sexta-feira, 22 de abril de 2011

Resiliência

Navio "CP Valour" encalhado na Praia do Norte, Faial, Açores, em 2005.

Penso que muitos de nós, como eu, consideramos a capacidade de recuperação um dos fenómenos mais interessantes do mundo natural. Os cientistas, com essa enorme tendência para tudo quantificarem, classificam também os diferentes sistemas (áreas, populações, espécies, etc.) de acordo com a sua capacidade de regeneração e dão-lhe o nome de “resiliência”.
Uma área muito resiliente consegue recuperar facilmente de uma agressão e outra, que não seja tão resiliente, terá maiores dificuldades. Por exemplo, a Praia do Norte na Ilha do Faial demonstrou ser muito resiliente porque, pouco tempo depois da remoção do navio “CP Valour”, já está ambientalmente recuperada. Por outro lado, a população de lobos-marinhos dos Açores não era suficientemente resiliente já que, depois da agressão de que foi alvo no início do povoamento das ilhas, não resistiu à extinção local, ao contrário do que aconteceu à população da Madeira, que ainda persiste. Ambas eram pouco resistentes, mas a da Madeira revelou-se suficientemente resiliente e recuperou; a população dos Açores não o era.
Continuando a aplicar ao meio marinho, existem diversas técnicas para aumentar a resiliência de um determinado habitat. Uma destas técnicas inclui a criação de áreas marinhas protegidas. Propositadamente, não utilizei o termo reserva já que este, muitas vezes, é utilizado como sinónimo de zona em que são excluídas todas as actividades. Habitualmente, não é a exclusão de todas as actividades que é determinante para o aumento da resiliência de uma determinada área. É importante, sim, que todas as actividades sejam aí equacionadas tendo como prioridade absoluta o bom funcionamento do ecossistema, já que será isso que lhe trará a maior parte da sua resiliência.
Nalgumas situações, são mesmo equacionadas áreas marinhas protegidas para funcionar como elemento do aumento de resiliência em áreas limítrofes. Aproveitando o efeito positivo destas áreas protegidas (chamado pelos cientistas de “efeito de reserva”), as áreas limítrofes são bafejadas pela entrada dos organismos oriundos das zonas com utilização limitada.
É este efeito de reserva que se pretende obter com a grande maioria das áreas marinhas protegidas de média e de grande dimensão. Ou seja, com as limitações impostas numa determinada área, iremos aumentar a resistência e, acima de tudo, a resiliência das áreas exploradas. Aplicando à Baía da Praia do Norte na Ilha do Faial, depois da agressão que sofreu com a presença do navio “CP Valour”, conseguiu recuperar rapidamente também porque está inserida numa enorme área marinha protegida. Para quem estranhe esta última afirmação, relembro que não se podem utilizar as artes de pesca por palangre até três milhas da costa, as artes com rede de arrasto estão banidas dentro de toda a Zona Económica Exclusiva [quadro legal actual], a Praia está limitada por duas áreas de interdição à captura de lapas e, pouco tempo depois do acidente, foi decretada uma zona de exclusão às actividades marítimas.
Tive o privilégio de assistir à recuperação da Baía da Praia do Norte. Foi um caso clássico de um processo bem sucedido. É evidente, como não testámos a hipótese alternativa, não podemos afirmar como seria se não houvesse uma tão boa gestão dos recursos marinhos no arquipélago, mas, diz-me o bom senso, não seria uma recuperação tão expedita nem tão completa.
Infelizmente, esta resiliência está em perigo. As nossas águas estiveram durante vários anos abertas à pesca pelo nocivo arrasto de fundo porque a Comissão Europeia se tinha esquecido [tb. *] de impor essa limitação aquando da abertura até às cem milhas [posteriormente incluída] e, imagine-se, tivemos que aumentar o esforço de pesca local para garantir que não era dada permissão à entrada de outras frotas nas nossas águas. No entanto, o mais louco no meio de tudo isto é que se tentarmos gerir os nossos mananciais de acordo com as melhores indicações científicas e reagindo ao dinâmico preço do pescado nos mercados, optando, por exemplo, por pescar menos, podemos perder a quota, ou seja, o direito de voltar a pescar quando for sensato ou conveniente… [*]
É por estas razões que fico verdadeiramente assustado quando oiço responsáveis de nível europeu afirmarem que não há razões científicas que apoiem a recuperação da exclusividade da zona marinha para os Estados ou Regiões ribeirinhas até às 200 milhas. Evidentemente, quando estas não sabem gerir, isso justifica-se [*]. Não é o caso dos Açores [ex. *, *]. Algo está mal nas decisões centrais no que diz respeito às Pescas e os Açores estão a ser, por isso, penalizados. A nossa resiliência está ameaçada por decisões centrais que, em vez de serem invertidas, estão a ser fortalecidas com capítulos infelizes dos diferentes Tratados Europeus, incluindo o de Lisboa.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Espécies Endémicas

