segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

O ano que passou

Muitas vezes olhamos para o ano que passou com um misto de desespero e de alívio. “Desespero” porque, há luz de tantas expectativas no seu início, ele acaba por não ser tão positivo como esperávamos, e “alívio” porque, como “não podia ter corrido pior”, nada como um novo começo. Felizmente, na área do Ambiente as coisas não são assim. Não precisamos de um ano novo. O bom mesmo era que a transição entre 2009 e 2010 não se fizesse notar. A equipa do Ambiente fez muitas coisas boas, que atribuíram bons resultados ao ano de 2009 e ajudam a encarar o ano de 2010 com optimismo.

No ano de 2009 foram removidas organismos invasores como nunca antes tinha acontecido. Ratos, algas e, principalmente, plantas de outras paragens, que não conseguem co-habitar pacificamente com os nossos ecossistemas foram inexoravelmente removidos das zonas mais sensíveis. Um investimento que passou o meio milhão de euros permitiu que a Administração Regional directamente, em parceria ou sob contratação erradicasse largas áreas de incenso, conteira, caulerpa, pica-rato… Eu sei lá. Em nove ilhas, houve mais de três dezenas de acções! E no próximo ano haverá mais.

Em matéria de resíduos, no já velho ano de 2009, conseguimos exportá-los como nunca antes tinha acontecido. Entre as iniciativas privadas e as da Região foram exportadas dezenas de milhares de toneladas de resíduos para reciclagem. Acresce a isto o facto de, neste momento, estarem a actuar nos Açores as nove entidades gestoras de fluxos específicos de resíduos. Ou seja, pneus, óleos, medicamentos, embalagens urbanas, carros, produtos fitofarmacêuticos, pilhas e equipamentos eléctricos e electrónicos quando chegam ao fim da sua vida útil começam, como o nosso velho ano, um novo ciclo. Mas o grande motivo de orgulho e esperança no novo ano é a construção dos Centros de Resíduos das Flores e Graciosa. Seguir-se-ão outros, mas estes já não são projectos, são realidades a tomar forma. Como o novo ano!

Nos Açores, como no resto do mundo, há indústrias que são potencialmente poluidoras. Ainda bem que temos, até porque o contrário apontaria para uma estagnação e improdutividade extremamente desaconselhável. Mas há regras para que estas indústrias não passem do “potencialmente” poluidoras. O processo mais exigente do mundo a esse nível é o chamado “Licenciamento Ambiental”. Este processo é imposto pela Comissão Europeia e, nos Açores, tem 100% de cobertura. Posto de outra forma, todas as indústrias dos Açores potencialmente poluidoras têm implementado o mais exigente sistemas de rastreio, minimização e alerta. Digam lá que não é um excelente passar de ano!

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Turquia para principiantes, como eu era

Nas vésperas do novo ano aqui fica a minha sugestão de ano novo: Visite Istambul!

Seguindo o meu conselho, suponha o leitor que é um potencial turista que irá visitar a Turquia em breve. Portanto, sorte sua, irá, a partir deste momento, beneficiar dos conhecimentos de um experiente ex-turista que esteve em Istambul durante seis dias! Quando eu parti, não tinha lido esta crónica e, por isso, tive enormes dificuldades. E passo já a justificar o exposto com um ensinamento Oriental que aprendi no "Museu de História da Ciência e da Tecnologia do Islão " de Istambul. Segundo as sábias palavras de Ibn Magid (proeminente navegador dos séculos XV e XVI), existem três tipos de profissionais: os que aplicam sem cogitar (marinheiros), os que pensam e melhoram a sua profissão (mestres) e os que partilham o que aprenderam. Apenas estes últimos ascendem à excelência do seu metier. Portanto, aqui estou eu, turista reformado de Istambul, a partilhar a minha nova sapiência.

Primeiro ensinamento. Escusa de trocar dinheiro em Portugal. As flutuações do mercado financeiro, as conversões mais favoráveis e os muitos gabinetes de câmbio aconselham a trocar dinheiro in loco. Atenção, não troque nos bancos porque a conversão é menos favorável e, como em Portugal, têm um horário mais reduzido.

Ensinamento sobre transportes. Viaje nos transportes públicos. Eu optei pelo chamado JetOn e por andar a pé. É uma óptima e saudável combinação. Não compre o bilhete (uma pequena moeda que se insere à entrada de uns torniquetes) a qualquer funcionário que esteja por ali perdido. Quando o fiz, fui enganado em 30%. Compre nos guichets que se encontram, habitualmente, a 20 metros dos torniquetes.

Ensinamentos sobre comércio. Não sorria, você vai ser enganado nas compras que fizer. Mesmo assim, aqui vão algumas indicações. Nunca pergunte o preço. Perguntar o preço é um sinal de fraqueza. Das três uma: o preço está assinalado (o que não significa que não seja negociável, mas, normalmente, corresponde a um bom preço); você sugere o preço demonstrando um enorme saber e uma enorme confiança ou, se perguntar, será enganado. Em Istambul há mais de uma dezena de sinagogas, mais de uma centena de igrejas e milhares de mesquitas. Parece um número elevado, não é? No entanto, por cada um destes monumentos, eu vi dezenas de lojas. Aqui há uma tradição de enganar o próximo (leia-se, negociar) com centenas de anos. Não será você que irá fazer quebrar esta tradição. Se lhe venderem um produto é porque está a perder dinheiro. Um vendedor em Istambul, se estiver a perder dinheiro, não vende. Não há amizade ou galanteio. Dou três exemplos:

1) Reparei, quando entrava no Palácio Topkapi, que vendiam duas garrafas de água por meio euro (vou referir-me a euros para situar, embora o comércio seja feito habitualmente em liras turcas). Quando saí, encontrei um vendedor que pedia meio euro por garrafa. Mostrei-me irredutível e disse-lhe que apenas pagaria um quarto de euro. Ele mandou-me passear com um belo "então, não bebe! ". Apenas 50 metros à frente, lá estava um vendedor com o preço certo. Ou seja, apenas porque não estaria a enganar-me o suficiente, o primeiro vendedor não vendeu a água.

2) Perto da enorme basílica de Santa Sofia, agora um museu depois de ter sido uma mesquita, estava um vendedor daqueles tradicionais chapéus árabes. Por sugestão, resolvi utilizar a aproximação marroquina e ofereci metade do preço, disposto a subir 20%. O vendedor olhou para mim como se eu o estivesse a ofender - "eu seria lá capaz de o enganar ". Como planeado, ofereci um pouco mais de metade e dispus-me a comprar três chapéus. Grande negócio, pensei eu... Tinha acabado de comprar três chapéus por 17 euros e meio. Uma bagatela! Mais tarde visitei a Meca do comércio em Istambul, o Grande Bazar. Aí, pude ver os meus três chapéus por 3 euros...

