como “et voilá”, quando concluo uma tarefa, ou um “dank u wel”, para agradecer qualquer coisa, saem-me ocasionalmente, mas desaparecem muito rapidamente quando passo uns dias em Portugal da mesma forma como os francesismos ou americanismos, que pareciam perenes, desaparecem rapidamente do léxico dos emigrantes portugueses que regressaram de França e dos Estados Unidos da América. As línguas, a nível individual, são como a água e o azeite, podem misturar-se se agitamos muito, mas, passado pouco tempo, estão novamente separadas. Há maravilhosas exceções, como os crioulos, o que torna tudo isto ainda mais fascinante!

domingo, 22 de abril de 2018

Crónicas de Bruxelas: 18 - Gabinete dos Açores em Bruxelas


Aspecto estilizado de um dos espaços do Gabinete dos Açores em Bruxelas
Por F. Cardigos

Desde meio de outubro de 2017 que a cidade de Bruxelas tem uma “ilha” do arquipélago dos Açores. O arquipélago é agora promovido, defendido e representado não apenas pelo trabalho dos deputados Europeus, não apenas por parte da representação permanente de Portugal junto das instituições europeias e não apenas pela força e empenho das dezenas de açorianos que aqui vivem e trabalham. Desde meio de outubro que está em plena atividade o Gabinete dos Açores em Bruxelas.
Assente em termos legais numa Estrutura de Missão para a sua implementação, o Gabinete dos Açores tem orientado a sua atuação segundo diversos vetores. Primeiro, houve que dar visibilidade ao Gabinete dos Açores em Bruxelas e demonstrar competência. Apenas desta forma poderemos ser respeitados, ser tomados em consideração e ter o privilégio de acompanhar com detalhe o desenvolvimento dos processos legislativos que nos são particularmente úteis. Para isso, o Gabinete tem mantido reuniões com os interlocutores considerados chave no que diz respeito às suas prioridades de atuação, tem participado nos eventos mais significativos e dinamiza uma conta no Twitter (@AzoresEUoffice), visto ser este um importante meio de divulgação usado pelas instituições europeias. Um dos indicadores de sucesso neste campo é o convite para participar em alguns grupos de trabalho. Isso já aconteceu na área da energia, da investigação científica marinha, das pescas e da mineração.
O segundo vetor consiste em facilitar a estadia dos açorianos que se encontram ocasionalmente em Bruxelas. Para isso, o Gabinete mantém dois espaços de trabalho e uma sala de reuniões numa zona central de Bruxelas, mais especificamente, na Rotunda de Schuman. Estes espaços do Gabinete estão localizados a 3 minutos a pé dos edifícios principais da Comissão Europeia, entre os quais o Berlaymont, a 5 minutos dos edifícios principais do Conselho (Justus Lipsius e Europa) e a 15 minutos da sede em Bruxelas do Parlamento Europeu. Das imediações do Gabinete há comboios e autocarros diretos de e para o Aeroporto Nacional de Bruxelas.
Os espaços do Gabinete podem ser usados por todos os açorianos que se encontrem em trabalho em Bruxelas desde que solicitado com antecedência e desde que, obviamente, não tenha havido outros agendamentos anteriores. Já decorreram diversos tipos de reuniões, essencialmente de entidades públicas, e algumas visitas exploratórias. Para todos, a prioridade do Gabinete é facilitar ao máximo a permanência em Bruxelas e ajudar a maximizar o impacto da deslocação ao centro da Europa. Adicionalmente, quando solicitado, o próprio Gabinete agenda reuniões e acompanha os trabalhos externos dos visitantes oriundos dos Açores. Este acompanhamento inclui, sempre que necessário, a interpretação linguística e o auxílio temático.
O terceiro vetor relaciona-se com a transmissão de informação sobre o que se passa em Bruxelas para os Açores. Isso é realizado essencialmente a dois níveis. Por um lado, a informação quotidiana é remetida para o Governo dos Açores sobre os diferentes temas prioritários (política de coesão, agricultura, pescas, mar, ciência, ambiente, turismo e energia) e outros. Em paralelo, semanalmente, é composto um Boletim Informativo (Az@Brx) que tenta sintetizar os diferentes temas discutidos ou apresentados em Bruxelas e que podem ter interesse para os Açorianos. Este boletim é hoje enviado para centenas de endereços de correio eletrónico por solicitação prévia.
No último vetor, mas não o menos importante, há a chamada representação a pedido. No caso de alguma entidade açoriana necessitar de ter representação em Bruxelas, mas não tiver possibilidade de se deslocar, o Gabinete dos Açores pode desempenhar essa tarefa. Desta forma, o Gabinete tem representado essencialmente entidades públicas, defendendo as linhas indicadas previamente e fazendo posteriormente a síntese dos temas discutidos nas diferentes reuniões.
O trabalho do Gabinete de representação dos Açores em Bruxelas está ainda no início. No entanto, há já alguns resultados interessantes e que são promissores para o futuro que aí vem.

