quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Conhecer para preservar

Num livro para jovens com a autoria de Arthur C. Clarke, cuja trama se passa num planeta distante, um dos seus heróis queixava-se por o seu mar não ter tubarões como nos oceanos terrestres. Segundo ele, nadar num mar sem grandes predadores castrava a emoção, retirava o fascínio e banalizava o mar.
Evidentemente, é muito difícil, instintivamente, gostar de animais com tantos e pontiagudos dentes, dispostos num aparente sorriso mortal. Ainda por cima, nalgumas espécies, essa dentição é acompanhada por uma enorme destreza, uma voracidade ímpar e dimensões elevadas. Os tubarões, à partida, não fazem parte do melhor do mundo natural para cada um de nós.
No entanto, se pensarmos que estes animais são essenciais para o equilíbrio trófico dos ecossistemas aquáticos, são dos mais antigos animais marinhos, têm uma complexidade de funcionamento e uma sensibilidade extrema, começamos, progressivamente, a mudar de opinião.
Em termos ecológicos, os tubarões actuam como autênticos médicos para a saúde dos Oceanos e promotores da evolução. Senão repare-se. Quando um tubarão ataca um cardume irá, probabilisticamente, apanhar os indivíduos que estiverem doentes ou forem menos aptos. No primeiro caso, livram o cardume de presas dos animais que poderiam propagar uma qualquer enfermidade. Já no segundo caso estão a livrar a população dos seus efectivos menos aptos e, portanto, a impedir a transmissão desses genes de “má qualidade”.
Agora, acrescentemos que são também os tubarões do mundo que contribuem para o fornecimento de proteína ictia, utilizados em inúmeros pratos gastronómicos desde a caldeirada de cação até à famigerada sopa de barbatana de tubarão, responsável por uma das maiores mortandades de que é culpada a humanidade.
Portanto, estamos perante um grupo de animais que é interessante, respeitável, útil e utilizado. Acrescento que, por irresponsabilidade de uns e ignorância de outros, os tubarões estão em grande perigo a nível mundial. É urgente agir para que estes fantásticos peixes possam continuar a patrulhar os nossos mares.
Será através de guias como o que agora tem nas suas mãos que irá, caso ainda não tenha, adquirir conhecimento sobre todas espécies de tubarões referidas para o Arquipélago dos Açores.

sábado, 28 de julho de 2007

As Sete Malditas

Os organismos que pertencem a populações que apenas existem no nosso arquipélago e de cujo cruzamento resultam descendentes férteis são chamados de “endémicos dos Açores”. As restantes espécies podem também ser “naturais nos Açores”, se cá se estabeleceram por moto próprio, ou “exóticas”, se foram trazidas pelo homem. Entre estas últimas, há umas que apresentam um comportamento ecológico agressivo, provocando danos nos ecossistemas naturais, e que por isso ganham o triste nome de “invasoras”.

É fácil perceber que quem quiser ver espécies endémicas dos Açores no seu ambiente natural terá de se deslocar às nossas ilhas. Portanto, há razões económicas óbvias para a manutenção do nosso património natural. Para além disso é bom acrescentar que alguns organismos guardam, no seu código genético, soluções farmacológicas ou biotecnológicas de longo alcance e, muitas vezes, imprevisíveis antes de serem demoradamente estudadas. A título de exemplo, são conhecidas as potencialidades de uma esponja encontrada na Lagoa de Santo Cristo para a inibição do HIV. Os estudos ainda não avançaram o suficiente para que possamos declarar que estamos perante uma substância importante, no entanto, o potencial está lá, como pode estar em diversas outras espécies, algumas delas existentes apenas nos Açores. Sendo assim, caso não preservemos o nosso património natural, podemos estar a desprezar soluções para doenças graves. Um último argumento a favor do património natural tem cariz moral. Que direito temos nós de aniquilar património, que nos pertence, é certo, mas pertence também aos nossos descendentes? Nas crónicas do Padre Gaspar Frutuoso há referências a lobos-marinhos na Ilha de Santa Maria. Esses simpáticos mamíferos marinhos desapareceram com o “progresso” da colonização humana. É fácil compreender que, naqueles tempos difíceis, havendo carne, peles e óleo ao alcance, era complicado resistir. Para mais, não havia consciência da finitude dos recursos. Hoje não é assim. Nunca poderemos alegar ignorância!