3) Com as experiências anteriores, eu não poderia ser mais enganado. Agora sabia tudo sobre o comércio na Turquia. Um autêntico profissional da sociologia local. Engano. Enganado! À porta da Mesquita de Süleymaniye resolvi comprar postais. Estava na altura de escrever à família e tinha que "queimar tempo " porque estava no período das orações (em que os turistas não devem entrar nas mesquitas). Fui até à loja mais próxima e siderei-me por um lindo postal vermelho com a simbologia turca. Como estava um pouco carcomido do Sol achei que obteria um bom preço. Perguntei, o dono respondeu-me, "meio euro ". Tinha de memória que um postal em boas condições, aqui, custaria cerca de 5 cêntimos e,por isso, senti-me verdadeiramente enganado. Com um misto de repulsa pelo vendedor e orgulho por ter escapado, coloquei o postal no lugar e fui à minha vida. Ele ainda gritou "quantos quer? ", mas era tarde. Fui-me! Já ao anoitecer passei numa loja que anunciava "10 postais por meio euro! " Eh, eh... Aqui estava. Dirigi-me ao escaparate, escolhi e paguei. No final, a um turista que tinha acabado de chegar, ainda disse "os postais mais baratos da Turquia ". Que tolo eu sou... Nem 10 passos à frente estava outra loja que anunciava "12 postais por meio euro! "...

Mesmo que não compre, ficará sempre frustrado. Porque é que ficará frustrado sem comprar? Porque, há realmente produtos muito baratos e, se não comprar qualquer coisa, ficará com a sensação de que perdeu uma excelente oportunidade. Em súmula das questões de compras, veja primeiro, tome notas e vá para fora dos centros turísticos. Vá até aos locais em que os turcos compram. Eu fiz isso e pareceu-me que eram preços mais concorrenciais, não me sentindo mais inseguro por estar fora das zonas turísticas.

Ensinamentos sobre passeios. Ao final da tarde vá até à beira do Bósforo. O vento térmico é mesmo agradável e refrescante. Se estiver na zona dos barcos verá uma das maiores confusões, com milhares de seres humanos a cruzarem-se a velocidades incríveis para terem a certeza que não falham o último barco. Todos são o último, pelo que vi.

Por falar em Bósforo. Dê um passeio de barco pelo Bósforo. Às 15 horas, à entrada do Museu de Santa Sofia irão prometer-lhe um passeio de barco por 15 liras. Na realidade, depois de estar dentro do barco, o preço transforma-se em 15 euros, mas vale a pena. Para além dos Guias serem de uma enorme gentiliza e simpatia, dominam inglês, francês, espanhol e italiano. Fiquei impressionado com a sua fluência e conhecimentos. Para além disso, uma paragem de 30 minutos no outro lado dá um pequeno sabor a Ásia que fica bem a qualquer viajante que se preze. Tenha também em atenção que à ida para o barco irão levá-lo de minibus, mas à volta estará por sua conta. Aproveite para ver o Bazar das Especiarias que fica ali perto. É imperdível.

O Expresso do Oriente, que terminava em Istambul, foi esquecido. Hoje em dia há apenas umas fotos numa parede de um restaurante e dum hotel homónimos. No entanto, não consegui encontrar um belo museu que replicasse o luxo, o bom gosto e as aventuras desse marco dos séculos XIX-XX. Talvez tenha sido a minha maior desilusão nesta viagem.

Considerações finais. Este país, sucessor da influência grega e dos Impérios Romano, Bizantino e Otomano é um colosso que não está a dormir. A Turquia representa uma das 20 maiores economias mundiais e é também uma potência regional localizada num local estratégico na ligação entre o Norte e o Sul e entre o Ocidente e o Oriente, com uma cultura original e bem preservada. O seu exército é o segundo maior da NATO com mais de 1 milhão de homens. Para este país, fundamentalmente modernizado em 1923, antevejo grandes passos em direcção a uma democracia plena (neste momento apenas os partidos com mais de 10% dos votos podem estar representados no Parlamento). Esta é uma terra orgulhosa dos seus. A título de exemplo refiro que os vencedores dos simples jogos escolares locais têm a fotografia exposta no liceu em cartazes com vários andares de altura.

A cidade de Istambul tem mais de 8 mil anos de História para contar. As maiores civilizações europeias passaram por aqui e isso reflecte-se numa cultura diversa e disponível a quem quiser visitar. O visitante, apesar de permanentemente assediado por vendedores, sente-se bem recebido.

Existem diversas formas de aferir o nível de uma civilização. Entre elas, a forma como tratam as crianças e os animais. O número de vezes que o meu filho David foi acarinhado, sem qualquer razão especial, apenas é comparável ao número de gatos. Estes omnipresentes animais são alimentados por toda a gente, especialmente pelos varredores de rua que assim se livram dos restos de comida. Não se admire se, por baixo de uma mesa de restaurante, aparecer um gato a roçar-lhe nas pernas. É que esta é uma cidade de gente de bem.

O que gostaria de ter feito e não fiz? Gostava de ter fumado um daqueles cachimbos de água. Gostava de ter tomado um banho turco e de ter viajado para o interior da Turquia. É bom não ter esgotado as opções, assim tenho mais razões para voltar!
Obviamente, estes conselhos são dados por alguém que esteve apenas seis dias na Turquia, somente numa cidade. Portanto, manda o bom senso, siga o seu.

domingo, 22 de novembro de 2009

Campanha SOS Cagarro 2009

Terminou dia 15 de Novembro mais uma Campanha SOS Cagarro. Como acontece anualmente, desde meados dos anos 90, são salvas nos Açores milhares de aves por iniciativa voluntária dos Açorianos. É importante salvar cagarros porque, na primeira saída do ninho, estas jovens aves são especialmente susceptíveis à iluminação pública e aos faróis dos automóveis.

Mais de mil açorianos dedicam-se, durante 46 noites, a pegar cuidadosamente nos cagarros (cuidado, os cagarros têm um bico poderoso) e a colocá-los a salvo, na manhã seguinte, junto ao mar, evitando que morram atropelados.

