quarta-feira, 6 de abril de 2011

Não pude deixar de notar

O Gato é o símbolo do "Mil - Mil".
Foto: F. Cardigos.

Esta manhã, ao ler o jornal, não pude deixar de notar a notícia que enchia a primeira página. Em letras bem grandes “MAIS UM OBJECTIVO ATINGIDO!”. Desde que se iniciou a mobilização colectiva, tendente a recuperar o país, todos os objectivos foram sendo, um a um, atingidos. Apesar deste ser apenas mais um, era particularmente importante. Em letras mais pequenas, “partidos com assento parlamentar conseguiram passar a barreira dos 100 dias sem se ofender mutuamente”.
Vendo em retrospectiva, a declaração de “Mil objectivos para Mil dias”, que pareceu “infantil e demagógica” para a ala intelectual, está-se a revelar eficiente. Como todos sabemos, foi pedido a duas mil entidades de relevo que postulassem dois mil objectivos, simples, aplicáveis e mensuráveis. Desde líderes religiosos, cientistas, economistas, sociólogos, psicólogos, políticos, desportistas ou elites sociais, todas as linhas de pensamento relevantes foram tidas em conta e postularam o que lhes parecia importante. Depois de eliminadas as repetições, as incoerências ou os objectivos que saíssem fora do simples, aplicável e mensurável, o “Conselho dos Dez” entregou ao Governo os objectivos e este ficou incumbido de os cumprir escrupulosamente. Na minha opinião, de certa forma, desde há cem dias que temos um Governo de gestão.
Até ao dia 333, continuar-se-á a não saber com toda a certeza quem pertenceu ao “Conselho dos Dez”. Aleatoriamente, de um lote de cem personalidades com destaque social e capacidade intelectual, foram escolhidos 5 homens e 5 mulheres. Este grupo trabalhou os mil objectivos durante 100 dias, fazendo o que parece ser um trabalho absolutamente exemplar. Caso até ao dia 300, todos os objectivos continuem a revelar-se eficientes, os dez serão também agraciados como Cavaleiros de Portugal, grau Platina. Este título, determinado explicitamente para festejar os que mais contribuem para os “Mil – Mil”, já elevou inúmeros cidadãos para os patamares da ribalta social. A primeira, curiosamente, tenho de vos relembrar, foi a Sra. D. Esperança Sempre Firme, que ajudou a cumprir o objectivo de aumento de literacia, ao propor que as televisões deixassem de trabalhar um dia por semana. Este objectivo, implementado como previsto ao 16º dia do “Mil – Mil”, resultou num aumento consistente de 10% na frequência das bibliotecas públicas ao 60º dia.
Entre as medidas que particularmente mais gosto, encontro a avaliação de juízes. A avaliação é feita pelo “número de processos com recurso sem provimento em tribunal superior” e tem-se revelado muitíssimo eficiente. Finalmente, os processos começaram a ser desbloqueados e estão a ter cuidadoso seguimento. Na hierarquização dos juízes, feita e publicada diariamente, vemos uma benigna “luta” particularmente interessante entre o Dr. Juiz Quem Espera Sempre Alcança e a Dra. Juiz Alice no País das Maravilhas. Ambos são já considerados autênticos heróis nacionais, indo na próxima semana o Presidente da República atribuir-lhe as insígnias de Cavaleiros de Portugal, grau Bronze.
Graças ao Dr. Até Mais Não Poder Rir, psicólogo com diversos livros publicados, um dos princípios que nortearam o trabalho do “Conselho dos Dez”, para além dos princípios universais como a Igualdade, Solidariedade, Precaução, etc. foi também incluído o Princípio do Humor. Ou seja, as metas, quando possível ou aconselhável, deveriam reflectir jovialidade e optimismo. Foi assim que o Objectivo de todas as publicações (jornais, revistas, etc.) incluírem uma página de humor foi proposta para o dia 33. Embora isso possa ser um reflexo natural do próprio conceito “Mil – Mil”, as depressões psiquiátricas reduziram-se em 27% ao final do dia 80 e o Dr. Rir será nomeado Cavaleiro de Portugal, grau Prata, no dia 303, se a redução se mantiver acima dos 20% até ao dia 250 ou, “mesmo grau Ouro”, como disse o Presidente da República, “se todos os outros, dos cinco objectivos relacionados com o Humor, também tiverem cumprido as metas até ao dia 220”. A ver…
Mas… O objectivo que mais me agrada é o “Aperfeiçoar com o Erro” e inclui, a revisão de cada mandato de todos os dirigentes de nível 1 e 2 associados a decisões duvidosas, apurando com toda a exactidão as razões que levaram à tomada destas resoluções. Entre estas resoluções, interessam-me particularmente as declarações de greves em momentos delicados da falta de produtividade nacional, a aquisição de certo material militar e a injecção de capitais públicos em unidades bancárias falidas. Pode haver justificação e as decisões, hoje consideradas como visivelmente discutíveis, poderiam ser as melhores à luz do conhecimento e contexto da época. No entanto, têm de ficar esclarecidas e têm de ser encontrados métodos para que não se repitam. Esta medida entrará em execução apenas no dia 437, dada a necessidade de preparar toda a documentação, e será verificada a sua conclusão no dia 934.
Lembram-se?! A primeira medida foi de facílima implementação e decorreu por sugestão da Sra. Isto Está Tudo Errado. Propôs a Sra. Errado que fossem, no dia 1 do “Mil – Mil”, despedidos 1/3 dos deputados eleitos por cada círculo nacional. Como se esperava, não houve qualquer anomalia no funcionamento da Assembleia da República, considerando-se o Objectivo “cumprido com sucesso” logo no dia 34. No dia 101 será aplicada a mesma metodologia nas assembleias regionais. A Sra. Errado, escolhida para o grupo dos “Dois Mil” pela reflexão crítica, pessimista e deprimente que fazia no seu Blog “O Erradíssimo Erro que não teve Errata”, propôs ainda as medidas de revisão da eficiência do “Mil – Mil” que serão feitas a todos os 200 dias. Por sua decisão, a Sra. Errado não será agraciada como Cavaleira de Portugal. Ela considera essa uma péssima medida, com a qual está contra. Aliás, ela votou contra as suas próprias medidas por considerar que, apesar de “providas de horripilante horribilidade”, eram demasiado correctas dentro de um “mar de rotas erradas”, como lhe chamou.
Curiosamente, hoje, passados os primeiros cem dias de aplicação do “Mil-Mil” procurei por todo o jornal as outrora gratuitas e irresponsáveis ofensas entre partidos. Li e reli. Nada. Aparentemente, os partidos entenderam que não o podem fazer. Devem apontar fraquezas, mas sempre com dignidade, dando alternativas e sendo solidários com a decisão.
Verdade? Mentira? Quando quiser, o futuro o dirá...

Advertência: Este é um artigo de ficção, escrito para comemorar o Dia das Mentiras no Jornal Avenida Marginal.

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