domingo, 8 de abril de 2018

Crónicas de Bruxelas 17 - Estou a perder “amigos” no Facebook!



Ao abrir o Facebook reparei que o meu número de “amigos” se tinha reduzido. Não que viva obcecado com o número de conhecidos que tenho a mim ligados através da maior rede social do planeta, mas acontece que estou muito perto de um número redondo o que torna este decréscimo evidente… E, portanto, tal como a população do Corvo que, diz-se, nunca passou das mil almas, o meu número redondo insiste em não ser ultrapassado e, para mais, passou agora a decrescer.
Se fosse mais distraído, poderia ficar surpreendido. Não é o caso. O mau uso dos dados dos utilizadores perpetrado pelo Facebook, ilustrado pelo escândalo Cambridge Analytica, está a fazer com que muitos utilizadores adiram ao movimento #DeleteFacebook e desliguem as suas contas. Simpaticamente, alguns destes aderentes têm enviado mensagens de despedida. Esta postura demonstra que há mesmo quem saia e, visto que sobrevivem, demonstra também que há vida para lá do Facebook…
Tentativas de manipulação de consciência não são de agora. Sempre as houve. Por motivos políticos, de soberania, religiosos, profissionais ou comerciais ou fruto de amores e de paixões, a todo o momento houve pessoas interessadas em manipular outras pessoas. Seja mais ou menos conscientemente, desde que há palavras para serem ditas, qualquer orador tem como fito informar, sensibilizar e, em muitos casos, manipular quem o está a ouvir. Ao longo dos tempos e fruto do avanço tecnológico, a transmissão da mensagem tornou-se mais complexa passando da simples palavra para os sinais de fumo, para a argila, para a pedra, depois para o papiro, papel, telégrafo, rádio, televisão e, agora, internet. Não há grandes diferenças em relação ao passado. O que muda é a rapidez, a eficiência e a abrangência.
Não há ninguém no planeta Terra minimamente informado que não saiba que o negócio essencial das redes sociais é vender direta ou indiretamente a nossa informação pessoal. De forma mais ou menos estruturada, com maior ou menor detalhe, tanto o Google, o Facebook, como o Twitter e outros analisam os nossos perfis e, cirurgicamente, colocam anúncios “interessantes” no nosso campo visual enquanto utilizamos as suas plataformas ou aplicações informáticas associadas.
O que se passou neste caso é que a informação detalhada de 50 milhões de pessoas foi exportada para terceiros, a empresa Cambridge Analytica, e estes puderam orientar publicidade enganosa que sensibilizasse o perfil sociológico ou psicológico de cada pessoa em particular. Aparentemente, algumas eleições e referendos foram mesmo condicionados com este procedimento.
Não haja dúvida que o comportamento de Facebook foi, no mínimo, irresponsável e não haja dúvida que, de acordo com o que tem sido veiculado pela comunicação social, o comportamento de Cambridge Analytica é criminoso, mas nós pusemo-nos a jeito. Ou seja, ao partilhar informação privada nas redes sociais e sabendo que o negócio destas empresas é precisamente vender publicidade orientada para o nosso perfil, estivemos e estamos a expor-nos e a aceitar sermos orientados, inconscientemente, para decisões que não queremos necessariamente tomar. O pequeno-grande passo que esta associação entre o Facebook e a Cambridge Analytica deu foi de usarem informação privada para, com base em notícias falsas ou exageradas, condicionarem a capacidade de decisão individual em momentos tão importantes como as eleições ou os referendos.
Agora, estando o problema identificado, resta às autoridades judiciais fazerem o seu trabalho. Para mim, a tarefa é estar ainda mais atento e ter, como dizia Sérgio Godinho sobre o Casimiro, “cuidado com as imitações…”.