Por exemplo, em São Miguel, os Amigos dos Açores e os Amigos do Calhau conseguiram manter em permanência 20 pessoas a participar nas Brigadas Nocturnas. Talvez por esse facto, este ano, a ilha passou a ser a segunda em número de salvamentos, logo a seguir a São Jorge.

Na ilha conhecida pelo excelente queijo, este ano recuperaram-se mais de oitocentos cagarros, o que, apesar de ser um número muito elevado, não se compara com os 1400 que foram salvos, no ano passado, no Pico. No entanto, tirando as ilhas Terceira, Graciosa, Santa Maria e Flores, onde há um nítida oportunidade de crescimento para a Campanha SOS Cagarro, todas as ilhas demonstraram uma óptima e organizada actividade.

Na Ilha do Corvo, salvaram-se mais de 300 cagarros, dos quais foram anilhados mais de metade. Com este esforço, daqui a uns anos, quando estes animais voltarem a terra, será possível verificar onde nasceram e indiciar o tempo que levaram a regressar a terra.

Na Ilha do Faial, onde mais cagarros se anilham, há uma Brigada de freguesia. Em Castelo Branco, os Vigilantes da Natureza sabem que não se têm de preocupar em salvar cagarros. Fazendo vigilância ao aeroporto e zonas circundantes, os albicastrenses do Faial tomam conta desta unidade geográfica.

A Campanha SOS Cagarro movimentou este ano mais de cem entidades, mais de um milhar de pessoas e foram salvos 3744 cagarros. Este número não é proporcional ao esforço colocado na estrada. No entanto, garantiu um número muito reduzido de aves mortas pelos carros. Este aparente paradoxo entre o menor número de aves salvas e a maior mobilização dos açorianos parece ficar a dever-se a diversos factores. O primeiro, e aparentemente mais importante, foi o bom estado do tempo. A falta de nevoeiros e ventos fortes permitiu uma navegação aérea mais segura. No entanto, factores como menor índice de nidificação, menor iluminação pública (houve alguns portos, aeroportos e jardins que reduziram a iluminação durante a Campanha) e menor sucesso reprodutor podem também ter contribuído para a redução do número de aves encontradas e, consequentemente, salvas. Por estas razões, para além da manutenção da Campanha SOS Cagarro em todas as suas vertentes, é essencial promover as acções complementares como a erradicação de flora e fauna invasora e a intensificação do número e eficiência das áreas marinhas e costeiras protegidas.

É sempre bom saber o que temos a fazer!

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Adiaspora.com

Por gentil convite do seu director, o Sr. José Ilídio Ferreira, participei como orador nas celebrações do VIII aniversário do Adiaspora.com. Este sítio internet tem-se imposto como um local de excelência para a divulgação de informações sobre a diáspora Lusa. Com particular ênfase nas comunidades canadianas e norte-americanas de origem açoriana, o sítio tentará nos próximos anos atingir novas comunidades. Nesse sentido, para além da abertura do próprio sítio, foi realizada uma enorme viagem promocional pela América central e do Sul. As inúmeras aventuras com que os participantes se cruzaram estão relatadas online, mas, o resultado final é que há agora cerca de 3500 visitantes diários que se aventuram pelo sítio. Dados os resultados, já está em preparação uma segunda mega viagem, agora, possivelmente, com uma expressão mais euro-asiática.

Não sendo uma panaceia para resolver todos os problemas das comunidades lusas, o Adiaspora.com dá um bom contributo para ajudar a “encurtar” a distância e a minorar a saudade.

Durante os dois dias de celebrações, que este ano decorreram em East Providence, nos Estados Unidos da América, pude constatar que, sem qualquer dúvida, dos mais puros açorianos que existem são os que estão emigrados. Muitos deles, sem qualquer outra razão para além do amor aos Açores, empenham-se em discussões metafísicas sobre aquelas ilhas que lá estão no meio do Atlântico. Seja através da RTP Açores, RTP Internacional, SIC Internacional, dos diferentes jornais locais ou através das notícias enviadas pela família, estão claramente informados e exigem contribuir para o debelar das mais diversas situações. Longe das conversas ficarem limitadas ao futebol ou ao cancenotista da moda, perguntam detalhes sobre as autarquias açorianas, desde os seus dirigentes até às obras feitas… ou por fazer. A comunidade com que interagi, desde New Bedford até East Providence, passando pela inevitável Fall River, fala dos Açores com uma paixão que raramente vejo no próprio arquipélago.

No próximo ano, o aniversário de Adiaspora.com regressará aos Açores, às Lajes do Pico, e depois partirá novamente para o estrangeiro, agora com uma paragem por terras inglesas. Como sabemos, os Açores e os açorianos não têm uma população evidente nesse país. Esse facto, obrigará a Adiaspora.com a emancipar-se dos Açores e a ganhar a expressão plural que a comunidade Lusa tem pelo mundo. Metendo-me a adivinhar, penso que faria sentido haver colaborações mais enérgicas da África do Sul, Timor-Leste, França, Macau e… Goa. Em todos esses locais há portugueses sejam eles cidadãos nacionais ou apenas apaixonados e, pelo que vi nos Estados Unidos, a portugalidade de Portugal está longe de estar limitada ao rectângulo e ilhas adjacentes. Portugal, nunca pensei escrever isto com verdadeiro orgulho, tem o tamanho do mundo!

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Eu é que perdi as eleições!

Nalguns círculos, plenos de originalidade, há quem defenda que perdeu as eleições. É mais uma forma de alimentar conversas e provar que, da mesma forma que alguns políticos consideram que ganham sempre, é possível provar a tese oposta. Hoje em dia a interpretação dos resultados eleitorais é tão versátil que, literalmente, todos podem ganhar. Assim, assistimos a declarações do tipo “Obtivemos o maior número de Câmaras”, “Ganhei em Ponta Delgada”, “Não descemos tanto como esperávamos o que é uma enorme vitória” ou “Eu ganhei na rua onde a minha avó nasceu”… Enfim, há para todos os gostos e, curiosamente, todos perderam, tirando o senhor da rua da avó que foi uma invenção minha para colorir o artigo. Portanto, a líder da oposição nos Açores afirmar que não concorreu “nas 19 Câmaras dos Açores” é apenas uma forma indelicada de dizer “Ganhei, sou a maior!”

Mas o meu caso é diferente. Eu perdi as eleições e posso prová-lo. Aha!