As mudanças climáticas globais têm um particular impacto nas pequenas ilhas oceânicas, como as que compõem o Arquipélago dos Açores. Ou seja, se por um lado temos um ambiente muito isolado, o que promove a especiação (formação de novas espécies) porque os organismos se vão adaptando às condições locais e o cruzamento com as populações-mãe é muito complicado, por outro lado, temos sido alvo de autênticas extinções em massa cada vez que a temperatura média do globo terrestre se altera poucos graus ou o oceano sobe uma dezena de metros ou desce mais de uma centena (como aconteceu há vinte mil anos). Esta é porventura uma razão para serem raras as espécies endémicas dos Açores. No entanto, ao nível das plantas terrestres, houve um conjunto particular que sobreviveu a umas quantas intempéries. Trata-se da floresta de laurissilva. Esta floresta dominou largas áreas em volta do Mar Mediterrâneo durante 20 milhões de anos e, por via de alterações climáticas, desapareceu dessa área. Graças ao clima húmido e temperado que caracteriza arquipélagos Macaronésicos do Norte Atlântico, encontrou um refúgio nas ilhas da Madeira, dos Açores e das Canárias. A importância deste património é tão elevada que, no arquipélago da Madeira, uma vasta área de laurissilva foi classificada como Património Mundial. Apesar de ser comum aos três arquipélagos, há diversas plantas deste tipo de floresta, ou que residem à sua volta, que são exclusivas dos Açores. Tanto por isso como pelo que expus no início deste texto, penso que é essencial preservarmos este nosso património natural. Portanto, é fundamental verificarmos se existem ameaças e, caso existam, diminuir o risco. No caso dos Açores há dois riscos: o avanço das áreas agrícolas e a proliferação de flora invasora. O primeiro risco foi particularmente grave quando, nos anos oitenta, se procedeu a arroteias indiscriminadas. Felizmente, esse tempo passou. O segundo risco continua na ordem do dia e, caso não se actue com invulgar dinâmica, poderemos perder parte do nosso património natural. Nos últimos anos, graças ao empenho da Secretaria Regional do Ambiente e do Mar e, mais recentemente da Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves, departamentos, poder político e cidadãos envolvidos em acções de sensibilização, foram limpas de invasoras algumas áreas classificadas. Apesar de constituir uma área apreciável, ainda não nos garante o ganhar da guerra, longe disso. Para ganharmos a guerra, ou seja, para garantirmos a manutenção da flora natural dos Açores, teremos de investir mais e a breve trecho. O plano para a erradicação e controlo da flora invasora em zonas sensíveis do arquipélago dos Açores já foi concebido e inclui acções em 723 hectares de 49 locais. Sete são as espécies que mais dores de cabeça nos dão: o incenso, a cana, a conteira, a ipomoea (também conhecida por trepadeira-de-flor-azul e prima da batata-doce), o tojo-Português, o chorão-da-praia e, imagine-se, a hortênsia! Esta última é extraordinariamente bonita, um autêntico símbolo importado dos Açores, mas apenas enquanto se limita às plantações já existentes nas zonas limítrofes de algumas estradas. Quando se propaga, ou a propagam, pelos muros divisórios das pastagens, passam a inibir a presença da flora natural nos poucos locais que a agricultura deixou livre. Mas o pior caso é o incenso. Basta olhar para as encostas Norte de São Jorge para perceber que algo está muito errado. A floresta natural foi praticamente substituída por esta árvore de folha verde clara.

As manchas de flora invasora são tão intensas que nalguns locais não basta removê-las para solucionar o problema. É necessário ter em atenção que os espaços deixados vazios podem aumentar a exposição, aumentando a erosão do solo. Há que planear, angariar a flora de substituição e, só depois, iniciar a acção.