Symphodus caeruleus uma espécie endémica dos Açores.
Foto: F Cardigos - ImagDOP

Uma espécie endémica é, por definição científica, aquela cuja distribuição natural está limitada a uma área conhecida. Portanto, quando nos referimos a uma espécie endémica, temos de referir sempre a área a que diz respeito até porque, tanto quanto sabemos e apesar de algumas notícias bombásticas oriundas da NASA, todos os organismos são endémicos do planeta Terra.
E porque é que é importante falar de organismos endémicos? Por duas razões. Primeiro, por uma questão de responsabilidade. Nas áreas a que se limitar a distribuição natural de um organismo deve ser dada particular atenção à sua conservação. Por exemplo, a China deverá ter particular empenho na conservação dos pandas, já que a sua distribuição natural se limita àquele país.
A segunda razão prende-se com uma questão de oportunidade. É que a probabilidade de observar um determinado organismo é muito mais elevada na sua área de distribuição natural. Por outro lado, há muitos puristas que apenas valorizam a observação das espécies nos seus habitats naturais, recusando a descontextualização provocada pelos oceanários e jardins zoológicos ou botânicos. É, portanto, uma oportunidade de engrossar as possibilidades do chamado “turismo de natureza”.
No caso dos Açores temos muitas espécies endémicas. Neste artigo irei referir algumas que, por considerar emblemáticas ou curiosas, me merecem particular destaque.
Se houvesse justiça, o verdadeiro símbolo vivo dos Açores deveria ser a vidália, de nome científico Azorina vidalii. É o único organismo dos Açores que, para além da espécie, é endémico ao nível do género. Para quem não esteja familiarizado com esta forma de classificação, digamos que no mundo inteiro não há nada, sequer, parecido! É mesmo nosso, muito mais açoriano que qualquer açoriano. Para além disso, a vidália dá um conjunto de flores lindíssimas.
A verónica, Veronica dabneyi, esteve perdida durante dezenas de anos. Já julgavam os cientistas que estava irremediavelmente desaparecida até que o Dr. José Pereira, técnico da Direcção Regional do Ambiente, a encontrou numa pequena ribanceira da Ilha das Flores. Depois disso, o vigilante da natureza Hélder Fraga encontrou uma segunda população no Corvo. Portanto, até que alguém tenha notícias diferentes, esta delicada flor é endémica do Grupo Ocidental dos Açores.
Há um escaravelho que, no mundo inteiro, apenas habita as rochas do Vulcão dos Capelinhos (Ilha do Faial). Trata-se do Gietella faialensis e é um dos misteriosos casos de especiação que ocorre no nosso arquipélago. Se vos parece estranho existir um animal que apenas vive numa área do tamanho dos Capelinhos, imaginem um outro insecto que apenas existe nalgumas grutas dos Açores…
Há mesmo animais mais complexos com a sua distribuição limitada aos Açores. Há, por exemplo, duas espécies de peixes endémicas. O primeiro caso, o rascasso-dos-Açores, Scorpaena azorica, infelizmente, já não é, na realidade, endémico dos Açores, dado ter sido registado fora do arquipélago. Aliás, é engraçado, foi apanhado nos Açores e descrito pelas missões do início do século XX do Príncipe Alberto I do Mónaco e, estranhamente, nunca mais foi capturado outro animal. Há uma dezena de anos foi apanhado o segundo, mas… no Mediterrâneo. E assim se perde uma espécie endémica…
O segundo peixe endémico, e este continua a sê-lo, é o bodião-verde, Symphodus caeruleus. Este peixe foi identificado e descrito em 1999 pelo Professor José Azevedo do Departamento de Biologia da Universidade dos Açores. Até então, era confundido com outro peixe muito parecido e com uma distribuição mais vasta.
A ave marinha painho-de-Monteiro, de nome científico Oceanodroma monteiroi, apenas nidifica nos ilhéus da Graciosa e foi descoberta de uma forma particularmente interessante. O Doutor Luís Monteiro, do Departamento de Oceanografia e Pescas da Universidade dos Açores, descobriu-o porque estranhou a forma de ele cantar… Daí até ser descrito e aceite pela comunidade científica, demorou alguns anos, mas o passo inicial foi uma ligeiramente diferente forma de cantar…
No entanto, talvez o endemismo mais conhecido nos Açores seja o Priolo, Pyrrhula murina. Este pequeno pássaro tem a sua distribuição natural limitada à Serra da Tronqueira e seus arredores no Concelho do Nordeste e Povoação da Ilha de São Miguel. Já é alvo de roteiros turísticos exclusivos!
Para mim, pessoalmente, o endemismo que mais urgentemente precisava de mais informação é o morcego-dos-Açores, Nyctalus azoreum. Este era o único mamífero presente nos Açores aquando da colonização e é dos únicos morcegos diurnos do mundo. No entanto, a escassez de dados sobre as diferentes populações e suas variações anuais, apontam para a necessidade de caracterização detalhada.
No total, de acordo com a recente listagem feita em pleno Ano Internacional da Biodiversidade pelo Professor Paulo Borges e colegas, nos Açores há mais de quatro centenas de espécies endémicas. São meio milhar de possibilidades de turismo direccionado e exigente que está disposto a pagar bom dinheiro para ver estas espécies nas ilhas de Bruma. Saibamos aproveitar!