Houve quatro momentos eleitorais no último ano: legislativas regionais, europeias, legislativas nacionais e autárquicas. Nas eleições para o Governo dos Açores batemos alegremente o somatório de deputados eleitos por toda a oposição e, portanto, não se fala mais nisso. Da mesma forma, levamos uma abada nas europeias. 1-1. Nas nacionais, o PS ganhou, mas no Faial, onde eu o tinha apoiado, perdeu. Restavam as autárquicas. É público que apoiei o João Castro e, se tivesse ficado por aí, teria 50% de sucesso eleitoral. Mas não fiquei… Apoiei também o Rogério Veiros na Calheta e o Paulo Casaca em Ponta Delgada. Ou seja, dos restantes 25% das autárquicas (1/4 das eleições) apenas ganhei 1/3. Ou seja, o meu score eleitoral foi de 33%. Perdi.

Agora mais a sério. Quando se perdem eleições, principalmente se estamos em posição de liderança, convém analisarmos a equipa, o programa, o método de passar a mensagem e, principalmente, ter a humildade de aceitar o resultado e congratular quem soube ser melhor. O povo engana-se, tal como aconteceu no passado, mas a inépcia de conseguir elucidá-lo será sempre de quem se propôs à luta democrática e, portanto, mais vale admitir, rever e voltar à luta! Fica o conselho, a quem servir.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

A Calheta tem de mudar!

Apesar de não ser de São Jorge, já fui tantas vezes a esta ilha que me sinto um pouco jorgense. Já estive tantas vezes em São Jorge, já palminhei tanto pela Ilha que foram crescendo dentro de mim sentimentos de respeito e de admiração que vão muito para além da simples contemplação. Sinto reconhecer a ilha desde o malfadado Pico da Esperança até às profundidades em que, quando estagiário de biologia-marinha, pescava lulas. São Jorge está comigo desde que cheguei aos Açores e não esqueço a enorme generosidade dos cidadãos da Ilha. Consigo perceber o complexo potencial da Ilha e as angústias da sua população, tantas vezes partilhada comigo.
É por isso que me preocupo. Vejo uma ilha presa a duas autarquias que não têm conseguido colocar a ilha nos desígnios do desenvolvimento sustentável. Vejo duas autarquias que alimentam um obscurantismo político que não serve às suas populações, não serve a sua economia e não serve, certamente, para a abertura de perspectivas de futuro.
Olhando para os candidatos dos dois partidos candidatos à presidência Câmara Municipal da Calheta de São Jorge, fico sem dúvidas. Aliás, quando o Rogério me disse que ia concorrer à Câmara Municipal da Calheta a minha primeira expressão foi de sentida preocupação: "tens a certeza?" De facto, a edilidade Calheta está em péssimas condições. Em termos económicos, a Câmara está perto da falência técnica e, se calhar mais importante, falta tanto entusiasmo... As pessoas não acreditam em si e no potencial da sua terra. O facto do Rogério Veiros, que podia ter uma vida confortável sem se meter nestas andanças, avançar com bravura é uma prova da sua coragem. Portanto, de forma abnegada e com plena consciência do enorme problema, colocou-se a disposição dos cidadãos. Merece o meu respeito!
Quando há uns dias atrás o candidato da situação se referia à falta de investimento do Governo no Concelho fiquei verdadeiramente triste. É que não ver o investimento que foi feito pelo Governo na Fábrica de Santa Catarina, no Lar de Idosos, no Porto, no Aeroporto (que serve os dois concelhos) e na indústria transformadora do queijo é mais do que miopia... Mas não é apenas isso que me entristece. Quando negociava a sustentabilidade do EcoMuseu, intercedi junto do recém nomeado Presidente da Câmara do PSD no sentido de colocar uma pequena verba à disposição desta estrutura. O seu redundante "não" é contrastante com a versão televisiva do agora candidato do PSD à presidência da Câmara da Calheta. Não se podem defender ideias apenas nos dias que antecedem as eleições. Os projectos fazem-se todos os dias, ou não se fazem.
Eu tenho responsabilidades no desenvolvimento sustentável, e reforço o "sustentável", da Fajã de Santo Cristo. Nesse sentido, já estive nesta Lagoa por diversas vezes inserido na execução de obra e na realização de diversas actividades. Curiosamente, já lá vi diversas vezes figuras públicas de São Jorge, mas nunca vi o Presidente da Câmara da Calheta. É preciso seriedade e empenhamento nas autarquias de São Jorge e um dos candidatos tem-na, o outro não.
O futuro da Calheta cheira a Auditório, Marina, Museu, Passeio do Canal, Conselho da Juventude... O futuro da Calheta pode começar no dia 11 de Outubro quando os calhetenses marcarem uma cruz no quadrado à frente de "Partido Socialista" no boletim de voto. Literalmente, está
nas vossas mãos.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Paulo Casaca: Na voz de ... Frederico Cardigos, Director Regional do Ambiente

O Prof. Dr. Paulo Casaca é um homem trabalhador, dinâmico, corajoso, competente e honesto. Felizmente, não tenho grandes dúvidas em dizer o mesmo de grande parte dos meus amigos. No entanto, no caso do Paulo Casaca isso pode ser materialmente comprovado.

As primeiras interacções que tive com o então eurodeputado Paulo Casaca ocorreram na Horta, durante uma série de reuniões que ele vinha organizando para compreender o sector da pesca, para o auscultar em relação às suas ambições e receios. O tema era quente (ainda é) e relacionava-se com a gestão das águas externas da ZEE dos Açores. Fiquei agradavelmente surpreendido por ele dominar tão bem as matérias e por sugerir de imediato algumas linhas de acção que, poucos dias depois, estavam a ser postas em prática. Logo aí, surpreendeu-me.

Portanto, não fiquei admirado com os relatórios que colocavam o eurodeputado socialista entre os mais activos do Parlamento Europeu. Aliás, numa atitude de modéstia, durante a apresentação do seu último livro, Paulo Casaca desvalorizou os dados dizendo que "as estatísticas valem o que valem". Realmente, tem alguma razão, mas eu tenho a certeza, pelo que vi, que ele estava entre os melhores.

Quando era difícil estar no médio-oriente, no meio do teatro de guerra sabem quem é que lá estava? Aí até eu fiquei profundamente perplexo, o Paulo Casaca! Num assomo de coragem, resolveu ir ver com os próprios olhos o que se passava e, através das suas denúncias e acções, pudemos ter uma visão mais clara de quão inútil e injusta era aquela guerra. O povo do Iraque não merecia nada daquilo. Já agora, porque a memória por vezes é curta, lembram-se que partido associou Portugal à guerra e os Açores à decisão de a iniciar? Pois é...