Não podemos dramatizar. O nosso património natural é valioso e está bem preservado. Comparando com outros locais do mundo estamos, obviamente, muito bem. No entanto, temos de dar mais alguns passos para que possamos viver no ambiente mais esmerado que merecemos e está ao nosso alcance.

domingo, 17 de junho de 2007

No rescaldo do Dia do Ambiente: agir!

No dia 29 de Maio recebi uma mensagem de correio electrónico, por diversas vias e com o mesmo conteúdo. Quando recebo estas mensagens repetidamente e o remetente não é um suspeito V$@gra, costumo dar-lhes uma atenção especial. Neste caso tratava-se de um velho vídeo de 1992, gravado no Brasil, durante a Convenção das Nações Unidas para o Ambiente e Desenvolvimento, também conhecida por “Cimeira da Terra”. A mensagem do vídeo tinha tanto de importante como de actual. Em traços largos, tratava-se do discurso de uma criança em nome da ECO (Environmental Children Organization) que pedia contas aos adultos sobre o estado da Terra. Aquilo que mais me tocou foi a pergunta: se não têm soluções, como podem estar a destruir o Planeta? Era actual em 1992 e é actual hoje, quinze anos depois. A diferença é que hoje sabe-se, e não se sabia então, que ainda podemos inverter a degradação.

Uma das premissas da Cimeira da Terra era que o desenvolvimento e o ambiente andam de mãos dadas. Tendo esta premissa em atenção, um economista, de nome Lester Brown, resolveu calcular quanto custaria inverter a degradação do planeta. Lester Brown concluiu que inverter o actual estado do planeta custa 161 mil milhões de dólares por ano. Porque me parece muito interessante, irei repetir quais são as parcelas que reflectem este somatório (entre parêntesis o valor em milhares de milhões de dólares): educação primária generalizada incluindo a alfabetização de adultos (16), programa de almoços nas escolas e assistência a crianças pré-escolares e mulheres grávidas nos 44 países mais pobres do mundo (10), saúde reprodutiva e planeamento familiar (9), cuidados de saúde generalizados (33), reflorestação da Terra (6), proteger os solos (24), restaurar as terras de pastagem (9), estabilizar os níveis freáticos (10), restaurar os bancos de pesca (13) e proteger a diversidade biológica (31).

Umas páginas mais à frente estavam os gastos anuais em armamento. Estados Unidos da América: 492 mil milhões de dólares por ano, se somarmos o resto do mundo chegamos aos 975 mil milhões de dólares por ano. A simplicidade e a frieza destes grandes números são aterradoras e reflectem a realidade do nosso Planeta. A guerra do Iraque, que claramente não valeu a pena, custou aos EUA 500 mil milhões de dólares. Poder-se-ia ter salvo o planeta 3 vezes com a verba gasta no Iraque. Evidentemente que o Saddam Hussein era um facínora, mas terá valido a pena destruir um país para o tirar do poder?

Quando Severin Suzuki, canadiana, doze anos, fez o discurso de encerramento no Rio de Janeiro estávamos mais longe de saber o que era necessário para inverter a degradação ambiental do nosso planeta. Hoje sabe-se perfeitamente, basta agir!

Como agir? É muito fácil. Basta pensar como é que pode utilizar o seu tempo e o seu dinheiro para fortalecer as parcelas positivas e combater as parcelas negativas. Inscrever-se e participar nas actividades das Organizações Não Governamentais (para o Ambiente, Sociais ou Cívicas) pode ser adequado. E porque não inscrever-se num Partido político? Se são os partidos que decidem, porque não começar a fazer a diferença por dentro? A desculpa que é este ou aquele país o culpado, que é este ou aquele presidente de Câmara o corrupto, ou que é este ou aquele governante o incompetente não chega. Se eles são assim, a culpa também é sua porque votou, porque não votou ou porque não se indignou. A melhor forma de demonstrar indignação é participar! Se os 6 mil milhões de cidadãos fizerem a sua pequena parte, o mundo tornar-se-á um sítio muito melhor.