segunda-feira, 1 de outubro de 2018

Crónicas de Bruxelas: 29 - Em frente ao Pico


Pico visto do Faial.
Foto: F Cardigos

Nos últimos dias antes de regressar a Bruxelas para mais um período de trabalho, vi-me em frente ao Pico. Passeei em frente ao Pico, almocei a olhar para o Pico, tomei banho de água salgada sob a vigilância do Pico, li quase na sombra da ilha montanha e, no entanto, formalmente falando, não estive no Pico. Mas, pergunto-me, será que não estive mesmo no Pico?
Há quinze mil anos atrás, durante a última glaciação, o Faial e o Pico eram apenas uma ilha. Como o nível médio da água do mar estava mais de uma centena de metros abaixo do que está hoje, a meia centena de metros de profundidade do meio do Canal não eram suficientes para separar as duas ilhas. Como o cientista Fernando Tempera oportunamente identificou, há mesmo antigas dunas fossilizadas em certas zonas do fundo do canal que hoje separa o Faial do Pico. Ou seja, em termos históricos, o Faial e o Pico são a mesma ilha e estiveram unidas também por praias. Pena que ninguém delas tivesse disfrutado…
Quando pergunto aos meus amigos faialenses de que freguesia são, a maioria das respostas inclui um “mas a minha mãe é de São Caetano”, “São Mateus” ou “vim nascer ao Faial, mas sou do Pico”. Quando oiço as disputas entre estas duas ilhas, não raras as vezes, elas são concluídas com um “e eu até sou do Pico” ou “e eu nasci no Faial”. Neste ponto, a discussão habitualmente esmorece, ficando os interlocutores com o olhar perdido na paisagem do lado de lá… ou será do lado de cá? Muito, mas muito mais do que separa estas ilhas é o que as une e, quase sempre, as disputas são acirradas por pessoas que, dentro ou fora das ilhas, beneficiam do sectarismo e da intolerância.
Vejo os resultados das provas dos botes baleeiros que decorreram por estes dias nas Lajes do Pico. Sem surpresa, o Pico ganhou nos remos e o Faial ganhou na vela. É quase sempre assim, como uma complementaridade que, mais uma vez, encontra confirmação.
Nos últimos dias, eu estive sempre a ver o Pico, sendo mesmo um elemento essencial na paisagem. Por vezes, tento descobrir o Piquinho, tantas vezes escondido entre as nuvens, e olho a Madalena e os seus ilhéus, vejo os barcos a partir para o lado de lá ou a regressar de Oriente. Tudo, nestes dias me foi alimentado pelo Pico. Eu fui mais feliz porque a ilha em frente estava lá, e imponente, o verdadeiro e único topo de Portugal! Se estivesse do lado de lá, com sorte jantando no Ancoradouro, contemplaria o Faial com similar admiração.
Que seria do Faial, e particularmente da cidade da Horta, sem o Pico? Quão pobre ficaria o Pico se lhe levassem o Faial? Estas duas ilhas estão ligadas desde há centenas de milhares de anos e, mesmo por via terrestre, voltarão a estar ligadas na próxima glaciação, dentro de cerca de dez mil anos.  
Parto para a Bélgica daqui a pouco. Esse país dividido, extremamente dividido, mas que une a Europa como poucos. Sinto uma certa revolta pelos facilitismos usados por alguns seres humanos para dividir comunidades que têm tudo para aprender e usufruir da mútua companhia. É mais fácil acicatar, acirrar e destruir do que construir e estabelecer pontes perenes. Tal como subir à montanha em frente, o caminho para a felicidade não é fácil, mas fracos seríamos nós se, preguiçosamente, abdicássemos da conquista e da felicidade.

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