Evidentemente, da candidata da situação, pertencente ao partido que ajudou a iniciar a guerra no Iraque, também haveria coisas positivas a dizer. Não tenho dúvidas. No entanto, a sua candidatura peca por um motivo que para mim é fundamental. As ambições da candidata são outras e a curto prazo, excedendo o Concelho de Ponta Delgada. Honestamente, quem quer uma Presidente de Câmara que esteja concentrada noutras corridas? Noutros voos? Para a maior cidade dos Açores, motor económico de todo o Arquipélago, sede do Governo Regional, eu quero o que mais se ajusta e quem melhor se ajusta é, de facto, o Prof. Dr. Paulo Casaca. Mas mesmo que a Dra. Berta Cabral se dedicasse 100% a Ponta Delgada no futuro próximo, eu continuava a preferir a candidatura do Prof. Dr. Paulo Casaca. É que Ponta Delgada está a precisar de mudar, está a precisar de uma nova energia. E ele tem para dar!

Sendo generosamente arrogante (adoro esta expressão de aparente contradição), sugiro algumas medidas na área que me é mais cara, o Ambiente:

1. A recolha selectiva de resíduos porta-a-porta tem dado interessantes resultados no arquipélago, nomeadamente na Ilha Terceira que, graças aos esforços das autarquias, já é a área de Portugal que mais resíduos recolhe de forma selectiva. Na ilha de São Miguel, no Concelho do Nordeste decorre esta prática de gestão de resíduos já com grande sucesso. E em Ponta Delgada?

2. Sendo a maior urbe dos Açores, penso que a edilidade poderia criar um ecocentro para particulares e que incluísse todas as valências.

3. A edilidade também poderia incluir majorações para os concorrentes a obras camarárias que tivessem claros benefícios ambientais. O Governo dos Açores já faz isso nos sistemas de apoio e a Câmara poderia seguir o bom exemplo.

4. Um dos maiores valores que os Açores têm é a sua flora natural (incluindo a endémica). Penso que deveria ser estimulada a utilização desta flora que nos é tão particular nos jardins municipais. Obviamente, não estou a sugerir que se banam as restantes espécies, até porque a diversidade tem uma beleza especial, mas sugiro que haja sempre um espaço dedicado às nossas espécies.

5. O município de Ponta Delgada já iniciou um procedimento para candidatura à Agenda XXI, o que é bom. No entanto, vejo que a população está longe de aderir a este desígnio. É necessário trazer os cidadãos para dentro da Câmara criando Conselhos de Cidadãos, de Anciãos, de Cultura, de Desporto e de outras temáticas que se considerem importantes. Os cidadãos têm de participar, mas tem de haver oportunidade de verdadeira envolvência e consequente participação.

Evidentemente, o candidato Paulo Casaca, quando assumir as funções de Presidente da Câmara Municipal, quando for confrontado com a verdadeira realidade financeira e o potencial humano, pode traçar outros vôos e objectivos ainda mais interessantes e imaginativos. Conhecendo o Paulo Casaca há já alguns anos, tenho a certeza que assim será. Aliás, em abono da verdade, tenho a certeza que irei ficar agradavelmente surpreendido com as iniciativas que ele e a sua equipa tomarão! Vai ser uma enorme lufada de ar fresco e libertador que correrá as ruas de Ponta Delgada, e elas estão a precisar.

domingo, 4 de outubro de 2009

A Turquia e a União Europeia

A primeira coisa que perguntei ao primeiro turco que encontrei foi "qual é o sentimento da Turquia sobre a adesão à União Europeia?". De certa forma, foi uma pergunta muito positiva porque, sem ser agredido fisicamente, fiquei a saber qual um dos tópicos sensíveis na Turquia e aprendi uma série de expressões de enorme desconforto (leia-se, palavrões). No final, o meu interlocutor resumiu os seus sentimentos em "espero que os nossos políticos esqueçam essa ideia, porque a dignidade dum povo tem os seus limites!".

De facto, esta hesitação do Ocidente em relação à integração da Turquia na União, alegadamente por razões culturais (leia-se, religiosas), é tida como um longo e profundo gesto de humilhação. Posto isto, dei por mim a pensar no que é que poderia justificar a adesão de qualquer país à grande Europa. O mais óbvio são as vantagens económicas do mercado alargado, depois a solidariedade económica e social (um dia será militar, estou em crer) e, finalmente, as razões de detalhe que, na Turquia em particular, poderão estar relacionadas com a integração dos seus cidadãos emigrados na União (essencialmente, Alemanha). Depois do que vi e senti na minha visita de seis dias a Istambul fiquei com a sensação que apenas a última razão pode fazer claramente sentido. Claro que não vivo num país em que 10% da população é turca, como a Alemanha… O choque cultural deve ser brutal e as opiniões podem ficar enevoadas por questões de vizinhança.

Um país como a Turquia, antes de aderir à União, terá que efectuar milhares de pequenas alterações. A desorganização e as faltas de conformidade com os padrões europeus são gritantes. Até eu notei que este seria um paraíso para os agentes da ASAE. Desde obras de construção civil realizadas durante a noite e em plena cidade, cabos eléctricos espalhados a três dimensões pelas paredes, a altamente duvidosa higiene na confecção dos alimentos e uma rigorosa anarquia no planeamento urbano, tudo seriam motivos para desesperar um "mangas de alpaca" de Bruxelas. Refira-se, em abono da verdade, que não tive qualquer cuidado especial com a escolha dos alimentos e não sofri mazelas gástricas.

Na minha opinião, de sábio da Turquia após seis dias de visita, em termos económicos, a Turquia não precisa da União Europeia. Talvez o contrário se justifique mais facilmente. Para ter a certeza da afirmação seguinte, viajei até ao extremo da cidade. É impressionante, todos os espaços dos pisos térreos estão ocupados com lojas, lojinhas, lojecas, botequins, tascas e todas as combinações de comércio possíveis. Vi muitas lojas com apenas 2 metros quadrados. Tudo se compra e tudo se vende. Até se compram e vendem coisas incompreensíveis. Por três vezes encontrei grupos de homens aos berros entre eles e com os telefones portáteis que empunhavam. Não faço ideia o que estava a acontecer, mas deparei-me com estas inusitadas situações dentro de um centro comercial (Bazar) e uma vez num parque público. Seria uma bolsa de valores informal?! Não faço ideia... Se calhar estavam a vender ideias!? "Tenho aqui ao telefone uma ideia fantástica para resolver o problema da insónia, quem dá mais?". Mais a sério, a vitalidade comercial que vi em Istambul não dá margem para dúvidas, há uma uma economia muito robusta por trás de tudo isto. E os preços não são de terceiro mundo, longe disso.