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Não pude deixar de notar

O Gato é o símbolo do "Mil - Mil".
Foto: F. Cardigos.

Esta manhã, ao ler o jornal, não pude deixar de notar a notícia que enchia a primeira página. Em letras bem grandes “MAIS UM OBJECTIVO ATINGIDO!”. Desde que se iniciou a mobilização colectiva, tendente a recuperar o país, todos os objectivos foram sendo, um a um, atingidos. Apesar deste ser apenas mais um, era particularmente importante. Em letras mais pequenas, “partidos com assento parlamentar conseguiram passar a barreira dos 100 dias sem se ofender mutuamente”.
Vendo em retrospectiva, a declaração de “Mil objectivos para Mil dias”, que pareceu “infantil e demagógica” para a ala intelectual, está-se a revelar eficiente. Como todos sabemos, foi pedido a duas mil entidades de relevo que postulassem dois mil objectivos, simples, aplicáveis e mensuráveis. Desde líderes religiosos, cientistas, economistas, sociólogos, psicólogos, políticos, desportistas ou elites sociais, todas as linhas de pensamento relevantes foram tidas em conta e postularam o que lhes parecia importante. Depois de eliminadas as repetições, as incoerências ou os objectivos que saíssem fora do simples, aplicável e mensurável, o “Conselho dos Dez” entregou ao Governo os objectivos e este ficou incumbido de os cumprir escrupulosamente. Na minha opinião, de certa forma, desde há cem dias que temos um Governo de gestão.
Até ao dia 333, continuar-se-á a não saber com toda a certeza quem pertenceu ao “Conselho dos Dez”. Aleatoriamente, de um lote de cem personalidades com destaque social e capacidade intelectual, foram escolhidos 5 homens e 5 mulheres. Este grupo trabalhou os mil objectivos durante 100 dias, fazendo o que parece ser um trabalho absolutamente exemplar. Caso até ao dia 300, todos os objectivos continuem a revelar-se eficientes, os dez serão também agraciados como Cavaleiros de Portugal, grau Platina. Este título, determinado explicitamente para festejar os que mais contribuem para os “Mil – Mil”, já elevou inúmeros cidadãos para os patamares da ribalta social. A primeira, curiosamente, tenho de vos relembrar, foi a Sra. D. Esperança Sempre Firme, que ajudou a cumprir o objectivo de aumento de literacia, ao propor que as televisões deixassem de trabalhar um dia por semana. Este objectivo, implementado como previsto ao 16º dia do “Mil – Mil”, resultou num aumento consistente de 10% na frequência das bibliotecas públicas ao 60º dia.
Entre as medidas que particularmente mais gosto, encontro a avaliação de juízes. A avaliação é feita pelo “número de processos com recurso sem provimento em tribunal superior” e tem-se revelado muitíssimo eficiente. Finalmente, os processos começaram a ser desbloqueados e estão a ter cuidadoso seguimento. Na hierarquização dos juízes, feita e publicada diariamente, vemos uma benigna “luta” particularmente interessante entre o Dr. Juiz Quem Espera Sempre Alcança e a Dra. Juiz Alice no País das Maravilhas. Ambos são já considerados autênticos heróis nacionais, indo na próxima semana o Presidente da República atribuir-lhe as insígnias de Cavaleiros de Portugal, grau Bronze.
