terça-feira, 16 de setembro de 2003

Dollabarat

Há muitos anos atrás ouvi pela primeira vez esta história na Ilha do Corvo. Ouvi e não acreditei. Nela, um pescador dizia-me como um dia o pai dele, também pescador, tinha apanhado o maior susto da sua vida profissional. Dizia ele que o seu pai estava ancorado ao largo do Corvo, durante o dia e com cerca trinta metros de profundidade quando sentiu um súbito impulso na embarcação. Assustado, correu para a proa e olhou para a amarra. O impulso, agora constante, empurrava a embarcação para baixo de água, como se alguém lá no fundo estivesse a puxá-la. Na amarra estava uma mancha castanha que os seus olhos de pescador tinham aprendido a reconhecer, mesmo debaixo de água, como uma jamanta. O animal continuava a empurrar o inestético cabo como se estivesse descontente com aquela amarração que invadia o seu reino. Continuou a empurrar durante longos minutos e o receio do pescador aumentou quando percebeu que aquilo não iria parar. Entre o receio e a impotência de alterar a situação, cortou o cabo. A jamanta continuou o seu caminho e o barco ficou à deriva. Voltou ao porto e contou a sua aventura ao seu filho que, anos mais tarde, me contou a mim. Não que pudesse explicar os acontecimentos de outra forma, mas, uma jamanta a empurrar uma embarcação para baixo de água era algo que me ultrapassava. Não era possível que um animal tão pacífico e que não é alvo de qualquer pescaria nos Açores tivesse o ímpeto de tentar afundar um pequeno barco de pesca. Não fazia sentido, mas então o que teria acontecido...? Ouvi pela segunda vez a história na Ilha do Pico. Exactamente a mesma , embora com interlocutores diferentes. Uma jamanta teria tentado afundar uma embarcação de pesca até que o pescador cortou o cabo da amarra. Era realmente intrigante...

Este ano fizemos diversos mergulhos no Recife Dollabarat. Um desses mergulhos foi verdadeiramente espectacular. Como no Dollabarat os peixes não estão habituados a reconhecer os seres humanos como predadores, permitem grandes aproximações. Por outro lado, como se trata de um recife oceânico que aflora até aos três metros, a visibilidade é elevadíssima e a luz intensa. Enfim, reúne as condições que o fazem realmente um óptimo local para mergulhar e nós tivemos a sorte de, este ano, aí realizar uma daquelas imersões para recordar. Todo o trabalho foi feito e, ainda por cima, “no meio de uma paisagem tipo Mar Vermelho”. Estas palavras não são minhas, mas sim do Luís Quinta, um dos melhores fotógrafos subaquáticos que conheço e com uma vasta experiência de todo o tipo de locais de mergulho. Voltanto atrás. Estávamos então no final do mergulho e preparávamo-nos para emergir. Agarrados ao cabo de mergulho fazíamos os patamares de descompressão. Como qualquer mergulho perfeito nos Açores, no final apareceram jamantas. Estes grandes peixes, de feitio achatado, costumam fazer círculos em volta dos mergulhadores nos locais mais remotos. Assim acontece no Banco Princesa Alice, no Banco D. João de Castro e no Recife Dollabarat. Apesar do tamanho elevado e da semelhança com o batman, são tão pacíficos que é reconfortante senti-los ali perto de nós.

A corrente era tão fraca que resolvi nadar até uma das jamantas e agarrar-me ao seu dorso. Já fiz esta operação diversas vezes, comportando-me como uma rémora, e cheguei à conclusão que, desde que não toque no seu lado inferior, ou faça movimentos bruscos, a jamanta não se incomoda minimamente, parecendo até gostar. Nós obtemos uma confortável viagem subaquática e não compreendo o que é que a jamanta ganha, mas parece gostar que lhe toquemos no dorso. Estava então eu a aproximar-me da jamanta. Este animal em particular teria dois metros e meio de envergadura, não mais. Coloquei-me na posição e senti a sucção provocada pelo próprio movimento da jamanta. Aninhei-me no seu dorso e andei uns metros. Nisto reparei que, mesmo à nossa frente, estava o cabo de mergulho. Imagino que a minha aproximação tenha distraído a jamanta o tempo suficiente para que perdesse a noção da presença do cabo. Agora era tarde demais. Como os seus olhos ficam situados no extremo da parte anterior (do corpo?), há uma depressão no meio que foge ao raio de visão destes peixes. O cabo encaixou-se nesse espaço e a jamanta começou a empurrar o cabo de mergulho... Era tal e qual como os pescadores me haviam contado. A jamanta parecia não compreender o que lhe tinha acontecido e continuava a procurar escapar do cabo movimentando-se para a frente. Eu, o Pedro Afonso e o Luís Quinta começámos por tentar empurrar a jamanta para trás, mas isso apenas a assustou mais, continuando a ir para a frente ainda com mais força. Depois, parámos de tentar ajudar, pensando que esta se acalmaria e recuaria. Nada feito. Após cinco minutos de círculos sempre empurrando o cabo, a jamanta não mudou de comportamento. Neste momento já começavam a aparecer marcas da linha no seu dorso. Não tardaria a ferir-se. Com o receio que o animal se magoasse com gravidade, tomámos a decisão e cortámos o cabo.

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