Disseram-me que Istambul e Ancara são realidades separadas do resto da Turquia. Desta vez, não tive tempo para me meter campo adentro, mas admito que tenham razão e que no interior existam casos que poderiam beneficiar da solidariedade social da União. Nas cidades, vi gente com menos recursos financeiros, mas, honestamente, tenho visto mais pedintes e pessoas a dormir na rua em Lisboa que nesta megapólis.

"Apesar de ser um país com democracia secular desde 1923, estarei num país maioritariamente muçulmano, portanto, certamente, a intolerância para com as outras religiões será total e as mulheres andarão todas de burca e serão humilhadas em todas as oportunidades!", dizia-me o meu preconceito antes de partir. Nada mais distante da realidade. Istambul é uma cidade hipertolerante com uma verdadeira mescla de religiões e costumes mutuamente respeitados. É curioso que até os piropos dos homens se adequam à sensibilidade da visada. Não irei elaborar sobre isto, até porque não tenho significância estatística, mas fiquei com esta sensação. Por outro lado, e a observação não foi originalmente minha, as mulheres, mesmo as mais severamente trajadas, são, em público, totalmente respeitadas por quem as acompanha. Por baixo dos lenços que cobrem as caras, vislumbram-se sorrisos, risos e gargalhadas que não me pareceram compatíveis com submissão. Fiquei com muito mais dúvidas do que as arrogantes certezas que trazia. Mais tarde, já em Portugal, descobri que, na Turquia, o porte de véu é proibido nos serviços públicos, incluindo nas escolas.



Universidade de Istambul.
Foto: F Cardigos.


Quando entrei no barbeiro, um jovem de vinte e poucos anos, fã do Cristiano Ronaldo, esmerou-se a cortar-me o cabelo de acordo com o desenho que eu tinha escolhido numa revista de penteados que havia na barbearia. Era impossível a comunicação porque o inglês dele apenas era comparável com o meu turco. Apesar disso, tudo estava a correr normalmente e fiquei positivamente surpreendido por utilizar uma lâmina descartável. Na verdade, estava tudo a correr bem até que aproximou uma chama das minhas orelhas e me queimou! Fiquei tão surpreendido que estive para fugir, mas ele não me deixou mexer. No momento seguinte, já estava a enfiar um instrumento pelas minhas narinas e a aparar-me os pelos do nariz. Não contente, continuou nas sobrancelhas. Estudei a distância até à porta e, quando me preparava para correr, ele enfiou-me a cabeça dentro de uma bacia cheia de água e lavou-me, em simultâneo, a cabeça, a cara e as orelhas... Quando me libertou, eu estava tão baralhado e sem fôlego que não tive discernimento para efectuar qualquer gesto, até porque ele já me estava a colocar uma loção misteriosa na cara. Rendi-me ao mesmo tempo que sentia os músculos da cara a descontraírem-se. Nesse momento percebi que o Ocidente perdeu esta capacidade de tocar nos outros sem complexos. Aqui os homens andam de mãos dadas com os homens e cumprimentam-se de beijo na cara. Em Portugal é impensável que um homem cumprimente desta forma alguém do mesmo sexo sem que seja seu familiar directo. A sua sexualidade seria imediatamente posta em causa. Olho para o lado e, escândalo!, está uma criança a fazer uma massagem nos ombros de um maganão! Não é possível. Chamem já a polícia! Ainda por cima, o maduro parece estar a gostar! "Calma, Frederico, pensa... Entre esta criança, nitidamente familiar do barbeiro, estar alienada a jogar PlayStation, a drogar-se ou a consumir outros estupefacientes (televisão, álcool, etc) ou a ajudar a família, fazendo uma operação delicada, responsável e lucrativa, o que te parece melhor?". Oh, não! Agora passou à face! Os dedos da criança passeiam sobre a cara do homem fazendo gestos circulares, experientes e competentes. A expressão de delícia do adulto não dá margem para dúvidas. Estou baralhado. Estou mesmo baralhado... Isto, nos meus olhos ocidentais, parece-me francamente errado, mas não consigo encontrar justificação forte para a minha moralidade de trazer por casa. No final, verifico que o cliente, para além de ter pago uma bela maquia pelo trabalho de corte de cabelo (versão completa, como o meu) e restante serviço, ainda pagou uma generosa gorjeta ao rapaz, o equivalente a um almoço.

Queimar, praticamente, afogar um cliente e usar trabalho infantil... Apenas numa simples ida ao barbeiro, fiquei a perceber porque é que a Turquia nunca entrará na União. Estou a voar sobre a Turquia, despedindo-me deste vasto e populoso país. Quando olho lá para baixo penso que, realmente, eles não precisam.

terça-feira, 21 de julho de 2009

Alguns conselhos ambientais para a Semana do Mar

Quem me está a ler é um turista. Se não for turista, por favor, imagine-se um turista. Acabou de chegar à Horta para participar na Semana do Mar e no aeroporto, simpaticamente, colocaram-lhe este jornal nas mãos. Depois de ler o interessante artigo publicado na página 7, e que, se não leu, deveria ler, cruzou os olhos com estas dicas ambientais.

Ao ler as primeiras linhas começou de imediato a desconfiar, e com razão. “Com que então tenho de me imaginar um turista…? Mas eu não sou um turista!” Vá lá… Ajude um pobre cronista em busca de público… Se não for um turista, imite um. Olhe com olhos esbugalhados para todo o lado, faça perguntas, fale alto… Falar alto, não! Aqui vai o primeiro conselho ambiental. “Não fale alto.” Imagine que diz um grande disparate. Se o disser alto toda a gente o vai ouvir e uns poderão pensar que é mesmo verdade, portanto serão enganados, e outros pensarão que é tolo, o que também não é nada bom. Claro que neste momento está a pensar “olha para este, eu nunca digo disparates”. Pois é, mas, nesse caso, também não é bom falar alto. Imagine que com grande potência vocal desvenda a resolução simplificada do teorema de Fermat? Ou revela, num momento de grande visão, os números do euromilhões da próxima semana? Já viu a fama ou o dinheiro que pode perder? Pelo sim, pelo não, fale baixo. Já agora, no seu magnífico carro alugado, não apite, nem acelere desnecessariamente. Apitar pode assustar uma vaca, sim, há muitas nestas ilhas, e ela poderá sair da cerca e fazer aquela coisa que as vacas fazem em plena via pública. E aqui tem a segunda dica ambiental: “Não assuste as vacas”. É que se andar por aí a assustar as vacas, os agricultores irão ficar furiosos por terem de perseguir as vacas pelas ruas da Horta. Eu já vi isso acontecer, e não é nada agradável. Causa muito mau ambiente.