Graças ao Dr. Até Mais Não Poder Rir, psicólogo com diversos livros publicados, um dos princípios que nortearam o trabalho do “Conselho dos Dez”, para além dos princípios universais como a Igualdade, Solidariedade, Precaução, etc. foi também incluído o Princípio do Humor. Ou seja, as metas, quando possível ou aconselhável, deveriam reflectir jovialidade e optimismo. Foi assim que o Objectivo de todas as publicações (jornais, revistas, etc.) incluírem uma página de humor foi proposta para o dia 33. Embora isso possa ser um reflexo natural do próprio conceito “Mil – Mil”, as depressões psiquiátricas reduziram-se em 27% ao final do dia 80 e o Dr. Rir será nomeado Cavaleiro de Portugal, grau Prata, no dia 303, se a redução se mantiver acima dos 20% até ao dia 250 ou, “mesmo grau Ouro”, como disse o Presidente da República, “se todos os outros, dos cinco objectivos relacionados com o Humor, também tiverem cumprido as metas até ao dia 220”. A ver…
Mas… O objectivo que mais me agrada é o “Aperfeiçoar com o Erro” e inclui, a revisão de cada mandato de todos os dirigentes de nível 1 e 2 associados a decisões duvidosas, apurando com toda a exactidão as razões que levaram à tomada destas resoluções. Entre estas resoluções, interessam-me particularmente as declarações de greves em momentos delicados da falta de produtividade nacional, a aquisição de certo material militar e a injecção de capitais públicos em unidades bancárias falidas. Pode haver justificação e as decisões, hoje consideradas como visivelmente discutíveis, poderiam ser as melhores à luz do conhecimento e contexto da época. No entanto, têm de ficar esclarecidas e têm de ser encontrados métodos para que não se repitam. Esta medida entrará em execução apenas no dia 437, dada a necessidade de preparar toda a documentação, e será verificada a sua conclusão no dia 934.
Lembram-se?! A primeira medida foi de facílima implementação e decorreu por sugestão da Sra. Isto Está Tudo Errado. Propôs a Sra. Errado que fossem, no dia 1 do “Mil – Mil”, despedidos 1/3 dos deputados eleitos por cada círculo nacional. Como se esperava, não houve qualquer anomalia no funcionamento da Assembleia da República, considerando-se o Objectivo “cumprido com sucesso” logo no dia 34. No dia 101 será aplicada a mesma metodologia nas assembleias regionais. A Sra. Errado, escolhida para o grupo dos “Dois Mil” pela reflexão crítica, pessimista e deprimente que fazia no seu Blog “O Erradíssimo Erro que não teve Errata”, propôs ainda as medidas de revisão da eficiência do “Mil – Mil” que serão feitas a todos os 200 dias. Por sua decisão, a Sra. Errado não será agraciada como Cavaleira de Portugal. Ela considera essa uma péssima medida, com a qual está contra. Aliás, ela votou contra as suas próprias medidas por considerar que, apesar de “providas de horripilante horribilidade”, eram demasiado correctas dentro de um “mar de rotas erradas”, como lhe chamou.
Curiosamente, hoje, passados os primeiros cem dias de aplicação do “Mil-Mil” procurei por todo o jornal as outrora gratuitas e irresponsáveis ofensas entre partidos. Li e reli. Nada. Aparentemente, os partidos entenderam que não o podem fazer. Devem apontar fraquezas, mas sempre com dignidade, dando alternativas e sendo solidários com a decisão.
Verdade? Mentira? Quando quiser, o futuro o dirá...

Advertência: Este é um artigo de ficção, escrito para comemorar o Dia das Mentiras no Jornal Avenida Marginal.