Portanto, o senhor é um turista acabadinho de chegar à Ilha do Faial… Huummm, estou a ver… Está, certamente, a fazer aqueles comentários deslocados que começam por “Lá em Portugal também temos recolha selectiva de resíduos…” Claro! Tinha de ser! Mais um cubano que se esqueceu que está em Portugal! O nosso país é realmente minúsculo, mas, lá porque viajou de avião, porque o tempo aqui é muito mais dinâmico, por não haver poluição, por as pessoas serem infinitamente simpáticas, por haver um sotaque cantado que dá à nossa língua uma poesia invejável, por o mar ser realmente azul, por termos as melhores infra-estruturas de interpretação ambiental, por não haver pobreza explícita, por possuirmos mais de duas dezenas de espécies de cetáceos, por a visibilidade marinha ser, em média, 4 vezes superior à do Continente e por haver lindas hortênsias, não significa que tenha saído do país.

Aliás, antes de se meter a gabar as hortênsias, tenho que avisar desde já que um verdadeiro ambientalista açoriano não gosta de hortênsias. Essas flores do demónio invadiram as ilhas e, agora, ganharam uma variedade que, para além de ser mais feia, consegue reproduzir-se sem limites. Conselho ambiental: “as hortênsias não são nossas amigas”. Ao contrário, as plantas endémicas, como a urze, a azorina, o morcego-dos-Açores, entre muitos outros, esses sim, são os verdadeiros açorianos. Como provavelmente não saberá que plantas são essas, “não existem lá em Portugal…”, aconselho-o a comprar um guia de identificação. Isso até para não chamar de planta a um morcego…

Senhor turista, com todo o respeito, este arquipélago, que agora visita, tem mais Reservas da Biosfera que o resto do país, tem mais áreas Ramsar, tem as únicas Zonas Especiais de Conservação da Europa (Rede Natura 2000) e fomos considerados o segundo arquipélago do mundo em termos de turismo sustentável. Isso apenas é possível porque tentamos conter a flora invasora e protegemos a biodiversidade local, fazemos um esforço herculeano para processar correctamente os resíduos, estamos a implementar uma implacável política de preservação dos recursos dulcícolas, não pescamos demais... E aqui nasce outra dica ambiental: “no restaurante, antes de pedir o peixe, peça a lista de espécies em perigo e opte pelas que não estão”. No caso de comer carne, mais um conselho, “peça carne certificada”.

Prontos, está a ver, não custou assim tanto ser turista durante estas linhas. Para mim também foi óptimo porque ganhei um leitor durante alguns minutos. Sabe, é que neste jornal eles pagam ao leitor... Por cada milhão de leitores dão-nos uma cerveja no Peter! Outra dica: “Se usar um copo de vidro, não se esqueça de devolver, se for de plástico coloque no contentor amarelo.”.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

O Senhor Embaixador

Na carreira académica, Genuíno Madruga formou-se na Universidade da “Vida”, tirou o Mestrado em “Pescas e outras Artes de Marinheiro” e está concluir o Doutoramento em “Relações Internacionais” na vertente de “Divulgação Cultural”. É um percurso exemplar e extenuante. No entanto, a História apenas se lembra daqueles que são excelentes no que fazem. Genuíno será recordado.
Poucas são as pessoas que podem “beber água em todas as fontes” como este embaixador faz. Nos portos desse mundo, por onde passou, sempre fez questão de deixar algo muito mais valioso que as divisas que não tem, nem precisa. Também fez sempre questão de trazer qualquer coisa, mas, desenganem-se, nunca para proveito próprio. No próprio instante em que recebia informações, músicas e tradições, através da rádio, de imediato partilhava o que aprendia. É nobre o nosso Embaixador Genuíno.
Como todas as pessoas verdadeiras, líder da sua arte, Genuíno Madruga viu-se rodeado de outras pessoas de bem que, abnegadamente, fazem a extensão da sua missão, amplificando a sua voz e os seus actos. A equipa de apoio, que inclui jornalistas, radioamadores, escuteiros, familiares e amigos, usa todo o tempo livre para, em todo o arquipélago dos Açores, transmitir a emoção da grande aventura e dar a conhecer as regiões visitadas pelo velejador. A cadeia de rádios que, semanalmente, retransmite os detalhes das culturas visitadas por Genuíno Madruga serve também para unir as ilhas do Arquipélago. Com mote nas viagens de circum-navegação, são feitos outros relatos, seguidas outras aventuras e partilhadas ainda mais experiências. A distância que o Genuíno percorre é proporcional aquela que encurta nas nossas ilhas e a prova que o mar muitas vezes é sinónimo de união e não de isolamento.
No currículo deste embaixador contam-se como pontos altos ter sido o primeiro açoriano a dar a volta ao mundo em solitário, o primeiro português a passar o Cabo Horn (Chile) de Este para Oeste (contra o sentido natural) e o décimo cidadão do planeta a ser reconhecido por o fazer. No entanto, a essência do currículo está nas palestras, reuniões e confraternizações em que vai participando ou motivando. O melhor que os portugueses das descobertas tiveram está condensado, como que destilado, em Genuíno Madruga. Assim, apesar de parecer impossível, continua a dar-nos novos mundos.
É desta forma que o “aristocrata dos tempos modernos” dá o exemplo para que os nossos filhos percebam que há muito mais e muito melhor planeta para além dos vícios que os rodeiam. A sua permanente aventura, para além da inspiração que nos trás, é motivadora de acções positivas e altruístas.
Senhor Embaixador Genuíno Madruga, que os bons ventos vos continuem a levar para muitos sítios de onde nos continue a enviar História e estórias.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Os Desafios Ambientais em 2009

Convém termos presente que a situação ambiental nos Açores é muito melhor que na maioria do Planeta Terra. Há locais em que a guerra, a fome, a miséria, a falta de educação e outros factores colocam a natureza sob pressão. É impossível dizer a quem tem frio que não pode cortar o último arbusto e é muito complicado tentar transmitir a importância e o determinismo das alterações climáticas a quem não sabe ler. Ou seja, apenas num contexto de privilégio cultural, social e económico é possível chamar a atenção sobre os problemas ambientais, por mais catastróficos que sejam. E são.

Por sorte, nos Açores o clima social é o adequado para pensarmos e debelarmos a maioria dos problemas ambientais de que padecemos e para pensarmos como podemos contribuir para a manutenção e melhoria da nossa qualidade ambiental. Para o fazer, o melhor é começar por identificar os problemas. Em vários relatórios e outros documentos há algumas mazelas que são referidas recorrentemente. Entre elas: a inadequada gestão da água e a dos resíduos, a perda da floresta natural e o decrescimento dos recursos marinhos vivos renováveis.

Em relação aos recursos marinhos, de facto, estamos tão preocupados que iniciámos e mantemos um contencioso europeu sobre esta matéria. É uma luta que está a ser travada ao mais alto nível e ao cidadão em geral cabe a tarefa de pressionar para que a normalidade volte ao sector das pescas açorianas. Não é possível manter-se a abertura generalizada das águas em volta da ZEE dos Açores. É má gestão e a responsabilidade, até por ter reiteradamente avisado, não é da Região Autónoma.

No que se refere à gestão dos resíduos, apesar de alguns esforços mais ou menos concertados, o certo é que continuam a imperar soluções que não garantem a valorização da maior parte deles ou a salubridade do depositado. Recentemente, após muito tempo de trabalho conjunto, intenso e alargado, o Governo publicou legislação que articula as soluções para as diferentes ilhas e atribui responsabilidades. Assim, o Governo dos Açores decidiu instalar as soluções para as chamadas “ilhas da Coesão”. Nos próximos anos serão construídos diversos centros de processamento, transferência e valorização orgânica por compostagem. Os dois primeiros grupos de centros servem para triar e remeter para destino final adequado cerca de 1/3 dos resíduos. Um terceiro grupo serve para transformar a matéria orgânica em composto. Este composto poderá servir como aditivo para os solos. Pensa-se conseguir, desta forma, tratar a maioria dos resíduos. O restante deverá ser depositado em aterro ou valorizado energeticamente. Isso poderá acontecer endogenamente, em cada ilha, ou numa ilha em que esteja disponível uma destas soluções. Em paralelo, é imprescindível que o cidadão dos Açores mude o seu comportamento em relação aos resíduos. Teremos, obrigatoriamente, de fazer um esforço na redução dos resíduos produzidos, com inteligência reutilizar o que for possível e participar nas iniciativas da autarquia para separar o lixo logo à partida.

Quanto à gestão da água nos Açores, o maior problema reside provavelmente numa má estratégia estabelecida no passado. Arrotear as terras de floresta de altitude, especialmente as ocupadas com turfeiras, pode ter sido um erro que agora estamos a pagar. É que esta flora tem a importante capacidade de absorver água no período de chuvas e disponibilizá-la, lentamente, no período de seca. Evidentemente, estamos perante uma infeliz conjunção de factores que, ao referido arroteamento, junta níveis mínimos de precipitação e um aumento na qualidade de vida e, em consequência, do consumo. Portanto, a curto prazo será necessário que cada um de nós utilize a água com a parcimónia possível e que se recuperem largas manchas de flora natural. Aliás, se tivermos em atenção que, entre as mais de mil espécies de flora existentes nos Açores, apenas 30% cá estavam no momento da colonização (as restantes foram trazidas pelos humanos), temos uma razoável indicação da pressão a que estão sujeitas as plantas dos Açores. Para além da difícil gestão da água, há outros serviços ambientais que estão em perigo e que beneficiarão com a promoção da flora natural dos Açores, como a retenção de solos, a protecção de arribas e a manutenção de espécies superiores (garantindo as cadeias tróficas).

O Arquipélago dos Açores é um oásis em termos ambientais. Não temos grandes problemas de poluição, é possível que as alterações climáticas não venham a ter um grande impacto directo e os recursos estão razoavelmente preservados. No entanto, as nossas mais-valias são a plena consciência dos problemas que temos e possuirmos recursos humanos, tecnológicos e financeiros para os resolver. Caberá a cada um de nós, dentro das nossas possibilidades, contribuir para um mundo em sintonia com a nossa capacidade de carga ambiental.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

O Vulcão no Tempo Futuro

Nesta nobre ciência da futurologia, há duas coisas indiscutíveis. A primeira é confortável: “ninguém tem a certeza sobre o futuro”. A segunda é também excelente: “tudo o que for previsto tem uma enorme probabilidade de se concretizar, especialmente se dilatarmos a variável tempo”. Tendo isto em consideração, ninguém que fale no futuro é mentiroso, a verdade é que está atrasada.

O vulcão dos Capelinhos esteve em evidente actividade de 1957 a 1958. Com a sua dinâmica gerou um novo pedaço de terra e conseguiu ser, quase em simultâneo: um drama, determinante para grande parte da população faialense e uma oportunidade para muitos açorianos. Não irei dissertar acerca do vulcão em si e da sua história até 2009 porque a minha estória começa a seguir, no tempo futuro.

Primeira previsão: “A erosão e a abrasão sobre a área do vulcão irá continuar em 2009”. Em vez de tentar conter a autodestruição natural, ir-se-á montar um sistema de monitorização que acompanhe a degradação do território cinquentenário. Assim, poder-se-á explicar e compreender como se formam e se destroem as ilhas. Será mais um equipamento a complementar o Centro de Interpretação do Vulcão dos Capelinhos.

A zona adjacente ao vulcão, também classificada como Rede Natura 2000 e pertencente ao Parque Natural de Ilha do Faial, verá a sua erosão abrandar resultado da colonização por parte do coberto vegetal, comprovando o importante papel que a flora tem para a sustentação dos solos.

Segunda previsão: “Ali, mais para o mar ou mais para terra, haverá outros vulcões”. Alguns destes vulcões, esperemos que todos, ocorrerão quando já for possível prever o local, a intensidade e o tipo de fenómeno. Em vez de causar o pânico, os vulcões serão, cada vez mais, investimentos aleatórios que promoverão o turismo aventura e, em tempo de paz, das poucas formas legítimas para aumentar o território da pátria.

Terceira previsão: “Um dia, as ilhas Atlânticas deixarão de existir”. Assim, ficará finalmente certificado que a Atlântida de Platão existiu, mesmo se com uns milénios de atraso, provando que a nobre ciência da futurologia nunca se engana!